Conversando com… Pr. Renato Vargens

MOTTA – Pastor, no primeiro capítulo do seu livro “Masculinidade em Crise e seus efeitos na Igreja”, o senhor nos fala sobre “o acovardamento masculino na liderança da igreja”. Até que ponto podemos declarar dessa maneira, abertamente e sem rodeios, que o fato de haver mulheres, em muitos lugares, à frente da obra de Deus é resultado direto de covardia por parte dos homens? Há exceções? Pode haver mulheres que foram chamadas por Deus para liderar a Igreja e com isso, serem devidamente reconhecidas por seus maridos, ganhando espaço em suas igrejas?

PR. RENATO – Eu não sou contra a mulher servir ou mesmo pregar e ensinar na comunidade da fé, contudo, não vejo nas Escrituras base para o ministério pastoral feminino, visto que não existe um texto sequer na Palavra de Deus que possa dar base a mulheres no governo da igreja.  Ademais, ainda que possa entender a existência de exceções, compreendo que a omissão masculina é a razão preponderante para que mulheres se levantem como pastoras. Além disso, vale a pena ressaltar que Jesus, Paulo ou os demais apóstolos não falam de presbíteras, bispas e pastoras, visto que as referências a essas vocações sempre são relacionadas aos homens.

MOTTA – A Bíblia apoia o pastorado feminino? E o ensino e a pregação no culto solene? Como podemos lidar com isso em relação ao que nos apresenta o movimento feminista?

PR. RENATO – Como disse, não existe um texto sequer nas Escrituras que justifique o ministério pastoral feminino. À luz dessa premissa, fundamentado nas Escrituras, entendo que o culto público deve ser presidido por homens, o que difere em muito da visão igualitarista defendida por alguns. Aliás, permita-me explicar a diferença entre Igualitaristas e Complementaristas.  Igualitaristas:  Esta corrente afirma que Deus originalmente criou o homem e a mulher iguais; e que o domínio masculino sobre as mulheres foi parte do castigo divino por causa da queda, com consequentes reflexos socioculturais. Segundo os igualitaristas, mediante o advento de Cristo, essa punição e reflexos foram removidos; proporcionando consequentemente a restauração ao plano original de Deus quanto à posição da mulher na igreja. Portanto, agora, as mulheres têm direitos iguais aos dos homens de ocupar cargos de oficialato da Igreja. Além dos igualitaristas, encontramos os complementaristas, que por sua vez entendem que desde a criação – e portanto, antes da queda – Deus estabeleceu papéis distintos para o homem e a mulher, visto que ambos são peculiarmente diferentes. A diferença entre eles é complementar. Ou seja, o homem e a mulher, com suas características e funções distintas, se completam. A diferença de funções não implica em diferença de valor ou em inferioridade de um em relação ao outro, e as consequentes diferenças socioculturais nem sempre refletem a visão bíblica da funcionalidade distinta de cada um. O homem foi feito cabeça da mulher – esse princípio implica em diferente papel funcional do homem, que é o de liderar.

MOTTA – Em uma publicação de 20 de setembro de 2018, em seu perfil oficial no Instagram, o Pr. Anderson Silva, da Igreja Vivo por Ti, fez a seguinte colocação: “Senhor, dê-nos homens que lideram tua Igreja com fibra, garra, Bíblia e coragem! A Noiva deixou de ser “figura de linguagem” e se tornou uma “pessoa no singular” – homens em crise que se sentem ‘a namorada de Jesus'”. As danças e coreografias, bem como as letras de músicas cristãs que enfatizam um linguajar romantizado, são consequências diretas da crise de masculinidade atual? Qual é a influência disso na adoração comunitária?

