Stranger Things: Segredos e Solidão

No artigo anterior, Stranger Things e a ilusão da culpa [1], como um pano de fundo, foi exposta a questão da culpa e, em contrapartida, a comunhão da Igreja lançando luz nas trevas, eliminando o medo com através do amor. Desenvolvamos mais essa temática.

Percebemos, através da série Stranger Things, o estado interior abalado das personagens, seus segredos, e a esperada consequência de quem sente culpa: o afastamento das outras pessoas. Essa clara ilusão que as personagens têm de resolverem sozinhos seus problemas, recorda a “vontade de autonomia” – a motivação do primeiro pecado nesse mundo. Max, escondida em seus medos, vergonha e culpa, achava que conseguiria lidar com tudo aquilo sozinha, o que não aconteceu. Embora se note grande coragem por parte da personagem e certo destemor para com Vecna, afinal de contas, consegue feri-lo e ainda voltar para encará-lo pelo bem de seus amigos e de toda Hawkins, ela precisa ser ajudada por Eleven que, refugiada em boas lembranças, a encontra. Eleven teve de acalmá-la e, por fim, reanimar seu coração após ele parar de bater durante o segundo profundo transe, causado por Vecna.

No fim, Max não lutou sozinha e sim com Eleven, e antes disso foi salva por seus amigos através da descoberta da canção. Nenhum personagem conseguiu chegar longe sozinho. Note que, quando ocorre o primeira transe, a personagem, contrariada, se afastou de seus amigos para levar uma carta à Billy, e é neste momento que Vecna a ataca, quando ela estava só, longe de seus amigos e recordando novamente sua culpa. A ilusória autonomia sempre trai.

A fuga de Max

Quando me deparei com a cena de Max naquele mundo tenebroso e desconfortável, como que em um sonho terrível, e seu ato corajoso de ferir Vecna – ato esse originado da esperança e luz despertadas pela canção, fiquei paralisada e comovida, o que acabou dando origem a esses dois artigos. Max, que cedia espaço para o medo, condicionando a si mesma à imobilidade e à culpa e conferindo poder às palavras malignas e pesadas de Vecna, em meio ao vermelho desconfortável e infernal daquele lugar, é iluminada por uma abertura esperançosa onde via refletidos quem? Os seus amigos, chamando-a de volta, ao som de Running Up That Hill [2].

Pense em um portal grande e luminoso rasgando a escuridão de um mundo trevoso. Nesse momento, a personagem passa a recordar as alegrias de sua vida e traz à mente o que lhe dá esperança (Lm 3:21): pessoas amáveis e tudo o que é pertencente à luz. Isso acaba limitando a ação de Vecna. Ao contrário dos estados de paralisação e angústia que o medo provoca, Max motivada pelo amor e pela vida, reage e fere Vecna. Se desprendendo do monstro, Max corre em direção a seus amigos mirando essa abertura iluminada para o mundo real. Eis aqui a cena mais sensacional e emocionante dessa temporada (4ª).

Ela corre convicta para o que lhe pode salvar, sem olhar para trás e com os olhos fixos na luz. Enquanto isso, partes do mundo começam a desmoronar (via Vecna), fazendo com que mais e mais obstáculos caiam a todo momento em torno de Max. Ao fundo, Running Up That Hill, de Kate Bush, permanece ressoando.

Running Up That Hill [3]

A canção de 1985 foi escolhida por Nora Felder, responsável pela trilha sonora da série. Os irmãos Duffer queriam “um tema que refletisse a intensa luta emocional pela qual Max (Sadie Sink) passa, depois da morte do irmão”. A música expõe duas pessoas (homem e mulher) com problemas no relacionamento. A mulher deseja trocar de lugar com o homem a fim de que ele experimente o que ela enfrenta. Talvez, isso ajude a resolver os problemas entre eles. O plano é fazer um acordo com Deus para que Ele faça acontecer essa troca.

Toda a produção achou esta uma escolha perfeita para a luta de Max. No final do clipe, curiosamente se vê um céu vermelho, muito parecido com o cenário do mundo de Vecna. Max, através da canção despertadora que iluminou aquele mundo, consegue voltar para o mundo real na presença de seus amigos e claro, não desgruda mais do seu walkman, que toca incessantemente a música “salvadora”.

Dessa narrativa grandiosa, podemos facilmente perceber o quanto a culpa pode consumir o ser humano, como consumiu a Judas, e atormenta tantas outras almas próximas a nós, ou a nossa mesmo. As Escrituras nos encorajam a crermos que Deus é por nós e se alegra por um coração arrependido, jamais lançando culpa em rosto.

Pedro e Judas

O que as Escrituras nos dizem sobre a culpa? Analisemos Salmos 32:1-5:

Como é feliz aquele
a quem o Senhor não atribui culpa
e em quem não há hipocrisia!
Enquanto eu mantinha escondidos os meus pecados,
o meu corpo definhava de tanto gemer.
Pois, dia e noite a tua mão pesava sobre mim;
minhas forças foram-se esgotando
como em tempo de seca.
Então reconheci diante de ti o meu pecado
e não encobri as minhas culpas.
Eu disse: “Confessarei as minhas transgressões”,
ao Senhor, e tu perdoaste a culpa do meu pecado.

