A Eternidade da Igreja

Todos sabem que um bebê antes de nascer já possui vida. Durante um “tempo determinado” por Deus, ele fica no ventre de sua mãe recebendo todos os nutrientes necessários para o seu desenvolvimento, até que chega o dia em que ele vem à luz. Biblicamente, Deus conhece os seus filhos antes de cada um deles nascer (cf. Sl 139.16). Deus dá testemunho de que conhecia o profeta Jeremias antes mesmo deste ser formado no ventre (Jr 1.5). Ou seja, no conselho (sôd) de Deus havia um decreto sobre o chamado e a vocação de Jeremias. Ele conheceu Jeremias, o fez nascer numa parte de Israel (Anatote?), e no tempo determinado o enviou para profetizar ao Israel impenitente. Assim, “determinando-lhes os tempos previamente estabelecidos e os territórios da sua habitação” (At 17.26), Deus traz à luz os seus filhos, capacitando-os para a grande obra. Provavelmente, até o nome de Jeremias estava no conselho divino. E mesmo já sendo conhecido por Deus e separado como profeta, ele só foi chamado por esse nome após nascido. Casos parecidos com esse podem ser vistos nas vidas de Josias (1Rs 13.2) e João Batista (Lc 1.13).

Vejam o que Deus fala a Ananias sobre o maior pregador da igreja, Paulo de Tarso: “Vai, porque ele é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios” (At 9.15). Agora, vejam o que o próprio Paulo diz sobre si: “Quando Deus, porém, que desde o ventre de minha mãe me separou…” (Gl 1.15). É verdade que Paulo nasceu muito antes do ministério público de Jesus e chamado dos discípulos, mas no conselho de Deus Paulo já havia sido vocacionado para ser o apóstolo dos gentios na igreja, assim como no caso de Jeremias no AT. Paulo se utilizou de profecias veterotestamentárias, aplicando-as ao seu ministério (veja At 13.47; cf. Is 49.6). A igreja sempre esteve nos planos de Deus.

Isso também pode ser falado do evangelho de Deus. O evangelho “começou” a ser anunciado por Jesus (cf. Mt 4.23; 9.35; 11.5). Por isso, Marcos chama “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1). A missão de Jesus era anunciar o evangelho (Lc 4.43). Ele comissionou os apóstolos e toda a igreja para pregarem o mesmo evangelho (Mc 16.15), o que eles fizeram (At 14.7). Mesmo sabendo que o evangelho “nasceu” no ministério de Jesus, Paulo explica que o evangelho foi anunciado primeiramente a Abraão (Gl 3.8). O apóstolo João diz que o evangelho é eterno (Ap 14.6). Sim, desde o Éden ele vem sendo exposto progressivamente ao homem. A teologia chama a promessa de Deus em Gn 3.15 de proto-evangelho. E se há um proto-evangelho, por que não há uma proto-igreja? Se o evangelho foi anunciado primeiramente a Abraão, por que a “igreja” não começar em Abraão, o pai da fé (Rm 4.11)? Não seriam os patriarcas, profetas ou os 7 mil que não se dobraram a Baal uma proto-igreja? A ligação salvífica entre a fé de Abraão, Cristo e a igreja é declarada por Paulo: “E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão e herdeiros conforme a promessa” (Gl 3.29).

Assim como Davi separou os materiais do templo para posteriormente Salomão edificá-lo, Jesus separou os seus discípulos, os membros da igreja (“pedras vivas”, 1Pe 2.5) para a edificação do Espírito Santo (At 2). Assim como o Seu cabeça, a igreja fora profetizada desde os tempos remotos, vindo à vida pública no Dia de Pentecostes. Não se pode negar a eternidade da igreja, o corpo místico de Cristo. “A igreja é o Corpo de Cristo e, por conseguinte, extensão de Cristo”. [1] Ela tem o DNA de Cristo, visto que a semente divina está nela (1Pe 1.23; 1Jo 3.9). “Todo aquele que o Pai me dá” (Jo 6.37) são os que Deus conheceu de antemão e formou para a sua glória (Is 43.7; Rm 9.23).

