MOTTA/CARVALHO – Para iniciarmos esta entrevista, e agradecendo a sua disposição em atender ao nosso convite, gostaríamos de saber quais são, segundo o seu entendimento, aqueles elementos escatológicos que todo cristão deve conhecer? O que é que, no que se refere à escatologia, todo cristão deve ter em mente?
FRANK – É um prazer responder a essa entrevista sobre um assunto da teologia que eu tanto amo.
A palavra “escatologia” é derivada de duas palavras gregas: eskatos, que significa “último”, e logia, que significa “palavra”, “discurso” ou “estudo”. Sendo assim, a escatologia é o estudo das últimas coisas. A escatologia cristã divide-se em dois ramos principais: escatologia individual ou particular e escatologia geral ou cósmica. Questões referentes à condição do indivíduo, entre a sua morte e ressurreição final, pertencem ao ramo da escatologia individual. São consideradas questões como a imortalidade da alma, a morte física e o estado intermediário de sua alma entre a morte e a ressurreição final. Já a escatologia geral considera os eventos proféticos pelo qual a história do mundo e da raça humana é conduzida à sua consumação.
Quanto à escatologia individual, todo cristão deve saber e crer nas verdades ensinadas pelo próprio Jesus. Ele ensinou que, no momento de nossa morte, seremos julgados por Deus (Lc 12:20; 16:22:23), que o nosso corpo será sepultado na terra (Lc 16:22), mas nossa alma permanecerá consciente e, mediante o justo e perfeito julgamento de Deus, nossa alma será levada para o Paraíso, que é o céu, o lugar da habitação especial de Deus e dos anjos (Lc 16:22; 23:43) ou para o inferno (Lc 16:22-28). Aqueles que confiam em Cristo e em sua perfeita obra salvífica vão para o céu. Aqueles que não confiam em Cristo para a salvação vão para o inferno. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus“ (Jo 3:16-18). O céu foi a esperança de Estevão, o primeiro mártir do Novo Testamento. Antes de morrer, ele teve uma gloriosa visão de Cristo no céu (At 7:55-56) e declarou que, mediante sua morte terrena, seu espírito se encontraria com Jesus no céu (At 7:59).
Quanto à escatologia geral, todo cristão deve saber e crer que, em algum momento do futuro, Cristo virá corporalmente do Céu e dará fim à história como a conhecemos. Ou seja, o mundo caído, da maneira que nós o conhecemos, não existirá para sempre. Quando ele vier, todas as pessoas que já existiram ressuscitarão e serão julgadas. Esse será o Juízo Final. Além disso, toda a criação será plenamente renovada “e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (Ap 21:4).
MOTTA/CARVALHO – O que ocorre com a doutrina das últimas coisas dentro da cultura cristã protestante, atualmente? É correto dizer que existe uma resistência ou, de certo modo, um desprezo pela matéria, uma vez que a natureza da mesma torna necessário o domínio da literatura do Antigo Testamento para que, através dele, se possa compreender de forma orgânica, o Sermão Escatológico de Jesus e o Apocalipse? Faz sentido, para um cristão, abster-se do estudo escatológico devido à sua dificuldade? É saudável, para a vida cristã, abraçar a ignorância quanto a este assunto?
FRANK – Desde o século 20, a escatologia dominante entre as igrejas evangélicas é alguma variação do futurismo. Para os futuristas, a maioria das profecias do Novo Testamento ainda se cumprirão no futuro, e a maioria crê que nós estamos muito perto do tempo do fim do mundo. A maioria dos que falam de escatologia, hoje, defende o futurismo. A popularidade é tanta que muitos nem sabem que existem outras perspectivas.
Eu creio exatamente no contrário. Eu creio que a maioria das profecias do Novo Testamento se cumpriram no passado, no primeiro século da era cristã. Não eram profecias sobre o fim do mundo. Eram profecias sobre a fundação da Igreja do Novo Testamento e, por isso, se cumpriram na geração dos apóstolos.
Na minha opinião, um dos efeitos dessa popularidade do futurismo é fazer com que muitos percam o interesse pela escatologia. Os futuristas estão há um bom tempo dizendo que o fim do mundo está perto de acontecer e, sempre que há alguma tragédia mundial, eles associam aquela tragédia a algum sinal profético que supostamente indica que estamos no tempo do fim. Recentemente, tivemos o COVID-19, que, para muitos, foi um cumprimento de um dos sinais do Sermão Profético: “pestilências” (Lc 21:11). O problema é que, quanto mais o tempo passa, mais essa abordagem vai caindo em descrédito, pois o que diziam que estava “próximo” de acontecer nunca acontece. Com o tempo, muitos vão perdendo o interesse nesses supostos sinais proféticos e a escatologia acaba sendo vista como confusa e misteriosa demais para ter alguma relevância para a vida cristã prática.
Na verdade, a escatologia bíblica não é difícil. A escatologia cristã só é difícil quando estudada a partir dos pressupostos errados. Para entender a escatologia bíblica, devemos assumir três princípios simples e básicos:
1. As profecias bíblicas são infalíveis (Dt 18:18-19) e, por isso, elas precisam se cumprir no tempo em que a Bíblia disse que elas se cumpririam.
É simples de entender: se Deus disse que algo aconteceria em até 2 anos, não pode acontecer 2 mil anos depois. Em quase todas as profecias bíblicas, Deus não somente revelou o que deveria acontecer – Ele também revelou quando deveria acontecer. Por exemplo, o profeta Jeremias não somente revelou que o Cativeiro Babilônico chegaria ao fim. Ele também revelou quando chegaria ao fim (Jr 25). Quando essa profecia de Jeremias se cumpriu, foi exatamente no tempo em que ele disse que se cumpriria (2Cr 36:21-23). O Cativeiro Babilônico poderia demorar 700 anos para chegar ao fim? Não, não poderia, pois as profecias bíblicas são infalíveis. Quando prestamos atenção no tempo indicado por Deus em que uma profecia deveria se cumprir, fica muito mais fácil identificar seu cumprimento. Se lermos as profecias de Cristo e dos apóstolos com atenção, podemos constatar que, na maioria dos casos, eles revelaram quando suas profecias deveriam se cumprir.
