Cristianismo e relativismo moral

O relativismo moral é uma das ameaças culturais mais danosas à causa do Evangelho. Relativismo moral e Evangelho não podem coexistir. Onde o Evangelho verdadeiramente prevalece, o relativismo moral desaparece. O exegeta N.T. Wright declarou:

“o Evangelho de Paulo sobre Jesus e seu senhorio desafia todos os tipos de relativismo”. [1]

O motivo é que no escopo principal de doutrinas do Evangelho se encontra a verdade de que Jesus é Senhor e é Aquele que detém autoridade absoluta nos Céus e na Terra (Mateus 28:18). O Evangelho que declaramos leva as pessoas a confessarem o Senhorio d’Ele como requisito para a salvação:

“Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” (Romanos 10:9,10).

Se Jesus é o Senhor e exerce autoridade soberana sobre tudo, não há uma só esfera da existência que Ele não possa dizer: “é meu”, como diria Abraham Kuyper. [2] Isso inclui a esfera imanente da moralidade: Jesus é o único Senhor das consciências, sua norma escrita na Sagrada Escritura é a regra máxima do comportamento humano.

De forma geral, podemos definir o relativismo moral como a doutrina segundo a qual não existe um padrão moral absoluto para todas as pessoas de todas as épocas e em todos os lugares. Em outras palavras, certo e errado são noções sujeitas ao tempo e ao espaço que jamais podem encontrar uma aplicação universal. O que é terminantemente errado para alguém pode ser decisivamente correto para outro e vice-versa. Nenhuma opinião sobre assuntos morais pode ser considerada melhor que outra. É tudo relativo.

Isso é terminantemente contrário ao modo de pensar apostólico. Quando o grande missionário do cristianismo primitivo se pôs a pregar aos gentios no Areópago, ele contrariou severamente tudo aquilo que prezam os defensores do relativismo moral. Paulo assim anunciou:

“Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos”, (Atos 17:30-31).

Deus convoca (através de cada pregador do Evangelho) todos os homens, em todo lugar, a se arrependerem. Arrependimento é uma mudança completa de atitude, um abandono do antigo modo de viver. A pregação do Evangelho inclui uma real reivindicação divina de domínio sobre o estilo de vida humano. Se Deus fosse favorável ao relativismo, a pregação do Evangelho seria uma sugestão, não um comando. Mas, Deus ordena o arrependimento. Ele requer a nossa obediência. Fazer o bem é fazer o que Deus ordenou.

Sabemos que – teologicamente falando – o cristianismo contraria o relativismo moral. Isso é indiscutível. No entanto, quais subterfúgios filosóficos teria um cristão para contrapor essa tendência cultural tão forte na era pós-moderna? Examinemos adiante alguns insights que podem ser úteis.

Examinando o Relativismo Moral

Para um defensor do relativismo moral, bem e mal são relativos. Em outras palavras, tudo o que se refere à moral tem como base preferências subjetivas. Por esse motivo, um proponente consistente do relativismo moral se “auto-refuta”, como bem explica o apologeta John Frame:

“A afirmativa de que os valores éticos sejam meramente subjetivos contradiz a si mesma, como todas as declarações de subjetivismo ou de ceticismo. O que o subjetivista nos diz é que não temos qualquer obrigação moral de concordar com o seu subjetivismo, ao mesmo tempo em que nos diz que ninguém tem obrigação moral de concordar com qualquer coisa”. [3]

O ponto de Frame é que, se todos os padrões morais são relativos e subjetivos, não existe diferença real entre os padrões e, portanto, não existem padrões melhores do que outros, os que os torna todo irrelevantes. Isso inclui o próprio padrão do relativista, é claro. Por que alguém deveria acreditar que o padrão do relativista, segundo o qual todos os padrões são relativos, é correto, se o próprio padrão dele é relativo?

Ademais, como bem destacam Norman Geisler e Ronald M. Brooks,

“para negar absolutos, é preciso fazer uma negação absoluta. É como dizer: ‘nunca diga nunca’. Você acabou de dizer… Ou seja, jamais deveríamos usar um termo absoluto para dizer que outro absoluto não exista. Como você pode eliminar, absolutamente, todos os absolutos morais?”. [4]

O relativista defende que todos (um absoluto) valores morais são subjetivos (uma relatividade), cometendo uma contradição performática porque ele considera o ponto de vista dele superior (afinal, não creria nele e o defenderia), ao mesmo tempo em que defende que tudo nesse campo é relativo.

Deixando de lado as contradições teóricas internas, avaliemos agora as consequências nefastas para a vida prática das pessoas. Se a moral é relativa, de acordo com qual padrão podemos considerar Madre Teresa de Calcutá uma pessoa objetivamente melhor que Hitler? Se a moral é apenas uma questão de preferência subjetiva, por que deveríamos louvar uma doação de cestas básicas e reprovar um roubo de alimentos e não o inverso? Se estabelece aqui um verdadeiro caos. Quando sofremos uma injustiça, logo queremos ser reparados. Na vida prática, “agimos e pensamos como se valores fossem objetivos”. [5] Como Frame expõe:

“é fácil descrever desse modo os padrões éticos de outras pessoas como sendo subjetivos ou emocionais. Mas, poucos de nós, se houve alguém, estaríamos dispostos a descrever assim os nossos próprios padrões […] Quando chamamos uma ação de “má” ou de “errada” […] normalmente pretendemos dizer algo objetivo; roubo não é errado porque desgostamos dele; antes, não gostamos dele porque é errado. Nossa avaliação de roubo, em outras palavras, não é somente porque o nosso gosto é subjetivo”. [6]

