Em meados de maio de 2022, durante a época fria e chuvosa que marcou aquele mês, foi ao ar, na plataforma de streaming Netflix, a 4ª temporada da série Stranger Things, a qual causou diversas reações nos telespectadores devido ao surpreendente rumo da história e às ocorrências extremamente inesperadas no enredo. Ao assistir a série, me foi impossível não associar alguns pontos da série a temáticas originalmente bíblicas, pontos estes como a culpa – temática que tomou conta da série. Será sobre ela que nos deteremos neste artigo.
Sobre a análise de elementos culturais e produções artísticas
Acho válido enfatizar o necessário cuidado que devemos ter para não cairmos no fanatismo e no fardo de necessariamente termos de procurar encontrar aspectos bíblicos em tudo quanto é série – como muito tem sido feito atualmente. O tal “redimir a cultura”. Acredito que olhar para as produções culturais sempre na gana ou busca por encontrar um apelo teológico nas obras seja um hábito que carece de muito cuidado, pois isto pode se transformar em um vício infrutífero – em muitas situações estaremos tentando impor nossa cosmovisão a todo custo sobre uma determinada produção que é pautada por uma outra cosmovisão, a qual não carrega as mesmas pautas que nós e, muito menos, os mesmos valores.
É fato que em muitas manifestações artísticas estão presentes, sim, um apelo teológico, referências claramente bíblicas, aspectos religiosos ou costumes e valores cristãos, os quais nos possibilitam uma excelente abertura para o diálogo cultural – um ponto de contato. Mas, isso não é regra. Sem falar no fato de que precisamos de lazer e entretenimento. Lazer e entretenimento, quando não incentivam o pecado propriamente dito, glorificam a Deus justamente por serem lazer e entretenimento, desfrutados por um cristão que dedica seu gozo e contentamento a Deus, que os vê como dádivas de Deus. Lazer e entretenimento não precisam carregar uma mensagem explícita ou implicitamente religiosa ou espiritual. Quando desfrutados de maneira saudável, lazer e entretenimento glorificam a Deus e Sua Graça para com os pecadores, sendo isso e tão somente isso: lazer e entretenimento.
Enfatizo o cuidado que devemos ter para com essas análises e percepções de pontos de contato entre o cristianismo e variadas produções artísticas, porque recentemente li vários textos, matérias, blogs, posts e assisti vídeos que analisavam Stranger Things à luz do cristianismo e encontrei muitos exageros. Me interessei por fazer essa pesquisa porque a 4ª temporada, em especial, me trouxe à mente diversos ensinamentos das Escrituras por trazer à tona o problema da culpa. Pus-me a procurar textos sobre a série e me chamou a atenção que, em alguns casos, é perceptível a tentativa exagerada de se encontrar um significado oculto e cristão em tudo, o que sinceramente já acredito ser um desserviço no diálogo da teologia com a cultura secular. Esse diálogo é para ser bom, sincero, equilibrado e útil, como Paulo em Atenas que, ao se encontrar com o “altar ao deus desconhecido” (Atos 17: 23-28), pregou àquele povo que este “desconhecido” era o Deus que ele veio anunciar. Paulo, nesse caso, partindo da cultura daquele povo, encontrou uma oportunidade para lhes falar de seu Deus, o que nos ensina que, sim, podemos fazer isso, mas convém fazê-lo com prudência e honestidade.
A nova temporada de Stranger Things
A 4ª temporada de ST já se inicia com um massacre no laboratório – o enredo dá a entender que Eleven é a culpada e a assassina em voga. A culpa está presente desde o início. A própria personagem acredita nisso e se culpa fortemente, fato este que a assombra e inclusive a torna agressiva em certos momentos.