2. A Bíblia interpreta a própria Bíblia.
A Confissão de Fé de Westminster, o importante documento de teologia protestante do século 17, explica esse princípio muito bem: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente” (CFW 1:9). Ou seja, quando temos dúvidas sobre o significado de um símbolo profético em uma profecia bíblica, não devemos interpretar aquele símbolo com base em “achismos”. Devemos investigar de que maneira aquele símbolo é usado na própria Bíblia. Os símbolos proféticos da Bíblia são explicados pela própria Bíblia. Isso faz com que a nossa interpretação da Palavra de Deus esteja fundamentada na própria Palavra de Deus.
Mas, aí entra o problema que você mencionou. A maioria dos símbolos do Apocalipse vem do Velho Testamento. Então, para interpretar o Apocalipse com base na Bíblia tem que conhecer bem o Velho Testamento. É o Velho Testamento que explica a maioria dos símbolos do Apocalipse.
3. A escatologia dos apóstolos é a escatologia dos 4 Evangelhos.
Na noite em que o Senhor Jesus instituiu o sacramento da Ceia, ele fez uma promessa aos apóstolos a respeito da vinda do Espírito Santo: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito“ (Jo 14:26). Posteriormente, depois da ressurreição e antes da ascensão, o Senhor Jesus deu a seguinte ordem aos seus apóstolos: “Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação do mundo. Amém.” (Mt 28:19-20) O ponto das duas passagens é que a doutrina que os apóstolos ensinariam ao mundo e à Igreja se restringiria ao que o próprio Cristo já tinha ensinado durante o seu ministério terreno. Ou seja, as coisas que os apóstolos ensinam em Atos, nas Epístolas e no Apocalipse são as mesmas que Jesus já tinha ensinado entre o batismo e a ascensão. Os apóstolos não foram enviados para fazer acréscimos à doutrina de Cristo, mas para que fossem “testemunhas” (Lc 24:48; At 1:8) do que ele fez e ensinou. O Espírito Santo não foi enviado para complementar a obra de Cristo como Mestre (como se a doutrina que Cristo ensinou estivesse incompleta), mas para garantir que os apóstolos infalivelmente lembrassem e entendessem a perfeita doutrina que eles receberam de Cristo durante o seu ministério terreno (Jo 14:26). Com base nisso, devemos concluir que as profecias que encontramos nas Epístolas e no Apocalipse são equivalentes ao que Cristo já tinha profetizado nos 4 Evangelhos. A revelação do Apocalipse é equivalente ao que Cristo já tinha revelado durante o seu ministério terreno. Sendo assim, para que uma interpretação profética de qualquer livro do Novo Testamento seja considerada correta, precisamos provar que aquela interpretação é equivalente ao que foi ensinado por Jesus nos 4 Evangelhos. É por isso também que nenhum cristão deve abster-se do estudo escatológico. A escatologia faz parte do que Cristo falou: “… e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (Jo 14:26); “… ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mt 28:20).
MOTTA/CARVALHO – Frank, sabemos que és um Preterista Parcial, Pós-Milenista e Teonomista. Inclusive, não existe em solo brasileiro um preterista parcial que não tenha apreço por você, por causa de toda a sua contribuição e seu serviço no que se refere a essa matéria. Conte-nos como você conheceu o Preterismo Parcial em um país no qual predomina a hermenêutica dispensacionalista, futurista e pessimista. Gostaríamos de saber o que e quem mais te influenciou, quais foram os primeiros materiais que teve contato sobre o tema, o que nos aconselha a ler e quem é o melhor escatólogo para você?
FRANK – Eu conheci o pós-milenismo e o preterismo parcial em meio a uma crise de fé nos últimos anos da década de 2000. Na época, eu tinha muito contato com liberais que questionavam a inerrância e a infalibilidade das Escrituras. Com base nisso, eles questionavam muitos dos dogmas do Cristianismo histórico. Um dos argumentos utilizados por liberais para questionar a infalibilidade das Escrituras era dizer que as profecias de Cristo e dos apóstolos não se cumpriram no tempo em que eles disseram que se cumpriria. Por exemplo, no Sermão Profético, Jesus disse: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam” (Mt 24:34). Segundo os liberais, o que Jesus disse que se cumpriria naquela mesma geração não aconteceu. Com base nisso, eles dizem que a Bíblia não é inerrante. Na época, essa foi uma das coisas que me fez passar por uma crise de fé. Para superar essa crise, eu tive que estudar os detalhes dessas profecias. A partir disso, eu pude constatar que os liberais estavam errados, e que grande parte do que eu tinha aprendido sobre escatologia nas igrejas também estava errado. As profecias bíblicas são inerrantes e infalíveis e elas se cumprem exatamente da maneira que a Bíblia diz que se cumpririam. Contudo, não é da maneira que os futuristas ensinam.
Pós-milenismo é o ensino de que a visão de Apocalipse 20 sobre os mil anos se cumpre antes da vinda de Cristo para o Juízo Final. Ou seja, a vinda de Cristo para o Juízo Final acontecerá após esse período de mil anos. É daí que vem o nome pós-milenismo. Para a maioria dos pós-milenistas, esses “mil anos” (Ap 20:4-6) não devem ser entendidos literalmente. “Mil” significa “muitos”. As principais características do pós-milenismo são: a crença de que, desde o primeiro século, nós vivemos sob o reino de Cristo, que esse reino vem crescendo sobre a terra ao longo dos séculos, e que, antes da vinda de Cristo para o Juízo Final, a maioria das pessoas do mundo serão genuinamente convertidas e o mundo experimentará um longo período de grande paz e prosperidade.
