Eram oito e meia da manhã de um domingo, quando eu, nos meus 6 anos de idade, disse para o meu pai (pastor): “Pai, já vou pra igreja!”. E saí. O templo ficava a duas quadras de casa. Em pouco mais de 2 minutos eu estaria lá. Mas, o meu plano era outro. Atravessei a rua e fiquei escondido por detrás de um poste. Depois que o meu pai foi para a igreja, saí e fui brincar. Que manhã maravilhosa aquela! Brinquei até cansar. Só depois que ele retornou, voltei para casa. Foi inevitável que ele me perguntasse onde eu estive. Respondi: “Eu estava lá na igreja.” Ele, então, pegou a tradicional sandália havaiana azul/branca de minha tia e me deu três bolos em cada mão – naquela época não tinha a lei da palmada. E me disse, em amor: “Nunca mais faça isso, meu filho!”.
Eu havia decidido, naquela manhã de domingo, que o melhor seria seguir o que eu mais ansiava. Aproveitar um domingo para me divertir com os meus amigos. Era justo! Pelo menos, eu pensava que era. Para meu pai, um pecado! Os domingos se tornaram uma grande prova para mim. No final da década de 1970 e início da de 1980, todas as noites tinham os programas dos Trapalhões com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Nunca pude assisti-los. A não ser quando estava doente. Que alegria!!! Ficar em casa e ver os olhos do Zacarias dando mil voltas, era legal demais.
Na adolescência, só podia surfar aos sábados. Sempre arrumava carona ou ia de ônibus. Domingo, igreja!!! As finais dos campeonatos de polo-aquático (water polo) eram sempre no domingo pela manhã, sempre seguidas das entregas de medalhas. Meu pai nunca esteve lá. E sempre era difícil argumentar que eu teria de participar do jogo final. Se não bastasse, a minha Caloi Cross, bicicleta famosa que todos queriam ter, só era usada para treinos. Nunca pude participar de uma corrida sequer. Todas eram domingo pela manhã. Mas, que fique claro, eu sempre achava que poderia ir, sem maiores problemas.
O pensamento do meu pai era simples. Ele sempre dizia: “Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão! Enquanto você estiver aqui em casa vai fazer o que eu quero. Quando você sair, fará o que você quiser.” E assim, domingo após domingo, por volta das oito da manhã, ele chegava ao meu quarto e, com um sorriso estampado no rosto, batendo no portal (ou caixilho da porta) do meu quarto, dizia: “Acorda! Passarinho que não deve nada a ninguém já está acordado a uma hora dessas. Acorda!” Eu pulava da cama, trocava de roupa e ia embora para igreja com ele. Apesar de ele fazer tudo isso por amor, no meu coração, sempre se travava uma luta entre o que eu achava que era certo e o que ele dizia ser certo.
(Re)Definindo o pecado: autonomia moral
A imagem que tenho de pai é a de um legislador. Aquele que diz o que é certo e o que é errado. Acredito que essa também tenha sido a primeira visão de Adão em relação ao seu Pai, o Deus Criador. O Pai de Adão (Lucas 3.38) sempre fez tudo por ele. Além de criá-lo, deu-lhe uma esposa (Eva) e um local perfeito para viverem, o Éden. Um verdadeiro pomar, com todo o tipo de plantas comestíveis, animais e rios, e com todo o tipo de peixes. Naquela época, o pecado ainda não havia entrado no mundo. No meio do Éden, havia duas árvores. “A árvore da vida” e a árvore que, caso Adão se alimentasse do seu fruto, o levaria à morte. Esta era “a árvore do conhecimento do bem e do mal”, proibida de comer pelo seu Pai, sob a pena de “certamente morrer”.
Sempre fiquei intrigado com o nome dessa árvore. Nunca significou muito para mim. Daí eu afirmar que o primeiro pecado foi o homem ter desobedecido a Deus ao comer do fruto dessa árvore. Uma saída muito simples para não entrar no verdadeiro sentido ou significado da árvore. A primeira pista que encontrei sobre o significado desta árvore está no texto de 1 Reis 3.9 quando o Rei Salomão pede a Deus sabedoria para discernir entre o bem e o mal, com o propósito de julgar o seu povo. Uma pessoa que pede sabedoria, certamente já está movido pela própria sabedoria. Nenhum tolo jamais faria isso. Salomão então usa a expressão “discernir bem e mal”. Mas, o que é discernir bem e mal ou conhecer o bem e o mal?