Fazer caridade é sempre correto. Estuprar é sempre errado. Em todas as culturas, locais e tempos. Negar isso é um absurdo. Geisler e Brooks bem colocam:

“C.S. Lewis mencionou vários deles [valores morais absolutos] em seus escritos. Ele mostrou que muitas coisas são reconhecidas universalmente como erradas, como por exemplo, a crueldade com crianças, o estupro, o assassinato sem uma causa justa e assim por diante”. [7]

É irônico que relativistas morais se queixem que, se o mal existe no universo, portanto, Deus não poderia existir. De acordo com qual padrão eles julgam que há mal no mundo? Se esses valores morais são absolutos e eternos, em contrapartida, o relativismo moral necessariamente está errado e se não são, o argumento do relativista contra a existência de Deus perde a força. O próprio Lewis, em sua fase ateísta, se deparou com essa contradição:

“meu argumento contra Deus havia sido que o universo parecia muito cruel e injusto. Mas, de onde eu havia tirado essa ideia de justo e injusto? Uma pessoa só chama uma linha de torta se tiver alguma ideia do que é uma linha reta. Com o que eu estava comparando o universo?” [8]

Devolvendo o argumento

Além de ser incoerente, a teoria moralmente relativista traz a discussão para um campo favorável ao cristão. Como demonstraremos no prosseguimento, se valores morais absolutos existem (como se intentou provar anteriormente) deve existir algo que sirva como o fundamento objetivo desses princípios. John Frame explica o assunto da seguinte forma:

“Somente dois tipos de respostas são possíveis: a fonte da autoridade moral absoluta é pessoal ou impessoal. […] Entretanto, que espécie de ser impessoal pode fazer isso? Certamente, se as leis do universo forem reduzidas ao acaso, nenhuma significância ética poderia simplesmente surgir. O que poderíamos aprender, de significância ética, de colisões de partículas subatômicas totalmente ao acaso? A qual lealdade seríamos devedores se tudo fosse ao acaso? […] como é que uma estrutura impessoal poderia criar uma obrigação? […] Ou: em que base uma estrutura impessoal demanda lealdade ou obediência?”. [9]

Simplificando: temos duas opções – ou a fonte do nosso padrão é pessoal ou impessoal. Como já demonstrado, a fonte não pode ser impessoal. Portanto, deve ser pessoal. Frame arremata:

“obrigações e lealdades brotam no contexto de relacionamentos pessoais […] se obrigações absolutas têm de surgir de relacionamentos pessoais, então obrigações absolutas têm de surgir de pessoas absolutas […] Padrões morais, portanto, presumem padrões morais absolutos, que, por sua vez, pressupõem a existência de uma personalidade absoluta. Em outras palavras, pressupõem a existência de Deus”. [10]

É verdade que não provamos a partir disso que o cristianismo é verdadeiro, nem é esse o objetivo. O que demonstramos aqui é que aqueles que creem em Deus estão justificados em defender um padrão moral absoluto conquanto materialistas, ateístas e agnósticos que defendem padrões morais absolutos são completamente inconsistentes. No evangelismo, o cristão deve se empenhar em mostrar a maior razoabilidade racional da tese cristã a respeito da moralidade em comparação com as diferentes linhas.

Encerro esta seção com as palavras do Dr. Clark:

“Entre as prescrições morais, a opinião comum incluiria o sexto, sétimo e oitavo mandamentos. Não matarás, não adulterarás e não furtarás são geralmente consideradas leis morais importantes [até mesmo entre os incrédulos]. Um cristão ortodoxo ou judeu ortodoxo pode sincera e consistentemente inculcar essas leis porque crê que são leis de Deus. Elas são corretas porque Deus as ordenou. E são leis porque Deus impôs penalidades à sua transgressão. Dessa forma [defendemos que] a educação moral [somente] pode ser consistentemente baseada na religião bíblica […] Obviamente, o humanismo, naturalismo ou ateísmo não têm esse fundamento para a moralidade nem aceita uniformemente essas leis.” [11]

Conclusão

Foram manifestas suficientes provas para que possamos crer (A) que o relativismo moral leva a inúmeras consequências filosóficas ruins – tais como contradições lógicas (auto-refutação) e contradições práticas (anarquia teórica que pode reverberar em repita-se: nefastas consequências para a práxis social), (B) o cristianismo escapa das problemáticas elencadas fornecendo bases sólidas sob as quais o padrão moral absoluto objetivo pode ser fundamentado.Faço coro às palavras de Tim Keller:

“Se você insistir que ninguém é capaz de identificar as crenças corretas e equivocadas [quanto à moral], porque acreditaríamos no que você está dizendo? Na verdade, todos alegamos ter posse da verdade [quanto a esse assunto]”. [12]

Os cristãos devem explorar essas questões ao abordarem incrédulos. O cristianismo fornece o que essas ideologias não podem fornecer: um Rei absoluto na Pessoa de Jesus Cristo que exige a obediência e lealdade de cada ser humano, do maior ao menor, do mais pobre ao mais rico e, com isso, uma lei confiável na qual podemos descansar. Façamos as seguintes perguntas aos incrédulos:

“como é que você está seguro que o relativismo [moral] é verdadeiro, quando ele mesmo descarta toda segurança? […] Que base você usa para a tomada de decisões? Que base você tem para criticar o tratamento que outros lhe dispensam? Como pode dizer que uma coisa está errada ou é injusta?”. [13]

Atacaremos os pressupostos deles diretamente e sustentaremos a nossa visão contra essas perspectivas.


Jadson Targino da Silva Júnior, 20 anos, é membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Cruz das Armas, João Pessoa/PB. Seminarista pelo CETAD/PB, é graduando em Ciências da Religião pela UFPB.

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