Preterismo parcial é o ensino de que a vasta maioria das profecias da Bíblia e do Novo Testamento se cumpriram no primeiro século.
Para quem quer começar a entender a escatologia pós-milenista preterista parcial, recomendo começar lendo os seguintes livros:
1. Pós-milenarismo Para Leigos (Kenneth Gentry)
2. O Apocalipse Para Leigos (Kenneth Gentry)
3. A Ilusão Pré-Milenista (Brian Schwertley)
4. O Plano de Deus para a Vitória: O significado do pós-milenarismo (R.J. Rushdoony)
5. E Se Jesus Nao Tivesse Nascido (James Kennedy)
6. O Livro que Fez o Seu Mundo. Como a Bíblia Criou a Alma da Civilização Ocidental (Vishal Mangalwadi)
Os 4 primeiros, eu recomendo para entender as bases bíblicas e teológicas da escatologia pós-milenista. Os 2 últimos, eu recomendo para entender a história de como o reino de Cristo foi muito impactante para o mundo ao longo dos últimos dois mil anos.
Há muitos outros autores que eu também recomendo para estudar esse assunto, mas os principais que me auxiliaram foram Joe Morecraft III, G. I. Williamson, Kenneth Gentry, Gary North, Greg Bahnsen, Phillip Kayser e David Chilton. O primeiro livro que eu li em defesa do pós-milenismo e do preterismo parcial foi “Days of Vengeance”, do David Chilton. Foi o livro que me convenceu do pós-milenismo e do preterismo parcial. Infelizmente, esse livro ainda não foi publicado em português, mas recomendo para quem lê em inglês. Talvez o livro mais completo sobre o assunto que nós temos seja o “He Shall Have Dominion”, do Kenneth Gentry. Muitos dos antigos autores e comentaristas puritanos defendiam uma perspectiva preterista parcial do Sermão Profético, e eles também me influenciaram muito. Além disso, para aqueles que querem estudar as profecias de Daniel sob uma perspectiva preterista parcial, recomendo o comentário de João Calvino que foi publicado pela Editora Fiel.
Além disso, recomendo a minha série de mensagens sobre Marcos 13 e Tiago 5 que se encontra no canal do YouTube da Igreja Presbiteriana do Alto Branco. Essas mensagens foram pregadas em uma conferência em 2021 chamada “Vencendo vem Jesus!” No canal da minha igreja, a Igreja Presbiteriana Reformada de Campo Bom, também há mensagens sobre o assunto.
O teólogo que mais me influenciou na minha escatologia foi o Dr. Joe Morecraft III, não só pelo que ele ensina sobre o assunto em seus escritos e em seus sermões, mas pela maneira que ele vive a escatologia pós-milenista em sua vida pessoal e prática.
MOTTA/CARVALHO – Adentrando um pouco mais na escatologia propriamente dita, gostaríamos que esclarecesse para nossos leitores a seguinte questão: em que consiste, biblicamente falando, o tão debatido Milênio? Quais são suas características? Quando ele ocorre?
FRANK – Apocalipse 20:1-10 se torna mais simples de entender quando aceitamos o princípio de que a Bíblia interpreta a Bíblia, bem como o princípio de que a escatologia dos apóstolos é a escatologia dos 4 Evangelhos. Quando comparamos Apocalipse 20 com o que é dito em outras partes da Bíblia e nos 4 Evangelhos, fica fácil de entender o que cada parte da profecia significa:
1. Apocalipse 20:1-10 é uma visão sobre o reino de Cristo (v. 4,6). Em outras partes da Bíblia e nos 4 Evangelhos, aprendemos que o reino de Cristo foi inaugurado mediante sua ressurreição e ascensão.
2. Apocalipse 20:1-10 é uma visão sobre o reino de Cristo antes da Segunda vinda de Cristo. O reino de Cristo nunca terá fim (Lc 1:33), mas a visão de Apocalipse 20:1-10 descreve uma fase do reino de Cristo em que ele ainda terá inimigos na terra (v. 7-10). Em outras partes da Bíblia, aprendemos que, depois da Segunda vinda de Cristo, ele não terá mais nenhum inimigo (1Co 15:24-28,51-57). Portanto, a visão de Apocalipse 20:1-10 é sobre o reino de Cristo antes de sua Segunda vinda. Ou seja, a Segunda vinda de Cristo acontecerá após a fase do reino de Cristo da visão de Apocalipse 20:1-10. Isso é confirmado pelo que lemos nos 4 Evangelhos. No Sermão Profético, Cristo ensinou que ele viria em um dia e hora que ninguém sabe (Mt 24:36; Mc 13:32) para julgar todas as pessoas que já existiram (Mt 25:31-32) e que, nessa vinda, “o céu e a terra passarão” (Mt 24:35). No Apocalipse, isso acontece após o reino milenar (Ap 20:11-15; 21:1). Isso prova que Apocalipse 20:1-10 é uma visão sobre o reino de Cristo antes daquela que é conhecida como Segunda vinda de Cristo.
