É difícil fazer uma cronologia e montar um panorama de como era o Estado (em especial o Egípcio) no período que o livro de Gênesis retrata. Considerando todo o assunto e a introdução necessária para o tema, entender como os patriarcas lidaram com outros tipos de governo soa como um forte esclarecimento ao nosso assunto. A era dos patriarcas é, em muitos aspectos, semelhante à nossa politicamente: grandes potências mundiais, crentes vivendo sob governos ímpios ou tolerantes (mas, não cristãos), falta de obediência da lei de Deus e vários outros pontos de contato. Por outro lado, há grande dessemelhança também, pois os Pais não possuíam uma lei escrita e detalhada como nós, nem a história da salvação desenvolvida por toda a Escritura. Assim, o relacionamento deles com o governo político é exemplar, mas pode não exaurir as possibilidades de relações.
Por esta razão, pretendemos ver brevemente qual era o sistema aceito de modo geral; isso não quer dizer que não houvesse diferenças entres os governantes, mas que havia certo nível de concordância e aceitação entre o que era considerado um governante justo e o que não era. Seguindo esta lógica, notaremos como os indivíduos se relacionavam com os políticos, a liberdade econômica, a liberdade de ir e vir e alguns fatores que demonstram como era a atmosfera política.
O medo do Estado
Em Gênesis 12, Abraão está fugindo de uma crise. A fome (v. 10) imperava por toda a região em que estava. Não havia nenhum bom lugar para Abraão se fixar diante dessa crise, exceto o Egito. Esse direcionamento de Abraão demonstra que no Egito a crise, no mínimo, era menor. Diante dessa fuga da fome, é que nos deparamos com o medo de Abraão de que um governante o queira matar somente por ser marido de Sara (v. 11, 12).
As Escrituras nos ensinam a lidarmos com os outros pela presunção de inocência, isto é, sempre pressupondo que o próximo não quer fazer o mal, mas o bem, de modo que não podemos puni-lo pessoalmente ou buscar seu mal de fato. Contudo, aqui, Abraão prossegue no caminho inverso, demonstrando a total insegurança (jurídica?) de sua época. Literalmente pressupôs a culpabilidade política até que se provasse o contrário. Isso não é o caminho comum na Escritura (como vemos no caso dos reis de Israel), mas ao lidar com políticos ímpios, a sabedoria de Abraão o direcionou para o ponto no qual ele podia ver o perigo, buscando evitá-lo (o mesmo ocorre no capítulo 20, o que prova ser este um problema generalizado, embora, ao que tudo indica, Abimeleque tenha sido um rei mais próximo da piedade – Gn 20.5).
O texto de Gênesis não se preocupa em demonstrar absoluta antipatia com os governantes, embora sirva de contraste com o reinado de Israel. Os outros reis eram tão temidos que se esperava que matassem os homens para terem as esposas deles e, embora ironicamente isso tenha ocorrido em Israel com Davi, o sentimento de segurança geral era diferente em Israel. Isso faz com que essa história de Abraão com Faraó e com Abimeleque se torna uma lembrança para o povo (de Israel) de como poderiam estar inseguros entre outras nações.
Esse medo desmedido não é o pretendido pelo Estado criado por Deus. Somente Estados instáveis, entregues à mão de homens inconstantes, é que geram nos cidadãos tais preocupações e inseguranças. Dessa forma, notamos que a injustiça estatal era comum no período em que Abraão vivia, justamente pelas preocupações demonstradas pelo patriarca.
Evidentemente, Faraó acaba por contradizer o sentimento de medo de Abraão, ao dizer que não tomaria Sara por mulher se ele dissesse que ela era sua esposa (v. 18, 19). O resultado, porém, ao mesmo tempo, foi Faraó deportar Abraão (ou o expulsar do Egito), segundo o versículo 20.
Embora o medo de Abraão aparentemente ter se mostrado localmente infundado, não foi sem motivo. A personalidade do governante era inseparável do governo, de modo que um governo morria quando o governante morria, ainda que a forma pudesse ser mantida. Como a forma de governo faraônica era cheia de injustiças, Abraão entendeu que poderia temer este Faraó em particular.
Porém, Abraão foi ajudado por Faraó a ponto de enriquecer mais (v. 16). Neste contexto, não havia cartão presidencial ou supervisão de gastos reais. Dessa forma, o rei literalmente tomou dos impostos e o deu a Abraão em forma de animais e escravos.
