Todas as emoções que sentimos são válidas e necessárias para a vida. Quem não sabe ter sido nalgum momento protegido pelo medo, que alarmou para um risco considerável? É, afinal, o medo que nos impede de cometer inúmeras imprudências. E quem não fez bom uso de toda a energia projetada pela raiva, para se proteger de uma situação ou enfrentar uma crise? O nojo, veja bem, nos alerta para não nos aproximarmos, tocarmos e consumirmos daquilo que parece nocivo à nossa sobrevivência. A tristeza, por seu turno, corresponde à necessidade de diminuirmos nosso nível de energia para nos concentrarmos no processamento de eventos ruins. Tal com as sensações da dor e do prazer, as emoções existem, sobretudo, para nos guiar de maneira mais segura e satisfatória no mundo, e possuem algumas raízes profundas nos nossos instintos naturais, devidos à animalidade que nos é inerente.
Hanson e Hanson (2019) atribuem às emoções básicas camadas cerebrais específicas, algumas delas funcionalmente compartilhadas com animais inferiores. A mais primitiva delas, chamada de Cérebro Réptil, localizada no tronco cerebral, coincide com a estrutura máxima dos répteis e atua para garantir que estejamos seguros, para que nos mantenhamos longe de ameaças ou predadores. Quando suprida em suas exigências, está ligada à sensação de paz; quando não bem-sucedida, ao medo. A segunda camada, chamada de Cérebro Mamífero, que partilhamos, por exemplo, com nosso cãozinho, corresponde ao subcórtex e atua na satisfação de apetites, para que nos aproximemos, ou aproximemos de nós, aquilo de que necessitamos ou que desejamos. Por isso, o animal doméstico pode viciar-se em doces! Quando os apetites são bem supridos, há contentamento; quando não são, há frustração. A terceira camada, chamada de Cérebro Humano, localiza-se no neocórtex, ocorre nos primatas superiores, mas só atinge sua máxima potência no homem. Nos dá a inclinação natural para nos conectarmos significativamente com os outros e com ideias e sentidos abrangentes, por isso tendemos a nos apegar a uma multiplicidade de sujeitos e de coisas. Quando essa inclinação é satisfeita, nos sentimos amados; quando não é, nos sentimos magoados. Antecipando que nenhum adoecimento psíquico deixa de influenciar a inteireza de nossas cognições, devemos identificar a ansiedade como lançando raízes diretamente na primeira camada, porque a emoção básica do ansioso é o medo. A partir disso, numa reação em cadeia, poderão ocorrer mágoas e frustrações diversas.
Como dito inicialmente, o medo é uma emoção natural e útil, de maneira que estar ansioso não é necessariamente algo ruim ou um problema. Episódios de ansiedade são normais e corriqueiros. Uma ansiedade considerada patológica virá quando o sofrimento for significativo e crônico, causando prejuízos nas diversas áreas da vida do indivíduo, e poderá ser uma ansiedade generalizada, como uma expectativa apreensiva de que o pior poderá acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar, ou uma ansiedade específica, que aparecerá numa fobia frente a um ou outro estímulo – como o medo de aranhas ou de elevadores. Ambos os casos são possíveis no ser humano porque, como demonstra Levine (1999), somos, por assim dizer, “traumatizáveis”. Explico: sob ameaça de um predador, o animal selvagem conhecerá uma explosão hormonal e metabólica em seu corpo, que estará de todo alterado para ajudá-lo na fuga, visando sua sobrevivência, e, uma vez tendo escapado do bote, rapidamente o seu organismo reverterá ao funcionamento habitual, e ele retornará ao pasto como se nada tivesse acontecido. Com o homem há um problema, que começa pela sua condição incerta: é tanto presa, quanto predador. Por isso, a reação humana à ameaça nem sempre é fluída e ele precisará estar consciente para decidir o que fazer – se luta ou se foge. Estar consciente na ocasião da crise faz com que toda a experiência seja armazenada na memória (e mesmo quando a memória é reprimida, a sua presença oculta não deixa de atuar). Relegada ao subconsciente, a experiência jamais será esquecida, e estará sempre atuando na grande massa de processamento involuntário de nosso cérebro (GOLEMAN, 2014), que sempre lança à consciência, por meio de insights, de pensamentos automáticos e de sinais de alerta, lembretes a respeito daquilo que, tendo ocorrido, não deverá se repetir, porque ameaçador. O trauma psicológico é precisamente isso: a presença consciente na ocasião da crise, que por definição superou nossas capacidades cognitivas prévias, e que foi armazenada na memória, ou reprimida no subconsciente, donde não permite que o organismo baixe totalmente a guarda e recupere plenamente seu funcionamento metabólico anterior. Esse medo sutil, chamado também de desconforto e desconfiança, fica sempre à espreita, aguardando que algo no mundo exterior se assemelhe ao sofrimento inaugural, para despertar em grande angústia física e mental. Por isso, uma ansiedade que poderia ter sido pontual, pode se transformar em patológica, já que se perpetua e acompanha o sujeito dia após dia.