PR. RENATO – No livro Masculinidade em Crise eu afirmo que a crise de masculinidade na igreja, tem de certa forma contribuído com a feminização da igreja, o que é uma realidade em nosso meio. Observe que nossas canções tomaram um viés mais feminino, mais sensitivo e menos racional. Ora, não estou dizendo que as mulheres não são racionais, longe disso, mas com certeza elas são mais emotivas. Músicas que dizem que deseja abraçar, calçar as sandálias de Cristo e outras tantas mais entoadas em nossos cultos apontam para isso. Ademais, observe que o culto público ganhou elementos como danças, isso sem falar que em virtude da feminização da igreja, e ausência masculina, perdeu-se a observância da disciplina eclesiástica. 

MOTTA – Pastor, mudando do tema do seu livro para a produção dele. Temos provas do precoce pirateamento deste livro (e de outros de sua autoria). A partir disso, perguntamos: é possível, financeiramente falando, um escritor cristão brasileiro viver apenas da renda resultante da venda de seus livros?

PR. RENATO – Infelizmente 99,9% dos autores brasileiros não tem como viver de direito autoral.

MOTTA – Uma vez que toda autoridade fora constituída por Deus, um crime, antes de qualquer coisa, é um pecado, certo? Então, o crime de pirataria é pecado?

PR. RENATO – Sim. Pirataria além de pecado é crime. Na internet por exemplo, tornou-se comum encontrar crentes usando de pirataria. Pirataria é utilizar um produto sem a autorização do autor. Esse produto pode ser um livro, um filme, uma música, um programa de computador e etc. A lei brasileira protege o criador do produto, que tem o direito de receber por seu trabalho, portanto, posso afirmar que quem pirateia o produto age contra esse direito do autor. Junta-se a isso que quando se disponibiliza arquivos digitais de livros ou mesmo os baixa, sem autorização da editora, o leitor prejudica a editora, o autor, e também impede, a longo prazo, que outras obras sejam publicadas.

MOTTA – A Bíblia dá abertura para a existência de “Robin Hoods” (no plural) cristãos? Tirar dos escritores ricos e que têm mais condições (pirateando seus livros), para dar aos estudantes pobres e menos favorecidos pode ser visto como um crime terreno louvado no céu?

PR. RENATO – De forma alguma. Quem age assim comete desonestidade.

MOTTA – Muitos pregadores, cantores e escritores, talvez em uma interpretação equivocada do que diz a Bíblia, afirmam que, por se dedicarem integralmente à obra de Deus, têm o direito de cobrar por suas produções ou apresentações, pois vivem pela fé e unicamente do lucro dessas atividades, o que acaba gerando abusos e exageros por parte de muitos deles. Até onde é moralmente correta essa atitude de cobrar?

PR. RENATO – Eu sou absolutamente contra aqueles que cobram para pregar. Jesus nunca cobrou para anunciar a salvação, como também nenhum dos apóstolos estabeleceram cachê para anunciar Cristo. Paulo, apesar de ter experimentado em seus ministérios necessidades que envolvem a obra missionária, nunca exigiu que a igreja lhe enviasse ofertas, antes recebia de bom grado e com ações de graças aquilo que lhe era enviado. A verdade é que nenhum dos apóstolos do Senhor jamais estipularam uma quantia para pregar a palavra de Deus em alguma cidade. Agora em contrapartida, existem igrejas que tratam o obreiro com enorme descaso. Há pouco soube de um fato escabroso. Uma proeminente comunidade cristã convidou um pastor para pregar em uma conferência. O pastor convidado era de um estado diferente da igreja, o que exigiu com que a viagem acontecesse no seu próprio carro. Durante três dias o pastor pregou intermitentemente o Evangelho. Ao final do congresso, os seus anfitriões, lhe estenderam a mão agradecendo a sua vinda, sem contudo lhe dar uma oferta sequer, isso sem dizer que os hospedeiros tiveram a cara de pau de não pagar as despesas relacionadas a viagem do seu convidado. 

