Como seria “um Pedro” em Atenas? A importância do preparo missionário

Quando o assunto é missões, alguns tendem a olhar de forma simplista, projetando um modelo único de evangelização ou abordagem. Mas, isso não é algo novo. Em Atos, a Igreja primitiva enfrentou o problema de levar o Evangelho a todos os povos com todas as suas implicações teológicas e culturais. Neste artigo, pretende-se enfatizar a importância de ampliarmos o entendimento acerca da grande tarefa missionária que foi comissionada à Igreja, como também esclarecer que a falta de preparo põe em risco toda a missão e, assim, concluir que o preparo pode ser uma grande ferramenta para que o Evangelho seja anunciado onde Cristo ainda não foi nomeado (Romanos 15:20).

Charles Kraft, certa feita, indagou “Qual é a visão de cultura para Deus?” Seria a cultura judaica? Seria a grega? Seria a brasileira? Segundo Kraft, a resposta pode ser conferida em 1 Coríntios 9:19,20, quando o apóstolo Paulo expõe seu método de abordagem dizendo “fiz-me tudo”, “judeus”, “sem leis”, “com lei”, “todos”. O que isto significa? Simplesmente que o Evangelho pode ser proclamado de maneira transcultural, pode transpor as fronteiras culturais.

Nas Escrituras, encontramos algumas expressões que comunicam a atenção do Apóstolo Paulo à questão do conflito cultural. Uma delas é “fiz-me tudo” e a outra se encontra na referência de Romanos 15:20, a saber, “me esforcei por anunciar o Evangelho”. A referência para “esforcei”, no grego, é philotimoumenon, que significa labor exacerbado e conota a mesma coisa que um ultimo fôlego, retirar forças de onde não se tem. A expressão “fiz-me tudo”, que é genoma, cogita o ato de fazer algo sem a distinção de preferências. Sendo assim, todos estavam na lista de Paulo, todos eram alvos do amor de Deus, e é por isso que ele escreve aos Romanos que era devedor tanto de judeus, como de gregos e bárbaros. Ao verificar tanto a disponibilidade de Paulo como seu esforço em anunciar o Evangelho a todos, podemos nos perguntar: como transmitir o Evangelho a “todos”? Possivelmente, as maiores dificuldades estão no âmbito das diferenças culturais e no fato de que não temos “evangelhos”, outrossim um único Evangelho, que é para todos – que desafio!

Por esta razão, a primeira tarefa é ampliarmos o entendimento sobre as culturas e sobre como o Evangelho se relaciona com as diferentes cosmovisões. Kraft comenta em seu artigo que “há duas realidades: uma é como Deus vê e a outra como nós vemos as culturas com nossas limitações humanas”. Deus, em Suas promessas, incluiu povos, línguas, tribos e nações (Apocalipse 7:9). Analisando o exemplo de Paulo e Pedro e de como eles lidaram com conflitos de cosmovisão, veremos a importância e a necessidade do preparo para cumprirmos a missão de Deus.

Pedro, em Atos 10, mostrou que o judaísmo era a lente interpretativa que guiava sua compreensão do Evangelho. Nisso, Deus corrigiu o modo como Pedro via as outras culturas, mostrando a ele que o Seu plano baseava-se em uma plataforma mais ampla. Em Gálatas 2:11-16, Paulo dá testemunho da inabilidade de Pedro entender que os gentios também faziam parte dos planos de Deus. As exigências culturais do judaísmo prendiam os judeus a uma visão pequena do Evangelho, de maneira que a falta de entendimento de Pedro nesta questão, levou-o a limitar sua mensagem, podendo ser missionário somente aos seus compatriotas, que compartilhavam dos mesmos códigos culturais, como língua e costumes.

Paulo, por sua vez, tinha essa sensibilidade de conhecer bem o Evangelho e bem a cultura. Ao analisar sua trajetória missionária, observamos que a sua mensagem era transferida a partir de contextos compartilhados pelo povo local. Suas expressões “esforcei me” e “fiz-me de tudo”, se relacionam diretamente com a sua consciência da necessidade de conhecer o povo local, sua forma de linguagem, bem como o conteúdo da mensagem que Deus lhe tinha outorgado. Minha indagação inicial é: “Como seria “um Pedro” em Atenas?” Teríamos uma missão completa se Pedro meramente apresentasse uma mensagem judaizante aos atenienses? Certamente que teríamos mais um concilio sobre conflitos culturais.

Diante do exposto, devemos encarar o desafio de evangelizar o mundo sem negligenciarmos suas reais implicações e realidades culturais, e nos convencermos de que o preparo teológico, cultural e linguístico estão na base de toda missão evangelizadora. Vemos em todo o Novo Testamento esta tríplice acompanhando a mensagem do Evangelho.

Por exemplo, no preparo teológico, devemos responder à seguinte questão: Quem anunciamos? A Deus. Precisamos conhecer bem a Deus e ao Seu plano. O preparo cultural é o mesmo que entender o “para quem anunciamos”? Entender as realidades culturais de cada povo para pregar uma mensagem contextualizada e bíblica, confrontando aquilo que o Evangelho condena e conciliando aquilo que glorifica a Deus com o preparo linguístico é a resposta para a pergunta: como anunciamos? Existem diversas formas de anunciar, e uma mensagem mal compreendida gera prejuízos enormes para a missão da Igreja.

Quando pensamos em uma suposta missão de Pedro em Atenas, não temos a intenção de enaltecer o ministério de Paulo e diminuir o de Pedro, pois vemos que Pedro teve um importante papel na liderança local da igreja em Jerusalém e a tradição diz que seu ministério se estendeu em dado momento à cidade de Roma. Porém, bem sabemos que, quando ele enfrentou um desafio cultural, viu-se em grandes dificuldades por causa de sua pequena visão de mundo, contrastando a si mesmo com Paulo, que recebeu um chamado para as nações e, a fim de cumpri-lo, apresentou grande preparo.

Concluímos que, independentemente de nosso chamado, todos devemos aplicar-nos ao estudo do Evangelho e de nossa missão. A Igreja é chamada para pregar a todas as nações, com suas culturas, línguas e costumes. Por isso, se sua chamada inclui este desafio, é hora de se preparar!


João Paulo Vargas é Missionário da SEMADI (Secretaria de Missões da Igreja Assembleia de Deus do Ipiranga, São Paulo – SP). Bacharel em Teologia pela FATERJ/RJ, o missionário fez Licenciatura em História pela Faculdade Integrada de Araguatins/TO, bem como Especialização em Antropologia Intercultural pelo Centro Universitário de Anápolis/GO, Especialização em Docência Superior pela Universidade Cândido Mendes/RJ, Especialização em Ensino da Filosofia pela Faculdade FUNIP/MG. Pós-graduando em Teologia Sistemática pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper. Tendo atuado com plantação de igrejas no Nordeste Baiano e no estado do Amazonas, com comunidades ribeirinhas e indígenas, atualmente está se preparando para um projeto de plantação de igreja, escola e posto de saúde, que se chamará “Nouvelle Vie”, em Burkina Faso, na África. Casado com Almirana e pai da Sarah.

Deixe um comentário