VINDE: Uma série fotográfica sobre Redenção

Tua Palavra é lâmpada para os meus pés. (Sl 119.105)

Te convido a passear pela teologia e pela fotografia. Trago por meio deste, o convite para refletirmos temas teológicos por meio da fotografia, através da série VINDE. Inspirada nas Confissões, de Agostinho, sobre o ser “que medita sua salvação”, e partindo de um dos Padrões de Julgamento de Francis Schaeffer, refletiremos sobre a temática da Narrativa da Redenção.

Os leitores de Francis Schaeffer já bem conhecem o método apresentado pelo escritor dos Quatro Padrões de Julgamento que devem ser aplicados à uma obra de arte, os quais são apresentados em A Arte e a Bíblia. Trago a proposta de trabalharmos o terceiro padrão, aplicando-o em uma série de fotos que criei, para, de forma prática, encorajar a preservação desses padrões básicos, na tentativa de garantir uma adequada comunicação, e também de fazer uso deles para analisar outras obras que admiramos. Neste artigo, mesmo tendo me atentado aos quatro padrões na construção da série, focarei apenas no terceiro, para não estender demais a leitura, considerando que a proposta é termos um tempo de contemplação via fotografias.

Inspirada nas confissões e na poética bíblica, o objetivo primordial da série é, através da contemplação, representar por meio da fotografia autoral um meditar sobre a narrativa da redenção, bem como foi externado por Agostinho, em sua última página:

“Que os orgulhosos não me critiquem, porque estou meditando sobre a minha salvação, que como e bebo e compartilho.” (p. 240).

Estou meditando sobre a minha salvação.

Antes de prosseguir, muitos leitores talvez não estejam familiarizados com o termo “Fotografia Autoral”. Esse tipo de fotografia tem por objetivo demonstrar os interesses do autor, e geralmente possui uma abordagem voltada aos pensamentos, emoções, às expressões do interior humano, com uma estética mais contemplativa, por vezes onírica e sem viés comercial, ou seja, sem trabalhar em prol dos interesses de um cliente, por isso autoral. Aos interessados, a temática é bem exposta pela fotógrafa gaúcha e contemporânea Danny Bittencourt, no livro Fotografia Fine Art.

Sendo assim, parto dos meus interesses de representar livremente, e à vontade com a imaginação, a temática da redenção.

1. Sobre a série “VINDE

Inicialmente introduzirei algo acerca da série fotográfica. Busquei criar, partindo de inspirações na cosmovisão cristã acerca da redenção, recorrendo à obra Confissões, tocada pela canção There Is a Redeemer, e envolta pela poética estética de passagens bíblicas. Externando de forma livre e imagética a busca humana do coração que, ardente, corre para o caminho que lhe pode salvar e livrar-se de si mesmo, resultando em total rendição.

Rendido.

O ser que medita sua salvação – onde na obra de Agostinho é ele mesmo, carrega para mim sutiliza estética que se tornou presente nas expressões corporais da intérprete da foto (uso o termo “intérprete” para me referir à modelo da foto), estando ela ora em meditação, contemplativa, ora rendida, buscando e grata.

O ser que medita.

A redenção e rendição foram as temáticas inspiradoras para a criação da série, na qual procuro apresentar o ser humano como que correndo em direção ao chamado do Redentor: “Vinde!” (Mateus 11:28) – do qual se origina o nome da série. A intérprete representa o ser a refletir sobre sua redenção, o ser que corre para o que lhe pode salvar, dar esperança, como que atraída pelas cordas de amor (Oséias 11:4) que emanam do sacrifício perfeito que religou céus e terra, respondendo as palavras de Jesus: “Vinde a mim” (Mateus 11:28). Em total rendição, ela se prostra, meditando sobre sua salvação.

VINDE.

Diante da verdade bela desse Redentor, da cruz fixada nesta terra e já vazia, marcada pela ascensão de Cristo, que com vestes brancas está a direita de Deus, e cujo povo eleito também o louvará com roupas brancas (Apocalipse 7:9), frente à esteticidade poética dessas verdades, desenvolvi essas fotos, sobre uma narrativa que continua, até que “o trabalho na Terra esteja completo”.

1.1. Keith Green: There is a Redeemer

Esta última frase do parágrafo anterior pertence a uma canção que, ao ouvi-la, minha mente foi remetida a uma atmosfera transcendente, de maneira que esta me veio à mente durante todo tempo em que fotografava – portanto, colaborou na criação da série. A canção, que indico para escutarem no término da leitura deste artigo, tem o título There Is A Redeemer e é do cantor Keith Green, que compôs a respeito da redenção esta canção na qual, em gratidão à provisão de um redentor, canta no refrão (traduzido):

Obrigado Oh, meu Pai
Por nos dar Seu Filho
E enviar Seu Espírito
Até que o trabalho na Terra esteja completo

A letra cristocêntrica e a reverência na doxologia modificam a atmosfera, podendo despertar o desejo de ajoelhar-nos e contemplar o motivo da canção. Uma atmosfera transcendente parece surgir no decorrer da música, com o fervor da voz e dos instrumentos, como se estivéssemos [e estamos] à frente de algo inimaginável e precioso, o que nos leva a rendermo-nos, batendo no peito ao invés de mantê-lo erguido, como escreveu Agostinho (p. 238). Posicionei minha intérprete deste modo, com a intenção de conduzir as fotos para além da técnica ou do apenas figurativo e material diante da câmera, mas como uma forma de doxologia.

