O capítulo 15 de Atos é conhecido como o texto bíblico onde é discutido questões sobre a necessidade ou não da circuncisão dos cristãos de origem gentílica. Essa “reunião de liderança” contou, entre outros, com a participação das colunas da igreja na época (Pedro, Paulo, Barnabé, João e Tiago). Após a exposição de Pedro, Tiago deu uma palavra de sabedoria sobre a inclusão dos gentios no povo da aliança. Muitos da circuncisão julgavam ser necessário que os gentios que criam em Jesus fossem circuncidados como diz Moisés, além de terem que guardar o sábado e outros preceitos da lei. Ao se afirmar que nenhum gentio poderia ser salvo sem primeiramente se unir ao judaísmo, os judaizantes estavam misturando dois conceitos distintos: aliança e salvação. Ser membro da comunidade da aliança de Deus não garantia a salvação (Jr 4.4; 9.25). Além disso, o próprio Abraão foi salvo (justificado) pela fé, o que ocorreu antes da circuncisão, e não por causa dela (Rm 4.9-13). [1]
Tiago defendeu a inclusão e liberdade dos gentios na nova aliança citando uma profecia de Amós, que diz: “Naquele dia tornarei a levantar o tabernáculo caído de Davi, e repararei as suas brechas, e tornarei a levantar as suas ruínas, e o edificarei como nos dias da antiguidade; para que possuam o restante de Edom, e todos os gentios que são chamados pelo meu nome, diz o Senhor, que faz essas coisas” (Am 9.11,12). O profeta Amós faz menção à destruição do Templo em Jerusalém e dos pecadores dentre o povo, mas não à destruição de toda a casa de Israel (Am 9.1-10). Após a destruição de Jerusalém (Am 5.27), Deus restauraria o povo e a tenda de Davi, “para que os filhos de Israel possuam o restante de Edom” (Am 9.12). Os judeus denominavam todos os gentios de “edomitas”. Por isso, a Septuaginta omite a menção particular a “Edom” e a traduz exatamente como está aqui: Para que o resto dos homens busque (e aqui Tiago acrescenta: ao Senhor), e também todos os gentios sobre os quais o meu nome é invocado (v.17). A versão hebraica traz “yedreshu (…) ‘Edom” (possua (…) Edom), enquanto o hebraico subjacente à Septuaginta grega tem que ser “yedreshu (…) ‘adam (busque (…) humanidade)”. Tiago cita a Septuaginta porque neste caso é a única que alcança seu propósito de expressar a natureza universal da promessa de Deus na redenção da humanidade. [2]
Eis a declaração de Tiago no concílio de Jerusalém: “E, havendo-se eles calado, tomou Tiago a palavra, dizendo: Homens irmãos, ouvi-me: Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome. E com isto concordam as palavras dos profetas; como está escrito: Depois disto voltarei, e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído, levantá-lo-ei das suas ruínas, e tornarei a edificá-lo. Para que o restante dos homens busque ao Senhor, e todos os gentios, sobre os quais o meu nome é invocado, diz o Senhor, que faz todas estas coisas, conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras” (At 15.13-18). O v. 14 diz que “primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome” (At 15.13-14). Posto isso, a visitação de Cristo fez com que a graça se estendesse aos gentios, onde episkeptomai (visitou) pode significar “visitação” [com misericórdia]. Beale declara que:
Tiago interpreta o testemunho de Pedro (15.7-11) como uma explicação de “como primeiramente Deus foi ao encontro dos gentios para formar dentre eles um povo dedicado ao seu Nome” (15.14). Os gentios podiam ser “purificados” e se tornar verdadeiros israelitas do fim dos tempos ao receber o Espírito profetizado por Joel mediante a fé, sem terem de cumprir a lei (15.5,10). Portanto, embora toda a lei esteja em vista aqui, o que está em primeiro plano são as leis específicas de pureza e impureza. [3]
A profecia de Amós declara que os gentios teriam o nome de Deus invocado sobre si (Am 9.12), indicando eleição aos moldes de Israel no AT. Palmer Robertson afirma que: “‘Colocar o nome’ do Senhor sobre uma pessoa resume um conceito bíblico repleto da ideia da soberana graça eletiva. Essa experiência outrora separou Israel como povo peculiar de Deus (Dt 28.9,10). Mas agora a mesma fraseologia é usada tanto na citação de Amós como nos comentários de Tiago (Am 9.11,12; At 15.14c,17c)”. [4] Paulo faz algo parecido quando escreve aos romanos. Ele cita a profecia de Oseias sobre a transformação de “Não-Meu-Povo” em povo de Deus para explicar a inclusão dos gentios (Rm 9.24,25). Esse é o testemunho tanto dos profetas quanto dos apóstolos sobre a inclusão dos gentios na aliança eterna. [5] “As nações na qualidade de nações gentílicas pertencem a YHWH (Bauckham 1996, p.169). Mas essa expressão [todos os gentios, sobre os quais se invoca o meu nome] também é usada em Tiago 2.7, provavelmente com referência ao batismo cristão. Se for o caso, esse batismo é suficiente para reconhecer os gentios como povo de Deus”. [6] Como diz Ladd, “Isso não quer dizer que o título laos seja tirado de Israel, mas que um outro povo é trazido para ser povo de Deus junto com Israel, mas em outro fundamento”. [7] Esse novo povo não precisa se tornar judeu a fim de ser incluído no laos, pois Deus está fazendo algo novo para o restante da humanidade (v.17).
