Teologia da Prosperidade: desconstruindo o triunfalismo das igrejas pós-modernas

“para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.” (Efésios 4:14)

Estamos vendo, nos dias de hoje, o crescimento expressivo de um fenômeno no meio evangélico que, antes, pensávamos tratar-se apenas de um modismo e que logo passaria. Mas, qual nada, cada dia vemos ganhar forças nas igrejas evangélicas brasileiras.

O fenômeno chamado “triunfalismo” criou suas raízes, no meio cristão, como o principal fruto da Teologia da Prosperidade, com suas doutrinas, sem nenhum princípio teológico e embasado em textos bíblicos completamente distorcidos. Tal fato tornou-se preocupante aos líderes autênticos de igrejas conservadoras que apregoam o verdadeiro Evangelho de Cristo.

A Teologia da Prosperidade ou “Confissão Positiva” vem se expandindo pelo Brasil desde meados do século XX. Mostra-se com aparência de uma igreja bíblica, séria em levar a Palavra de Deus aos seus seguidores, contudo, seus preconizadores usam dos textos das Escrituras para mudarem o sentido original, conferindo interpretação da maneira que lhes convém os propósitos. E ainda afirmam que o desejo divino é que as pessoas sejam prósperas nesse mundo. Assim, ao tornarem-se crentes em Cristo, elas supostamente terão acesso a uma vida de bênçãos materiais, de conquistas, triunfando sobre todos os males que existem sobre elas, tanto na parte física como espiritual.

A vida cristã, conforme essa interpretação, corresponde a uma vida de vitórias em todas as áreas. O sofrimento, as doenças, o fracasso financeiro, as adversidades inerentes à vida, são entendidas como falta de “fé”, ou “pecado oculto”. Isso conduz os seguidores às “correntes de libertação” em suas igrejas, às “reuniões” e “campanhas de curas milagrosas e prosperidade financeira”, focadas nas necessidades humanas. O slogan apresentado para chamar a atenção do povo é: “você nasceu para vencer!”. Essa é uma expressão da “confissão positiva” que está firmada no princípio de que devemos “trazer à existência o que declaramos com a nossa boca”. Ao determinarmos com fé aquilo que desejamos, isto se tornará realidade.

Esse ensino triunfalista não apenas incentiva seus seguidores a não se entregarem ao desânimo ante as dificuldades enfrentadas por eles, mas também, faz com que eles se tornem pessoas arrogantes, orgulhosas, soberbas, presunçosas, chegando a confrontar o próprio Deus. São ensinamentos totalmente equivocados, sem amparo algum nas Escrituras. No entanto, tem atraído muitos desejosos em terem seus problemas solucionados.

Para os seus adeptos, o que importa é usufruir de uma vida próspera no tempo presente, sendo assim bem-sucedidos profissionalmente, bem como desfrutar de uma vida prazerosa com a família, tendo uma boa qualidade de vida, sem se preocupar com o amanhã. O importante é a felicidade hoje. Não se preocupam com o alerta de Jesus, nas Escrituras, quando diz na parábola do homem que acumulou fortuna e acreditou que assim seria feliz:

“Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lucas 12:20)

Conhecendo a Bíblia, e o que Deus requer de Seus filhos, nos certificaremos que em nenhum momento se percebe algum discurso triunfalista da parte de Deus ou dos Seus servos. Antes, o que vemos é a mensagem de esperança. Cristo conhece muito bem o nosso sofrimento, uma vez que passou por momentos de severidade muito maiores do que os nossos. Ele mesmo disse: “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo porque eu venci o mundo” (João 16:33). Ele jamais nos abandona. Prometeu que estaria conosco todos os dias “até a consumação dos séculos” (Mateus 28:20).

A ORIGEM DO MOVIMENTO

Segundo o teólogo Romeiro (2007), a origem de tal doutrina encontra-se numa antiga heresia denominada gnosticismo, surgida por volta dos séculos I e II da era cristã. A sua crença focava em verdades especiais elevadas às quais somente os “iluminados” poderiam “ter acesso”. Os gnósticos criam no princípio do dualismo, ou seja, que havia duas entidades separadas: espírito e corpo. O espírito era bom, enquanto a matéria era má, porque nela habitava o pecado.

