A irmã Bella Falconi tem nos concedido o privilégio de termos sua contribuição para a Revista Fé Cristã através de abençoados artigos de sua autoria, escritos exclusivamente para a revista. Desta vez, a alegria foi ainda maior: ela aceitou conversar conosco sobre os temas que permeiam o seu livro “E se não houvesse amanhã?”, lançado pela United Press, em 2020. Confira, abaixo, a entrevista na íntegra:
MOTTA – Bella, conte-nos como foi a sua conversão? Como se deu o início da sua história com Jesus?
BELLA – Meu contato mais próximo com Deus aconteceu em 2014, quando uma amiga querida foi diagnosticada com um câncer muito agressivo. No momento em que eu recebi a notícia, comecei a orar com toda a fé do meu coração e senti muito a presença de Deus na minha casa. Foi sobrenatural! A partir dali, as coisas não foram mais as mesmas. A sede era muito grande. Pouco menos de um ano depois disso, minha primeira filha nasceu e eu tinha uma ajudante que carinhosamente chamo de tia Eva que é uma mulher de Deus e pregava para mim todos os dias. Resolvi ir à igreja para conhecer e naquele dia caí de joelhos no chão e não consegui mais deixar de ir. Isso foi no final de 2015. Em maio de 2016, fui batizada e minha caminhada com o Senhor tem sido tremenda e transformadora a cada dia!
MOTTA – “E se não houvesse amanhã?” é o título do livro que você lançou em 2020. Quando foi que você começou a pensar mais detidamente sobre a morte?
BELLA – A pandemia nos fez pensar mais sobre a morte. Na verdade, ela nos fez pensar mais sobre a fragilidade da vida e sobre a nossa pequenez diante da grandeza de Deus.
MOTTA – “Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria.” (Salmo 90:12) Como devemos entender esta passagem? O que Deus está nos ensinando através dela?
BELLA – Esse versículo é como uma instrução de Deus para que passemos a avaliar os nossos dias de forma correta, pois há um limite de tempo e ele passa rápido! Os dias vão sendo reduzidos e precisamos ter a certeza de que logo chegarão ao fim. É um chamado para avaliarmos a nossa relação com o futuro e como temos vivido, a fim de que alcancemos um coração sábio. Devemos clamar a Deus pela capacitação para que sejamos verdadeiramente sábios. Embora nós não tenhamos a capacidade de antever o futuro, Deus vê absolutamente tudo – o início, o meio e o fim e, embora ele tenha ocultado tudo isso de nós, ainda assim pode nos capacitar a agir sabiamente como se compreendêssemos o futuro! Devemos viver de forma irrepreensível pois sabemos que essa vida chegará ao fim.
MOTTA – A morte é um assunto bastante indigesto no mundo atual. No seu entendimento, qual é a razão para que isso seja assim?
BELLA – Existem dois aspectos. O primeiro deles é que o homem não foi feito para a morte, mas, sim, para a eternidade. Em Eclesiastes, a Palavra de Deus nos ensina que Ele colocou no coração do homem uma sede de eternidade. Portanto, a morte ainda é algo muito doloroso para cada um de nós. Talvez, ainda incompreensível. Além disso, a cultura nos ensina que a morte é inimiga da vida e não uma parte natural dela. Diante disto, criamos uma grande repugnância com relação ao tema “morte”. Tendemos a pensar na morte como um assunto sombrio e desagradável e não como uma passagem para a nossa morada celestial. Falta incentivo, esclarecimento, estudo e conversas inteligentes sobre isso.
MOTTA – Tim Keller, em seu livro “Caminhando com Deus em meio à dor e ao sofrimento”, diz que “a razão para tanta ênfase no aqui e agora deste mundo é que o secularismo não tem outra felicidade a oferecer. Se não a encontrar neste mundo, não existe mesmo nenhuma esperança para você.” Como isso se relaciona com a prática diária dos cristãos? Temos abraçado uma mentalidade secular em detrimento da cosmovisão cristã?
BELLA – Não temos a menor dúvida de que, ao invés de a igreja invadir o mundo, o mundo tem invadido a igreja. O Evangelho tem se tornado algo negociável e passível de mudanças, o que é muito triste. Esse não é o Evangelho de Cristo, que ensina renúncia e escolhas. A verdade é que falta boa teologia nas igrejas. Há muitos “jesuses” sendo fabricados nos altares. Há diversos “deuses” sendo vendidos no evangelicalismo. No entanto, só há um Deus e só há um Jesus! Aquele que diz: “aquele que quiser vir após mim, tome sua cruz e me siga”. Não existe outra forma. Talvez isso explique a grande onda de apostasia que estamos vivendo. Há um excesso de religião e falta de Deus. Há um excesso de terra e falta de céu. Não é sobre “que venha o Teu Reino”, mas sobre “fazemos de nós mesmos pequenos ‘reizinhos’ do nosso próprio reinado”.
MOTTA – Faz sentido um cristão ter medo da morte? E o não-cristão?