Lembremos, então, do texto de Gênesis 3, onde temos a conversa entre a serpente conversando com Eva. Sendo o pai da mentira e o primeiro teólogo, como disse Bonhoeffer, o Inimigo descaradamente deturpa a Palavra de Deus e tenta a mulher. Ela responde cambaleante, embriagada pela palavra da serpente e pelo seu coração cobiçoso, almejando algo mais do que Deus havia permitido. A Serpente usa a sua peçonha e injeta mais uma dose de veneno na mente da mulher: “Que nada! Você vai ver… Ao comer do fruto você e seu esposo serão ‘iguaisinhos’ a Deus. É por isso que ele não quer que vocês comam. Prove e você vai enxergar esse mundo com muito mais cor. Se vocês comerem, serão sábios de verdade e poderão discernir entre o bem e o mal, exatamente como Deus faz”.
“Conhecer o bem e o mal” significa ter a capacidade de decidir o que é certo e o que é errado. Dentro desse contexto de Gênesis, seria decidir o que é certo e o que é errado sem a ajuda de Deus. O ser humano, ao comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, passaria a assumir o papel de ser aquele que definiria o que é certo e o que é errado para a sua própria vida. Seria, portanto, deixar de confiar em Deus, em Sua Palavra, como aquele que definiria o que era melhor para o ser humano. Comer do fruto seria romper com a essência de si mesmo. O que fora criado para depender, agora, tentaria um voo solo, independente, por toda a sua existência e de sua descendência.
Em termos práticos, “conhecer o bem e o mal”, nada mais é do que ser moralmente autônomo. Esse foi o caminho que Adão e Eva tomaram. Um caminho que os levou para fora do jardim do Éden, para longe de um cosmos perfeito e em equilíbrio, distantes de Deus, o seu Criador, e impossibilitados de se alimentarem do fruto que poderia reverter a sua situação, o fruto da “árvore da vida”.
É aqui, em Gênesis 3, que encontramos os elementos necessários para uma (re)definição de pecado. Uso “(re)definição”, não no sentido de ser algo necessariamente contrário ao que temos ouvido e pregado em nossas igrejas, mas por ser (ao menos para mim) uma nova e mais profunda forma de enxergar o conceito de pecado tomando como ponto de partida o primeiro pecado cometido pelo nosso representante.
Sempre ouvi meu pai dizer do púlpito da igreja: “Pecado é errar o alvo.” Na minha infância, ouvia minhas professoras de escola bíblica dominical dizerem: “Pecado é tudo aquilo que fazemos, deixamos de fazer, falamos ou pensamos que não agrada Deus.” Também ouvia que pecado é tudo de ruim que nós fazemos. Com o Rei Davi, aprendi que pecado é sempre e primeiro contra Deus. Ainda que seja algo de ruim que fazemos contra alguém, ou contra nós mesmos, ofendemos primeiramente a Deus. Deixar de fazer o que se sabe que se deve fazer ou que se deve dizer também é pecado, o pecado da omissão.
Mas, o texto de Gênesis 3 lança luz abaixo do solo e nos faz enxergar as raízes e a essência do pecado, que não é simplesmente desobedecer a Deus. Isso é uma consequência de algo mais profundo. Adão e Eva desobedeceram a Deus por enxergarem algo que lhes atraiu (e que gerou cobiça). Não foi só o fato da fruta parecer ser boa para comer e agradável aos olhos. A fruta brilhou de forma diferente e se tornou suculenta ao coração de Eva e, por conseguinte, de Adão, por ela tornar possível uma nova forma de viver. Era a aquisição do poder de discernir por si só o que é certo e o que é errado – ou a aquisição da autonomia moral. Essa foi a razão por detrás da desobediência.