A encarnação de Jesus foi o pontapé inicial da construção da igreja. Ele veio na plenitude dos tempos para “comprar” filhos para Deus (cf. Gl 4.4; Ap 5.9). Jesus foi nascido de mulher, nascido sob a lei, ou seja, ele era judeu, descendente de Davi, de Abraão (Mt 1.1), de Adão (Lc 3.38). A raiz genealógica de Jesus homem está no primeiro Adão. O que isso prova? Bem, todos os fiéis do AT precisavam estar em Cristo para serem salvos. A promessa messiânica é o cerne das alianças de Deus com os homens. O que os escritores do NT escreveram é o reconhecimento de Cristo como o cumprimento das promessas aos pais (veja At 13.32-33; 26.6-7; Gl 3.29). Frank Viola afirma que:

“Os autores do Antigo Testamento primeiro proclamaram o mistério sagrado nas histórias, tipos, imagens e sombras. Mas, embora reis, profetas e sagas o proclamassem, eles não o compreenderam”. [2]

Os profetas, por não conseguirem a “conclusão do caso” sobre as suas investigações (1Pe 1.11), muitas vezes intercalavam, por exemplo, a encarnação humilde de Cristo com sua vinda gloriosa na consumação dos séculos (e.g. Is 11.1-6; Zc 9.9,10), as duas vindas de Cristo. Os profetas também imaginavam um Messias salvador que venceria os inimigos de Israel. Eles não entendiam a profundidade das revelações, pois no fracasso da nação, o Ungido venceria a representando, e, assim, formaria um povo a partir dos que creem no seu nome. Os profetas do AT anunciavam um “remanescente de Israel” formado por intermédio do Servo (Cristo; cf. Is 42–53). A continuidade da “igreja-povo” de Deus do AT com a igreja do NT se dá, não pelos membros, mas pelo cabeça, Cristo. Através daquele que cumpriu em sua vida e ministério as responsabilidades da nação, o corpo místico, escondido e eterno de Cristo pôde ser formado, ungido, selado e enviado como embaixador do Reino (Mc 3.13; 2Co 1.21,22; 5.20; 8.23). Pois o antigo povo foi demasiadamente irresponsável a esse respeito (Mt 21.43). Por isso, Bultmann afirma que a igreja é

“herdeira do Israel como ideal; do povo de Deus que o Israel histórico deveria ter sido conforme sua vocação, mas que de fato ele nunca foi”. [3]

Esse “verdadeiro Israel” foi profetizado no AT (veja Is 56.8; cf. Jo 10.16). Esdras Costa declara:

De acordo com Manson, os primitivos cristãos não se consideravam como uma nova sociedade, mas simplesmente como o antigo Povo de Deus, pois somente a comunidade daqueles que aceitavam a justiça de Deus em Cristo poderia de fato chamar-se o Israel de Deus. Neste aspecto, o verdadeiro significado e natureza de έκκλησία não estão circunscritos ao sentido de “igreja-comunidade local”, mas “Igreja-comunidade universal”. [4]

Um grande exemplo da universalidade da igreja é visto no encontro de Jesus com a mulher samaritana em João 4. A mulher samaritana

“é uma mistura de etnias (judeu-gentio). […] Esta mulher samaritana é a igreja além dos judeus; a Igreja que incluiria os gentios, e que encontrou o verdadeiro marido após casamentos frustrados”. [5]

Assim como a prostituta Gômer, esposa do profeta Oseias, que representava a nação de Israel que havia adulterado com os ídolos, a mulher samaritana representava as duas casas de Israel, mais especificamente a casa de Efraim, que havia se prostituído com cultos pagãos, perdendo a identidade espiritual. Essa tipologia também é vista nos casos de Rebeca, Raquel, Asenate, Zípora e Rute.

A igreja saiu dos lombos de Cristo, o Deus preexistente

A igreja vem sendo construída desde os tempos remotos (At 7.38). Ela é uma extensão do povo remanescente e fiel do AT (1Pe 2.9,10; Gl 6.16). E não somente isto, mas a igreja também é eterna, pois estava “nos lombos” de Cristo, o Deus preexistente. A eleição e predestinação da igreja foram feitas antes da fundação do mundo (Ef 1.4,11), visando o louvor da glória de Deus (Ef 1.12). Clemente de Roma declara:

“Não suponho que vocês não saibam que a Igreja viva é o corpo de Cristo. Pois a Escritura diz: ‘Deus criou o homem, homem e mulher os criou’ (Gn 1.27). O homem é Cristo; a mulher é a Igreja. Além disso, a Bíblia e os apóstolos dizem que a Igreja não se limita ao presente, mas existiu desde o princípio. Pois era espiritual, assim como era o nosso Jesus, e tornou-se visível nos últimos dias para nos salvar”. [6]

De acordo com Clemente, a igreja “saiu de Cristo”, ela estava em Cristo desde a eternidade e foi manifestada ao mundo em Atos 2. A igreja foi gerada por Cristo.

