Muitas pessoas se perguntam por que o mal assola a humanidade. Qual é a razão da existência de tanta maldade, tanta dor, tanta tristeza? Por que morremos? Por que sofremos? Por que o bem, a alegria, a felicidade, a paz e o amor não prevalecem? E, quando prevalecem, por que isto acontece às custas de tantas lutas e mortes? Hernandes Dias Lopes escreve:
“De onde procede o mal? Qual é a sua origem? Se Deus criou tudo perfeito e avaliou a Sua criação com nota máxima (Gn 1:3), por que o mundo mergulhou em densas trevas, rebelando-se contra o Criador?”[1]
Há, no cristianismo, uma doutrina que busca responder a esses e outros questionamentos.
A Doutrina do Pecado Original é uma doutrina que foi desenvolvida por Santo Agostinho, numa controvérsia com o monge Pelágio da Bretanha, a qual pretende explicar a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal através da Queda do homem. Tal doutrina não existe nas demais religiões e nem é vista com bons olhos pela filosofia moderna.
Segundo esta doutrina, os primeiros seres humanos e antepassados da humanidade, Adão e Eva, foram advertidos por Deus de que, se comessem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, certamente morreriam. Esta morte, como veremos, não se referia apenas à morte física, mas também, à morte espiritual do ser humano. Não obstante a ameaça de castigo, instigados pela serpente, ambos comeram o fruto proibido, tendo Eva cedido primeiramente à tentação e posteriormente oferecido o fruto a Adão, que o aceitou. Ambos, em primeira instância, continuaram vivos, mas foram expulsos do Jardim do Éden.
O que ensinam as religiões?[2]
A Doutrina do Pecado Original, da forma como é entendida pelo cristianismo, está ausente nas religiões afro-brasileiras e no kardecismo. Estes grupos veem a ideia do pecado original com desdém. No candomblé existe o erro, mas não o pecado. No kardecismo, a doutrina gnóstica que afirma que a matéria física é má é a chave para entender o que vem a ser pecado.
Já no mormonismo, a definição de pecado é bastante parecida com a do kardecismo. O mal existe necessariamente no universo, à medida que o ser humano tem o livre-arbítrio.
Segundo o islamismo, a natureza humana não é pecaminosa. As pessoas não nascem em pecado. A Queda de Adão e Eva não trouxe prejuízo para a natureza humana, pois o ser humano é essencialmente bom.
No hinduísmo e numa forma popular de panteísmo, como no movimento da Nova Era, a questão do problema do ser humano não é colocada em termos de um problema ético, mas (como no kardecismo) como um problema ontológico. Os adeptos da Nova Era negam cabalmente que o ser humano seja pecador. Eles negam que exista uma distinção entre o bem e o mal.
O que ensina a filosofia?[3]
O naturalismo filosófico inclui muitas filosofias que têm noções diferentes da natureza do homem. Atualmente, existe um consenso entre os sistemas naturalistas quanto à origem do ser humano a partir de animais inferiores, através do processo evolutivo, como preconizado pelo neodarwinismo. Assim, os atributos da natureza humana se desenvolveram pelo mecanismo da seleção natural, ou seja, por meio da sobrevivência dos mais aptos. Por isto, os conceitos de bem e mal, justiça e pecado, são meras convenções que a sociedade adotou, e que ajudaram a raça humana a sobreviver. Não existem absolutos morais e, assim, não existe o pecado. Quaisquer defeitos que o ser humano tenha são resultado do processo evolutivo. A inclinação para a violência é um remanescente da natureza animal, da qual o homem evoluiu. Alguns naturalistas acreditam que a natureza humana é boa; outros, que esta natureza é má; e outros ainda, como Jean-Paul Sartre, que o homem é o criador da sua própria natureza.
O que ensinam os documentos históricos do cristianismo?
O cristianismo possui muitos documentos históricos importantes, os quais nos ajudam a identificar e a distinguir em que consiste a fé cristã. São os credos, confissões ou declarações de fé e os catecismos. Esses documentos, redigidos ao longo da História, foram desenvolvidos a partir da sistematização do ensino bíblico. Analisemos o que dizem os documentos históricos a respeito do pecado original:
A Confissão Belga trata do assunto da seguinte maneira:
“Cremos que, pela desobediência de Adão, o pecado original se estendeu por todo o gênero humano. Esse pecado é uma depravação de toda a natureza humana e um mal hereditário, com o qual até as crianças no ventre de suas mães, estão contaminadas. É a raiz que produz no homem todo tipo de pecado. […] rejeitamos o erro do Pelagianismo, que diz que o pecado é somente uma questão de imitação.”[4]
O Catecismo de Heidelberg ensina o que se segue:
“PERGUNTA 7. De onde vem, então, essa natureza corrompida do homem?