A salvação vinha através do conhecimento (gnosis), contudo, para alcançá-la, era necessário combater o corpo com práticas ascéticas e místicas de meditação. Dessa forma, o corpo podia viver na impureza mantendo o espírito puro.

A Teologia da Prosperidade foi proclamada pelo movimento neopentecostal, que teve seu início em meados do século XX, nos Estados Unidos, tendo como seu pioneiro Essek Willian Kenyon. Porém, o seu defensor mais notável é Kenneth Hagin. Os seus ensinamentos vieram para o Brasil através de diversos líderes de igrejas grandes, entre os principais: o missionário R. R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça, Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, (dissidentes da Igreja de Nova Vida), engenheiro Jorge Tadeu, atualmente pastor e líder das Igrejas Maná, em Portugal; Valnice Milhomens, Mistério Palavra da Fé; Miguel Ângelo da Silva Ferreira, pastor da Igreja Evangélica Cristo Vive, no Rio de Janeiro; e Estevam e Sônia Hernandes, da Igreja Apostólica Renascer em Cristo.

A DOUTRINA FRAGMENTADA DO NEOPENTECOSTALISMO

O neopentecostalismo não segue uma linha teológica fixa. É um movimento dividido em que cada grupo define a sua própria linha de atuação. Não tem nenhum compromisso com as principais doutrinas da Graça. Não há exposição da Palavra de Deus. Os seus preletores usam versículos isolados e fora do contexto, focalizando sempre o homem com suas mensagens antropocêntricas. A palavra do líder é comparada à Palavra de Deus e o que ele determina é seguido pelos fiéis como regra e prática. Há inversão de valores. Deus passa a ser servo do homem.

Em tal segmento, estas pessoas exigem de Deus a satisfação de seus desejos (delas). Dessa forma, Deus fica obrigado a realizar o que lhe é exigido. Praticamente, não há prédica sobre arrependimento, confissão dos pecados e nem sobre salvação. A fé apenas é ensinada como o meio eficaz de obtenção de bênçãos e vitórias advindas de Deus. O foco não parece estar na conversão das pessoas, segundo o padrão bíblico, mas na simples adesão de membros em massa.

O triunfalismo ensinado é uma falsa doutrina que parte do entendimento de que, quando Deus criou o homem, entregou a ele o domínio sobre a criação terrena, concedendo-lhe “direitos” que poderiam ser reivindicados ante a divindade. Por ocasião da Queda, tais regalias, concedidas por Deus na criação do homem, foram transferidas a Satanás. Porém, Deus providencia o seu plano de Salvação, enviando Jesus ao mundo, e cumprindo a justiça dele. Com tal recurso, resgatou tais privilégios para o homem, que aceita a salvação vicária, voltando a ser o legítimo “detentor deles” diante de Deus. Dessa forma, todo salvo em Cristo passa a se sentir superior, dizendo-se ser “mais que vencedor”, porque triunfou sobre o diabo. Não aceita mais na vida dele, derrota, fracasso, doenças, miséria etc., pois todas essas adversidades são colocadas em sua vida pelo diabo e “fato é” que, hoje, este já não tem mais poder sobre a vida do cristão.

No entanto, é o contrário do que consta nas Escrituras, Deus não concedeu nenhum “direito” ao homem. O homem, ao ser feito à imagem e conforme a semelhança dEle, recebeu o domínio sobre a criação terrena, ou seja, o poder de administrar (Gênesis 1:26). Entretanto, o poder absoluto, o governo, a soberania sobre todas as coisas, continuam sendo dAquele que criou os céus e a terra, que mantém o controle de tudo. O triunfalismo não condiz com o cristianismo. Em nada se relaciona com a hermenêutica bíblica. São ensinamentos totalmente distorcidos da Palavra de Deus, que manipulam as pessoas a se relacionarem com Deus como se estivessem tratando de um negócio lucrativo. Comercializam Deus como um bem material.

ENSINAMENTOS EQUIVOCADOS

Para os pregadores da Prosperidade, ser feliz é ter riqueza, saúde física e alcançar tudo o que se deseja. Eles gostam muito de usar o texto de Paulo aos Filipenses (4:13):

“tudo posso naquele que me fortalece.”

