O ministério do Espírito Santo

No momento em que faço essa pequena digressão estou numa clínica especializada para gestantes. Há barrigas de todos os tamanhos desfilando por todos os lados. Vejo umas quarenta mulheres; são pelo menos oitenta pessoas. Há muita vida por aqui. Sim, muita vida e muito mistério. A geração da vida continua sendo um mistério. A ciência consegue explicar, de certa forma, como ocorrem os processos, ou seja, o que acontece em cada semana do desenvolvimento do ser, mas não explica por que isso ocorre. Pois, uma coisa é explicar como a seiva e outros elementos de uma planta se agrupam para desenvolver o fruto. Outra coisa completamente diferente é explicar por que uma planta nos presenteia com um fruto. Parece-me que, para ambos os casos – a geração da vida humana e o fruto que brota da terra – o conceito de “Graça” seria mais do que adequado.

Para um texto sobre o Espírito Santo, o parágrafo anterior só é desculpável porque, nesta clínica, onde a geração de vida superabunda, ocorreu-me o que foi dito a José em sonho:

“José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo.” (Mt 1:20b)

Na vida cristã, em tudo que fazemos e em tudo o que é feito em nós, devemos estar sempre conscientes de que “… o que… foi gerado… é do Espírito Santo” e por pura graça. Precisamos ter uma dependência do Espírito a fim de que possamos ver o poder de Deus sobre a igreja. Afinal, o evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:17b). Esta é uma declaração performativa, como dizem os linguistas, ou seja, o evangelho é uma declaração-ato que faz alguma coisa acontecer quando pronunciado, que causa uma transformação, não por meras palavras, mas porque o Espírito Santo enche tais palavras de significado, dando a elas poder. Porém, para restaurar esta característica da igreja primitiva, precisamos estar atentos e dependentes do poder do Espírito, assim como eram os primeiros discípulos: “Porque não ousarei discorrer sobre coisa alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência, por palavra e por obras, por força de sinais e prodígios, pelo poder do Espírito Santo; de maneira que, desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo” (Rm 15:18-19).

A.W. Tozer, com sua escrita cortante, dizia que só por cortesia se pode chamar a igreja atual de trinitária, pois, apesar de o Espírito Santo estar nos seus hinos e confissões, não está mais sendo contado como Aquele que age em seu meio e através dela. Tozer estava denunciando a herança iluminista racionalista que permeava a igreja de sua época e que continua a soprar em nosso tempo. Por outro lado, a reação a esta frieza espiritual debandou para o extremo oposto do sentimentalismo exacerbado que reputa ao Espírito Santo toda sorte de “moveres” interiores e exteriores. Nossos dias são de polarização. São dias que dividem Mt 22:29 ao meio e agarram-se a uma das partes: “[Errais, não conhecendo as Escrituras] [nem o poder de Deus]”. Mas não precisa ser assim. Boa lembrança diária para nós é o CAFÉ espiritual de Lucas 10:27: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu Coração, de toda a tua Alma, de todas as tuas Forças e de todo o teu Entendimento”. O relacionamento com Deus envolve todo o nosso ser transformado pelo Espírito, o entendimento, bem como as emoções; as pulsões da vontade, bem como o corpo. Assim, o sentimentalismo não é uma alternativa ao quebrantamento, nem o emocionalismo um substituto do júbilo. As extravagâncias não podem suplantar o verdadeiro enchimento, nem o espírito Iluminista deve substituir a iluminação do Espírito. E uma correta visão do Espírito Santo nos ajuda sobremaneira em nossa peregrinação.

Creio que os principais problemas quanto à visão distorcida sobre o Espírito Santo podem ser agrupados em duas categorias: distorção quanto à natureza do Espírito e distorção quanto à obra do Espírito.

A grande acusação de Deus contra o povo de Israel foi a idolatria, a adoração a objetos em vez de adoração a Deus. De forma semelhante, corremos o risco de ter um relacionamento incorreto com o Espírito Santo porque nos relacionamos como se Ele fosse algo, e não Alguém. Talvez possamos chamar isso de idolatria contra o Espírito Santo. Essa seria a distorção quanto à Sua natureza.

Todos nós sabemos a diferença entre relacionar-se com uma coisa e relacionar-se com uma pessoa. Para as coisas, por serem inanimadas, nosso relacionamento é de uso. Quando nossa percepção do Espírito Santo é de que Ele é algo – uma coisa, uma força, um poder –, no fundo nosso relacionamento com Ele é de mero uso, como se Ele fosse um objeto inanimado que se torna útil através de nós. Porém, é exatamente o oposto que ocorre. O Espírito é quem nos dá verdadeira vida; nós é que estamos mortos até que Ele venha nos vivificar (Ef 2:1, Ez 37:7-10). O erro de não discernir a Natureza do Espírito nos conduz ao erro de achar que manipulamos o Espírito como se ele fosse um objeto. Porém, nós é que somos instrumento do Espírito, e não Ele instrumento nosso.

