Escatologia é vida: “Ata isso ao teu coração”

“A escatologia lança luz sobre todas as doutrinas e responde questões que qualquer outro assunto teológico levanta.”

Abraham Kuyper

O cristão precisa de uma maior compreensão sobre escatologia para viver, na prática, os efeitos que ela produz na vida cristã. O descaso ou negligência para com uma doutrina tão importante pode gerar um vácuo perigoso no interior do crente, uma vez que tal matéria é o ponto crucial e a coroa da teologia sistemática.

Entendo que esta doutrina, assim como todas as outras doutrinas ortodoxas, traz consigo valores eternos, verdades profundas que estão por trás de conceitos e eventos. Com isso, a doutrina merece atenção, estudo cuidadoso, intenso e completo. Junto com isso, precisamos nos desvestir de mecanismos costumeiros, de nos aproximarmos das doutrinas por mera curiosidade. Mas, a busca por conhecer o caráter de Deus não pode partir da mera curiosidade, antes deve partir de afeições correspondentes à necessidade de amá-lo e conhecê-lo.

Infelizmente – até onde os olhos alcançam, boa parte dos cristãos lança como base para sua cosmovisão escatológica, assuntos altamente especulativos e excessiva imaginação, dois hábitos que são grandes adversários da ortodoxia. Com a escatologia, isso acontece ainda mais.

Por sua vez, esta doutrina não deve ser entendida como a doutrina que discorre meramente sobre o fim de todas as coisas ou como o assunto sobre os últimos dias, mesmo que o nome remeta a isso. Antes, ela deve guiar nossas mentes para que enxerguem o cumprimento de coisas passadas, presentes e futuras. Uma vez que compreendermos a doutrina desta forma, será facilitada a nós o entendimento dela.

Colocando imediatamente este princípio em prática, devemos entender, por exemplo, que Jesus introduziu uma nova era na História e já conquistou a vitória eterna contra os poderes do mal, embora a luta ainda seja travada na linha do tempo.

Justapondo-se a esse entendimento, precisamos perceber que há elementos de profecias prenunciantes, mesmo no ministério de Jesus, que simplesmente não podem ser consideradas cumpridas, de maneira que devemos, portanto, permanecer abertos para o futuro, olhando para o horizonte com expectativa.

Paulo deixou muito claro à igreja de Tessalônica qual é o efeito que a escatologia cristocêntrica deve provocar no coração de seus leitores. Parte daquela igreja se mantinha triste pela perda de entes queridos. Paulo, no entanto, ainda que entendendo a dor da perda, não queria que eles se entristecessem como descrentes, como pessoas que não tinham esperanças em Deus.

Depois de explicar acerca da Segunda Vinda e assegurar a eles que o evento verdadeiramente haverá de acontecer, aconselhou:

Consolai-vos, pois, uns aos outros com essas palavras” (1 Tessalonicenses 4.18).

Às vezes, é fácil esquecermo-nos de que as verdades escatológicas contidas na Palavra de Deus têm o propósito de nos consolar e nos dar segurança, no hoje e no porvir. Além do visível consolo que a volta de Cristo deve trazer ao coração dos seus. Aqui, aproveito para dizer que aqueles que têm medo da volta de seu Senhor, devem rever sua fé em Cristo, pois o sentimento de aversão ao seu retorno, decorrente do medo, é uma clara expressão de falta de comunhão com Deus, assim como também é reflexo de uma consciência que acusa uma vida sem santificação e zelo pela lei de Deus. Essas palavras são duras, mas dignas de aceitação.

Continuo dizendo que escatologia também se aplica a nossas vidas nas seguintes formas.

Às vezes, é fácil esquecermo-nos de que as verdades escatológicas contidas na Palavra de Deus têm o propósito de nos consolar e nos dar segurança, no hoje e no porvir.

Nos conduz na adoração a Deus

A adoração deveria ser o fim de toda teologia, especialmente da escatologia. Quando pensamos na ressurreição, na derrota de todos os opositores de Cristo, no julgamento final, e na união eterna entre Cristo e Sua Igreja, nós, certamente, não podemos deixar de amplificarmos nossa adoração a Deus.

Se, no entanto, nossa escatologia não resulta em uma maior adoração a Deus, ou nós estamos errados ou estamos nos aproximando da Verdade com o espírito errado.

