“Teologia não expulsa demônios.”

Uma das frases mais condenáveis daquelas que são utilizadas no equivocado combate ao estudo teológico nas igrejas é essa do título: “Teologia não expulsa demônios”. Em outras palavras, os defensores desta ideia advogam que, para as questões práticas que se apresentam na vida diária da igreja, a teologia, no fim das contas, não tem muito valor. Teologia é teoria, é algo abstrato, que serve para satisfazer a curiosidade, que alimenta o cérebro, mas que não confere poder no mundo espiritual.  

É claro que, de certa perspectiva, afirmações deste tipo não estão completamente erradas. Convenhamos, a teologia, em si mesma, não expulsa demônios. Mais do que isso, é possível que um aluno de teologia sequer seja um cristão genuíno – há muitos casos assim. O que se segue é que estes indivíduos não têm, da parte de Deus, nenhuma autoridade para expulsar demônios.  

Do que estamos tratando, então? Pois bem, o problema que se dá é que afirmações como essa do título geram muito mais prejuízos do que benefícios, fazem muito mais mal do que bem e, apesar de apontarem para algo que, isoladamente, é verdadeiro, não revelam o contexto imediato que as envolve e que é profundamente mais complexo. 

“Tenho orgulho da minha humildade” 

Normalmente, quem critica o estudo da teologia é alguém que pensa que todo teólogo é orgulhoso, que as pessoas só estudam teologia para “aparecer” e que os teólogos presumem de si mesmos, autointitulando-se “a elite da igreja”. Mas, pensar isso dos teólogos sem um detalhado exame de cada caso, generalizando, é um erro – já denunciamos tal equívoco em um artigo anterior.[1] 

O interessante aqui é que quando vemos uma pessoa batendo no peito por nunca ter feito um curso de teologia e dizendo que nem se importa em querer fazê-lo, pois, para “a vida real”, o cristão precisa mesmo é de “poder” e não de teologia, o que estamos vendo é alguém que se considera super espiritual se orgulhando do grau de poder que presume que alcançou. É uma situação como a daquela frase irônica: “tenho orgulho da minha humildade”. Ou seja, o mesmo orgulho que pode existir num teólogo, pode existir no coração de um super espiritual que nunca estudou teologia (e que, por isso, considera a si mesmo a pessoa mais humilde do mundo) – pois, o orgulho não se restringe a indivíduos pertencentes a uma classe espiritual ou intelectual específica. 

Poder sobre os espíritos imundos

Não só o orgulho não faz distinção entre classes de indivíduos – o poder concedido por Deus para a expulsão de demônios também não leva em conta tais categorias. Já vimos que Deus não é contra a sabedoria e a instrução que os sábios e instruídos alcançaram, outrossim, contra a arrogância, o orgulho e o sentimento de superioridade que muitos têm carregado. Diante disso, assim como a teologia pode ser acusada de não conferir poder, o fato é que a ignorância também não o garante. Alguém pode ser, ao mesmo tempo, ignorante teologicamente, orgulhoso e, ainda, fraco espiritualmente, não tendo poder algum sobre os espíritos imundos. 

Quando um cristão rejeita a teologia por entender que a teologia não lhe acrescenta em nada na tarefa ministerial de expulsar demônios, esta pessoa está, ao mesmo tempo, declarando que permanecer na ignorância lhe será mais proveitoso. A premissa é que ser ignorante é uma condição para se ter mais autoridade no mundo espiritual, quando a condição que Jesus determinou para se receber poder é outra: ser discípulo de Jesus (Mt 10:1; At 1:8) e obedecê-lo, bem como, ser alguém disciplinado no jejum e na oração (Mt 17:21). 

Conhecimento e libertação 

Você já percebeu que o maior número de casos públicos de possessão demoníaca acontece predominantemente naquelas igrejas que não prezam por um ensino teológico sadio e que não são diligentes em expor as Escrituras Sagradas de maneira fiel? É claro que, em defesa própria, muitos dos adeptos dessas denominações adotam o discurso de que os espíritos imundos não se manifestam em igrejas que se importam com teologia e Bíblia porque elas não representam nenhum perigo sobrenatural contra as hostes malignas – logo, nesses locais, os demônios “se sentem em casa”. Mas, o que a Escritura diz sobre isso? 