Como afirma Campbell (2010), o ser humano possui marcadores de aprendizado por experiência muito mais fortes do que aqueles dos instintos inatos. Por isso, assumimos situações pontuais como experiências básicas e rotulantes, cujas consequências tenderão a estar sempre sendo relembradas para que estejamos previamente preparados para que o mesmo não venha a nos acometer no futuro. Por essa razão, sob os auspícios dos processos involuntários, o ansioso está sendo constantemente bombardeado das memórias de seus erros e de projeções catastróficas de futuro, e tenderá a se vincular ao presente basicamente para filtrar ameaças e evidências de que o pior está para se repetir ou para acontecer. Jaz regido pelo medo de ser vencido pelas circunstâncias porque não consegue encontrar dentro de si os recursos que sente serem necessários para lidar com a vida, que lhe parece excessivamente complexa e arbitrária. Em função disso, uma vez que não se considera previamente pronto para encarar o mundo, já que se baseia num fracasso ou uma falta fundadora, atua com a máxima busca por informações do ambiente, chamada hipervigilância, e com previsões tenebrosas, chamadas de catastrofismo, entendendo que só estará à altura do que “está para acontecer” se estiver prevenido e preparado para tudo, e por isso tenderá a um perfeccionismo insaciável, ao qual jamais corresponderá e pelo qual certamente se frustrará. Para o ansioso, via de regra, é “tudo ou nada”, e se uma fração do todo não foi como o esperado, tenderá a considerar toda a experiência como fracassada, culpando a si mesmo, que deveria ter tido um desempenho perfeito, ao invés de observar toda a complexidade daquilo que ocorreu, suas reais capacidades de dominar as situação e a própria máxima de que coisas ruins sempre podem acontecer. Sua reação ao não suprimento das próprias expectativas sobre si mesmo redundará numa ampliação da autocobrança, num recrudescimento do perfeccionismo e numa dureza ainda maior com e contra si mesmo. Esse vórtice vai se retroalimentando e agravando o problema, podendo até transformar uma fobia específica em um medo generalizado.
Uma outra característica do cérebro humano é a sua qualidade transmodular, que, conforme Barreiros (2018), nos permite transferir para coisas sentimentos e significados que não lhe pertencem naturalmente. Por exemplo: enquanto os chimpanzés, em sua luta por status no bando, jamais atribuem a objetos quaisquer usos que não sejam instrumentais, para auxiliar no consumo de alimentos, os seres humanos conseguiram traduzir os impulsos de seu módulo social para o módulo “coisas”, transformando-as em participantes do jogo do poder. Disso, desenvolvemos aquilo que se chama de mente metarrepresentacional, capaz de atribuir valor e significado a ideias e narrativas. Isso explica como podemos reproduzir emoções e reações análogas à da aproximação de um predador em circunstâncias aparentemente seguras, como a ida a um supermercado ou a descoberta de que fomos bloqueados por um amigo nas redes sociais. Porque, na medida em que desenvolvemos a nossa autoimagem a partir de uma narrativa que dá sentido ao Mundo derredor e que incluímos nessa narrativa uma miríade de bens que são considerados fundamentais para nossa posição na realidade, quando algum desses bens está sob ameaça de ser perdido, toda a narrativa é afetada, junto de nossa autoimagem e, com ela, a nossa posição no Mundo e diante dos outros. Noutros termos: de uma hora para outra, tudo parece que desmoronará, e isso, através das imagens mentais que inundam a mente, nos faz antecipar situações captadas pelo nosso corpo como ameaças reais, que ele só consegue pensar nos termos de ameaça física, e por isso nos prepara para a fuga.