Um amigo meu, líder de uma grande missão brasileira relata que não são poucas as vezes, que recebe de oferta R$ 50,00. Ele conta, que volta e meia viaja horas de carro, ônibus ou avião, se ausentando da igreja a qual é pastor, deixando em casa mulher e filhos, e que ao final da conferência recebe no máximo 100 pratas de oferta. Sou absolutamente contra quem cobra para pregar o Evangelho, entretanto, não concordo com aqueles que agem com descaso não honrando com dignidade os seus convidados. Há pouco, soube de um relato de um pastor que foi convidado para ser preletor de uma grande conferência, não é que a igreja que o convidou queria cobrar dele a inscrição no congresso? Veja bem, ele seria o preletor, e ainda assim queriam que ele pagasse a inscrição, mesmo porque, ele iria comer no local. Ora, isso é um deboche! Pois é, bom senso nessas horas é fundamental. Sem sombra de dúvidas o pastor não deve cobrar para pregar, mas em contrapartida a igreja deve tratar seus convidados com decência e dignidade. Tirar o pastor de sua igreja e família e lhe dar “esmolas” ao final do culto afronta os ensinos bíblicos. Diante disto minha sugestão é que a igreja pense duas vezes em convidar alguém para pregar. Se ela não tem condições de arcar com as despesas relacionadas a hospedagem, transporte e oferta, é melhor não convidar.  Se não possui condições de cobrir as despesas mínimas, não convide ninguém, se organize, se capitalize, e no tempo certo convide alguém para pregar.

MOTTA – Como devemos relacionar a cobrança pelo trabalho feito em favor da obra de Deus com o “de graça recebestes, de graça dai”?

PR. RENATO – A expressão “de graça recebestes, de graça dai” significa em linhas gerais que os seguidores de Cristo não devem comercializar o poder que receberam da parte do Senhor para anunciar o Evangelho mercadejando o evangelho.  Contudo, essa frase precisa ser interpretada da forma correta visto “de graça recebestes, de graça dai”, não significa uma proibição que impede que as pessoas que se dedicam em tempo integral ao ministério do Evangelho, recebam alguma compensação financeira para suprir suas necessidades. As Escrituras mesmo nos ensinam que o presbítero que ensina é merecedor de dobrada honra, portanto, usar a frase “de graça recebestes, de graça dai” é tirá-la de seu contexto e propósito. Deixe-me explicar: Conhecimento custa muito. Livros, cursos, seminários tem um preço, não é verdade? Além do mais, o crente tem a mania de ser dicotômico, isto porque, ele considera a preparação bíblica teológica diferente da preparação de um advogado, médico, arquiteto, ou mesmo professor, que assim como o pastor ou teólogo investiram em conhecimento, e que, portanto, justamente precisam receber por seu conhecimento e trabalho.

MOTTA – Qual é o limite para a realização de crimes na propagação do Evangelho? Mesmo a pirataria sendo pecado, não pode se apresentar como algo aceitável se for entre irmãos e se empregada com o fim de levar adiante o conhecimento teológico cristão? Atos 2:44,45 nos diz assim: “Todos os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade”. Até onde isso é um exemplo aplicável a nós da igreja de hoje?

PR. RENATO – O problema da nossa geração é fazer aquilo que dá certo e não aquilo que é certo, isso sem falar do velho jeitinho brasileiro, bem como da lei de Gerson onde o que importa é levar vantagem sobre o outro.  Sinceramente não é possível relativizar a ética em prol de um objetivo, o fato de querer evangelizar não me concede o direito de roubar o produto intelectual de alguém, portanto, continuo dizendo que pirataria é crime. 

MOTTA – Uma última palavra?

PR. RENATO – Minha oração é que o Senhor tenha misericórdia de cada um de nós e abençoe a tão combalida igreja Evangélica brasileira. 


Marcos Motta, 29 anos, é editor-chefe da Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é graduando em Processos Gerenciais, pela Universidade Estácio de Sá, e estudante autodidata de teologia. Autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como ministro de louvor. Casado com Talita Motta.

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