Somos encorajados a nos arrepender e recebemos a certeza da paz pela libertação da culpa através de Jesus. Entretanto, o texto nos adverte que manter as coisas escondidas, faz o corpo definhar e as forças se esgotarem. Max, embora não seja responsável pela culpa do irmão como pensa, culpa a si mesma porque reconhece que no fundo desejava isso, que algo de ruim lhe ocorresse. Agora, mesmo arrependida dos maus desejos, não consegue se libertar. Algo semelhante encontramos em dois personagens bíblicos.

Analisemos a história de Judas e Pedro nas Escrituras.

E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: Antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes. E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente. (Lucas 22:61-62)

Pedro pecou negando a Jesus. Só nos é possível tentar imaginar a tristeza que se instalou em seu coração ao ouvir o galo enquanto ainda estava a proferir a afirmação: “Não O conheço”. Deve ter sido um choro realmente amargo! Após a ressurreição de Cristo, a repetição das três negações de Pedro são revividas, mas inversamente, através da pergunta de Jesus: “Tu me amas, Pedro?” (Jo 21:17). Jesus a profere três vezes, e Pedro responde “sim” em todas. Novamente, podemos não mais que imaginar o coração de Pedro reagindo à esse perdão de Cristo que o livrou de todo tipo de culpa, e que ainda o convoca a prosseguir no serviço de Seu Reino.

Judas Iscariotes também era um dos doze apóstolos de Jesus. Ele O traiu e O entregou por trinta moedas de prata. Entrando em desespero, se enforcou. Antes disso, vendo que Jesus fora condenado, trouxe, arrependido, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, “dizendo: Pequei, traindo o sangue inocente. Eles, porém, disseram: Que nos importa? Isso é contigo. E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar” (Mt 27:3-5).

Em Judas, temos um claro exemplo da destruição causada pela culpa e pelo remorso. Estas o consumiram, levando-o a se enforcar, recordando Provérbios 28:17, que diz:

O assassino atormentado pela culpa será fugitivo até a morte; que ninguém o proteja!

O caso de Judas foi completamente diferente do caso de Pedro que, mesmo culpado, se arrependeu e confiou no perdão de Jesus, respondendo em Sua presença que O amava. A culpa não consumiu Pedro. Ele pôde viver o Salmo 32:1.

Mal conseguimos imaginar o que Pedro sentiu quando Jesus lhe dirigiu o olhar no momento de sua terceira negação, e enquanto o galo ainda cantava. Todavia, ele foi perdoado e prosseguiu convicto desse perdão, como expressa o Salmo 51:7:

Lava-me, e mais branco do que a neve serei.

Pedro acabou por ser convocado por Jesus para apascentar as Suas ovelhas (Jo 21:17).

Temos, aqui, dois exemplos de discípulos que cometeram graves transgressões e que eram, consequentemente, culpados, porém, que tiveram fins diferentes. Judas foi consumido pela culpa e se matou, enquanto Pedro se arrependeu, levantou e prosseguiu sua jornada, atendendo ao chamado do Senhor.

Que sejamos como Pedro! Que nos apeguemos ao amor e não ao medo, trazendo à mente o que nos dá esperança, orando a Deus “lava-me de toda a minha culpa” (Salmos 51:2), e cientes de que, além da manifestação de um espírito e coração quebrantado e contrito (Salmos 51:17), nada mais agrada a Deus. Que descansemos nisso e venhamos a fechar todas as brechas, não alimentando as trevas, e recordando sempre que no nosso mundo real, somos chamados por Deus para uma vida de luz, arrependimento e suficiência somente Nele. Que nossa certeza de perdão esteja em Jesus e não em nós mesmos, e que todas as manhãs possamos nos recordar que medo nenhum, mundo nenhum, nem demônios e nem a morte podem nos separar do amor de Deus.

Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 8:38-39)

Não esqueça de seguir nossa playlist no Spotify [4], que contém todas as canções que já citei em meus artigos.


REFERÊNCIAS

[1] Stranger Things e a ilusão da culpa

[2] Kate Bush – Running Up That Hill – Official Music Video (em inglês, original) – assista aqui a música legendada em Português-BR. E aqui, você pode ouvi-la na plataforma Spotify.

[3] Curiosidades sobre a música de Kate Bush.

[4] Clique aqui e ouça a nossa playlist no Spotify.


Francine Cabanas Tobin é fotógrafa, artesã e musicista da Igreja Assembleia de Deus Jardim Botânico, em Porto Alegre – RS. Graduada em Fotografia, pela ULBRA, em Canoas – RS e mestranda em Teologia pela EST – RS. Através da fotografia autoral, vem criando séries fotográficas com uma poética visual inspirada na cosmovisão cristã, buscando dialogar com as duas linguagens: fotografia e teologia.

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