O fundamento para o enxerto gentílico é Cristo, o verdadeiro Israel. Ele é o grande reparador das brechas na casa de Davi (Lc 1.69), além de luz para as nações (Is 49.6). “E com isto concordam as palavras dos profetas; como está escrito: Depois disto voltarei, e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído, levantá-lo-ei das suas ruínas, e tornarei a edificá-lo” (At 15.15-16). Aqui o exaltado reino de Cristo do céu, representa a gloriosa restauração da dinastia, o remanescente de Edom tornar-se o resíduo de homens, a possessão militar de Edom dá lugar à busca voluntária do Senhor pelos gentios, com a ausência de batalha física sugerida pela imagem pictórica de Amós, afirma Wyngaarden. [8]
Amós liga a palavra tenda a Davi, e não a Levi ou Arão. Davi é uma testemunha aos povos desta terra, de forma que as nações que não conhecem a Deus correrão para ele (Is 55.3-5). Essas profecias, cujo descendente de Davi, Jesus Cristo, finalmente cumpre, são messiânicas. Ao mencionar a tenda de Davi, Amós enxerga o panorama das nações gentias passando a conhecer e cultuar a Deus. [9]
Tiago afirma que o levantamento da igreja equivale à restauração do tabernáculo caído de Davi. “A declaração sobre ‘[reconstruir] o tabernáculo de Davi’ parece ser a resposta à pergunta ‘Que casa me edificareis vós?’ de Atos 7.49 (e Is 66.1). Nenhum ser humano pode construir uma estrutura adequada para abrigar a presença de Deus na nova ordem eterna; somente Deus pode fazer isso, e ele começou a fazê-lo quando ressuscitou Jesus dentre os mortos e inaugurou o novo cosmo”. [10] A promessa de restauração alcança seu cumprimento inicial a partir da ressurreição de Cristo e a formação da igreja, como explica G. K. Beale:
A ressurreição de Cristo deve ser vista, muito provavelmente, como o começo do cumprimento da profecia de Amós 9.11,12, segundo a qual Deus diz: “reconstruirei o tabernáculo de Davi, que está caído […] para que o restante da humanidade busque o Senhor” (NASB). Jesus é o tabernáculo cósmico dos últimos dias, em que não só os judeus crentes, mas também os gentios de todo o cosmo podem adorar. Como todos são “purificados” nele, e não por leis mosaicas de pureza, eles também são considerados limpos para adorar no templo, que é o próprio Jesus. Da mesma forma, não é mais necessária a circuncisão física para se tornar membro do verdadeiro Israel nem para entrar no templo “não feito por mãos humanas” (At 7.48), porque os crentes “[foram] circuncidados com a circuncisão que não é feita por mãos humanas, o despojar da carne pecaminosa, isto é, a circuncisão de Cristo [i.e., sua morte]” (Cl 2.11). [11]
“Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras” (At 15.18). As últimas poucas palavras dessa citação – “[…] conhecidas desde séculos…” – não aparecem no livro de Amós, embora talvez tenham sido sugeridas com base no versículo 11 do capítulo 9 de Amós, onde lemos: “[…] restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade…”. [12] O que acontecia naqueles dias não era nada “inovador”, pois as misericórdias de Deus são eternas. A grande questão era que o plano eterno de Deus estava sendo levado a cabo. Os gentios estavam sendo enxertados na casa de Israel, formando assim um “novo Israel”. G. V. Lechler (in loc.) explica que: “Aquilo que ocorre em nossos dias, Deus já sabia desde o princípio, pois ele já havia resolvido fazer essas coisas; aquilo que estamos contemplando é meramente a execução de um eterno decreto de Deus”. [13]
Howard Marshall diz que “provavelmente a reedificação do Tabernáculo deve ser entendida como referência ao levantamento da igreja como novo lugar do culto divino, em substituição ao templo. É, portanto, mediante a igreja que os gentios podem achegar-se e conhecer o Senhor”. [14] A edificação da igreja, que Jesus trata com os Doze em Mateus 16, nada mais é do que a reedificação do tabernáculo de Davi, da congregação do deserto (At 7.38), da reunificação das duas casas de Israel (Jr 31.33; 50.4). Jesus começou a reunir num só corpo (ou rebanho) os filhos de Deus que andavam dispersos (Jo 10.16; 11.52). Aqueles que seguem a Cristo são os verdadeiros filhos do reino, os verdadeiros israelitas (ver Mt 13.37,38; Rm 2.28-29). Eles fazem parte do tabernáculo de Davi em restauração, do Templo que é Cristo!