Deus colocou Adão em um sono profundo e retirou Eva de dentro dele. Assim, Cristo foi colocado em um sono profundo (morte) e da sua natureza (Ef 5.30; 2Pe 1.4) foi revelada a sua noiva, a igreja (ver Ef 5.31-32). Eva estava em Adão, assim como nós estávamos em Cristo antes dos tempos eternos (2Tm 1.9; Rm 16.25). Eva foi retirada de Adão depois da criação, no oitavo dia. Eva era uma nova criação, assim como a igreja é um novo homem (Ef 2.15). A igreja ressuscitou com Cristo no oitavo dia (ver Ef 2.6; Cl 3.1). Viola argumenta:

“E quando é seu aniversário? O primeiro dia da semana, o dia depois do Sabá. É o oitavo dia da semana, o dia da ressurreição, o dia da nova criação”. [7]

Assim como a costela estava em Adão e dela Eva foi feita, a igreja também estava em Cristo desde antes da fundação do mundo. Por isso João Batista declarou: “A noiva pertence ao noivo” (Jo 3.29). Ou seja, a igreja estava em Cristo antes da sua paixão; antes dele afirmar que edificaria a sua igreja (Mt 16.18).

“Eis que lhe revelo um mistério: a noiva de Cristo estava dentro do noivo enquanto ele estava nesta Terra. Ela é um mistério escondido em seu interior”. [8]

O próprio Cristo disse que a igreja não é desse mundo, assim como Ele também não é (Jo 17.14).

Adão e Eva eram uma só carne (Gn 2.24). Cristo e a igreja são um só espírito (1Co 6.17). Assim como Eva antes da Queda vivia num estado de perfeição, a igreja é santa, imaculada e inculpável aos olhos de Deus (Ef 1.4; cf. Nm 24.5). “Há três que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue; e estes três concordam num” (1Jo 5.8). A igreja é santificada por esses três (ver 1Pe 1.2; Tt 3.5; Hb 13.12).

“Conforme observamos na oração sacerdotal de Jesus em João 17, o padrão de unidade entre a comunidade de crentes é o espelho, mesmo que turvo, daquilo que é comunhão eterna que existe entre a trindade santa”. [9]

Quando Cristo morreu na cruz, após ter sido furado com uma lança, do seu lado jorraram água e sangue, elementos para lavar a sua noiva de todo o pecado.

Deus a tirou da pleura do último Adão, de seu lado (Jo 19.34). Deus “abriu o Segundo Adão”, e tomou uma noiva de dentro dele, fazendo assim a “outra metade” de Cristo. É interessante observar que, no Antigo Testamento grego, na Septuaginta, a palavra pleura é usada em Gênesis 2.22: “E Deus formou a pleura que havia tirado de Adão, e fez uma mulher”. Essa mesma palavra é usada para se referir ao lado de Jesus em João 19.34: “um dos soldados perfurou o lado de Jesus com uma lança, e logo saiu sangue e água”. […] Do lado de Jesus apareceu uma esposa digna do próprio Deus. Foi você que saiu do lado dele no dia da ressurreição (Rm 6.4; Cl 2.12; Ef 2.5-6). [10]

A parte do corpo designada pela palavra lombos (heb. chalats) contém os órgãos de reprodução, de modo que se diz que a descendência (heb. zera, “semente”) sai dos lombos. Paulo usa isso ao mostrar que o sacerdócio de Jesus, à maneira de Melquisedeque, é superior ao de Arão, visto que Levi, antepassado de Arão (Gn 29.34), ainda estava nos lombos de Abraão, e neste sentido pagou dízimos a Melquisedeque (Hb 7.5-10; Gn 14.18-20; ver também Rm 7.9). O próprio Cristo se referiu a si próprio como uma semente que morreria para gerar muitos frutos (Jo 12.24). [11] A semeadura foi a sua morte, e a ressurreição, a vida e frutificação da igreja (ver Is 53.11).