O objetivo é ensinar que o crente pode ter o domínio de todas as coisas, bastando que ele determine o que deseja para si, “pensando positivo”, sem duvidar em seu coração.

Não há limite para se tomar posse das bênçãos requeridas. A fé propagada se restringe em alcançar o sucesso no campo material. A pobreza, a doença, a adversidade, não fazem parte da vida cristã. São caracterizadas como falta de fé, ou estar vivendo no pecado e, consequentemente, estar sem salvação. Por isso, o primeiro passo ensinado para tomar osse da bênção é a “determinação” – é saber se autovalorizar. R. R. Soares (1997) afirma, que Jesus pagou um alto preço para nos resgatar. “Mas, se o preço alto foi pago, é porque temos um alto valor para Deus, pois não se paga tanto por aquilo que tem pouco valor”. Segundo esse líder, a fé é necessária. É o primeiro passo para a vitória. Porém, se não der o segundo passo, que é falar para o problema sair, nada acontecerá. A fé é o combustível, a palavra é o veículo.

Ao instruir os fiéis sobre determinação, R. R. Soares (1997) usa o texto bíblico de João (14:13): “E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho”. Explica o missionário que, a partir da língua grega, a palavra “pedirdes” está mal traduzida. Não precisamos pedir bênçãos e, sim, determinar, exigir e mandar. Devemos tomar posse do que se aprendeu pela Palavra sobre o que nos pertence. Ou seja, precisamos determinar [ou exigir] que o mal saia da nossa vida, pois o próprio Jesus nos garante a vitória. Muitas pessoas sofrem, porque não determinam, e nem decretam a sua vitória. É necessário ordenar e exigir que o diabo tire as suas garras e desapareça de uma vez por todas da vida de seus seguidores e de suas famílias. O diabo é obrigado a obedecer, uma vez que o poder de Deus só pode entrar em ação quando o cristão determina a sua bênção. Essa determinação é feita em o Nome de Jesus.

O diabo, para esses líderes, é o causador de todos os males. Em suas igrejas, o ensino da batalha espiritual contra os demônios é aplicado aos fiéis, que se dizem vítimas de maldição hereditária, sendo orientados a fazer a “corrente de libertação”, chamada também, de “sessão de descarrego”, a fim de serem libertos das possessões demoníacas. Essas práticas são fruto do sincretismo e do misticismo resultantes da tentativa de conciliação entre a religião cristã e as religiões de matriz africana, como candomblé e a umbanda. Não à toa, essas igrejas incentivam o uso de objetos ungidos como forma de proteção, ou como forma de contato entre Deus e o homem – práticas comuns em religiões afro.

Nessa mesma linha de pensamento, segue Edir Macedo (2003), que usa o texto bíblico da carta de Paulo aos Efésios (6:11-13) que trata sobre a armadura de Deus. Para Macedo, a “palavra” tem uma força ilimitada. Quando plantada no coração essa semente, ela cresce e frutifica com a natureza. Ele menciona o texto do Evangelho de Marcos (9:23): “Tudo é possível ao que crê”. Ao serem proferidas por Jesus, essas palavras, diz Macedo, significam que não há limites para a fé. Aquilo que acreditamos nos sobrevirá. É onde reside o poder sobrenatural da fé, afirma ele. O cristão somente terá vida abundante se tiver coragem de assumir a fé sobrenatural e colocá-la em prática na sua própria vida.

Para Macedo (2004), o dízimo e as ofertas representam o próprio Jesus Cristo. Toda a oferta que é oferecida a Deus revela o que está no coração do ofertante e mostra o seu relacionamento com o seu Senhor. É através da oferta que a pessoa demonstra o seu amor, carinho e consideração a Deus. A espiritualidade da pessoa está na oferta que ela oferece a Deus. A oferta, segundo Macedo, é o instrumento pelo qual o ser humano se aproxima de Deus. Essa aproximação é desejada pelo Pai, que instituiu a oferta de sacrifício, a qual continua o processo da redenção da humanidade. O Senhor Jesus é a oferta de Deus-Pai para a salvação da humanidade, portanto, é a oferta perfeita. Se Jesus é a oferta perfeita, todas as ofertas são representações dele. Por isso, a oferta que oferecemos não pode ser imperfeita para representar o Filho de Deus. Caso contrário, ela não será aceita, e não poderá produzir resultados, conforme consta em Hebreus (10:19-22).