Bartholomew e Goheen definem muito bem o que é pecado com os olhos postos em Adão e Eva no Jardim do Éden. Eles dizem:
“Pecado é uma decisão de escolher nosso próprio caminho ao invés do caminho que Deus construiu na criação. É tornar-se o nosso próprio legislador ao invés de atender ao Divino Legislador em obediência.” [1]
Pecado é definir por si só o que se deve fazer, dizer ou pensar, sem depender da Palavra de Deus, sem depender do Deus da Palavra. Sob essa perspectiva, todos os seres humanos nascem como pequenos reis, pequenos legisladores que, à luz de sua própria cultura, amadurecem como verdadeiros legisladores. Algumas culturas estimulam as crianças a serem autoconfiantes, valorizarem a sua autoestima etc. Conheço culturas indígenas que o orgulho é um valor ensinado às crianças de forma franca, aberta e objetiva, pois, para eles, somente tendo o orgulho como valor será possível viver num mundo complexo como esse, que exige força e determinação para vencer os desafios da natureza e ‘tirar’ dela o alimento para a subsistência, sem se deixar vencer pelo sofrimento causado pelas doenças.
Bartholomew e Goheen[2] colocam de forma prática que pecado é uma anormalidade não encontrada no manual do fabricante. Pecado é também rebelião. É se opor de forma frontal ao próprio Criador, sua bondade, seu amor e cuidado. Pecado é idolatria. O homem não foi feito para ser independente, mas para ter alguém como senhor ou alguém a quem servir. Não há como ser neutro, ficar sem servir, sem se submeter a alguém ou a alguma coisa. O homem sempre adorará… A autonomia moral faz com que ele se torne idólatra ou ególatra. Paulo, escrevendo aos cristãos romanos (Romanos 1.18-32), deixa claro que, ao suprimir a verdade (ou Palavra) de Deus anunciada pela criação, o homem passa a adorar a outros seres criados. É impossível ficar sem adorar algo. Pecado é anormal, é rebelião, é idolatria. Acrescento aqui que pecado é também incredulidade. É não crer e confiar em Deus e em Sua palavra.
Comer da árvore do bem e do mal foi um grito de autonomia do homem que nos esclarece sobre o que é pecado. Pecado é não querer saber de Deus nem dos seus ensinamentos. Todo homem já nasce no pecado. Nasce naturalmente sem querer saber de Deus. Cada ser humano nasce rei. Rei do seu próprio reino.
Os espinhos do pecado: alienação e sofrimento
O resultado cosmológico do pecado em Gênesis 3 é de suma importância para se compreender o que aconteceu com o ser humano desde então. O primeiro fato foi a forma como o ser humano passa a enxergar-se em sua relação com o próximo. Em Gênesis 2, homem e mulher estavam nus e não se envergonhavam. Agora, o seu olhar é impuro e a nudez precisa ser coberta, pois passou a ser motivo de vergonha entre eles. Isso nada mais é do que o início da alienação entre Adão e Eva, um estranhamento que não ocorria antes. A alienação pode ser definida aqui como o abandono mútuo, a privação recíproca causando a perda da amizade e estima entre eles. A expressão dessa alienação é a vergonha. Diferente de culpa, a vergonha tem sempre um caráter social. Ela é posta sempre entre um ser humano e outro, ou entre um indivíduo e a sociedade. Vergonha é o resultado da alienação entre os seres humanos. A partir daí os relacionamentos serão corrompidos, falhos, frágeis e fonte de todo tipo de sofrimento.
Eles também se tornaram alienados de Deus. A fuga é uma reação fundamentada ou consequência da autonomia moral escolhida por Adão e Eva. Eles fugiram da presença de Deus. Isso expressa a postura do pecado agindo em termos práticos. Decidiram o que seria melhor fazer – fugir. Negaram encontrar-se com o Deus Criador. Assumiram uma postura de abandonar e privar-se do relacionamento com Deus. Ao invés de vergonha, o elemento da alienação aqui é a culpa e o medo. O homem tem consciência plena dos seus atos. Decididamente fez o que fez, e agora ao ser buscado pelo seu Pai, o Criador, manifesta a sua alienação ao “bater com a língua nos dentes” e condenar Eva e o próprio Deus: “Foi a mulher que ‘Tu’ me deste”.