O furto ou o roubo do imposto por parte do Faraó não tornou Abraão automaticamente um ladrão em conjunto. Afinal, o próprio Abraão não tinha como medir o quanto do dinheiro era justo e o quanto era injusto, e o recebimento, portanto, nada mais era do que um aspecto natural da sua relação (como irmão de Sara). É provável, em acréscimo, que ele tenha ficado livre de pagar impostos, pois era visto como um governo ambulante e à parte do governo de Faraó. Ficando rico assim (cap. 13.2), ele tinha liberdade para voltar à sua terra (13.3) e peregrinar pelo mundo sem preocupações adicionais com a fome (que não temos certeza de quanto tempo durou). O fato o levou a uma situação contrária da anterior. Antes, a fome não o permitia viver onde queria, agora, o excesso (de animais) é que não lhe permitia viver com quem ele queria (13.6).
O fato é que o texto de Gênesis 12 (e 20) demonstra uma situação de insegurança jurídica, na qual não se podia confiar em um político, antes havia séria dúvida se este procederia com justiça, garantindo a segurança dos indivíduos de uma família, e não infringindo ela.
O Estado Bélico
O capítulo 14 mostra a situação conflituosa que havia entre os Estados monárquicos da poca. Ló, no lugar errado e na hora errada, foi levado como prisioneiro, de modo que Abraão, como governante (ainda que sem Estado), foi em busca dele.
O que notamos, porém, é que por mais que Abraão fosse um Governo, seu governo não tendia ao conflito. Mas o Estado, sempre que busca regulamentar e criar escravidão acaba por dar uma chance para haver conflitos internos. Isso é o que ocorreu, por exemplo, nos países Ocidentais, que trataram de possuir escravos por rapto.
O fato de estados se armarem e aumentarem seu poder bélico não é visto como bom sinal nas Escrituras (Dt 17.16). Gênesis, neste sentido, demonstra este fato claramente pelos conflitos levantados entre tais governos. Não é que o Estado não deva possuir armas, mas que o aumento e a multiplicação delas tende a ser sinal de fraqueza e influência deletéria no governo.
A falta do Estado – Sodoma e Gomorra
Quando chegamos a Sodoma e Gomorra, vemos outro tipo de medo: o medo da falta de atuação do Estado. Se, em Gênesis 12, Abraão tinha medo de o Estado atuar indevidamente, em Gênesis 13 vemos a falta que faz o Estado não punir o pecado (v. 13).
Nos capítulos 18 e 19 de Gênesis, notamos um ponto claro: a anulação do Estado causa, também, um efeito negativo. Vemos que Deus tinha a intenção de ensinar a Abraão o que é o juízo, e como os pecados devem ser julgados, para que os descendentes dele soubessem, pelo exemplo, como Deus julga e, portanto, como o Estado deveria julgar (Gn 18.17-20). Deus, então, teve um objetivo duplo: ao mesmo tempo em que condenava Sodoma e Gomorra, ensinava a Abraão o que os pecados dessas cidades mereciam.
Sabemos que Sodoma possuía um rei (14.2), contudo, o que nos indica o texto é que estas cidades não estavam praticando o julgamento corretamente. De acordo o Apóstolo Pedro (2 Pd 2), Sodoma e Gomorra viviam em injustiças e violência (algo claro pelo caso dos homens que tentaram invadir a casa de Ló com intenção de forçarem os que estavam lá).
Note que a situação de Sodoma e Gomorra é quase análoga ao mundo pré-diluviano (conforme já expus no texto sobre o Estado antes do Dilúvio). Portanto, o fato de tais injustiças prevalecerem e de serem praticadas sem medo é reflexo claro da falta de punição por parte do Estado. Tanto Deuteronômio quanto Juízes demonstram isso de modo evidente.
Em Deuteronômio, notamos que quando o assassino não havia sido localizado, a cidade mais próxima era responsável pelo morto encontrado (21.1-9). Isso mostra que o pecado, mesmo sem se saber o autor do crime, precisava ser remido. No caso de Sodoma e Gomorra, pela falta de punições, Deus não tinha como ser propício ao povo (Dt 21.8). Dessa forma, as cidades levavam sobre si o seu pecado [1].
Juízes 19.1 mostra que em Israel não havia rei e, logo em seguida, vemos que os homens da tribo de Benjamin abusam de uma concubina de um levita (v. 25). Este caso, posteriormente, é julgado por Deus (capítulo 20). Assim, em Israel, quando tal situação ocorreu, o povo não deixou de ser julgado, embora, naturalmente, tenha sido pelo poder da Espada a partir dos juízes e cabeças do povo (lideranças políticas mesmo).