Os dízimos e as ofertas são fundamentais para que os fiéis recebam suas bênçãos. Os milagres operados nas igrejas que professam a Teologia da Prosperidade, segundo Mariano (2005), um dos sociólogos da religião no Brasil, são propostos como uma barganha do membro fiel para com Deus, à medida em que se paga os dízimos e ofertas em troca de bênçãos. O texto de Malaquias (3) é usado continuamente como base dessa alegação.

Um outro texto bastante usado por esses líderes está no Evangelho de João 14:12: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai”. Com esse texto, eles anunciam uma grande quantidade de milagres que supostamente realizam em suas igrejas.

Macedo (2004) enfatiza a questão do sacrifício, que é diferente da oferta. Segundo esse líder, o sacrifício é um ato de renúncia a algo em troca de outro muito mais valioso. Deus está sempre presente noato de dar e receber. Toda e qualquer conquista da vida tem o preço de sacrifício. Quanto maior o que se quer conquistar, maior será o sacrifício que terá que se oferecer para conseguir. Ele menciona o texto de Gênesis 3:19: “No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra”.

Para Macedo (2004), Deus criou a vida com três grandes propósitos: o primeiro, que ela fosse vivida em abundância com todos os seus direitos e privilégios, sem nenhuma forma de aflição, angústia ou preocupação: “eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10); o segundo é que ela não tivesse nenhum tipo de interrupção provocada por doenças, enfermidades, por dores, sofrimento ou morte (Isaías 53:4-5; (Romanos 6:23); o terceiro é o que ele considera mais importante: a manifestação da glória de Deus por toda a eternidade – a começar aqui pela Terra, conforme o Salmo de Davi (96:1-4).

CONTRAPONTOS BÍBLICOS

Desde o início da Igreja, o Apóstolo Paulo já enfrentava problemas com os falsos mestres que usavam a piedade como fonte de lucro. Eles diziam que, quanto mais piedosa a pessoa fosse, mais lucro alcançaria. Para que as pessoas fossem ricas, teriam que ter uma atitude piedosa.
Caso estivessem passando por alguma dificuldade, era porque não estavam bem espiritualmente. Esses falsos mestres relacionavam o lucro financeiro com a piedade e com a vida espiritual. Assim, dessa mesma forma, as igrejas que pregam a Teologia da Prosperidade estão fazendo.

Paulo refutou com dureza tal ensinamento daqueles falsos mestres. Segundo o apóstolo, tais ensinamentos advinham de mentes pervertidas e privadas da verdade (1 Timóteo 6:3-5). Segundo Paulo, a ideia sobre a prosperidade é totalmente o oposta. Seria suportar as privações e se contentar com o que Deus nos tem dado. A teologia do contentamento defendida por Paulo não significa que temos que nos acomodar e não buscar um resultado melhor para a nossa vida. Mas, significa que nós, mesmo fazendo o melhor em nosso trabalho, devemos ser gratos a Deus pelo que ele nos oferece. Pois tudo que temos é graça do Senhor – nós não merecemos nada. Deus nos dá, porque Ele é bom e misericordioso. Devemos estar satisfeitos com tudo que recebemos dele, pois já temos, de antemão, um tesouro garantido nos céus – a nossa salvação.

Paulo exorta, também, que aqueles que querem ficar ricos, sempre caem em tentações e ciladas:

“Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos, se atormentaram com muitas dores.” (1 Timóteo 6:9-10)

Os apregoadores da Teologia da Prosperidade, ao usarem o texto de Paulo aos Filipenses (4:13) que diz “tudo posso naquele que me fortalece”, esquecem-se de analisar o contexto em que o apóstolo se encontrava. Ao contrário da ideia de “poder” de “autovalorização”, como se fosse palavras mágicas para se conseguir tudo o que se deseja nessa vida, essa carta foi escrita quando o apóstolo estava na prisão, talvez em Roma ou Éfeso, como entendem a maioria dos teólogos. São palavras de encorajamento aos cristãos que estavam passando por grande tribulação.