RESPOSTA. Da Queda e da desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva, no paraíso. Ali, nossa natureza tornou-se tão envenenada, que todos nós somos concebidos em pecado e nascemos nele.”[5]
Os Cânones de Dort esclarecem sobre o resultado da Queda.
“Artigo 1 – O resultado da queda. No princípio, o homem foi criado à imagem de Deus. Foi adornado em seu entendimento com a verdadeiro e salutar conhecimento de Deus e de todas as coisas espirituais. Sua vontade e seu coração eram retos, todos os seus afetos, puros; portanto, era o homem completamente santo. Mas, desviando-se de Deus sob instigação do diabo e pela sua livre vontade, se privou desses dons excelentes. Em lugar disso, trouxe sobre si cegueira, trevas terríveis, leviano e perverso juízo em seu entendimento; malícia, rebeldia e dureza em sua vontade e em seu coração, e ainda impureza em todos os seus afetos.”[6]
A Confissão de Fé de Westminster, um dos principais documentos já elaborados pelo cristianismo, trata do assunto em seu sexto capítulo:
“III. Sendo eles [Adão e Eva] o tronco de toda a humanidade, o delito de seus pecados foi imputado a seus filhos, a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foi transmitida a toda a sua posteridade, que deles procede por geração ordinária. Referências bíblicas: At 17.26; Gn 2.17; Rm 5.12,15-19; 1Co 15.21-22,45,49; SI 51.5; Gn 5.3; Jo 3.6.
IV. Dessa corrupção original, pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo mal, procedem todas as transgressões atuais. Referências bíblicas: Rm 5.6; Rm 7.18; Rm 8.7; CI 1.21; Gn 6.5; Gn 8.21; Rm 3.10-12; Tg 1.14-15; Ef 2.2-3; Mt 15.19.”[7]
Olhando para os tempos atuais, mas sem abdicar da classificação “documento histórico”, temos a recente e já histórica Declaração de Fé das Assembleias de Deus, elaborada em 2016, no Brasil. Este documento também discorre sobre o tema do pecado original:
“4. O pecado original. Adão não foi criado impecável, nem pecaminoso, mas, sim, perfeito: “Deus fez ao homem reto, mas ele buscou muitas invenções” (Ec 7.29). Deus dotou Adão do livre-arbítrio, com o qual ele era capaz tanto de obedecer quanto de desobedecer ao Criador. Ele escolheu desobedecer a Deus, e a sua queda arruinou toda a humanidade, distanciando-a de Deus: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). A iniquidade de Adão, a qual nós chamamos de pecado original, contaminou toda a raça humana; em consequência disso, a humanidade tornou-se universal e totalmente degenerada, pois todos os seus descendentes nascem em pecado; todos nascemos em transgressão. […]”[8]
O que ensina a Bíblia sobre a historicidade da Queda?
Para os autores bíblicos, o relato da Queda do homem é uma história objetiva e verídica, e que dá sentido à nossa história pessoal. Por isso, a ênfase do Novo Testamento sobre o fato de que “por um só homem entrou o pecado no mundo” e que “o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação” (Rm 5:12, 16), e no fato de que “Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1Tm 2:14).
O próprio Jesus Cristo baseia seu ensinamento a respeito do divórcio numa compreensão literal e histórica de Gênesis 1:27; 2:24. Cristo argumenta contra a compreensão frouxa dos judeus dos motivos para o divórcio, apelando para a instituição original do casamento. Na Criação, Deus fez apenas um homem (Adão) e uma mulher (Eva). Esses foram unidos em matrimônio por Deus. Fica claro que Jesus via Gênesis 2:24 (juntamente com Gn 1:27) como uma ordenança da Criação, e se Ele via este ponto, bem como Adão e Eva como personagens históricas, logo a Queda do primeiro casal, na mente de Cristo, não era um mito nem mero simbolismo.
Ora, se Jesus não via o relato da Criação e, consequentemente, da Queda, como tendo natureza mitológica, ou mentiu propositalmente ao povo (para satisfazer ensinos judaicos errôneos sobre Adão) ou, então, Ele não pode ser o Messias ou o Filho de Deus. Ou cremos nas palavras de Cristo ou colocamos o cristianismo de lado. Não há meio termo nesse assunto.