A profecia de que “uma nação” (Israel), “uma multidão de nações” (gentios) sairia de Jacó, encontra o seu pleno cumprimento em Cristo, o descendente e epítome de Israel. Por isso Paulo diz aos Gálatas que: “Todos vós sois um (heis – um homem) [12] em Cristo Jesus. E se sois de Cristo, também sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa” (Gl 3.8).

“Aqui Cristo é visto como uma personalidade coletiva que inclui todos os verdadeiros filhos de Abraão (judeus e gentios; cf. Gl 3.7). E mais do que isso, Cristo é também o ‘verdadeiro Isaque’, cuja morte vicária proporciona uma redenção total para o Novo Israel”. [13]

Se os da fé, de ontem e de hoje, já estavam no lombo de Abraão, pode-se afirmar que já estavam também “nos lombos” de Cristo antes dos tempos eternos (cf. Rm 16.25; Ef 1.4-6; 2Tm 1.9).

Portanto, afirmar, como fazem os dispensacionalistas clássicos e revisados, que a igreja é um parêntese no plano redentor de Deus é retirar da igreja o seu caráter eterno. Os que afirmam isso, geralmente enfatizam que a igreja não cumpre, em hipótese alguma, quaisquer profecias veterotestamentárias do Israel do futuro (ver 1Pe 1.12, “para nós – igreja”). Mas, pode se ver claramente que os gentios seriam “gerados” do lombo de Abraão (Gn 12.3), Isaque (Gn 26.4), Jacó (Gn 35.11) e Efraim (Gn 48.19). Os gentios (Jafé) habitariam na mesma casa dos judeus [Sem] (cf. Gn 9.27). A igreja é eterna, e de forma implícita ela foi profetizada no AT (ver Is 56.7-8; Zc 6.12-15). Ela é o πоίημα poema de Deus. E até mesmo as suas obras foram preparadas de antemão (Ef 2.10). Antes da fundação do mundo já estávamos com Cristo (Pv 8.31). Sim, a igreja é eterna. Deus conhece cada um dos seus filhos nascidos do alto (Sl 87.5).


NOTAS

[1] BENTHO, Esdras Costa. Igreja: Identidade e Símbolos. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, p. 36.

[2] VIOLA, Frank. Da eternidade até aqui. Brasília, DF: Palavra, 2011, p. 24.

[3] BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Editora Teológica, 2004, p. 143.

[4] MANSON, T. W. O ensino de Jesus: pesquisa sobre sua forma e conteúdo. São Paulo: ASTE, 1965, p. Apud BENTHO, op. cit., pp. 34-35.

[5] BARTOSZEWSKI, Felipe. Cosmovisão Profética: um olhar a partir do propósito eterno. Curitiba: Editora Família dos que Creem, 2019, p. 78.

[6] CLEMENTE. Segunda Epístola aos Coríntios, cap. 14. Pais apostólicos. 1. ed., São Paulo: Mundo Cristão, 2017, p. 58.

[7] VIOLA, op. cit., p. 44.

[8] Ibid., p. 42.

[9] BARTOSZEWSKI, op. cit., p. 261.

[10] VIOLA, op. cit., pp. 50-51. A Bíblia diz “último Adão” (1Co 15.45).

[11] Shedd diz que: “Em 4Esdras 7.27-32 há uma referência ao Messias que morre e, dessa maneira, provoca o fim de todos os que respiram. Mais tarde ele é ressuscitado junto com aqueles que estão identificados com ele”. SHEDD, Russell P. A solidariedade da raça: o homem em Adão e em Cristo. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 135.

[12] A palavra é masculina, não neutra. Cf. G. S. Duncan, The Epistle of Paul to the Galatians (Londres: 1937), p. 124. Apud. SHEDD, op. cit., p. 133.

[13] SHEDD, op. cit., p. 141.


Leonardo Assis é casado com Renata Lins F. Alves Assis e pai de Esther. É carioca, teólogo e professor de teologia nas áreas de Antigo Testamento, Teologia Bíblica e Sistemática. É Pós-graduado em História de Israel pela Faculdade Kennedy e Bacharel em Teologia pela Fatin – Faculdade de Teologia Integrada. É autor dos livros “As Duas Casas de Israel: Judeus e Gentios no Plano Eterno de Deus” (Editora Reflexão) e “Tesouro Descoberto: desvelando os mistérios de Deus nas Escrituras Sagradas” (Editora Filos), além de ser um evangelista apaixonado pelas Sagradas Letras.

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