BELLA – Eu creio que o medo é um processo natural do ser humano. Faz parte da nossa existência sentir medo. Mas, esse medo não deve ser patológico. Entendo que é absolutamente normal sentir um certo medo do processo de morrer: da dor, da despedida daqueles que amamos e assim por diante. Mas, da morte em si, não devemos ter medo no sentido patológico. Porque morrer é voltar para o Pai. E essa é uma das razões pelas quais devemos buscar todos os dias a certeza da nossa salvação! Esse é o descanso do crente: saber para onde está indo. Quanto ao ímpio, a Palavra já deixa bem claro qual será o seu fim. Isso sim deveria ser sinônimo de pavor. E é justamente por isso que devemos pregar à toda criatura. A realidade do inferno é terrível e se não nos incomoda pensar que alguém está indo para lá, somos nós quem merecemos aquele lugar. Somos devedores do Evangelho e não devemos jamais fazer juízo de quem é ou não é salvo. O nosso papel é anunciar as boas novas. E nossa motivação e inquietude deve ser justamente essa: de amar tanto a realidade do céu a ponto de não suportarmos sequer pensar que alguém possa estar indo para o inferno.
MOTTA – É possível estar completamente envolvido com as coisas deste mundo, isto é, vivendo em função do que conhecemos como “sonho americano”, desfrutando das dádivas e oportunidades do ideal capitalista ocidental, e, ao mesmo tempo, como John Wesley, viver todos os dias esperando ansiosamente pela volta do Senhor?
BELLA – É importante fazermos uma distinção entre viver no mundo e ser do mundo. Algo que deve ser sempre bem claro para todo cristão é que somos forasteiros na terra! Mas, vivemos nela! Por ora, esse mundo é o único lugar que temos para sermos cristãos. E precisamos trabalhar, sonhar, viver… no entanto, não podemos compartimentar Deus em nossa vida: aqui Ele entra, aqui não tem nada a ver, aqui talvez… não! Deus é Deus de TODA a nossa vida! Então, devemos honrá-lo em nossa escola, trabalho, casa e assim por diante! Vivemos no mundo e, portanto, é inevitável que estejamos, de uma certa forma, envolvidos com as atividades dele. Mas é justamente o nível de envolvimento que devemos avaliar. O que priorizamos? Temos negociado nossos valores? O que move o nosso coração? No que pensamos o dia todo? A quem ou a o que temos servido?
MOTTA – O que Jesus estava ensinando quando disse que veio para que “tenham vida e vida em abundância” (João 10:10)?
BELLA – A vida com Deus é uma vida abundante porque ela nos traz completude e alegria em todas as esferas e não é uma alegria circunstancial nem transitória. Não é uma falsa alegria. A vida que jorra de Deus não é uma vida incompleta, ao contrário, é uma vida que tem sentido e propósito.
MOTTA – Muitas pessoas sabem que a morte é iminente para todo ser humano e, ainda assim, de certa perspectiva, vivem como se ela não fosse. Ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas passam a vida tomando atitudes para evitar a morte e fugir dela, ao invés de se prepararem para ela. O que você pensa sobre isso?
BELLA – Deveríamos viver todos os dias como se eles fossem o último! Não no sentido pessimista da palavra, mas entendendo o que Tiago diz sobre sermos como a neblina. Precisamos compreender quão efêmera é a nossa vida e vivê-la da maneira que Deus nos chama para viver! Temos que viver como se Jesus fosse voltar exatamente agora. Ter sempre óleo em nossa lamparina e fogo em nosso coração.
MOTTA – Por que “é melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa” (Eclesiastes 7:2)?
BELLA – A festa não tem nada a nos ensinar. Ao contrário, ela cria em nós uma ilusão de que a vida não tem fim. De que a vida é uma festa! Ela não é. O mundo jaz no maligno. A vida chegará ao fim. Adoeceremos e morreremos um dia. Quando presenciamos o luto, não apenas refletimos sobre a transitoriedade da vida, como também exercitamos a nossa fé, a nossa empatia, ganhamos uma oportunidade de servir ao próximo e de amadurecermos. Ganhamos, sobretudo, uma oportunidade de despertar para a nossa pequenez diante da grandeza de Deus e de lembrar que Ele está no controle e não a gente.
MOTTA – O que é a vida eterna?
BELLA – A vida de verdade!
MOTTA – Uma última palavra?
BELLA – Que sejamos perseverantes porque dias difíceis hão de vir! A perseverança dos santos é o clímax da salvação. Aquele que se mantiver fiel até a morte receberá a coroa da vida. Avante !!!

Bella Falconi é casada e mãe de duas meninas, Victoria e Stella. Bacharel e Mestre em Nutrição pela Northeastern University – EUA, é também pós-graduanda em Teologia Sistemática pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper. Palestrante internacionalmente reconhecida e influenciadora digital, com mais de 4 milhões de seguidores, é também membro da Igreja Presbiteriana de Pinheiros em São Paulo – SP.

Marcos Motta, 29 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é graduando em Processos Gerenciais, pela Universidade Estácio de Sá, e estudante autodidata de teologia. Autor dos livros Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017) e Evangelismo Placebo: oferecendo um evangelho de mentira a pecadores de verdade (2021). Na igreja local, coopera como pregador, e também como ministro de louvor. Casado com Talita Motta.