O pecado original e suas consequências
A Queda do homem, especialmente relacionada com o pecado original, foi um dos dois marcos históricos mais importantes da história da humanidade. No Éden, Adão e Eva viviam de um modo muito diferente de como vivemos. Eles estavam à vontade em seu mundo, felizes em seu casamento, abençoados em sua vida e em seu trabalho e em paz com o seu Deus. Culpa e vergonha, enfermidades e morte, lascívia e desejo, angústia, morte e inimizade, e perigo, eram desconhecidos. Não havia espinhos para feri-los, nem cardos para desfigurar a beleza de seu jardim, nem suor sobre seu rosto. Tudo mudou quando eles sucumbiram as mentiras da serpente e quebraram a lei de Deus.[9]
Olhando para o texto bíblico, podemos entender que o pecado original aconteceu antes mesmo que Adão e Eva comessem do fruto e a Queda fosse, assim, levada à cabo. O fato é que quando Eva e, depois, Adão decidiram que cabia a eles julgar entre a Palavra de Deus e a palavra da serpente, a Queda aconteceu – e isto certamente aconteceu antes da decisão de tomar do fruto e comê-lo. O pecado original é, nada mais nada menos, que a declaração, por parte do homem e da mulher, de sua independência em relação à autoridade de Deus. No momento em que os dois colocaram sua própria razão como juiz sobre a revelação de Deus a fim de decidir se esta era correta ou não, caíram em pecado. Tendo feito isso, a decisão de comer do fruto foi apenas uma consequência natural.
Adão e Eva, assim, se colocaram no lugar de Deus como referencial supremo para interpretar a realidade. Esta foi a essência do pecado original. Os atos de desobediência foram resultado do pecado de declarar autonomia diante de Deus e tentar ascender ao trono dele, tomando o Seu lugar.
Os resultados do primeiro pecado se manifestaram imediatamente nas vidas do primeiro casal. Todas as partes da natureza humana sofreram os danos do pecado: a mente, a vontade, as emoções e até o corpo. O homem se alienou de Deus, dos seus semelhantes, da natureza e de si mesmo, sofrendo a morte espiritual ao perder a comunhão com seu Criador.
Dali em diante, o trabalho se tomou uma tarefa árdua e difícil. Os animais passaram a ter medo do homem, e o cultivo da terra se tomou uma luta. O cuidado e o desenvolvimento dos recursos naturais foram deturpados e a partir do trabalho do homem deu-se a exploração e a poluição da natureza. O primeiro assassinato veio à reboque.
O homem entrou na busca de poder, bens materiais, sexo, idolatria, religiões falsas e todo tipo de vício, a fim de preencher o vazio que se instalara em seu coração. Mas não encontrou sossego em nenhum desses ídolos – a paz interior foi perdida. Além de tudo isso, a raça humana foi condenada ao processo de envelhecimento e morte física. Foi banido de um lugar de ordem, onde as suas necessidades eram completamente satisfeitas, para um mundo selvagem e cheio de perigo. O homem foi condenado a viver debaixo do fardo do pecado e também a passar para toda a sua descendência a mesma natureza corrompida e decaída que agora era parte dele.
Devemos afirmar que a narrativa da Queda oferece uma explicação convincente para a perversão da natureza humana. Como Pascal escreveu, a Doutrina do Pecado Original parece uma ofensa à razão, porém, uma vez aceita, dá total sentido à condição humana. Sem esse relato, somos incompreensíveis a nós mesmos – as mais diversas religiões do mundo foram inventadas justamente numa tentativa do próprio ser humano de encontrar sentido para si mesmo. Caído, no entanto, em nada encontra sentido, não compreendendo a si mesmo.
[1] LOPES, Hernandes Dias. Gênesis: o livro das origens (Hagnos, 2021), 27.
[2] FERREIRA, Franklin. MYATT, Alan. Teologia sistemática : uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual (Vida Nova, 2007), 423-425.
[3] Ibidem, 425.
[4] Artigo 15. Confissão Belga (Revisada pelo Sínodo Nacional, realizado em Dordrecht [1618-1619]).
[5] Pergunta 7. Catecismo de Heidelberg (ou Método de Instrução na Religião Cristã como se encontra nas Igrejas e Escolas Reformadas na Holanda e nos Estados Unidos da América).
[6] 3° e 4° Capítulos da Doutrina. Artigo 1. Os Cânones de Dort.
[7] Capítulo VI. Da Queda do Homem, do pecado e do seu castigo. Parágrafos III e IV. Confissão de Fé de Westminster (1647).
[8] CAPÍTULO IX. Sobre o Pecado e suas consequências. Parágrafo 4. Declaração de Fé das Assembleias de Deus (CPAD, 2016).
[9] A Queda do Homem. Bíblia de Estudo Herança Reformada (Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil. 2018), pg 14.

Marcos Motta, 29 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é graduando em Processos Gerenciais, pela Universidade Estácio de Sá, e estudante autodidata de teologia. Autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como ministro de louvor. Casado com Talita Motta.