Sendo seu próprio legislador, Adão passa a formular leis de acordo com as suas inclinações de tal forma que suprime as leis e ordenanças divinas. E nega ser ele o culpado, culpando a Deus. Isso me faz lembrar um fato ocorrido no Alto Rio Negro (Amazonas), na fronteira do Brasil com a Colômbia, quando agentes da Polícia Federal deram um flagrante em uma canoa com indígenas traficando cocaína, mas os indígenas negavam veementemente serem suas as drogas. Eles argumentavam, como pequenos legisladores, justificando o que estavam fazendo. Como se estivessem dizendo: “Seu policial, de acordo com a ‘minha lei’, isso não é nada. Essa droga tem dono. Ela não é minha. Eu só a estou transportando. Prendam os donos dela. Eu só ganhei um pouco de dinheiro para fazer um favor pra eles. O dono mesmo é que ganha muito dinheiro. Vocês devem prender a eles e não a nós.” A negação do delito é fundamentada no fato de se assumir o papel de legislador, de substituir a Lei, diante do agente dela, colocando em seu lugar a sua própria. Afinal, o homem se tornou seu próprio legislador. Em última instância, a negação do pecado por Adão é uma postura idólatra e egoísta – filha do orgulho.
Não poderia deixar de falar de Eva. Na mesma linha de Adão, Eva nega o pecado culpando “a criação de Deus”. Foi a serpente, disse ela, a responsável por tudo; ela me enganou. Como seu esposo, Eva não assume o seu pecado como seu filho. Se tivesse exame de DNA naquela ocasião, ao levar o pecado de Adão e Eva ao laboratório, certamente seria constatado que era filho unicamente deles, com “99,999999%” de certeza. Pois, o pecado sempre tem o DNA de quem o comete.
Deus então amaldiçoa a serpente, a mulher, o homem e a terra. A maldição é uma consequência cósmica do pecado (autonomia moral) cometido por Adão e Eva. A serpente se torna maldita entre todos os seres criados, comendo terra e vivendo com o queixo e a barriga raspando nela diariamente. A mulher tem a sua identidade marcada pelo sofrimento para exercer a maternidade, o seu marido passa a governá-la e o desejo dele passa a ser buscado por ela para agradá-lo. Lembre-se que ela tinha sido criada para ser complementar ao homem, mas agora já não é bem assim. Adão terá de “trabalhar duro” e “suar a camisa” para sobreviver, para a sua subsistência. Isso não significa que ele não trabalhava antes do pecado, mas isso não era algo duro, pesado e sofrido. Agora, nada será mais tão fácil. A conexão entre a maldição de Adão e a terra é clara. Será difícil para ele, porque a terra terá espinhos e frutos com espinhos dentro. Cultivar a terra implicará em ter que limpá-la, derrubar árvores, plantar, arrancar o mato e ervas daninhas para que se consiga tirar da terra a sua sobrevivência. E cada vez que isso fosse feito traria dor e causaria ferimentos (ver Ezequiel 28.24). Adão foi humilhado. Gastará boa parte do seu tempo trabalhando, olhando para o chão, ao invés de olhar para o Criador e Pai. O que poderia ser mais duro do que isso? Podemos resumir aqui que o resultado cosmológico do pecado sob a maldição de Deus foi o sofrimento humano. Sofrer passou a ser a marca identitária do ser humano. É impossível dissociar o homem e a mulher do sofrimento. Viver por si só sem Deus é sofrer.
A ação cosmológica de Deus foi entregar o homem à sua própria escolha de comer a árvore do conhecimento do bem e do mal. De ser o seu próprio legislador, de decidir por si só, de acordo com os seus próprios parâmetros, o que é certo e o que é errado. Entregar o homem ao que ele escolheu seria entregá-lo a morte. E foi isso que Deus fez, afinal, já estava dito que, se eles comessem da árvore que Ele disse para não comerem, eles certamente iriam morrer. E aqui, outra verdade pode ser afirmada: o castigo para o pecado é a morte. E isso é visto quando Deus afirma que Adão voltará ao pó de onde ele veio (ou do que ele foi criado). Mais do que uma morte física, essa morte é cósmica. Ou seja, é uma morte que representa total alienação do ser humano (e não só de Adão) com o Seu Criador. Amaldiçoar o homem, dizendo que ele voltará para a terra é o mesmo que dizer que ele sumirá, desaparecerá, se extinguirá e deixará de gozar da vida, o grande presente que Deus lhe tinha dado. Decidir o que é certo e errado por si só, viver por si só é o mesmo que cometer um suicídio. Nesse caso, o que Adão e Eva fizeram (como representantes do ser humano e gerentes da terra) foi um suicídio cósmico. Decidiram morrer para si e para Deus, levando consigo todos os seres humanos e a natureza.