O ensino de Jesus é este:

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. (João 8:32)  

A cena é conhecidíssima: Jesus estava declarando que os judeus à sua frente, a despeito de considerarem-se especiais em relação aos demais povos da terra, vendo a si mesmos como filhos de Deus e de Abraão, na verdade, eram filhos do diabo, adeptos da mentira e escravos do pecado. A questão em voga é justamente esta da libertação das amarras do Maligno, ser livre e viver como um filho de Deus.  

Para Jesus, qual era o estado espiritual dos judeus inconversos e impenitentes de João 8, os quais lhe combateram até o ponto de apanharem pedras para atirar contra ele? Ora, o mesmo estado espiritual dos gentios (povos não-judeus) em Efésios 2: um estado de morte em ofensas e pecados. Eles eram pessoas que andavam segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que opera nos filhos da desobediência; e, por isso, andavam fazendo a vontade da carne e dos pensamentos, e eram por natureza filhos da ira. (Ef 2:1-3) Compare os textos (de João 8 e Efésios 2) e note a semelhança. 

Ou seja, ninguém precisava mais de libertação espiritual do que aqueles judeus, que mesmo tendo sido circuncidados na carne, agiam como os incircuncisos não-judeus, necessitando de serem circuncidados espiritualmente, no coração. Diante desta necessidade, de libertação, o que Jesus fez? Começou a falar sobre um poder sobrenatural que promove libertação à parte da pregação do Evangelho? Não. O Senhor ensina a libertação pelo conhecimento da Verdade, que vem através da proclamação da Palavra de Deus – não por meio do acesso a um conhecimento obscuro, subjetivo, abstrato, especulativo, produto do transe e do êxtase, reservado apenas a uma casta de super espirituais, mas através do conhecimento da Verdade, o qual envolve também a razão e o intelecto – instrução teológica. É a fé pública na verdade objetiva e absoluta da Palavra de Deus que marca a libertação de uma pessoa. 

O poder de Deus 

Paulo segue na mesma linha de Jesus. O Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1:16). A pregação do Evangelho é o que proporciona libertação para o indivíduo que se encontra escravizado e acorrentado por forças espirituais malignas. O poder de libertação das influências demoníacas não consiste em manifestações estranhas que são operadas pelos cristãos – exorcismos à la Hollywood. Antes,

o maior instrumento de libertação usado por Deus é a pregação.

O procedimento de expulsar demônios é, então, errado? Claro que não. A Bíblia diz que Jesus e os discípulos expulsaram demônios de maneira instantânea, pela autoridade de Deus. Jesus também curou pessoas de doenças que eram causadas por possessão demoníaca. No entanto, este é um método extraordinário – por vezes, necessário, porém, drástico. O método ordinário, normal, comum e incentivado por Jesus pelo Novo Testamento para a libertação de vidas, é a exposição do Evangelho e das Escrituras – o que requer conhecimento teológico. É como se Jesus ensinasse: “usem o instrumento principal, mas estejam sempre preparados para usar o reserva, caso isso seja necessário”.

O próprio perdão de pecados, que é consequência da fé no Evangelho, é que é a libertação que quebra toda maldição – outras operações de poder são “apenas” para que o mundo saiba “que o Filho do Homem tem autoridade sobre a terra para perdoar pecados” (Mc 2:9-11). 

Libertações inúteis 

No primeiro capítulo do livro A Formação de um Discípulo, Keith Phillips [2] demonstra como seu evangelismo de muitos anos no gueto de Los Angeles foi algo quase que inútil. Ele demonstra que, apesar de falar sobre o Evangelho para muitas pessoas de uma maneira que elas nunca mais poderiam dizer que eram inocentes ou que nunca haviam ouvido falar de Jesus, não falava o suficiente ou da maneira correta a ponto de sua pregação gerar frutos verdadeiros: transformação de vidas e discipulado.  