O objetivo dessa missiva é incentivar os cristãos filipenses a suportarem as provações, em Cristo. Esse texto não se refere em nada à teologia triunfalista do evangelho pragmático pregado nas igrejas pós-modernas. Paulo, aí, afirma que os cristãos poderiam passar por essas provações sem deixar de proclamar a glória de Cristo. Para tanto, ele argumenta que já havia aprendido a se contentar em todas as circunstâncias já vividas: tanto na abundância, como na escassez. Já havia passado necessidade e fome, porém, o que importava para ele era Deus ser honrado e realizar os propósitos dEle (Filipenses 4:12-13).

A nossa fé precisa estar centrada em Deus somente, e não em nossas palavras. A definição de fé encontrada em Hebreus (11:1) diz: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem”. É uma fé genuína, e não algo místico. Devemos ter o conhecimento de Deus e de sua Palavra para podermos aplicar essa fé em nossa vida. É essa fé que tem poder. Quando Jesus disse “…se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele”, entendo ser sobre essa fé que Cristo está falando. Uma fé não para determinar que aconteçam curas, milagres, ou coisas impossíveis que queremos obter nessa vida, mas para ser usada no avanço do Reino inaugurado por Ele aqui na Terra.

Os milagres realizados, descritos nas Escrituras, sempre tiveram um propósito específico: mostrar a autoridade, o controle e a presença de Deus, em Sua soberania. Eles jamais ocorreram como eventos casuais. Deus não faz nada sem propósito. Os milagres sempre estão relacionados a uma determinação de Deus, no que diz respeito ao cumprimento de seus decretos de maneira visível e racional. Todos os milagres registrados na Bíblia ocorreram em sentido literal.

No Antigo Testamento, eles tinham o propósito de transmitir sinais da existência de Deus, do Seu poder e de mostrar a vontade dEle ao Seu povo. Os milagres autenticavam a Lei de Deus apresentada por seu mensageiro e chamava atenção para novas revelações. No Novo Testamento, no ministério público de Cristo, os milagres realizados revelavam a Sua glória. Não só atestavam a Sua divindade, mas, sobretudo, que viéssemos a crer que Ele é o Filho de Deus, e assim, pudéssemos ter vida em nome dEle.

Quanto aos milagres operados pelos apóstolos, por um tempo relativamente curto, estes ocorreram também com um propósito específico: o de autenticar e estabelecer a igreja na Terra. Passado esse período, a Bíblia não relata mais nenhum milagre operado por esses homens de Deus,como sinal de continuidade. Caso permanecesse esse propósito de Deus, Paulo teria curado Timóteo que se encontrava com uma enfermidade no estômago. Ele se limitou em sugerir a tomar um pouco de vinho (1 Timóteo 5:23), bem como partiu triste deixando o seu companheiro Epafrodito doente (Filipenses 2:26-27). [2]

O texto do Evangelho de João (10:10) que os proponentes da Teologia da Prosperidade usam para motivar os seus seguidores a buscarem uma vida de riqueza e bens materiais, alegando que Jesus veio para que tivéssemos vida, e uma vida em abundância, acaba por sofrer, por parte deles, uma interpretação totalmente equivocada. A Palavra “abundante” no texto, foi traduzida do grego perisson, que significa “muito, muito bem, além da medida, mais, supérfluo, uma quantidade tão abundante que chega a ser mais do que era de se esperar ou antecipar”. Considerando o significado, Jesus nos promete uma vida muito além daquilo que poderíamos idealizar. Jesus promete uma vida abundante para aqueles que nEle creem. Essa vida não consiste em algo físico, material, riqueza de bens, status econômico e prosperidade financeira. Ela consiste em um bem muito maior. É algo sublime e glorioso: a Vida Eterna – uma vida de conhecimento e comunhão sem fim com Deus.

Tomamos posse dessa vida no momento em que é implantada uma nova vida em nós – quando recebemos o Senhor Jesus como nosso Salvador. A partir desse momento, já podemos desfrutar da Vida Eterna. Não em sua plenitude, pois a vida plena somente será possível quando estivermos na glória com Deus, com nossos corpos transformados, no estado eterno. Entretanto, já podemos usufruir da alegria da salvação através do conhecimento do nosso Deus, que se revela a nós através de seu Filho Jesus Cristo: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro; e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3).]