O pecado, portanto, trouxe (1) a alienação entre os seres humanos, (2) a alienação do ser humano com Deus, (3) a vergonha, a culpa e o medo como manifestações comuns à vida do ser humano, (4) a cegueira espiritual fazendo com que cada um negue a si mesmo como sendo pecador, (5) e o sofrimento em todas as esferas da vida. Não nos enganemos, nós temos o germe infeccioso do pecado correndo em nossas veias. Adão não era simplesmente um homem, um qualquer. O seu nome significa gente. Ele é “nós”, o nosso representante. E Eva, sua mulher, a “mãe de todos os seres humanos”. Isso é o que significa o seu nome. Ela é minha e sua mãe. O nosso DNA não nega que somos filhos de Adão e Eva. Temos a cara dele e traços de nossa querida mãe Eva. Você e eu somos Adão, somos Eva, somos pecadores.
O fruto no meio dos espinhos: a graça
Se o capítulo 3 de Gênesis é fundamental para compreender o caráter do ser humano, o descendente da mulher é a chave para se compreender o caráter de Deus. E aqui o primeiro fato relatado após o pecado é a iniciativa de Deus em buscar o homem, agora atordoado e perdido, por ter assumido [por si mesmo] ser o legislador de sua vida. Isso o fez correr e esconder-se por entre as árvores, costurar folhas para cobrir-se. O Criador, no entanto, pacientemente busca o homem e inicia um diálogo com ele para auxiliá-lo, a fim de que percebesse e passasse a ter consciência do equívoco que tinha cometido. Deus é o que busca, mas não só isso, Ele é um Deus que se comunica, se relaciona e está disposto a ajudar o ser humano. Penso como seria difícil viver num mundo em que o Criador fosse uma força, uma energia ou mesmo raios de luz. Como seria difícil ter que viver de maneira incomunicável com Aquele que nos criou. Antes e depois de comer da árvore proibida, Deus nunca deixou de se comunicar com o homem. Isso é graça!
Na sua comunicação com Eva, Ele lhe prometeu descendência e destacou “o” descendente. Isso é o mesmo que mitigar ou minimizar os efeitos do pecado, o “certamente morrerás”. Dar continuidade à vida seria uma expressão de profunda graça. Naquela situação, viver para ver a sua posteridade seria pura graça. Mas não só isso, a serpente seria aniquilada pelo descendente de Eva. Deus prometeu que “Um” da mulher viria para reparar a criação, esmagando a cabeça da serpente, tirando-lhe a vida. Na perspectiva da revelação progressiva da Escritura Sagrada, seria impossível, só com esse texto dizer mais do que isso. Mas é fato que Este descendente é a esperança dessa reparação. Nada mais belo e acurado do que chamar sua mulher de Eva, aquela que geraria e veria a vida continuar, sendo mãe de todos os seres humanos e d´Aquele Descendente. Só por causa da graça é que ela pôde receber esse bonito nome. Agora, somado à graça há também a esperança.