Frente à toda a inflamação do pecado neste mundo e suas consequências abismais, um redentor se entrega, uma cruz é manchada por sangue puro, aqui, nesta Terra, e somente aqui, uma única vez e de maneira válida para sempre (Hebreus 10:12-14). É interessante refletir que foi no chão desse nosso mundo que tudo naquela cruz aconteceu. “Está terminado!” foram as últimas palavras do redentor Jesus.

Eis aqui uma segurança para a nossa vida cotidiana: quer cumpramos todas as tarefas do dia, quer não, que acertemos, quer não, vençamos ou não, já está terminado! O trabalho de redimir o ser humano de sua natureza caída e destruidora foi feito. Nos resta render-nos.

Está terminado.

Esse VINDE, nos chama para tantas coisas que ansiamos e pelas quais o mundo contemporâneo saliva. Esse chamado de Cristo conclama ao descarregar dos corações daqueles pesos que são, à vista de seus portadores, insuperáveis. Recorde aquele cobertor quentinho no inverno, o café que a mãe oferece na hora certa, um amigo para desabafar, o acolhimento piedoso da igreja onde nos sentimos tão amados e cheios de sentido, como se tudo estivesse no devido lugar. Se esses episódios nos possibilitam o experimentar de um tipo bem raso de descanso e já nos aliviam o peito, derretendo sentimentos angustiosos, imagine o VINDE. Ele promete descanso para a alma, desapego de fardos, livramento da auto justificação – Jesus continua: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês” (Mateus 11:28).

Descanso.

1.2. O Ser que medita a redenção

Em Confissões, de Agostinho, esses tantos cansaços e anseios íntimos, tão familiares a nós, são expostos. Vemos o ser humano à mostra, transparente, em busca de sentido, em luta consigo mesmo, ansiando salvação e justamente meditando sobre ela. Agostinho, após ter sido alcançado pelo Senhor e surpreendido pelo jugo suave como prometido (p. 232), reflete o desespero que seria pensar que a Sua Palavra se distanciou dos homens, mas se banha da mais pura esperança ao recordar João 1:14, que diz: “A Palavra tornou-se carne e viveu entre nós” (p. 239), de modo que Jesus esvazia a morte dos pecadores, redimindo o mundo. Que grande alívio e paz veio dessa justiça que teve por salário a própria vida e a paz (p. 239).

2. Quatro Padrões de Julgamento

Introduzirei os padrões de Schaeffer, trabalhando um deles, para o aplicarmos nas obras por vir, junto de reflexões acerca da benção redentora. No capítulo 2, do livro A Arte e a Bíblia, Schaeffer traz onze perspectivas diferentes pelas quais o cristão pode “considerar e avaliar os vários aspectos da arte” (SCHAEFFER, 2010, p. 44). Ele, então, desenvolve uma perspectiva cristã sobre a arte em geral, em que, na quinta perspectiva, se detém nos Quatro Padrões de Julgamento a serem aplicados a uma obra de arte, sendo eles: Excelência técnica; Validade; Conteúdo intelectual, a cosmovisão que está sendo comunicada; Integração entre conteúdo e veiculo. Desses, nos debruçaremos sobre o terceiro.

2.1. Conteúdo intelectual, a cosmovisão que está sendo comunicada

Este terceiro critério, do Conteúdo Intelectual, espelha a cosmovisão do artista. Schaeffer, por meio do exemplo dos cristãos, traz as Escrituras como lentes através das quais devemos analisar a cosmovisão representada na obra de arte, que permanece sujeita a este julgamento a partir da verdade bíblica e da cosmovisão cristã. Nesta série de fotos, parti de passagens bíblicas que sempre banharam meu imaginário, mexendo comigo esteticamente. Em Oséias 11:4, por exemplo, tem-se o ser como atraído por cordas de amor. Observe a beleza disso, dessa poética da atração! Não é como se essas palavras tomassem forma, ganhassem um corpo, envolto de eternidade?

Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor. (Oséias 11:4)

Muitas passagens a respeito do zelo de Deus pelos Seus, os chamando para Si, para Sua redenção em Cristo, e Sua Palavra, me influenciaram na composição das fotos que culminam na redenção na cruz. Temos tantas produções artísticas acerca das Escrituras, mas tão poucas na área da fotografia! Fica aqui meu apelo aos fotógrafos. Te convido a contemplar algumas passagens que me guiaram a imaginação na composição da série VINDE. Desejo que, em adoração e rendição, prossiga em demorares o coração num passeio através das fotos, meditando tua Salvação.

Porque morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, for manifestado, também vos manifestareis com Ele em glória. (Colossenses 3:3,4)
Com amor eterno te amei, e benignidade te atraí. (Jeremias 31:3)
Vós sois a luz do mundo (Mateus 5:14)
Vos suplicamos em nome de cristo que vos concilieis com Deus (2 Coríntios 5:20)

Não esqueça de seguir nossa Playlist com todas as músicas que já citei nos artigos anteriores. Ouça There is a Redeemer: https://open.spotify.com/playlist/7M6w2fn4wpim74nsjBQkTj?si=ac360c44143e4511


NOTAS

AGOSTINHO. Confissões (São Paulo. Mundo Cristão, 2017), 240P.

GREEN, Keith. There is a redeemer. Pretty Good Records: 1982. 3min 10s.

SCHAEFFER, Francis. A Arte e a Bíblia (Viçosa, MG. Ultimato: 2010), 80p.


Francine Cabanas Tobin é fotógrafa, artesã e musicista da Igreja Assembleia de Deus Jardim Botânico, em Porto Alegre – RS. Graduada em Fotografia, pela ULBRA, em Canoas – RS e mestranda em Teologia pela EST – RS. Através da fotografia autoral, vem criando séries fotográficas com uma poética visual inspirada na cosmovisão cristã, buscando dialogar com as duas linguagens: fotografia e teologia.


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