Alergia ao termo “doutrina” – faz sentido?

Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. (Judas 1:3)

Para muitas pessoas, palavras como teologia, doutrina e ortodoxia são quase totalmente sem sentido; talvez, desagradáveis e, até, repelentes. Teologia parece entediante. Doutrina é algo sobre o que as pessoas rudes contendem. Muitos cristãos teriam dificuldade em dizer qualquer coisa além de que a ortodoxia traz à mente imagens de igrejas antigas guardadas por homens idosos e de poucos cabelos que são ranzinzas e zangados.

No que se refere ao termo “doutrina”, porque ele foi utilizado por muito tempo e em muitas igrejas com relação a métodos de controle e repressão aplicados por pastores incautos e néscios, hoje, muitas pessoas ficam de “cabelos em pé”, não suportando sequer ouvi-lo da boca de alguém ou lê-lo em algum material de leitura.

Posso relacionar-me com essa perspectiva. Já fiz parte dela. Mas, descobri que meu preconceito, minha “alergia à teologia” era infundada.

O caso de Judas

Judas tinha um propósito ao escrever a sua epístola – mencionamos o versículo 3 no início do artigo. Por causa da situação que os crentes destinatários enfrentavam, Judas decidiu escrever-lhes sobre a necessidade de defesa da fé que os unificava. Havia algumas pessoas que “se introduziram com dissimulação” entre eles (Jd 4). Não está perfeitamente claro quem essas pessoas eram – elas simplesmente vieram para dentro da igreja. Ao que parece, dada a linguagem usada por Judas, seus leitores sabiam pelo menos alguma coisa sobre esse grupo e seus ensinos. Ainda assim, esse grupo passou despercebido, e começou a influenciar alguns crentes na igreja.

Alguns dos que foram influenciados, aparentemente, começaram a duvidar da fé, e outros estavam perigosamente próximos de sucumbir totalmente (v. 22-23). Assim, os que sorrateiramente haviam se introduzido estavam também conduzindo operações dissimuladas entre esses cristãos para, se possível, subverter e destruir a fé na qual a igreja estava edificada. Por isso, Judas os exorta: batalhem pela “fé que uma-vez-por-todas-foi-entregue-aos-santos”. Nisso, precisamos compreender o que Judas entende por “a fé”.

A fé que uma-vez-por-todas-foi-dada aos-santos

Na maioria das vezes em que usa a palavra fé, a Escritura se refere à nossa fé como um dom de Deus (Efésios 2:8). Fé, neste contexto, é algo interno. Esta é a forma mais frequente com que o Novo Testamento usa a palavra. Tal fé pode ser grande ou pequena (compare Mateus 15:28 com 16:8). Ela moveu o Salvador a curar (veja Marcos 2:5; 5:34). Pode ser forte ou fraca (Romanos 4:19-20). Enfim, quando as Escrituras falam da fé desta maneira, estão se referindo àquele dom de Deus que é aplicado e exercido por nós. Esta fé é aplicada e exercida, inicialmente, em nossa conversão, e continua a ser exercida por nós em nossa caminhada cristã (o que as Escrituras chamam de santificação). As Escrituras enfatizam esse tipo de fé porque ele é uma parte crucial e muito importante de nossa experiência cristã.

O aspecto da fé a que Judas se refere, porém, não é fundamentalmente o aspecto interno da nossa fé. A fé a que Judas se refere não é a fé que temos em Cristo ou a fé forte ou fraca presente em nós; antes, é algo que está fora de nós. É “a fé”, e é uma coisa completamente diferente. Os crentes para quem ele estava escrevendo haviam se comprometido com essa fé, e era por essa fé externa que eles travariam o combate.

O ponto em disputa era a verdade das Escrituras; mais especificamente, aquelas verdades que compõem o Evangelho, as doutrinas. Esta é a fé aqui. Encontramos essa fé externa mencionada também no livro de Atos. Em Atos 6.7 nos é dito que “se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé”. Aqui, a fé de que se fala é um tipo de padrão, uma régua, a que os cristãos se tornam obedientes. Em outros lugares, a fé é algo em que os cristãos devem ficar firmes (Atos 14:22) e ser fortalecidos (Atos 16:5). Quando as Escrituras aludem “à fé” desta maneira, estão se referindo a um corpo de verdades ou doutrinas em que passamos a crer quando confiamos em Cristo. Embora elas não estejam se referindo à minha crença em si, estão relacionadas à minha crença no fato de que eu me comprometi com essas verdades.