3. O que a visão de Apocalipse 20:1-10 diz sobre as duas ressurreições é equivalente ao que Cristo ensinou em seu ministério terreno:
Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo; e deu-lhe o poder de também exercer o juízo, porque é o Filho do homem. Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação. (João 5:24-29)
A primeira ressurreição é espiritual e acontece no momento em que o ímpio se converte pela fé no Filho de Deus: “quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (v. 24). Eles eram espiritualmente mortos, mas, pela fé, eles ouviram “a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (v. 25). Mas além dessa ressurreição espiritual, haverá uma ressurreição física no fim da história: “vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação” (v. 28-29). Segundo Jesus, aqueles que ressuscitam espiritualmente “tem a vida eterna, e não entrará em condenação“ (v. 24). Isso é equivalente ao que é dito no Apocalipse: “Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte“. Quando eles morrem fisicamente, eles são imediatamente transportados para a presença de Cristo no céu e, nesse sentido, continuam a viver. Por isso, Apocalipse 20:4 diz que aqueles que morreram sendo fiéis a Cristo “viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos”. O sentido é que eles continuaram a viver no céu com Cristo e, assim, tornaram-se participantes de seu reino celestial. Jesus também falou sobre isso para a irmã de Lázaro:
“Disse-lhe Marta: Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca irá morrer. Crês tu isto? Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.” (João 11:24-27)
Aqui, Marta professou sua fé na ressurreição física, que acontecerá no último dia (v. 24). Em sua resposta, Jesus enfatizou que não era suficiente crer na ressurreição física. Ela também tinha que crer que há uma ressurreição espiritual, que acontece no momento em que o ímpio se converte pela fé em Cristo: “quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (v. 25). Em seguida, Jesus diz que quem ressuscita espiritualmente “nunca irá morrer” (v. 26). Em que sentido eles nunca morrem? Jesus estava falando de uma ressurreição espiritual e, por isso, o sentido é que eles nunca morrerão espiritualmente. Novamente, isso é equivalente ao que João ensina no Apocalipse, que aqueles que morrem em Cristo continuam a viver espiritualmente com Cristo no céu (Ap 7:13-17; 20:4).
4. O que a visão de Apocalipse 20:1-10 ensina sobre a prisão de Satanás se cumpriu no primeiro século. Os 4 Evangelhos e o resto da Bíblia também deixam isso muito claro: “Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o reino de Deus. Ou, como pode alguém entrar na casa do homem valente, e furtar os seus bens, se primeiro não amarrar o valente, saqueando então a sua casa?” (Mt 12:28-29) “Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo. E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim“ (Jo 12:31-32). “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo“ (Cl 2:14-15). “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo“ (Hb 2:14). Mediante a perfeita obra salvífica de Cristo em sua paixão, morte, sepultamento, ressurreição e ascensão, Satanás sofreu um terrível julgamento no primeiro século. Ele foi lançado e encerrado no abismo para que não fosse mais capaz de enganar as nações (Ap 20:4). É por isso que, desde o primeiro século, o evangelho tem crescido e avançado no mundo e chegará um tempo no futuro em que a maioria das pessoas do mundo serão genuinamente convertidas. É por isso que Jesus ensinou que, depois dessa expulsão do príncipe deste mundo, ele atrairia todos a ele (Jo 12:32). É por isso que, na Epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo ensinou que, no futuro, antes do fim do mundo, todas as nações do mundo (a plenitude dos gentios) se converterão (Rm 11:11-15, 25-26). É nesse sentido que o apóstolo Paulo disse que Deus “quer que todos os homens sejam salvos, e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm 2:4). Isso condiz com o que o Velho Testamento já dizia sobre o Reino de Cristo: “Todos os limites da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor; e todas as famílias das nações adorarão perante a tua face. Porque o reino é do Senhor, e ele domina entre as nações” (Sl 22:27-28). “E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o servirão” (Sl 72:11). “A terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar“ (Is 11:9). “Virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor” (Is 66:23). “E não ensinará mais cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: Conhecei ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor; porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados” (Jr 31:34).
MOTTA/CARVALHO – Na mesma linha, em que consiste a Grande Tribulação? Quais são suas características? Quando ela ocorre?
FRANK – Jesus falou sobre a Grande Tribulação no Sermão Profético, então para entender a Grande Tribulação, precisamos entender o Sermão Profético.
Se lermos as profecias do Novo Testamento com atenção, podemos constatar que, na maioria dos casos, Cristo e os apóstolos indicam que suas profecias deveriam se cumprir já no primeiro século. Isso é o que chamamos de preterismo parcial. No Sermão Profético, Jesus profetizou sobre diversos sinais. Ele profetizou sobre os falsos ungidos (Marcos 13:5-6), sobre as guerras e os rumores de guerra (v. 7-8), sobre as fomes (v. 8), sobre as perseguições (v. 9, 11-13) e sobre a pregação do evangelho entre as nações (v. 10). O que muitos ignoram é que, no próprio sermão, Jesus indica quando esses sinais deveriam acontecer. Eram sinais que deveriam acontecer antes do início da Guerra Judaico-Romana, antes da destruição do templo de Deus, da queda de Jerusalém e na mesma geração em que Cristo e os apóstolos viveram (Mc 13:1-4,14,28-30; Lc 21:5-7,20,28-32). Ou seja, não eram sinais de que o mundo estava perto de acabar. Eram sinais de que a destruição de Jerusalém e do templo estava se aproximando. Como a Guerra Judaico-Romana começou em setembro de 66 AD, todos os sinais do Sermão Profético precisam ter se cumprido entre a década de 30 e a década de 60 do primeiro século.
Além disso, segundo Cristo, os sinais profetizados por ele deveriam se cumprir em dois períodos principais. Os sinais do primeiro período são os falsos messias (Mt 24:4-5; Mc 13:5-6; Lc 21:8), as guerras e rumores de guerra (Mt 24:6-7; Mc 13:7-8; Lc 21:9-10), as fomes (Mt 24:7; Mc 13:8; Lc 21:11), as pestes (Mt 24:7; Lc 21:11) e os terremotos (Mt 24:7; Lc 21:11), e são chamados por Cristo de “princípio das dores” (Mt 24:8; Mc 13:8). No segundo período, há uma intensificação do sofrimento. Haveria intensa perseguição mundial contra os cristãos (Mt 24:9; Mc 13:9, 11-13; Lc 21:12-19), grandes apostasias, escândalos e traições (Mt 24:10), aumento muito significativo de falsos profetas (Mt 24:11), o que levaria à multiplicação da iniquidade e a um grande esfriamento do amor (Mt 24:12). Além disso, nesse segundo período, Israel seria atacado por Roma. Esse segundo período é o que Cristo chamou de “grande tribulação” (Mt 24:21). Isso significa que a profecia da Grande Tribulação se cumpriu no primeiro século. Não é uma profecia que ainda se cumprirá no futuro.