Em seguida, nos deparamos com o famoso 4º episódio: “Dear Billy”. Nele, temos Max, uma personagem que se mostra cheia de culpa. Uma das amostras de sua culpa, é encontrada na cena em que ela lê uma carta ao irmão em sua sepultura, o que representa o seu período de luto. O problema é que Max mascara o peso desse sentimento que carrega, não o compartilhando com as pessoas próximas a ela, escondendo e acobertando essa perturbação interior. Bem como Matt Duffer disse em entrevista: “Ela afasta as pessoas, o que torna tudo mais difícil” [1]. Essa temporada está repleta de situações onde as personagens escondem muitos segredos, fatos e sentimentos dos entes queridos mais próximos, o que resulta em solidão e muita culpa.
Max superficialmente defendia para seus amigos e família (para quem ela mais deveria contar segredos e se abrir) estar bem quando, na verdade, carregava pesada culpa pela morte de seu irmão, carecendo assim de muitos remédios para dormir e se acalmar. Vecna atuou exatamente nesse segredo de Max, nessa penumbra que ela criou e pensou que poderia vencer sozinha.
Vecna
O vilão da série é Vecna, monstro que curiosamente atua exatamente sobre essa culpa. Ele se move e tem poder na medida em que suas vítimas se deixam dominar pela culpa que sentem e, mais do que isso, quando encobrem esse sentimento, não o trazendo para a luz, se afundando cada vez mais na escuridão que, por Vecna e através da própria escolha das personagens de não compartilhar, é retroalimentada, numa simbiose macabra. O monstro explora e apavora através do medo e da culpa, deixando suas vítimas em transe.
As minhas culpas me afogam; são como um fardo pesado e insuportável. (Salmos 38:4)
O bem e o mal
Algo de muito valor na temporada em questão é a clara diferenciação entre o bem e o mal que os produtores conseguiram construir, a qual se dá através de diversos símbolos. Por essa razão, acredito que esta seja uma produção que pode lançar luz sobre esses conceitos os quais constantemente são apresentados de modo obscuro e relativizado nas produções da Netflix. Por vezes, definem de modo confuso o que são realmente o bem e o mal (ou não definem), de maneira que tudo se torna suscetível às interpretações subjetivas do espectador.
O brasileiro retratista e especialista em imagem João Menna publicou no Instagram [2] uma excelente análise simbólica da 4ª temporada de ST e trouxe à lume a questão dos arquétipos, introduzindo o arquétipo do bem e do mal na série. Menna escreve sobre a importância do mal ser representado como mal, expondo Vecna como essa verdadeira representação maligna, o que é perceptível em suas características monstruosas e também nas intenções do vilão: “Ele quer matar as pessoas, quer que elas façam parte dele, e ele faz justamente o que o demônio quer: matar as pessoas através da culpa”, diz Menna. Menna faz um paralelo com o objetivo do Diabo, que não é o pecado, “o pecado é uma fraqueza humana. O objetivo do diabo é manter as pessoas presas na culpa de terem pecado. Sem a verdadeira libertação. Max se culpa pela morte do irmão” – a forma como ela escapa do transe de Vecna veremos mais à frente.
Note que esta imagem de Vecna definitivamente nos causa medo, desconforto, e rapidamente associamos ela ao mal. As semelhanças com uma grande aranha, remetendo a um monstro, assombram. Tem-se, na série, o bem como o bem e o mal como o mal: “o mal existe e ele deve sim ser representado (…). Ainda mais quando é representado de forma verdadeira, e principalmente, quando nos é apresentado a beleza, a amizade e o amor como a cura”, palavras de Menna.
Um dos métodos usados por Vecna para alcançar seus objetivos é atuar na culpa, no medo que é contrário ao amor. O vilão entra no inconsciente do ser humano e age no que lhe é sombrio, no medo, no que mais lhe dói, no que o ser humano não expõe. Vecna não é conhecido por estar presente em memórias felizes, agradáveis, na alegria da comunhão, e sim nas coisas opostas a essas. Aqui reside uma válida reflexão: “praticamente todas as pessoas tem o Vecna presente em suas vidas” [3] , pois todos lidamos, em algum nível, com a sensação da culpa, dos medos e do que não é bom.