Concluindo, o que temos visto infelizmente, é uma preocupação exagerada com as coisas dessa vida e com as condições daquilo que o mundo apresenta como sendo o melhor. Tais ilusões levam muitos a não se preocuparem com o que realmente tem valor. As pessoas não têm se preocupado com a segunda vinda de Jesus e com a vida no porvir. Preferem desfrutar dos bens materiais de uma vida financeira próspera, de riquezas e bem-estar, e buscam, continuamente, para suas vidas, mais bênçãos e vitórias. São esses os alvos pretendidos por aqueles que são doutrinados pelas promessas que os líderes das igrejas pós-modernas oferecem, ao usarem um evangelho totalmente distorcido.

São muitos que usam o nome de Deus, mas sem jamais andar com Ele. Não podemos viver nesse mundo como se a nossa esperança se resumisse apenas a essa vida. Nessa condição, seremos os mais miseráveis, como declara Paulo: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Coríntios 15:19).

O distanciamento de Deus, hoje, tem sido grande. Constatamos isso entre os crentes, porque não existe prática na profissão de fé deles. Não há comunhão com Deus. Não há amor entre os irmãos. Há, no entanto, uma imensa individualidade. Cada dia, os autodenominados cristãos ficam mais insensíveis à voz do Evangelho. Quando vão ao culto se congregar, o fazem tão somente para cumprir uma tradição de estar em um templo cumprindo um ritual. Estão de corpo presente, mas o pensamento está muito longe de Deus. Participam, porém, sem nenhuma reverência e lhes falta espiritualidade. Jesus falou no Evangelho de Mateus a esse respeito: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo, honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mateus 15:7-8).

As riquezas de Cristo nenhuma mente é capaz de conceber e ninguém é capaz de expressar com palavras. São riquezas que nos completam em todos os sentidos da vida – suprem todas as nossas necessidades, uma vez que Cristo é suficientemente capaz em tudo. É a essa riqueza que Paulo se referiu, quando disse: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo” (Efésios 3:8).

A Teologia da Prosperidade é totalmente nociva à vida cristã. Com sua interpretação triunfalista dos textos bíblicos [isolados e fora do contexto], não se preocupa com a glória de Deus. Chega até a blasfemar contra Deus no intuito, apenas, de que seus adeptos vivam uma vida para esse mundo somente, exaltando o ego e satisfazendo suas próprias necessidades. Infelizmente, no entanto, tem se alastrado em nosso país, prestando um grande desserviço ao Evangelho de Cristo.

Fomos Criados para Deus e para servi-lo de todo o nosso ser. Ele é o alvo de nossa vida. Nascemos para a Sua glória. Em quaisquer circunstâncias que estivermos, temos que dar bom testemunho. Deus sempre deve ser a prioridade em nossa vida.


Bibliografia

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ROMEIRO, Paulo. Supercrentes (São Paulo Mundo Cristão. 2007).

ROMEIRO, PAULO. Decepcionados com a Graça (São Paulo. Mundo Cristão. 2005).

MATOS, Alderi Souza de. Raízes históricas da teologia da prosperidade. Disponível em htps://www.ultimato.com.br/revista/artigos/313/raízes-historicas-da-teologia-da-prosperidade. Acesso em 05 de dezembro de 2018.

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MACEDO, Edir. O poder sobrenatural da fé (Rio de Janeiro. Universal. 2003).

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MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do novo Pentecostalismo no Brasil (São Paulo. Loyola. 2005).

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KISTEMAKER, Simon J. Os milagres de Jesus (São Paulo. Cultura Cristã. 2008).


Mariza Tavares de Souza é Advogada e Mestre em Divindade (M.Div), com concentração em estudos Históricos-Teológicos pelo Centro Presbiteriano Pós-Graduação Andrew Jumper. Bacharel em Direito, pela Universidade Federal do Pará (1984). Pós-Graduada em Direito Empresarial pela Universidade São Judas (2001). Professora da Escola Bíblica Dominical (classe Adultos) da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro – SP. Autora do livro Teologia da Prosperidade à Luz das Escrituras. Natural de Belém-PA, em 14/10/1956. Casada há 41 anos com o Professor Universitário Eloi Tavares de Souza, mãe e avó.

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