O Apocalipse também fala sobre a Grande Tribulação (Ap 7;14). De forma geral, o Apocalipse profetiza as mesmas coisas que Jesus já tinha profetizado no Sermão Profético. A situação das sete igrejas da Ásia (Ap 2-3) é a que foi profetizada por Cristo em Mateus 24:9-13. Apocalipse 4-5 é uma visão sobre a ascensão de Cristo ao céu. Os seis selos de Apocalipse 6 são equivalentes aos sinais de Mateus 24:5-14, que deveriam acontecer depois da ascensão de Cristo e antes do início da Guerra Judaico-Romana. Os 144 mil israelitas eleitos de Apocalipse 7:1-8 são os israelitas eleitos que fogem da Judéia em Mateus 24:15-22. Os mártires de Apocalipse 7:9-17 são os mártires de Mateus 24:9-10. Ou seja, eles são os mártires da Grande Tribulação do primeiro século: “Estes são os que vieram da grande tribulação“. As sete trombetas de Apocalipse 8-11 são os juízos de Deus contra Israel durante a Guerra Judaico-Romana (Lc 21:20-24). A besta era o Império Romano, que foi o império que destruiu Jerusalém em 70 AD, e as cabeças da besta eram os imperadores romanos (Ap 17:9-10).
Jesus deixou claro que, depois do primeiro século, nunca mais existiria uma tribulação mais intensa do que aquela: “Porque haverá então grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver“ (Mt 24:21). “Porque naqueles dias haverá uma tribulação tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá“ (Mc 13:19). Alguns argumentam que, depois do primeiro século, existiram tribulações maiores do que aquela. Mas, isso simplesmente não é verdade. A Igreja do Novo Testamento foi edificada por Cristo no primeiro século. A Igreja de Cristo deveria ser uma instituição universal, não meramente regional. Ou seja, ela deveria incluir todas as nações (Mt 24:14). Por isso, Cristo enviou seus apóstolos para pregar e edificar a Igreja em todo o mundo (Mt 28:16-20). Mas, enquanto a Igreja do Novo Testamento estava começando a ser edificada, os apóstolos e os primeiros cristãos tiveram que enfrentar desafios sem precedentes. Os primeiros cristãos foram intensamente perseguidos em todas as nações em que a Igreja se encontrava no primeiro século (Mt 24:9; Mc 13:9, 11-13; Lc 21:12-19). Depois do primeiro século, a Igreja nunca mais enfrentou uma perseguição tão abrangente quanto essa. Por exemplo, em 2022, a Igreja é perseguida em diversas partes do mundo, mas ela não é, ao mesmo tempo, perseguida em todas as partes do mundo. Ou seja, em 2022, há perseguições regionais contra os cristãos, mas não há uma perseguição mundial. Não há nenhuma perseguição hoje que seja uma ameaça real para a existência do Cristianismo no mundo. Humanamente falando, a perseguição do primeiro século tinha chances reais de fazer com que o Cristianismo deixasse de existir, pois a Igreja ainda estava em sua infância e os cristãos eram intensamente perseguidos em todo o mundo. Ou seja, se não fosse pela miraculosa intervenção de Deus, salvando os cristãos de seus inimigos, o Cristianismo certamente teria deixado de existir no primeiro século. E além da intensa perseguição mundial dos inimigos externos, os primeiros cristãos também tinham que lidar com grandes apostasias, escândalos, traições (Mt 24:10) e com a multiplicação de falsos profetas (Mt 24:11). A pura doutrina apostólica era constantemente deturpada por falsos profetas, que diziam ser autênticos cristãos, mas que acabavam tornando o problema da Igreja perseguida ainda maior. Por mais que a Igreja do século 21 tenha problemas, não podemos dizer que o problema da Igreja é tão grande que o Cristianismo está quase deixando de existir no mundo inteiro. Depois do primeiro século, a Igreja nunca enfrentou uma tribulação tão grande quanto essa. Precisamos ter senso de proporção.
No primeiro século, a nação de Israel também correu o risco de deixar de existir. Durante a Guerra Judaico-Romana, o general Tito chegou em Jerusalém para atacar a cidade durante a Festa da Páscoa. A Festa da Páscoa era a época do ano em que a maioria dos judeus do mundo estavam em Jerusalém. Ou seja, quando o general Tito cercou Jerusalém, ele tinha chances de matar a maioria do israelitas que existiam no mundo. Se ele fizesse isso, Israel teria deixado de existir como nação. Em determinada parte da guerra, os romanos crucificavam 500 judeus por dia, todos os dias! Humanamente falando, a guerra dos romanos contra os judeus tinha chances reais de fazer com que Israel deixasse de existir como nação. Sabemos que isso já aconteceu com muitas outras nações. Por exemplo, diversas povos que existiam no continente americano não existem mais. Além disso, a Guerra Judaico-Romana deixou uma marca sem precedentes no Judaísmo. Os judeus nunca mais tiveram um templo. Os judeus nunca mais puderam oferecer sacrifícios. Os judeus nunca mais puderam observar os sacrifícios e as cerimônias do santuário que Moisés disse que eles deveriam observar. No primeiro século, o Judaísmo mudou e nunca mais voltou a ser o que ele era antes.
MOTTA/CARVALHO – Uma terceira questão na mesma linha: em que consiste a Segunda Vinda de Cristo? O que ela trará consigo? Quais suas características?