A liturgia de Vecna
A série que, desde o começo, faz paralelos com histórias de RPG, adapta o monstro Vecna de Dungeons & Dragons, um dos mais famosos jogos do gênero. Vecna é um dos maiores vilões deste jogo. Nele, Vecna nasceu como um humano, aprendendo artes místicas, até se tornar um mestre das artes negras [4], alguém que é muito poderoso, capaz de se reerguer de diversos combates.
O deus maligno dos mortos-vivos tem a temática dos segredos como algo central. “Ele governa o que não deve ser conhecido e tudo sobre o que as pessoas querem manter em segredo” [5]. O vilão ordena a seus conjuradores e conspiradores a nunca revelarem tudo o que sabem e “encontrar a semente das trevas no seu coração e protegê-la; encontrá-la nos demais e tirar vantagem disso” [6].
Vecna busca jovens com traumas para serem suas vítimas. Estando ligado ao Devorador de Mentes, ambos visam abrir portais em nosso mundo e atacar a humanidade. É curioso que a finalidade dos ataques de Vecna seja isso de abrir brechas – grandiosas brechas. Ele visa rachar a superfície da terra – e conseguir isso não meramente atuando em pontos aleatórios e sem propósito, outrossim, iniciando pelos locais onde matou suas vítimas, para, por meio dessas brechas, atacar o mundo através de Hawkins. Através de traumas que resultam em mortes, ele abre quatro portais.
Ao que parece, Vecna demonstra ter uma liturgia para todo o seu plano, desde o início. Suas quase vítimas – Max e Nancy – descrevem sempre os acontecimentos numa mesma ordem cronológica: a) atuar em algum medo, b) as batidas do relógio, c) e a frase ao posicionar a mão para possuir a pessoa: “Seu sofrimento está quase no fim”.
Poderia-se dizer que o vilão só tem poder sobre quem lhe dá poder. É interessante que, quando ele, ainda como Peter (o número Um), ataca Eleven quase a matando, Jane o vence, se fortalecendo na lembrança do amor de sua mãe. Têm-se aqui lembranças positivas como salvadoras e possíveis libertadoras da culpa e do medo – um refúgio no amor. Para um vilão que atua na penumbra da mente humana, era de se esperar que momentos bons e revigorantes da vida pudessem ser um antídoto contra esse transe que afunda o ser nas sombras.
Quando o monstro chega em Max, a personagem que cativou o público com sua personalidade e seu tocador de fitas – os antigos “walkmans”, ela se deixa dominar pela culpa, afundando a si mesma no remorso infundado pela morte de seu irmão. Prato cheio para Vecna! Ficando imobilizada, dá poder a Vecna que estende sua mão para possuí-la. Nesse momento, Robin e Nancy descobrem que uma música amada por Max poderia despertar-lhe do estado de transe, salvando-lhe a alma. A música encontra lugares profundos em seu inconsciente, despertando boas recordações, fazendo Max correr para longe de Vecna, num tipo de “libertação da culpa”, uma luz que ilumina.
O que temos aqui não é simplesmente uma música, mas a força da realidade para a qual a música remete Max, que são os momentos felizes e reais que ela viveu com as pessoas que ela ama e que a amam. A canção desperta a personagem para a luz, para o amor.
A culpa e a comunhão
Assistir à série é como se nos colocássemos em contato com tensões do íntimo do ser. Quantas vezes nos culpamos, lamentamos, lutamos e nos ansiamos sozinhos, quando, à luz das Escrituras, na pessoa de Jesus, temos a remissão de pecados que elimina toda a culpa, lança fora o medo, perdoa e cura traumas, e nos torna em Nova Criação?
Por outro lado, a realidade é que a culpa ainda assola a humanidade, atormentando as mentes, razão pela qual acredito no impacto da série sobre os telespectadores. Através dela, podemos fazer uma revisão do nosso interior, buscando tudo aquilo que tentamos guardar e acobertar quando, na verdade, deveríamos trazer para a luz, nos arrepender e confiar em Deus.