Lembremo-nos que Adão e Eva haviam feito do seu jeito uma roupa mixuruca com grandes folhas de figueira para minimizarem a alienação entre si e para com Deus. Mas, o Criador matou um animal para cobri-los, para cobrir os pecadores com peles. Deus se mostra como aquele que dá uma solução mais sólida. Ele providenciou uma maneira simbolicamente mais definitiva para resolver o problema que o homem passou a enfrentar, aproximando mais o homem e a mulher e o Criador de suas criaturas. Mas, para isso, um animal teve que morrer, teve de dar a sua vida para que isso fosse possível novamente. O caráter moral é bastante forte aqui. As coisas devem acontecer da forma como Deus estabelece. Nada de folhas de figueira. Ao invés disso, pele de animal! Na verdade, a questão moral já vem sendo pintada nesse quadro, desde quando Deus disse, ainda no Jardim do Éden, o que o homem deveria e o que não deveria fazer, o que ele poderia e o que não poderia comer, em Gênesis 2. No capítulo seguinte, Deus chama o homem e tem uma ‘conversinha’ com ele e também com Eva, para mostrar-lhes o seu erro; e em consequência amaldiçoou o cosmos e o ser humano.
Deus não admite relacionar-se com um pecador e o expulsa de Sua presença. E, para garantir isso, coloca a melhor guarda, com a melhor arma, para impedir que o homem e a mulher voltem a vivenciar as delícias da Sua Santa presença, bloqueando a passagem ao Jardim do Éden e a árvore da vida. Não haveria valor algum no Éden (o local do prazer), se lá fosse apenas um belo pomar, com belos rios, belas imagens, belas pedras, peixes de todo tipo etc. O valor do Éden estava na presença gloriosa de Deus. E não só gloriosa, mas também paterna, amorosa e bondosa. A verdadeira vida estava no Éden. Adão e Eva lançaram tudo isso fora em troca da autonomia moral.
E agora, diante do pecado, a graça se revela de maneira espetacular e não só ela, mas também a esperança. Deus é o Deus da esperança. Esperar nEle para ver a promessa da reparação da criação se cumprir. Deus não se isola, como fazemos quando alguém nos ofende. Ele busca, Ele vai atrás da sua criatura com vistas à reconciliação. Ele não deixa o homem “falando só”, mas intervém e fala para tornar o monólogo idólatra (ou ególatra) do rebelde incrédulo em um diálogo para a vida. Deus também se revela como um Deus justo e como um ser moral, que tem muito bem definido o que é certo e o que é errado, como o Verdadeiro Legislador. Ao mesmo tempo que se mostra como um Juiz, ele também é aquele que cuida de nós, que nos hospeda, que nos supre com o que precisamos realmente – a Sua presença. Se não fosse a iniciativa de Deus, Adão e Eva estariam fadados a uma peregrinação sem fim por esse mundo, seguindo seus próprios caminhos tortos, sem esperança. É a graça que reverte toda essa situação, trazendo vida onde havia morte, trazendo esperança onde havia desespero, medo, vergonha e culpa, trazendo reconciliação onde havia inimizade. “O Descendente” é tudo isso. Alguém que conectaria de novo o ser humano a Deus, realizando a missão de restaurar o ser humano à sua posição de dependência do Criador, libertando-o da autonomia, do pecado.
Palavra Final: o pequeno legislador rendido
Numa aldeia indígena no Alto Rio Negro conheci um macaco prego criado por uma família – ele era chamado Pecado. A bagunça que ele fazia na casa é tremenda. Sobia nas redes e nos girais por cima das panelas, brigava com o papagaio, urinava nas coisas e gostava de passear em cima da cabeça ou preso nas pernas e braços dos seus donos. Ao mesmo tempo, gostava de ter liberdade de fazer o que lhe dava na telha. Corria, fazia careta, gritava e, às vezes, até parecia que estava gargalhando. Ele comia tudo o que via pela frente. Quando alguém chegava à aldeia e perguntava o seu nome, todos diziam com um sorriso irônico: “o nome dele é Pecado”.
Penso que assim é o pecado na vida do ser humano. A autonomia faz uma bagunça em nossa vida, trazendo consequências terríveis. Ela não caminha sozinha. Ninguém simplesmente se torna autônomo vivendo longe de Deus. Autonomia traz consigo uma “penca” de pecados, como no caso daquele macaco prego. Ela abre as panelas do nosso coração deixando o cheiro de enxofre sair: orgulho, inveja, vaidade, imoralidades etc. Urina em nossa língua e nos faz dizer palavras torpes. Aperta a nossa mente e extrai dela pensamentos de excrementos, imundos. Não larga dos nossos membros, conduzindo os nossos passos e ações em direção aos galhos das perversidades. A autonomia nos escraviza!