FRANK – A vinda de Cristo que acontecerá no futuro será a consumação final do que ele começou a fazer desde que ele inaugurou o seu reino. Ao longo da história, muitos indivíduos e povos já foram julgados, mas, quando Cristo vier, acontecerá o Juízo Final. Ao longo da história, os crentes são justificados e santificados, mas, quando Cristo vier, nós seremos perfeitamente santos. Ao longo da história, o mundo é abundantemente abençoado com bênçãos materiais, mas, quando Cristo vier, este universo será plenamente renovado e “não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (Ap 21:4). Nosso corpo não estará mais sujeito a nenhum mal e não teremos mais necessidade alguma, pois “os que morreram em Cristo ressuscitarão” (1Ts 4:16) e os que estiverem vivos terão seus corpos transformados (1Co 15:52). Ao longo da história, os crentes experimentam a bênção da comunhão com o Pai por meio do Filho, no Espírito, mas, quando Cristo vier, a comunhão será plena e absoluta, pois nós veremos o seu rosto (Ap 22:4).
MOTTA/CARVALHO – Indo na contramão da linha dispensacionalista que predomina na igreja brasileira, qual é o cálculo correto a ser feito em relação às 70 semanas de Daniel? Que cálculo é capaz de convencer que estas já se cumpriram no início da era Cristã?
FRANK – Em nossa cultura, nós dividimos os anos em décadas. Cada década tem 10 anos. Os israelitas não dividiam os anos em décadas. Por ordem de Moisés, eles dividiam em semanas. Eram semanas de anos. Cada semana tinha sete anos (Lv 25:8). Sendo assim, as setenta semanas de Daniel 9 são setenta semanas de sete anos. Ou seja, são 490 anos. O objetivo dessa visão de Daniel era revelar exatamente quando o Cristo deveria vir ao mundo. E ele veio quando ele disse que viria. Os dispensacionalistas concordam com isso, mas eles dizem que a última semana da visão de Daniel 9 ainda se cumprirá no futuro. Ou seja, eles creem que tudo se cumpriu até a semana 69, mas que a semana 70 ainda precisa se cumprir.
Biblicamente, é muito simples constatar que eles estão errados: nos versos 26-27, Daniel está falando sobre o templo de Deus que foi reconstruído no tempo do livro de Esdras. Esse era o templo que Jesus frequentava enquanto esteve na terra. Ele profetizou que esse templo seria profanado e destruído. Ora, o templo que foi construído no tempo de Esdras foi destruído na Guerra Judaico-Romana do primeiro século. Portanto, Daniel 9 não pode estar falando de nenhum período da história posterior à Guerra Judaico-Romana do primeiro século, e a semana 70 necessariamente precisa ter se cumprido no primeiro século.
MOTTA/CARVALHO – A tradição dos pais da igreja defende, através da pena de Eusébio de Cesareia, em seu livro História Eclesiástica, que João foi exilado em Patmos entre 90-95 d.C., pelo Imperador Domiciano, que reinou de 81-96 d.c. Como você se posiciona sobre a datação do livro de Apocalipse historicamente, uma vez que tal fonte contradiz a visão preterista de que o livro de Apocalipse foi escrito antes da queda do templo (70 d.C.)?
FRANK – Primeiro, é importante lembrar que os teólogos da história da Igreja são importantes, mas não são infalíveis. Então, o testemunho dos Pais da Igreja sobre qualquer assunto é importante, mas não é infalível. Eles podem estar errados. Somente os autores canônicos são infalíveis. Ou seja, nós devemos investigar o que os Pais da Igreja disseram, mas o mais importante é o que a própria Bíblia diz sobre si mesma. Eu creio que há muitas provas bíblicas de que todos os livros canônicos foram escritos antes da destruição de Jerusalém em 70 d.C.
Segundo, não há, entre os Pais da Igreja, uma única tradição sobre a datação do Apocalipse. Na verdade, há duas. Sim, havia aqueles que criam que o Apocalipse foi escrito na década de 90 do primeiro século, mas também havia aqueles que criam que o Apocalipse foi escrito antes da destruição de Jerusalém. Por exemplo, Clemente de Alexandria (século 2) argumentou, em sua obra “Stromata”, que todos os apóstolos, incluindo o apóstolo João, concluíram suas atividades ministeriais durante o reinado de Nero, antes da queda de Jerusalém. Há três importantes obras que recomendo sobre esse assunto. A primeira é “Redating the New Testament” de John A. T. Robinson. A segunda é “Before Jerusalem Fell” de Kenneth Gentry. A terceira é “The Canon of Scripture: A Presuppositional Study” de Phillip Kayser. Infelizmente, nenhuma das três foi traduzida para o português. As três obras apresentam razões bíblicas e históricas para crer que toda a Bíblia foi escrita antes de 70 AD no primeiro século.
MOTTA/CARVALHO – Em seu Sermão Escatológico (Mateus 24/Marcos 13/Lucas 21), Jesus disse aos seus apóstolos que alguns sinais haveriam de acontecer antes que o Templo fosse destruído e isso haveria de acontecer naquela geração. É possível sustentar, através das Escrituras e de fontes históricas, que eventos como falsos messias, nação contra nação, fome, pestes terremotos, falsos profetas e apostasia se cumpriram naquele curto espaço de tempo?
FRANK – Sim, com certeza.