Isso significa que há uma característica de neurose noogênica (FRANKL, 2016) na ansiedade, porque pode ter causas que não sejam meramente de ordem patogênica, mas também de matiz existencial. Segundo May (1979), toda a personalidade humana se sustenta sobre o arranjo criativo entre tensões indissolúveis, sobretudo aquela entre o egocentrismo (voltado para as próprias necessidades) e o interesse social (voltado para as necessidades alheias), e, prossegue ele, como o neurótico carece de um sentido satisfatório para a vida, essa tensão tenderá a pender para o lado do egocentrismo, porque ele ficará constantemente voltado para dentro de si, para o seu eu e para as suas demandas urgentes. Como ele não se sente seguro no Mundo, já que não encontrou uma chave de leitura suficientemente abrangente para se situar nele (ou perdeu a que tinha quando traumatizado), em todas as situações tenderá a ver-se no centro: “O que os outros estão pensando ao meu respeito enquanto almoço sozinho?”, “Enquanto ele fala, preciso saber como respondê-lo…”, “Se eu não conseguir ir ao jantar hoje, certamente me acontecerá o pior!”. Por estranho que pareça, todo o pessimismo do ansioso para consigo mesmo pode ser revertido num exagero em termos de autoexigência, que só se explica finalmente com uma distorção de perspectiva a respeito dos próprios limites e capacidades, porque todo o perfeccionismo reside na crença sutil de que se conseguirá, ou pelo menos se deverá conseguir, fazer o impossível, e porque todo o extremo da culpa acaba dando numa consideração distorcida a respeito dos reais impactos que os próprios erros têm na vida dos outros e na realidade próxima. Por mais que essa culpa tenha raízes em situações das mais assombrosas, nas quais a psique preferiu culpar a vítima e não o objeto perpetrador do mal, enquanto ela seguir no centro da personalidade e o indivíduo tender a culpar-se de todo o mal que ocorre ao seu redor, ela representará uma prisão egocentrada, da qual é desejável encontrar uma saída.
O fato é, seguindo Becker (1995), que o neurótico, preso nesse circuito egocentrado, não consegue mais encontrar segurança e satisfação naquela narrativa parcializadora e simplificadora do Mundo, compartilhada pelas demais pessoas, e não sente que as pequenas coisas usuais do dia-a-dia sejam suficientes para legitimar a sua existência, porque se percebe deslocado daquele arranjo geral que dá valor e lugar a cada parte da vida. Além disso, o Mundo, quando não parcializado, se transforma numa massa arbitrária e perturbadora de fenômenos impessoais e aleatórios, diante dos quais o sujeito se nota pequeno e sempre prestes a sucumbir. Nesse ínterim, qualquer estímulo negativo, partícipe desse Mundo confuso, pode causar reações emocionais desproporcionais de desespero e angústia, enquanto as pequenas conquistas diárias não exercem o menor impacto. Sentindo-se perdido ou deslocado de uma vida significativa, sem uma régua clara para medir as prioridades e as emergências, o desconcerto mediante as menores coisas, motivado por esse pavor existencial profundo, pode culminar num sentimento crônico de frustração e de inutilidade, do qual se procurará fugir a qualquer custo. Nessa hora, entra a tentação de se lançar sobre uma “tábua de salvação”, que seja a entrega a alguém na esperança de que essa pessoa resolva seus problemas, ou o engajamento intenso nalguma atividade, como o trabalho excessivo, a expectativa de satisfação pela conquista de alguma meta, como a compra do automóvel do ano, ou o desenvolvimento de hábitos entorpecedores e compensatórios, como compras, jogos e outros vícios, que sobrecarregam e hipersensibilizam o sistema nervoso, distraindo a mente, mas aumentando a excitabilidade ansiosa. Essas são todas fugas e, portanto, tendem a aumentar a sensação profunda de ilegitimidade, ao fim e ao cabo ampliando a angústia. Ainda falta encontrar um lugar próprio num Mundo significativo. Por isso, não encontrando alívio e significado nas pequenas coisas diárias, o neurótico buscará se engajar em causas maiores, em grandes empreitadas heróicas, pelas quais quer provar a si mesmo e aos outros o seu valor. Mas é justamente essa visão heróica de si, dificilmente satisfeita na prática, que insta na culpabilização e no perfeccionismo crônicos típicos da ansiedade patológica. Portanto, aqui não há mais do que o prolongamento da angústia e do sofrimento.
A agitação existencial do ansioso, que estabelece expectativas e exigências exageradas a respeito de si mesmo e deposita num futuro ideal, que ele deverá construir com as próprias mãos, uma plenificação impossível de ser obtida, é o que o impede de descansar e fruir no tempo presente, de encontrar prazer e satisfação nas pequenas coisas. Irala (1970) vê aqui uma hiperatividade nos processos mentais que chama de emissivos: quando, a todo o instante, o indivíduo está preocupado em interpretar, em entender, em dominar e em responder à realidade derredor, visando a evitação de ameaças imaginárias e a constante construção de um ideal vindouro igualmente fantasioso. A emissividade, pela qual o sujeito vive se impondo e combatendo o Mundo, sobrecarrega o cérebro, desgasta o sistema nervoso e amplia a turbidez mental. Essa agitação impede a participação dos processos mentais chamados receptivos, que são aqueles pelos quais nos damos aos estímulos derredores sem pensar em nós mesmos, recebendo-os pelo que são, os saboreando, apreciando e descansando neles, sem precisar impor nada e nem nos colocarmos no centro. Por isso, retomando Becker (1995), o ansioso não consegue se acalmar e ter refrigério naquilo que de bom está diante dele, optando por filtrar o que há de ruim e ameaçador e que possa comprometer o futuro, almejado como projeto ideal para compensar a falta de presença e de participação efetiva e legítima no tempo de agora.
