Neste artigo, trataremos da questão da “terra jovem”, um tema pouco falado com seriedade e respeito – muito mais pelos apologetas envolvidos no assunto. A questão é que os ânimos se afloram, e aquilo que deveria ser nada mais do que hipóteses sobre a grandeza das Escrituras, que não podemos compreender totalmente, torna-se uma arena de gladiadores sobre teorias sem o completo respaldo bíblico, onde irmãos apenas ofendem uns aos outros, ferindo a unidade do Corpo de Cristo que deve ser preservada.
Todos nós sabemos que foi o nosso Senhor quem nos criou. Mas, como? Em quanto tempo? Por meio de quais fundamentos? Como que tudo foi estabelecido? O que veio primeiro? As teorias, quando levantadas, tendem a explicar essas perguntas. Devemos ter em mente que, se fosse o propósito da Escritura nos dizer como tudo isso foi feito, ela teria dito, pois é infalível. Todavia, esse não é o foco do texto bíblico. O texto bíblico existe para nos dizer quem criou, e não exatamente e propriamente como criou, e o objetivo do Criador nisso, não Seus métodos. Por isso, toda e qualquer teoria sobre a origem da vida que foque em métodos e conceitos, não passa de especulação sobre a Bíblia, e não exposição teológica de fato.
Independentemente do que foi dito acima, o estudo sobre as origens de tudo é um estudo louvável, pois nos ajuda a mostrar que o ensino científico pode e deve ser colocado junto às Escrituras, subordinado à ela, para contribuir com uma exposição clara, pura e santa dos fatos. Assim como a antropologia, a história e a arte passaram, e ainda passam, por belos momentos quando baseados na Escritura, a ciência pode seguir o mesmo curso. Quando colocamos as Escrituras Sagradas como molde, como óculos, como lâmpada para nossos caminhos na ciência, na cultura e na sociedade, estamos praticando a cosmovisão cristã. E é essa cosmovisão cristã na ciência que nos auxilia a não cairmos na tentação do aborto como saúde pública, da ideologia de gênero como ciência e da legalização de narcóticos sem efeito realmente comprovado como medicina.
Devemos tomar muito cuidado. Há uma linha muito tênue entre usar a ciência a base das escrituras e negar a suficiência de Cristo. Gostaria de agradecer a uma amiga, por ter me emprestado seu livro “A origem”, publicado no Brasil pela editora Thomas Nelson, em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência. Obrigado, Débora. Deus abençoe sua vida. No livro em questão, são levantadas quatro pontos de vista, quatro teorias, quatro visões sobre a origem do universo. São elas: (a) o Criacionismo da Terra Jovem, (b) o Criacionismo (progressivo) da Terra Antiga, (c) a Criação Evolucionária e (d) o Design Inteligente.
Falemos, hoje, do Criacionismo da Terra Jovem (a).
Criei um título para essa sequência: Sic mundus creatus est. Talvez, você, leitor, já tenha visto essa referência na Cultura Pop, ainda mais com o surgimento da série de televisão alemã “Dark”. “Assim, o mundo foi criado”, em uma tradução mais literal e grosseira. Perdoem meu latim, não é dos melhores – ou, talvez, meu português. Mas, este é um nome praticamente perfeito para nossa sequência de artigos.
Antes do artigo propriamente dito, vale gastarmos algumas linhas para esclarecermos o que é uma teoria científica: diferente do que conhecemos por teoria na história ou na filosofia, na ciência, em geral, teoria é algo baseado em fatos, evidências concretas, tentativa e erro, e comprovação, baseadas em questões visíveis. Por exemplo, é uma teoria a existência dos dinossauros, afinal, há fósseis. A única diferença de uma lei, é que as leis são baseadas em números, como a lei da gravidade. Resumindo, é isso: uma teoria científica é baseada em evidências palpáveis e fatos, quer sejam eles históricos ou naturais, e a lei é baseada em números, quantificação, estatística.
Sem mais delongas, passemos para o primeiro tema desta série: o
Criacionismo da Terra Jovem
A principal base de argumentos da teoria da terra jovem é que o mundo, ou, na realidade, todo o universo (mas, vamos nos concentrar no Planeta Terra), foi criado única e exclusivamente em seis dias. Além disso, há a argumentação da ordem da criação, a criação sobrenatural, a criteriosidade das genealogias bíblicas, a questão da morte antes da Queda, o Dilúvio e a confirmação dos profetas, além de essa teoria se utilizar de algumas bases inteiramente científicas para algumas de suas afirmações. Como já disse, meu intuito não é refutar ou comprovar a teoria, mas expor os seus argumentos. Todavia, creio que no fim dos quatro artigos, minha posição pessoal será um tanto clara.
A Criação em seis dias: usando a argumentação de que Gênesis 1-11 é um relato inteiramente histórico, assim como Gênesis 12, Números, Josué, 1 e 2 Reis, entre várias outras passagens. Além disso, a palavra hebraica utilizada para dia no texto bíblico, yom, seria uma palavra empregada em seu sentido literal pelos autores bíblicos por inspiração de Deus. Em todos os locais em que esta palavra é encontrada no texto bíblico, ela simbolizaria um dia de 24 horas. Esse é um breve resumo sobre a idéia dos dias literais, em Gênesis 1.