A maioria dos sinais do Sermão Profético, o próprio Novo Testamento é suficiente para comprovar que se cumpriram no primeiro século. Jesus falou sobre o sinal da fome (Lc 21:11). O livro de Atos fala sobre o cumprimento desse sinal: “E naqueles dias desceram profetas de Jerusalém para Antioquia. E, levantando-se um deles, por nome Ágabo, dava a entender pelo Espírito, que haveria uma grande fome em todo o mundo, e isso aconteceu no tempo de Cláudio César. E os discípulos determinaram mandar, cada um conforme o que pudesse, socorro aos irmãos que habitavam na Judeia. O que eles com efeito fizeram, enviando-o aos presbíteros por mão de Barnabé e de Saulo” (Atos 11:27-30). Jesus falou sobre o sinal da perseguição: “Mas antes de todas estas coisas lançarão mão de vós, e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e às prisões, e conduzindo-vos à presença de reis e presidentes, por amor do meu nome” (Lc 21:11). Vemos isso acontecer desde os primeiros capítulos de Atos até o fim do livro. Além disso, tudo o que João ensinou em suas três epístolas foram, no contexto original, uma resposta ao cumprimento de uma parte específica da profecia de Jesus: “E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará. Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mt 24:11-13). É por isso que as três cartas do apóstolo João falam tanto sobre os anticristos, sobre o amor e sobre os mandamentos de Deus. Ele fala sobre os mandamentos porque cumpriu-se a profecia de Jesus sobre a multiplicação da iniquidade. Ele fala sobre a importância do amor porque cumpriu-se a profecia de Jesus sobre o esfriamento do amor. E ele fala sobre os anticristos porque cumpriu-se a profecia sobre os falsos profetas. Os anticristos das epístolas de João são os falsos profetas do Sermão Profético de Jesus. Ou seja, o que Jesus profetizou em Mateus 24:11-13 se cumpriu, e o apóstolo João escreveu suas três epístolas para responder ao problema dos falsos profetas, da multiplicação da iniquidade e do esfriamento do amor, que eram o cumprimento da profecia.
As fontes históricas da época também confirmam que esses sinais se cumpriram no primeiro século. As principais fontes que eu uso para entender a história da época são Flávio Josefo, Públio Cornélio Tácito e Caio Suetônio Tranquilo. Josefo era judeu. Tácito e Suetônio eram romanos. Os três escreveram sobre a história do Império Romano no primeiro século. Flávio Josefo escreveu uma obra inteira sobre a Guerra Judaico-Romana, que eu recomendo que todos leiam. Eusébio de Cesaréia também foi um importante historiador da Antiguidade. Em sua obra, “História Eclesiástica”, ele defende uma perspectiva preterista parcial do Sermão Profético.
MOTTA/CARVALHO – J. Stuart Russel (1816-1895) colocou o Segundo Advento no passado, defendendo que Ressurreição, Arrebatamento, Retorno Visível e Corpóreo, bem como Julgamento e Glorificação, aconteceram no ano 70 d.C. a todos aqueles que nasceram na Antiga Aliança. Embora Stuart, por não colocar todas as profecias no passado, não fosse um preterista completo, ele acreditava que as Escrituras não falam de mais de uma Parousia e que tudo o que se refere ao fim dos tempos, fim da era, dia do Juízo, grande julgamento, juizo final, vinda do filho do homem, está relacionado a um único evento. Stuart não defendia um duplo cumprimento, antes que, se a Parousia já aconteceu, todos os eventos ligados a ela também devem ter ocorrido. Você conhece essa posição? Poderia comentar sobre o assunto?
FRANK – Sim, conheço. Contudo, é uma perspectiva antibíblica.
Primeiro, Jesus negou diretamente que sua vinda para o Juízo Final aconteceria no contexto da Guerra Judaico-Romana. Sobre a Guerra Judaico-Romana, ele disse que aconteceria naquela mesma geração – a geração dos apóstolos (Mt 24:34). Sobre sua vinda para o Juízo Final, quando o céu e a terra passarão, ele disse que ninguém saberia quando aconteceria (v. 35-36). Isso prova que os dois eventos deveriam acontecer em épocas diferentes da história.
Segundo, o Novo Testamento deixa claro que a ressurreição que acontecerá na vinda de Cristo é uma ressurreição física: “E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita” (Rm 8:11). Nós ressuscitaremos fisicamente como Jesus: “E falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse-lhes: Paz seja convosco. E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito. E ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E, não o crendo eles ainda por causa da alegria, e estando maravilhados, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que comer? Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel; o que ele tomou, e comeu diante deles” (Lc 24:36-43). Não aconteceu nenhuma ressurreição física em 70 AD. Portanto, essa ressurreição ainda não aconteceu. E o apóstolo Paulo deixa claro que são hereges e falsos mestres aqueles que, antes do tempo, dizem que a ressurreição já aconteceu (2Tm 2:18).
Terceiro, o Novo Testamento deixa claro que, depois da vinda de Cristo para o Juízo Final, “não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (Ap 21:4). Essas coisas ainda existem no mundo. Portanto, são coisas que ainda precisam acontecer no futuro.
Não há nenhuma passagem da Bíblia indicando que qualquer uma dessas coisas aconteceria no primeiro século. Pelo contrário, há diversas passagens que provam a vinda de Cristo para o Juízo Final – a ressurreição dos mortos demoraria muitos séculos para acontecer.
MOTTA/CARVALHO – No que tange à escatologia individual, as Escrituras ensinam, através de alguns textos como Salmos 49:15 e Atos 2:27, que a alma dos servos da antiga aliança iria para Deus na eternidade, ao mesmo tempo em que textos como João 3:13 e 1 Coríntios 15:50 mostram que, talvez, “não ainda”. Como entender esse aparente paradoxo do estado intermediário? Todos aqueles que morriam na antiga aliança ficavam no Sheol junto dos ímpios ou ficavam em lugares distintos? O paraíso para os redimidos sempre foi uma realidade instantânea pós morte física, ou isso só foi possível após a ascensão do Filho do Homem?
FRANK – A ideia de que os crentes do Velho Testamento não iam para o céu quando morriam está errada. Todos os crentes em todas as épocas, antes ou depois da Nova Aliança, sempre foram para o céu mediante a morte.