Segundo May (1979), é quando o neurótico deixa de lutar contra a realidade de si mesmo e do Mundo, no sentido da dificuldade de assimilar a própria estrutura da existência ao procurar de si e do Mundo um tipo de satisfação que nenhuma das partes pode oferecer, e quando, assim, ele deixa de reinvestir nas expectativas ilusórias, que apenas lhe roubam a possibilidade de se entregar ao presente e vivem a lhe frustrar, é que encontrará a oportunidade de encarar a própria circunstância, sem fugas, e, passando pela crise, encontrar meios de adaptar-se de um novo e mais adequado modo à existência. Nessa hora, quando não puder mais contar com as “tábuas de salvação”, com projeções idealizadas e com autocobranças injustas, perceberá como a sua visão de Mundo tornou-se disfuncional e estará aberto a ressignificar, de maneira mais realista, sua autoimagem e seu lugar num Mundo Novo. Ele deixará de depositar em suas mãos responsabilidades maiores do que aquelas que lhe cabem, entendendo que não conseguirá, jamais, construir um refúgio isento de contradição e de certo nível de sofrimento, e não mais assumirá culpas que não lhe pertencem, porque entenderá que nem tudo o que dá errado se deve ao seu mau desempenho – portanto, será responsável apenas pelo que de fato fez ou deixou de fazer. Não mais seguindo pela vereda heróica, conseguirá melhor se contentar com o que já possui, e o Amanhã, ao invés de se tornar um tirano, sempre cobrando a respeito de uma plenitude impossível, se reverterá numa inspiração e na esperança do crescimento de uma felicidade que já existe no hoje, porque então se poderá de fato abandonar o egocentrismo extrapolado e viver, da faculdade de autodistanciamento, a autotranscendência, que é a capacidade de atribuir sentido e valor à própria vida pela entrega apaixonada a algo exterior a si mesmo, a uma bela obra, a uma missão, a uma jornada (FRANKL, 2016). Lembre-se: quando nos sentimos em jornada, não depositamos no futuro a realização de tudo o que não temos, mas a conclusão natural daquilo que já temos vivido no agora.
*O escrito acima serve para introduzir o tema da ansiedade e para auxiliar na reflexão sobre o tema. Todavia, não deve ser considerado exaustivo e nem suficiente. Caso você esteja passado por sofrimentos psicológicos de matiz ansioso, ou de outras matizes, ou tenha maiores dúvidas a respeito disso, procure por atendimento profissional qualificado, porque o tratamento de toda a psicopatologia precisa passar pelo consultório de um psicólogo e, não raro, pelo acompanhamento psiquiátrico. Não hesite em procurar ajuda!
Referências:
BARREIROS, D. P. Guerra, ética e etiologia. In.: Sobre a Guerra (Org. José Luís Fiori). Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.
BECKER, E. A Negação da Morte. Rio de Janeiro: Editora Record, 1995.
CAMPBELL, J. As Máscaras de Deus, Vol. I. São Paulo: Palas Athena, 2010.
FRANKL, V. Psicoterapia e Sentido da Vida. São Paulo: Quadrante, 2016.
GOLEMAN, D. Foco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
HANSON, R.; HANSON, F. O Poder da Resiliência. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.
IRALA, N. Controle Cerebral e Emocional. São Paulo: Loyola, 1970.
LEVINE, P. A. O Despertar do Tigre. São Paulo: Summus, 1999.
MAY, R. A Arte do Aconselhamento Psicológico. Petrópolis, RJ: Vozes, 1979.

Natanael Pedro Castoldi, 29 anos, é psicólogo clínico graduado pela Universidade do Vale do Taquari – UNIVATES, com atuação na clínica privada e experiência na Saúde Pública. Possui publicações acadêmicas na área da Educação, em Ensino e Aprendizagem. através de um programa de iniciação científica da UNIVATES, além de ter sido monitor de alunos com necessidades especiais para as graduações e os técnicos da mesma instituição (2016-2020). Possui formação básica em Teologia pelo antigo Projeto ATOS (2011), atual Live Beyond, no Janz Team Gramado. Tem liderado o Ministério de Aconselhamento Pastoral pelo TeachBeyond Brasil. Serve na igreja Comunidade Cristã de Encantado – RS e mora na cidade de Lajeado – RS, com sua amada esposa Gabrielle Castoldi.