É discurso moderno a ilusão de que conseguimos tudo por nós mesmos, pela nossa força interior. Isso é fruto da modernidade que “se caracteriza pela colocação do indivíduo como medida e como fim” [7], nos fadando a dependermos de nós mesmos e desse nosso coração caído, de uma inconstância que a cada dia quer algo diferente e que se acomoda sempre no que for melhor para si; uma relação narcísica. Esse discurso de que “conseguimos sozinhos” é a ilusão mais bem maquiada que acompanha a mentalidade contemporânea. Recentemente, li uma citação de J. I. Packer sobre a autonomia do “olhe para dentro”:
Foi precisamente porque o homem acolheu a perspectiva de se tornar a medida e o juiz de todas as coisas que o pecado entrou pela primeira vez no mundo.
Contrário a essa individualidade doentia, temos a realidade da Igreja como comunidade de pessoas diversas e diferentes, mas com um mesmo objetivo, unidas pelo mesmo Salvador. Na Trindade, Deus claramente nos ensina sobre o relacionamento e sua importância, bem como na criação de Eva, onde Deus dá a Adão uma companheira, e estimula a comunhão. Cristo morreu para formar a Igreja na qual, como refúgio, vivência e parte do corpo de Jesus, compartilhamos, oramos e choramos juntos, sem segredos, trazendo para a luz as aflições da vida – já pré-anunciadas por Jesus (João 16:33).
É valido relembrar que, na jornada analítica dos símbolos, trazida por Menna e já citada aqui, a imagem de uma igreja é tida como um cenário de esperança para Hopper, em meio aos comunistas, em uma comovente e breve cena. Concluindo este primeiro artigo sobre a 4ª temporada de ST e tendo todo este pano de fundo em mente, é possível notar que, na série, as personagens tinham muitos segredos, coisas encobertas, manifestações ilusórias de estado de tranquilidade, quando na verdade precisavam trazer essas coisas para a luz e compartilhá-las com as pessoas que as amam, para que o que estava sendo alimentado na escuridão e pela escuridão desaparecesse.
A verdade é que nenhum de nós precisa enfrentar o Vecna real, o Diabo, pois Jesus já o fez e venceu. Ele eliminou toda a culpa na qual estávamos todos afogados, gemendo de angústia, sob condenação.
Que diremos, pois a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Romanos 8.31).
REFERÊNCIAS
[1] ARAÚJO, Luíza. Novo vilão em “Stranger Things”. 2022. https://www.purebreak.com.br/noticias/-stranger-things-4-saiba-quem-e-vecna-e-veja-spoilers-dos-criadores/105582
[2] MENNA, João, no Instagram: https://www.instagram.com/stories/highlights/17961428047692670/
[3] Ibidem.
[4] SEPÚLVEDA, Bruno. Vecna: O monstro de D&D e vilão em Stranger Things, 2022. Disponível em: https://feededigno.com.br/serie/vecna-o-monstro-de-ded-e-vilao-em-stranger-things/
[5] Vecna: Dungeons & Dragons. Disponível em: https://dndbrasil.fandom.com/pt-br/wiki/Vecna
[6] Ibidem.
[7] PORTELLA, Rodrigo. A Religião na Sociedade Secularizada: Urdindo as Tramas de um Debate. O presente artigo, provido agora de alguns acréscimos, teve uma primeira edição publicada na revista Rever, de PUC/SP, nº 2, 2006.

Francine Cabanas Tobin é fotógrafa, artesã e musicista da Igreja Assembleia de Deus Jardim Botânico, em Porto Alegre – RS. Graduada em Fotografia, pela ULBRA, em Canoas – RS e mestranda em Teologia pela EST – RS. Através da fotografia autoral, vem criando séries fotográficas com uma poética visual inspirada na cosmovisão cristã, buscando dialogar com as duas linguagens: fotografia e teologia.
Um comentário sobre “Stranger Things e a ilusão da culpa”