A ordem das coisas criadas: mais uma vez apelando para a literalidade do texto, no que se refere à ordem da Criação, os adeptos desta teoria apelam para a tese de que a ordem da Criação no texto bíblico é diferente da ordem ou progressão evolucionária. Por exemplo, a Terra criada antes da luz, das estrelas, do sol (que também é uma estrela). Todas as plantas terrestres criadas antes dos animais marinhos, entre outros efeitos “anti-evolucionários”.
A Criação de forma sobrenatural: “E Deus disse”. Essa é a base desse argumento, ainda baseado na interpretação literal do texto bíblico. É Deus criando todas as coisas, fugindo às regras naturais estabelecidas por Ele próprio (o que Ele realmente pode fazer, como já fez – há relatos bíblicos disso). Esse argumento joga toda a Criação em uma ordem sobrenatural, criando todas as coisas já em formas adultas, ou pelo menos, maduras, dentro de seus termos.
Rigorosidade das genealogias bíblicas: Basicamente, esta teoria aceita que as genealogias são perfeitas e completas, registrando todas as pessoas viventes nos respectivos períodos retratados nelas. Uma idéia arriscada, e bem radical, que deixa para trás um rastro de problemas óbvios – inclusive, muitos criacionistas da terra jovem, deixam esse argumento de lado. Mas, como disse, não pretendo refutar, apenas expor os pontos.
Não havia morte antes da Queda: não há necessidade de muita explicação sobre. A teoria do criacionismo da terra jovem, basicamente, não apoia a idéia de que existia morte, em nenhum nível, antes do Pecado Original, da Queda do homem, sendo necessária a morte espiritual antes da morte natural – o que acontece a partir do primeiro pecado. É uma bela idéia, mas complexa, que gera vários problemas de âmbito natural, sendo necessário realmente a intervenção de um grande milagre divino para sustentar um período, mesmo que curto, sem morte. O que pode ser feito, afinal de contas, Deus intervém como e onde quiser.
O Dilúvio de Noé: Histórico, global e catastrófico. Esses três pontos, levantados por Ken Ham, defensor da visão que estamos apresentando nesse artigo, e que discorreu no livro já citado em algum dos intermináveis parágrafos iniciais. Devemos crer na historicidade do Dilúvio, independentemente da nossa teoria? Sim. Devemos crer que ele cobriu toda a terra? Sim. Que foi uma catástrofe? Oras, se ele cobriu toda a terra, sim, foi catastrófico. É um excelente argumento, mas que pode ser aceito em qualquer uma das teorias.
Confirmação da teoria por Jesus, Isaías e os Apóstolos: na realidade, os defensores da teoria em exposição afirmam que sua posição não contraria o levante bíblico sobre essa questão. E essa é uma verdade: nenhum dos pontos citados anteriormente se levanta contra essa hipótese. Porém, nunca foi o intuito de Deus, na Bíblia, revelar o seu ponto de vista sobre essas questões, e sim transmitir tudo o que precisamos saber sobre a redenção, a salvação, o castigo, etc.
Essas são as bases dos argumentos da teoria do criacionismo da terra jovem. Como disse, não pretendi refutá-los e, muito menos, discorrer e aprofundar sobre estes pontos. Se o tema lhe interessou, vale lembrar que é a teoria mais antiga referente à origem da vida e ao processo de Criação. Afinal, é a que menos precisa de envolvimento científico. É uma teoria biblicamente sustentável, não há nada anti-bíblico ou herético nela, inclusive ela sustentou-se por muitos anos. Porém, com o crescimento científico, exige um pouco mais de “trabalho teológico”, o que fez com que outras teorias surgissem e crescessem, principalmente em círculos não-cristãos. Não há nenhum problema em apoiar a idéia da teoria da terra jovem, porém, no patamar científico, há outras formas de se pensar, que fazem com que tal teoria, para grande parte da comunidade “científico-filosófica”, se pareça como algo infantil, ou até mesmo obsoleto. Se me permitem uma opinião pessoal, esse não é meu ponto de vista preferido, muito longe disso.
No decorrer dos próximos meses, aqui no site da Revista Fé Cristã, conheceremos os demais pontos de vista. Tentei não ser “ácido”, isto é, tentei manter uma linha de pensamento “mansa e suave”, a fim de comunicar de maneira imparcial os pontos básicos da linha de pensamento em voga neste artigo. E usarei parte dessa exposição nos próximos artigos, que já foram publicados na revista em si, para explicar os demais pontos de vista [como critério comparativo, é claro, não depreciativo]. Que Deus abençoe a vida de todos, até o próximo mês! Tentem não causar confusão em vossas igrejas sobre o assunto…

Sthaner Mendes de Sousa, 26 anos, é membro da Primeira Igreja Presbiteriana de Barretos-SP, licenciado em Ciências Biológicas, pelo IFSP – campus Barretos-SP. Seminarista no Seminário Teológico Presbiteriano Reverendo José Manoel da Conceição (Seminário JMC).
Louvado seja Deus ! Esclarecedor !
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