Esses textos mostram que a “culpa é de todos” quando a morte não é punida pelo Estado, e por isso Sodoma e Gomorra inteira caíram. Em resumo, quando o governante se preocupa demais com problemas externos (cap. 14), costuma abandonar os problemas internos de seu povo, permitindo o progresso da impiedade e crescimento da maldade.
Liberdade de ir e vir
Embora o medo de Abraão demonstre claramente o estado de beligerância que havia nos governos da época, notamos, por toda a sua história, que ele transita por vários lugares: babilônios, hititas e egípcios o recebem, e em todos os lugares ele é relativamente respeitado, de modo que a presunção de inocência funcionava bem entre os povos (ainda que houvesse conflitos entre eles).
Vemos, em Juízes 12.1-6, que o controle exagerado ou, de outro modo, a presunção de culpa daqueles que chegam a alguma cidade ou país é sinal de conflito. Só quando impera o sentimento de desconfiança que provas de procedência do indivíduo são exigidas. No caso de Juízes 12, como não havia documentos como CPF, certidão de nascimento etc., a prova clara para demonstrar a localidade de um indivíduo era o sotaque. Seria como pedir às pessoas que dissessem a palavra “porta” para provarem se são ou não de São Paulo.
Abraão, contudo, não passou por este tipo de checagem. A despeito da situação bélica entre as nações da época, não se tinha controle suficiente a ponto de impedir a entrada de cada indivíduo interessado em passar pelas terras. O caso mais explícito de proibição e limitação da liberdade de ir e vir é o caso de Siom, em Números 21.21-24. É evidente que aqueles caminhos eram controlados pelo rei dos amorreus, contudo, ele não permite a Israel passar por eles, e ainda pressupõe a culpa do povo. Essa hospitalidade, ou liberdade de ir e vir, conquanto pareça imprudente (para nossa mentalidade que exige segurança em cada detalhe da vida), é a forma mais misericordiosa de proceder. Não é que não seja verdade que o controle de fronteiras não aumente a segurança, países como Coreia do Norte são extremamente seguros por não permitirem entrada de estrangeiros, porém, tal controle implica a culpabilidade de quem vem de fora e a fraqueza de quem está dentro.
Na história, na medida em que a segurança ou os conflitos vão aumentando é que os muros vão sendo levantados. Não é uma questão de “pecado” vs. “não pecado” o ato de levantar muros (Israel mesmo os tinha), mas que tal ato expressa um espírito belicoso. “Belicoso” não quer dizer que a nação que levanta os muros seja assim, mas que, no mínimo, os povos em sua volta o são (se ela mesma não o for). Se muros não são pecaminosos, ao menos, demonstram a insegurança que há em uma época e local, de modo que servem como um tipo de termômetro.
Liberdade econômica
Em Gênesis 23, nos deparamos com a liberdade econômica dos heteus, com os quais Abraão fez negócio. Sara, recém-falecida, precisava de uma sepultura, e Abraão desejou, neste contexto, comprar uma cova para enterrar ela. Efrom responde que ele doaria a Abraão todo o campo onde se encontra a cova, o que resultou não na aceitação por parte de Abraão, mas na compra do campo. Veja que Abraão não encara como pecaminosa a oferta, afinal, Efrom ofereceu de bom grado e voluntariamente o campo, e Abraão o recusou por saber que tinha como pagar pelo campo e por, naturalmente, querer confirmar diante do povo a posse da propriedade (Gn 23.18).
Frequentemente se argumenta que na Escritura não existe capitalismo ou livre mercado, mas isso se dá por má definição dos termos. Capitalismo nada mais é do que utilizar os meus bens e propriedades de acordo com meus interesses, isto é, podendo vendê-los ou, possuindo dinheiro, comprar mais bens. Isso é livre mercado, e o preço das coisas no livre mercado é regulado pelo “valor de mercado”, ou seja, de acordo com o preço “comum” e normal daquele tipo de propriedade [2]. O que vemos na história de Abraão é que o livre mercado é o modo justo de estipular preços:
Versículo 9: devido preço –> Versículo 13: o preço do campo
Versículo 15: A terra é –> Versículo 15: quatrocentos siclos
Note que Abraão está interessado em pagar o que a terra vale de acordo o preço de mercado (devido preço, preço do campo), e este valor de mercado é (é, quatrocentos ciclos) específico. De forma que o próprio peso da prata era comum entre os mercadores (v. 16), ou seja, possuía uma aceitação geral, mercadológica [3].