O Espírito Santo não é apenas uma pessoa; Ele é uma pessoa divina. Nas Escrituras, Ele é chamado de Espírito de Deus (Mt 3:16, 1Pe 4:14, 2Cr 15:1), Espírito do Senhor (Lc 4:18, 2Co 3:17), Espírito de Cristo (Rm 8:9, Gl 4:6, Fp 1:19) e Espírito de Jesus (At 16:7). Sua personalidade está demonstrada por toda a Escritura. Por exemplo, Ele testifica (Rm 8:16), intercede (Rm 8:26), adverte (At 20:23), fala (2Sm 23:2) e escuta (Jo 16:13). Portanto, quando a noção de pessoa divina do Espírito é negligenciada, nosso relacionamento com Ele se torna impróprio, improdutivo e ineficaz, pois, enquanto Ele deseja um relacionamento pessoal conosco, a falta de entendimento quanto à sua natureza pode nos levar a ter apenas um relacionamento utilitário que perde completa eficácia, pois inverte a relação de instrumentalidade. Eu sou o instrumento; Ele me vivifica para toda boa obra. Ele não é um poder ou força que eu manipulo, Ele é o Espírito de Cristo que me enche, me dá vida e me capacita a realizar as mesmas obras do Senhor (Jo 14:12).

A concepção correta da pessoa do Espírito leva à submissão, piedade e senso de incapacidade própria, conduzindo à vitória que vence o mundo: a nossa fé (1Jo 5:4). Porque é quando reconhecemos nossas incapacidades naturais que exercemos mais profundamente nossa fé. Ao nos relacionarmos corretamente com o Espírito, somos usados por Deus como participantes do Seu Plano de Salvação, exercendo os dons com eficácia, dando testemunho de vida e manejando habilmente as Escrituras a fim de levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo (2Co 10:5). Aqui, chegamos então à distorção quanto à obra do Espírito.

Enquanto a salvação foi planejada pelo Pai e consumada pelo Filho, ela é aplicada pelo Espírito. Depois da consumação por Cristo, em sua morte e ressurreição, é o Espírito quem conduz os pecadores ao novo nascimento (Jo 3:5-8). Ele justifica os que creem (1Co 6:11), santifica os filhos de Deus (Rm 8:4-8, 2Co 3:12-18, Gl 5:22-23) e nos ressuscitará no grande dia assim como ressuscitou a Jesus (Rm 8:11).

Certa vez me dediquei a verificar quantas vezes o Espírito Santo aparece nas Escrituras. Cheguei ao número de 311 vezes em toda a Bíblia, das quais 80 delas aparecem no Antigo Testamento e 231 ocorrem no Novo Testamento. Considerando que o Novo Testamento tem cerca de um terço do tamanho do Antigo Testamento, então a intensidade de ocorrências do Espírito Santo no Novo Testamento é ainda maior do que pode aparentar. Isso converge para as palavras de Paulo que chama a Nova Aliança de “ministério do Espírito” (2Co 3:8), um novo tipo de relacionamento e obra do Espírito Santo naqueles que creem.

É justamente neste “ministério do Espírito” que vemos com mais clareza Sua obra no Plano de Salvação. Aqui, sendo um pouco simplista, vamos dividir este ministério em três partes e chamá-los conforme segue: 1) Resgata-me; 2) Reina em mim e 3) Rega-me.

Devido à nossa completa depravação, a iniciativa da obra da salvação vem da parte de Deus. Em Atos 18:27b, falando do ministério de Apolo, é dito o seguinte: “Querendo ele ir para a Acaia, os irmãos o encorajaram e escreveram aos discípulos que o recebessem. Ao chegar, ele auxiliou muito os que pela graça haviam crido”. Se Deus não derramasse Sua graça, nenhum de nós poderia ser salvo. Chamei a primeira obra do Espírito Santo de “Resgata-me”, porque é necessário a iniciativa do Espírito Santo para a realização da obra salvífica por meio de Cristo. Em Jo 16:8 vemos: “Quando ele vier convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo”. O “Resgata-me” nos ensina a confiar no Espírito Santo quando realizamos a grande comissão que nos foi dada para irmos por todo o mundo pregando, batizando e discipulando. Quando entendemos esta primeira obra do Espírito, nós submetemos nossos planos e disposição de testemunhar do amor de Cristo à vontade de Deus através do Espírito. Não confiamos em nossa própria sabedoria ou talentos. Entendemos que o Espírito pode conquistar através de nós, com simplicidade, o que não conseguiríamos fazer nem com toda sofisticação. Em resumo, se o “Resgata-me” traz salvação para o ouvinte, deve trazer dependência para o cristão que está a testemunhar.