NOTAS
[1] “Circuncisão”. Extraído de https://mais.cpb.com.br.
[2] LaRondelle discorda da interpretação dispensacionalista: “No contexto do livro de Amós, a frase ‘Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi, se refere claramente ao tempo da restauração de Israel depois do cativeiro babilônico. J. F. Walvoord declara, contudo, que as palavras da citação de Amós, ‘cumpridas estas coisas, voltarei’ (Atos 15.16), quer dizer que depois do juízo divino sobre Israel – sua dispersão e disciplina – Cristo retornará. Esta conclusão viola a exegese histórica literal de Amós 9, que requer a aplicação do juízo divino sobre Israel com o exílio na Assíria e Babilônia (ver Amós 5.27). Esse juízo começou nos dias do próprio Amós, em 722 a.C. Depois do exílio babilônico, o Senhor retornou em favor de Jerusalém e restaurou a sua teocracia ao remanescente fiel de Israel (ver Zacarias 8). Zacarias adicionou a promessa de que o Messias viria governar Israel e o mundo com a paz universal (Zacarias 9.9,10). […] É a alegação de Tiago em Atos 15 que a profecia de Amós encontrou o seu progressivo cumprimento desde a primeira vinda do Messias, na missão da Igreja apostólica”. LARONDELLE, Hans K. O Israel de Deus na Profecia: Princípios de Interpretação Profética. São Paulo: Imprensa Universitária Adventista, 2003, p. 171. Walwoord, Israel in Prophecy, p. 92.
[3] BEALE, G. K. O templo e a missão da igreja: uma teologia bíblica sobre o lugar da habitação de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2021, p. 242.
[4] ROBERTSON, Palmer O. O Cristo dos Profetas. Editora Clire, 2017. Edição do Kindle., p. 491.
[5] Ibid.
[6] BEALE & CARSON, Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 740.
[7] LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2003, p. 722.
[8] WYNGAARDEN, The Future of the Kingdom, p. 168. Apud LARONDELLE, op. cit., pp. 172-73.
[9] KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento: Exposição de Atos dos Apóstolos. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 81.
[10] BEALE, op. cit., pp. 245-46. “Ao que tudo indica, Qumran também entendia que a profecia de Amós 9.11 dizia respeito à construção do templo do final dos tempos: ‘Este é o Renovo de Davi que se levantará com o Investigador da Lei e se assentará no trono de Sião no fim dos dias; como está escrito: reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído. Esse tabernáculo de Davi, que está caído (é) aquele que se levantará para salvar Israel’ (4Q174 1.11b-13)”. Ibid., p. 247.
[11] Ibid., p. 243.
[12] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo: Volume 3… São Paulo: Hagnos, 2014, p. 378. Segundo Robertson (in loc.): “O ponto frisado (Tiago) é que esse propósito de Deus, conforme o profeta Amós expõe, é um ponto antigo. Deus possui um Israel fora e além da raça judaica, o qual ele tornará seu verdadeiro ‘Israel’, e isso significa que não há motivo de surpresa na forma de Deus tratar com os povos gentílicos, segundo era narrado por Barnabé e Paulo. O propósito eterno de Deus, em sua graça, inclui todos quantos invocam o percebia isso agora com clareza. Deus fazia conhecer a sua vontade, contanto que os seus seguidores quisessem vê-la e entendê-la. Foi grande o livramento exposto por Tiago, e isso exerceu profunda influência sobre a assembleia”. Ibid., p. 379.
[13] Ibid.
[14] MARSHALL, I. Howard. Atos: introdução e comentário. 1982, p. 239. Apud LOPES, Atos: a ação do Espírito Santo na vida da igreja. São Paulo: Hagnos, 2012, p. 286.

Leonardo Assis é casado com Renata Lins F. Alves Assis e pai de Esther. É carioca, teólogo e professor de teologia nas áreas de Antigo Testamento, Teologia Bíblica e Sistemática. É Pós-graduado em História de Israel pela Faculdade Kennedy e Bacharel em Teologia pela Fatin – Faculdade de Teologia Integrada. É autor dos livros “As Duas Casas de Israel: Judeus e Gentios no Plano Eterno de Deus” (Editora Reflexão) e “Tesouro Descoberto: desvelando os mistérios de Deus nas Escrituras Sagradas” (Editora Filos), além de ser um evangelista apaixonado pelas Sagradas Letras.