A Escatologia nos ajuda a servir com zelo

O fato de vivermos numa nova era, caminhando para o fim de todas as coisas, não deveria nos tornar servos passivos aguardando o inevitável, nem nos induzir à uma espécie de inércia fatalista. Em vez disso, o Novo Testamento relaciona o fim iminente de todas as coisas ao serviço zeloso dos primitivos que viveram o fim da antiga aliança.

Ajuda a ter esperança e confiança em Deus em meio às tribulações

Às vezes, igrejas e cristãos enfrentam provações das quais eles não serão libertados enquanto estão aqui na terra. Em meio a doenças, dores e injustiças, é vital ter uma esperança viva de vida na ressurreição. Somente isso servirá para nutrir a perseverança fiel até o fim.

Escatologia nos ajuda a olhar para o futuro com gozo

Infelizmente, mesmo para os cristãos, a preocupação com o mundo presente sufoca o interesse no mundo porvir. A Escatologia, no entanto, mantém estas verdades vitais e finais à nossa frente e nos encoraja a olhar além deste mundo, para a glória eterna, uma vez que os cristãos que viveram períodos de perseguição, peste, guerra, martírio e uma grande apostasia, nunca olharam para trás, antes, derramaram suas vidas crendo fielmente no porvir e na vida eterna.

Escatologia nos encoraja

Nas situações mais difíceis, os cristãos sempre costumaram focalizar seu futuro ao lado de Deus. Boa parte dos mártires deve ter dado seu último suspiro pensando no encontro com o Senhor. Exemplo disso é o apóstolo Paulo que, diante do risco iminente de ser condenado à morte em Roma, disse aos filipenses que considerava a morte um “lucro” (Fp 1:21). Vê-se isso de modo mais contundente em sua última carta, quando já sabia de seu fim iminente:

“Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.” (2 Timóteo 4.6-8)

Olhar para a morte dessa maneira exige que o homem seja desequilibrado ou corajoso. Paulo, longe de ser desequilibrado, deixou claro que sua coragem estava na certeza do seu futuro e dos acontecimentos escatológicos representados na expressão “naquele Dia”.

Escatologia promove o compromisso

De modo surpreendente, a Escatologia é uma ferramenta útil até mesmo no campo da obediência e da santificação. O apóstolo João, depois de mencionar a realidade futura da nossa condição semelhante à de Jesus, aplica tal conhecimento à purificação presente:

“Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro.” (1João 3:2,3)

Com isso, ele ensina que o cristão, sabendo quem haverá de ser no futuro, deve lutar para manter uma vida presente condizente com o seu futuro.

Escatologia e ortodoxia

Por outro lado, por mais importante que seja ter convicções escatológicas, é bom se tenha em mente que elas podem variar quanto à importância.

É essencial concordar quanto a assuntos básicos, como a Segunda Vinda de Cristo e a vida após a morte. Por outro lado, o apego excessivo à uma posição específica a ponto de não se permitir ter uma simples conversa de revisão cosmovisacional, tais como sobre o Milênio ou a tribulação, não deve servir como prova de ortodoxia. Bem como a mera concordância quanto a esses assuntos não pode servir como condição para a comunhão ou para a unidade cristã. Se, por um lado, a ênfase deve estar nos pontos em que há acordo, não nos pontos discordantes, por outro, há outros aspectos do conhecimento teológico e da vida prática com Cristo que devem ser levados em conta no momento de chamar alguém de “irmão em Cristo”.

Que essas verdades práticas ajudem você a desenvolver a visão correta acerca do único e verdadeiro Deus, para que o Espírito da profecia forje em você o Cristo, Santo, obediente e servo, carregado de amor e temente, sempre pronto a viver tudo aquilo que Deus Pai espera de seus filhos. Que a escatologia lhe dê um novo sabor! Sabor de consolo, conforto, louvor e segurança em nosso Cristo, pois o que ela grita é o serviço e a fidelidade de Deus para com o Seu povo.

*Este artigo foi publicado originalmente na Revista Fé Cristã Nº 3, de julho de 2020.


Leandro Carvalho, 37 anos. Esposo e Pai. Estudante de Teologia (IBE). Serve a Cristo na AD Distrito Mário Quintana, em Porto Alegre-RS.

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