No ministério de libertação ou na expulsão de demônios, encontramos algumas semelhanças. 

A teologia, por si só, não expulsa demônios, mas a falta de uma teologia saudável na mente do ministro do Senhor pode fazer com que a libertação operada seja uma libertação inútil, que expulsa o demônio “da casa” (a pessoa), mas deixa “a casa vazia”, inabitada, vulnerável à novas possessões demoníacas.  

Jesus ensina o seguinte: 

“Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares secos, buscando repouso; e, não o achando, diz: Tornarei para minha casa, de onde saí. E, chegando, acha-a varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o último estado desse homem é pior do que o primeiro.” (Lucas 11:24-26) 

Expulsar um espírito maligno, mas ser ignorante teológica e biblicamente, não tendo nada para apresentar ou oferecer à pessoa liberta para que ela “coloque” no lugar do espírito maligno – tornando a casa em uma casa habitada pelo Espírito de Deus – é o mesmo que fazer algo inútil.

Apresentar um evangelho falso, teologia da prosperidade, tradições e achismos é o que geralmente um crente sem instrução teológica tem para oferecer a uma pessoa recém liberta de uma possessão. Logo, ser um ministro adepto de exorcismos, mas inimigo da teologia saudável e bíblica, é ser alguém que limpa a casa – é varrer e adornar ela – tão somente para deixá-la vazia, desprotegida, inabitada e ainda suscetível às forças do Diabo. 

Falta de conhecimento 

Se você não lembra, os sacerdotes do Antigo Testamento eram aqueles que representavam o povo diante de Deus. Já na Nova Aliança, encontramos aquilo que Lutero chamou de “o sacerdócio de todos os crentes”. Curiosamente, no entanto, por mais que Deus tenha feito todos os crentes se tornarem sacerdotes diante dele, muitos cristãos ainda têm por costume chamar o pregador ou o pastor de sacerdote, como se estivessem tratando com pessoas superiores espiritualmente. Deveríamos aplicar, então, a estes líderes de hoje aquilo que Deus diz sobre sacerdotes que rejeitam conhecê-lo? Se sim, o que Ele diz? 

“O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.” (Oséias 4:6) 

Veja que “conhecimento”, aqui, não é conhecimento que nasce de relacionamento, mas conhecimento teológico gerado da intimidade com a Lei de Deus – que nasce de conhecer e prosseguir em conhecer a Deus (Os 6:3) através do estudo e meditação na Sua Palavra. Deus diz que o sacerdote que rejeita conhecê-lo dessa forma, Deus também o rejeitará, para que não mais seja sacerdote diante Dele. Ou seja, toda a autoridade, todo o status espiritual, todo o poder que pode estar atrelado ao sacerdócio, Deus promete reter do sacerdote que rejeita o conhecimento bíblico-teológico de Deus. 

Não por menos, Jesus, noutro contexto, declara: “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mateus 22:29). Quem despreza a teologia, despreza o conhecimento de Deus abundante na Bíblia, não conhece o poder de Deus, e é privado de receber os privilégios de ser sacerdote diante de Deus em favor dos homens – coisa que todo cristão é chamado a ser.  

Teologia não expulsa demônios? 


NOTAS

[1] MOTTA,  Marcos. Quem estuda teologia estuda para “falar difícil”? Link do artigo: https://revistafecrista.art.blog/2022/01/29/quem-estuda-teologia-estuda-para-falar-dificil/

[2] PHILLIPS, Keith. A Formação de um Discípulo (Vida Editora, 2008).


Marcos Motta, 29 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é graduando em Processos Gerenciais, pela Universidade Estácio de Sá, e estudante autodidata de teologia. Autor dos livros Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017) e Evangelismo Placebo: oferecendo um evangelho de mentira a pecadores de verdade (2021). Na igreja local, coopera como pregador, e também como ministro de louvor. Casado com Talita Motta.

Deixe um comentário