Todavia, tendo sido resgatado pelo Espírito, imediatamente Ele faz morada em nós (Jo 14:17, 2Tm 1:14). É o que chamo de “Reina em mim”. De fato, esta é a marca distintiva do cristão: “E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9b). A morada do Espírito é ilustrada através de várias conotações nas Escrituras e desemboca em diversas consequências e concessões: somos adotados como filhos de Deus (Rm 8:14-15), somos regenerados (Tt 3:5), santificados (2Co 3:18), faz-nos frutificar (Gl 5:22-23), concede poder (Rm 8:13), conforta (Jo 14-16), concede dons (Rm 12:3-13, 1Co 12, Ef 4:7-16, 1Pe 4:10-11), etc. Esta morada nos coloca em cooperação com o Espírito. A dependência acima citada é somada à cooperação, fazendo com que sejamos conscientes de que o Espírito deseja agir, sim, mas através de nós. Falaremos um pouco mais sobre isso no próximo parágrafo.

Aqui chegamos, talvez, à mais mal compreendida obra do Espírito no crente: “Rega-me”. Paulo, falando aos cristãos de Éfeso, homens convertidos e que davam prova da veracidade de sua conversão, diz: “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5:18). Portanto, após a obra salvífica pelo Espírito (iniciada no “Resgata-me” e seguida no “Reina em mim”) há uma obra potencializadora, capacitadora, que traz eficácia (o “Rega-me”). Não que a obra salvífica seja incompleta ou imperfeita. Na verdade, ela é completa e perfeita para a salvação, mas o Espírito Santo normalmente trabalha através de meios e, sendo nós um destes meios, precisamos ser aperfeiçoados. Eu gosto da perspectiva de enchimento do Espírito cujo foco é que eu preciso dar lugar ao Espírito Santo em meu interior, abrindo todas as portas e permitindo que Ele adentre em todos os lugares do meu ser. A ideia de algo que vem de fora e deposita porções sobre mim traz algumas confusões; geralmente tende a desconsiderar a personalidade do Espírito, dando uma percepção de que é apenas algo, uma coisa, como explicamos acima, e também dá a ideia de que é quase um transe de curtíssimo tempo, uma força ou poder que se apropria de mim em um pequeno momento.

Não quero entrar na controvérsia pentecostal sobre o batismo no Espírito Santo. O que eu chamei de “Rega-me” deve ser visto como englobando toda obra do Espírito que envolve a ideia de enchimento e derramamento. Segundo as Escrituras, é uma obra de capacitação para testemunhar, mas também uma obra de santificação mais intensa. Independente de diferentes visões teológicas sobre a questão, o que eu desejo destacar neste momento é que o “Rega-me” não se trata de uma opção e sua ação sobre nós é muito mais abrangente do que comportamentos estranhos – um parêntese aqui para não sermos injustos: Sim, comportamentos excêntricos podem ocorrer, disto provam os diversos avivamentos na história (cito os avivamentos só para dar um exemplo que é quase que universalmente aceito). As excentricidades podem ocorrer porque quando um sistema informativo possui mais dados do que o canal expressivo destas informações, dois ou mais elementos do sistema informativo se utilizará do mesmo canal do sistema expressivo e isto, às vezes, pode causar estranheza. Certa vez entrei em casa e vi uma senhora a chorar na TV. À primeira vista, pensei haver ocorrido uma tragédia, mas, na verdade, ela havia ganho um grande prêmio em dinheiro. O sistema do conjunto de nossas emoções é muito maior do que nosso sistema do conjunto de nossas expressões. Por isso, duas emoções quase contrárias, como a tristeza e a alegria, podem ser externadas pela mesma expressão, o choro. É só por isso que não rechaço, de plano, aquilo que pode parecer excêntrico na ação do Espírito sobre uma pessoa ou grupo. Pode ser que certa ação do Espírito seja expressa de modo excêntrico, devido à riqueza do agir do Espírito sendo expressada pela limitação do nosso corpo. Todavia, devemos destacar que o “Rega-me” nunca virá antes do “Reina em mim”; pode até vir junto, mas nunca antes. Assim, todos os frutos – maturidade, caráter e testemunho – adquiridos em uma vida com o Espírito Santo em nós, devem ser considerados para discernirmos os erros em nome do Espírito Santo.

O fato é que as seduções e a correria do mundo atual fazem com que a igreja esteja lutando para viver pelo menos um “Reina em mim” coerente, em meio a um desmantelo espiritual no qual estamos imersos, esquecendo-se de avançar para aquilo que nos torna mais fortes, eficazes e fervorosos que é o “Rega-me”, o derramamento, o relacionamento mais íntimo, a plenitude do Espírito Santo. Precisamos reavivar em nossas mentes esta obra do Espírito a fim de que possamos ansiar por ela e nos tornar uma igreja cheia do poder que há no Evangelho! Repito, àqueles homens já convertidos de Éfeso e que, portanto, já tinham o Espírito Santo em suas vidas, Paulo dá um mandamento: “enchei-vos do Espírito”! Portanto, devemos clamar: Rega-nos, Senhor!


Agnon Fabiano é pastor na Igreja de Cristo Salinas – ICS, em Fortaleza-CE.

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