A fé, neste sentido, é aquilo pelo que devo estar disposto a morrer. Ela inclui o próprio evangelho que nos salva (Romanos 1:16). É a fé na qual passamos a crer. “A fé”, portanto, era um modo de se referir às verdades em que os cristãos acreditavam – as doutrinas. Há certas verdades em que cada cristão deve crer para ser cristão. Embora apenas crer que essas coisas são verdadeiras não torne uma pessoa cristã, não se pode ser cristão sem essas crenças.

Esse corpo de verdades é chamado de “a fé que uma-vez-por-todas-foi-entregue-aos-santos”. Inclui coisas como a verdade das Escrituras, a existência de Deus e a encarnação, morte e ressurreição de Cristo. Inclui o fato de que Deus salvou seu povo, que Cristo virá novamente, e muitas outras. Essas verdades são cruciais para a vida da igreja. Sem essas verdades a igreja não teria como ajudar e ministrar àqueles que buscam crescer na graça. Quando falamos delas, estamos dizendo algo sobre o conteúdo da verdade da nossa crença. Estamos declarando a fé. É por tal coisa que a audiência de Judas deveria batalhar. E é por tal coisa que nós mesmos devemos batalhar.

Devemos batalhar pelas doutrinas que uma vez por todas foram dadas aos santos

Escrevemos muito acerca da necessidade que existe de os cristãos estudarem diligentemente a Bíblia, de conhecerem a teologia e as doutrinas. Mas, não escrevemos que, mais do que conhecerem, eles precisam batalhar por elas.

Teologia e doutrina são importantes porque Deus é real e tem agido em nosso mundo. E suas ações têm significado hoje e por toda a eternidade. Há beleza na teologia cristã. Sã doutrina está no centro do amar a Jesus com paixão e autenticidade. Ortodoxia não é somente para homens velhos que anelam contemplar a Deus, que é maior, mais real e mais glorioso do que a mente humana possa imaginar.

Doutrina e relacionamento

A ironia da questão é esta: as coisas que são necessárias em nosso relacionamento com Deus, e pelas quais anelamos, estão inseridas nas próprias coisas das quais temos certeza que não nos farão qualquer bem. A maioria de nós não entende que palavras aparentemente desgastadas como teologia, doutrina e ortodoxia são o caminho para a maravilhosa experiência, cheia de temor, de conhecer verdadeiramente a Jesus Cristo. Elas contam a história da Pessoa que anelamos conhecer.

Ser um cristão significa ser uma pessoa que trabalha, que batalha, para estabelecer suas crenças, seus sonhos, suas escolhas e seu ponto de vista acerca do mundo sobre a verdade de quem é Jesus e o que Ele fez – um cristão que se importa com a verdade, que se importa com a sã doutrina.

Doutrina, então, é apenas uma palavra sem encanto que representa as verdades sobre as quais devemos edificar nossa vida – verdades sobre as quais todos teríamos dúvidas e não saberíamos se não tivéssemos a Bíblia. A doutrina cristã é o ensino cristão a respeito de certo número de assuntos abordados nas Escrituras: Deus, pecado, Jesus, céu, inferno, a ressurreição… e assim por diante.

Talvez você nunca pensou em doutrina neste sentido. No entanto, vir a Jesus e ouvir suas palavras, e se relacionar com Ele, envolve doutrina. Envolve conhecer e entender o que a Bíblia ensina a respeito de quem Jesus é, por que precisamos dele, como Ele nos salva e nos muda. Em outras palavras, envolve conhecer a verdade teológica.


NOTA:

Trechos do livro Cave Mais Fundo (São José dos Campos-SP: Editora FIEL, 2011), de Joshua Harris, páginas 35, 36 e 41, e do livro A Batalha pertence ao Senhor (Brasília-DF: Editora Monergismo, 2013), de K. Scott Oliphint, versão para Kindle, páginas 44 a 48 e 54 a 58, foram inseridos ao longo do texto em sua forma original e/ou adaptados para convergirem com a proposta do artigo.


Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é estudante autodidata de teologia, e autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como músico, cantor e compositor. Casado com Talita Motta.

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