Gênesis 2:7 ensina que o homem tem um corpo material e uma alma imaterial. Gênesis 3:19 ensina que, quando o homem morre, o seu corpo material se torna pó. E o que acontece com a alma imaterial? Eclesiastes 12 traz uma explicação à luz do juízo de Deus. Eclesiastes 12 ensina que devemos temer a Deus e guardar os seus mandamentos (v. 13) “porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (v. 14). Com base nessa ideia de juízo, Salomão ensina no mesmo capítulo o que acontecerá com o espírito imaterial dos justos: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu“ (v. 7). Sendo assim, Eclesiastes 12 claramente ensina que, no Velho Testamento, havia um juízo de Deus no momento da morte e que o espírito dos justos eram levados para a presença especial e gloriosa de Deus.
O Salmo 15 começa com uma pergunta: “SENHOR, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte?” (v. 1) Logo em seguida, a pergunta é respondida: “Aquele que anda sinceramente, e pratica a justiça, e fala a verdade no seu coração. Aquele que não difama com a sua língua, nem faz mal ao seu próximo, nem aceita nenhum opróbrio contra o seu próximo; a cujos olhos o réprobo é desprezado; mas honra os que temem ao Senhor; aquele que jura com dano seu, e contudo não muda. Aquele que não dá o seu dinheiro com usura, nem recebe peitas contra o inocente. Quem faz isto nunca será abalado.” (Sl 15:2-5) O objetivo aqui é descrever uma pessoa que vive em santidade. O “tabernáculo” e o “santo monte”, nesse salmo, são formas de se referir ao céu, como em Hebreus 9:23-24 e 12:22-23. Ou seja, o objetivo do Salmo 15 é ensinar que os santos vão para o céu. O tabernáculo terreno de Jerusalém, que ficava sobre um monte, era uma figura do céu (Hb 9:23-24), mas o Salmo 15 não estava falando sobre o tabernáculo terreno. Primeiro, porque ninguém morava no tabernáculo terreno. Segundo, porque o tabernáculo terreno não era frequentado somente por santos (Jr 7:8-11). O Salmo 15 é sobre outro tabernáculo. É sobre o tabernáculo celestial, que é o lugar da habitação especial de Deus. “Tabernáculo” é sinônimo de “templo” e “santuário”. Há vários salmos que chamam o céu de “tabernáculo”, “templo” e “santuário”:
“O Senhor está no seu santo templo, o trono do Senhor está nos céus; os seus olhos estão atentos, e as suas pálpebras provam os filhos dos homens.” (Sl 11:4)
“Ele atenderá à oração do desamparado, e não desprezará a sua oração. Isto se escreverá para a geração futura; e o povo que se criar louvará ao Senhor. Pois olhou desde o alto do seu santuário, desde os céus o Senhor contemplou a terra.” (Sl 102:17-19)
“Habitarei no teu tabernáculo para sempre“ (Sl 61:4).
O Salmo 24 ensina o mesmo que o Salmo 15: “Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente. Este receberá a bênção do Senhor e a justiça do Deus da sua salvação. Esta é a geração daqueles que buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó” (Sl 24:3-6). O objetivo desse salmo é ensinar que somente os santos entrariam no céu.
O Salmo 73 também fala sobre essa esperança do encontro com Deus no céu: “Tu me sustentaste pela minha mão direita. Guiar-me-ás com o teu conselho, e depois me receberás na glória. Quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti.” (v. 23-25)
Não há absolutamente nenhuma evidência bíblica de que, no Velho Testamento, os espíritos dos justos iam para outro lugar.
Em João 3:13, o ponto de Cristo não é dizer que ninguém foi ao céu antes dele. Se ele tivesse dito isso, Jesus estaria contradizendo 2 Reis 2:11, que diz que “Elias subiu ao céu num redemoinho”, Gênesis 5:24, que diz que “andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou”, e Hebreus 11:5 que diz que “Enoque foi trasladado para não ver a morte”. O ponto de Cristo em João 3:13 é dizer que, dentre os mestres de Israel que existiam naquele tempo, nenhum deles subiu ou desceu do céu. Nos versos 10-12, Cristo condenou os mestres de Israel que, como o fariseu Nicodemos, desconheciam a doutrina do novo nascimento. No verso 13, o objetivo é enfatizar que, diferente daqueles mestres ignorantes que não conheciam o céu, ele, Cristo, não era ignorante porque ele conhecia o céu e veio do céu. Sendo assim, quando Jesus disse, “ninguém subiu ao céu”, ele estava se referindo aos outros mestres que havia na terra em contraste com ele mesmo.
Para ler mais sobre essa questão, recomendo a obra “Compêndio de Teologia Apologética” de François Turretini, que foi publicada em português pela Editora Cultura Cristã. Ele fala sobre isso no tópico 12 do segundo volume. Recomendo também a obra “Psicopaniquia” de João Calvino. Essa obra foi publicada em português pela Editora Clire, e encontra-se no Volume 1 das “Obras de João Calvino”.
MOTTA/CARVALHO – Qual é a mensagem da escatologia para hoje?
FRANK – “O Apocalipse fala poderosamente hoje e sua mensagem para nós é a mesma que fora dada à Igreja primitiva: a de que não há um centímetro quadrado no céu, na terra ou debaixo da terra em que exista paz entre Cristo e Satanás.” (David Chilton)
MOTTA/CARVALHO – Uma última palavra?
FRANK – Tenham esperança porque Jesus reina e está fazendo novas todas as coisas!

Marcos Motta, 29 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é graduando em Processos Gerenciais, pela Universidade Estácio de Sá, e estudante autodidata de teologia. Autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como ministro de louvor. Casado com Talita Motta.

Leandro Carvalho, 37 anos. Esposo e Pai. Estudante de Teologia (IBE). Serve a Cristo na AD Distrito Mário Quintana, em Porto Alegre-RS.
tou passada com tanta revelação sobre o livro de apocalipse 😱 principalmente sobre a grande tribulação e os 144 mil. Reverendo Frank Brito vou procurar os seus vídeos sobre escatologia. Muito obrigado
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