O que temos, então, é um processo de compra e venda de uma terra, sem interferência de nenhum governo externo e sem controles burocráticos políticos. Inclusive, se tomarmos o Código de Hamurábi como referência (para os pagamentos em siclos feitos na época), é provável que o tempo necessário para que um indivíduo juntasse a quantidade de siclos que Abraão dispunha na compra do campo fosse de, em média, 30 anos de trabalho (sem gastos com comida, moradia etc.) – nada muito diferente da nossa época, talvez.
Pode-se, naturalmente, questionar que chamar isso de livre mercado seja anacronismo. Mas, o que temos aqui? Dois homens negociando voluntariamente, baseando-se no valor de mercado, no preço cheio do campo, com o contrato fechado no fim da história (Gn 23.20). Todos os itens estão preenchidos: liberdade (pois, foi algo voluntário) e preço de mercado (pois, foi de acordo com o valor corrente) estão presentes na negociação de Abraão.
O que é criticado como sendo capitalismo, hoje, não é isso. É a interferência estatal, que diz lutar pelo capitalismo, mas o controlando de todos os modos (um tipo de capitalismo de Estado). Em geral, os críticos do capitalismo não o sabem definir, o tratando não como livre mercado, mas como o controle dos bancos, ou como quando o Estado o direciona. Se o mercado é livre, então os indivíduos são livres para comprarem o que se interessarem [4].
Mesmo as propagandas, comuns no mercado, não obrigam ninguém a comprar nada. O indivíduo que não consegue se controlar diante de uma propaganda não pode culpar a propaganda por sua falta de controle. Abraão, rico como era, para saber se o campo de Macpela era bom, necessitou de uma “propaganda” para conhecer os benefícios da terra – mesmo que esta “propaganda” tenha sido pura e simplesmente ver a terra. Mas, a opção, pela compra ou não, estava nele, que livremente decidiu comprar a propriedade. Culpar a liberdade econômica por males que ocorrem financeiramente é o mesmo que culpar a liberdade de ir e vir porque um indivíduo foi até a casa do outro e o matou.
É claro pelo texto que Abraão e Efrom não tiveram interferências estatais, senão meramente o reconhecimento documental público diante de juízes (v. 18). Tal prova nada mais é do que a garantia de que a posse é do comprador, e que não pode ser tomada por outro homem, sendo prova com testemunhas de que a propriedade pertence a um indivíduo caso alguém a tente tomar.
Conclusão
Vimos que é possível haver certa ambiguidade em nossa relação com o Estado, no qual podemos ter medo sem justificativa, ao mesmo tempo em que podemos entrar em conflito com um Estado bélico. Podemos ver o que faz a falta de atuação do Estado, ao mesmo tempo em que pode haver perfeito equilíbrio em algum governo a ponto de este permitir bastante liberdade aos seus cidadãos.
Na história de Abraão, vemos um pano de fundo político um tanto quanto caótico, é verdade, com guerras e omissões ocorrendo, mas notamos que, para os padrões da época, até reis que evitavam o pecado podiam ser encontrados (Gn 20.5, 6). Abraão teve contato com culturas e políticas diferentes e passou por todas elas como um crente, governando sua família. A política é um poder grandioso e, como vemos, quando exercida por homens íntegros (como Abimeleque), resulta até mesmo na riqueza daqueles que poderiam lhe causar mal.
NOTAS
[1] Como não estamos debaixo dos rituais e práticas do Antigo Testamento referentes aos sacrifícios, é difícil mensurar como uma lei como esta poderia ser aplicada no Novo Testamento. Poder-se-ia argumentar que a cidade mais próxima a um cadáver deveria arcar com os gastos, enterro e cuidados investigativos do caso. Mas, mesmo essa opção parece não fazer jus a cada parte do texto, embora seja uma explicação razoável.
[2] A definição que ofereço neste ponto é simplificada. Gary North, em seu livro “What is Money”, tem uma boa discussão sobre o assunto.
[3] A palavra para “mercadores” (סָחַר – sāḥar) é geralmente traduzida como “negociar” (Gn 34.10, 21; 42.34), “mercadores” (Gn 37.28). Em si, é um termo neutro, não denotando qualquer coisa positiva ou negativa, dependendo do contexto para que seja esclarecido.
[4] Isso não pode ser confundido com a liberdade de necessidades. Todo mundo precisa comer, beber etc. Esse tipo de “liberdade” não temos, porque sem essas coisas não vivemos.

Wallas Pinheiro cursa licenciatura em Filosofia. É designer e dá aulas de História. Diácono na 2ª Igreja Presbiteriana de Linhares – ES, é casado com Samira Pinheiro.