Que fique claro que não somos reféns ou vítimas do pecado. O pecado é nosso filho. Ele é gerado em nosso coração por nós mesmos, os pequenos legisladores (Tiago 1.14-15). É de nosso coração que vem toda a sorte de pecados. Somos agentes ativos e responsáveis. Pecamos porque somos pecadores. Pecamos porque o pecado está em nosso coração, desde Adão, o nosso Pai.
Da mesma forma que o pecado é uma realidade em nossa vida, mesmo sendo crentes, é preciso admitir que Deus também é uma realidade. Se, por um lado, revivemos diariamente o desejo de alimentar-nos da árvore do conhecimento do bem e do mal, ou seja, de sermos autônomos, por outro lado temos um Deus que estende a sua mão de graça. É só com ela que poderemos lutar contra o pecado. Em termos práticos, precisamos nos render ao Deus da graça. O pecado faz parte da nossa velha natureza que, apesar de ser velha, ainda está em nós, de forma residual, mas viva. Lutar com a nossa própria força contra o pecado é um grande equívoco. O caminho é render-se a Deus dizendo: Deus eu não consigo vencer o pecado sozinho, mas com a sua ajuda sei que isso será possível. Se o pecado primevo foi decidir por si só o que é certo e o que é errado, o primeiro passo para uma vida de relacionamento com Deus é admitir que não é na própria força que se vence o pecado, mas com o auxílio e dependência de Deus – isso é render-se.
Se, por um lado, a autonomia é a melhor definição de pecado, penso que dependência é a melhor atitude que o homem pode ter diante de Deus. Mas, isso só é possível pela graça. E é fato, o Deus que cumpriu a promessa de enviar “o descendente” nos dará a graça de, a cada dia, caminharmos pelo caminho da dependência, o caminho de Jesus Cristo, que afirmou, em contraposição a Adão: “…Se possível, passa de mim este cálice. Mas que não seja feita a minha vontade, mas a Tua.” Ele nos mostrou o caminho da dependência. O Evangelho é a mensagem da total dependência do homem em relação ao Criador, trazendo o realinhamento perfeito e original do relacionamento entre Deus e a sua criação.
A cada dia está posta diante de nós a árvore do conhecimento do bem e do mal e a árvore da vida, a opção de ser autônomo ou de ser dependente de Deus, da morte ou da vida. Que o nosso Verdadeiro e Gracioso Legislador nos ajude a rendermo-nos a Ele diariamente em total dependência.
NOTAS
[1] Bartholomew e Goheen, The True Story of the Whole World: Finding Your Place in the Biblical Drama, Faith Alive Christian Resources, 2009, p.35.
[2] Idem.
SUGESTÃO DE LEITURA:
BARTHOLOMEW, Craig & GOOHEN, Michael. O Drama das Escrituras: encontrando o nosso lugar na história bíblica. Vida Nova, 2017.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
BARTHOLOMEW, Craig G. & GOHEEN, Michael W. The True Story of the Whole World: finding your place in the biblical drama. Faith Alive Christian Resources. Grand Rapids, 2009.
HAMILTON, Victor P. The New International Commentary on the Old Testament (NICOT): The Book of Genesis: Chapters 1-17. Wm. B. Eerdmans Publishing: Grand Rapids, 1990.
WALTKE, Bruce K. Comentário do Antigo Testamento: Gênesis. Cultura Cristã: São Paulo, 2010.
WENHAM, Gordon J. Genesis 1-15. Word Biblical Commentary. Thomas Nelson: Dallas, 1987.

Marcelo Carvalho é pastor presbiteriano e missionário entre indígenas da Amazônia pela WEC Internacional. É bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano JMC e especialista em Antropologia Intercultural pelo Centro Universitário de Anápolis (UniEvangélica). M.Div em Teologia Pastoral pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, é também professor de pós-graduação em Antropologia Intercultural (Instituto Antropos) e autor do livro Inverso. Escreve também para o blog da Coalizão pelo Evangelho. Casado com Claudia, é pai de Tim, Ed e Laura.