A Cosmologia ensinada pela Bíblia tem sido um tópico de discussão nos últimos tempos. Alguns afirmam que as Escrituras descrevem uma Terra plana (circular ou quadrada), imóvel, coberta por um domo sólido contendo aberturas (“janelas”, por onde cai a chuva) e pilares/colunas de sustentação, conforme outros povos do antigo Oriente Próximo criam. Aqueles que propagam esse tipo de informação o fazem em busca de um apoio especial para crenças terraplanistas/geocentristas ou, então, porque desejam afirmar que a Bíblia emprega concepções ultrapassadas sobre a estrutura cósmica, à luz da Ciência moderna.
Muitos dos textos bíblicos utilizados para apontar essas ideias são derivados dos livros de Jó e Salmos, obras que fazem parte da seção de escritos conhecidos como “livros poéticos”, os quais empregam uma variedade de figuras de linguagem e simbolismos. Compreender mal o gênero literário de uma passagem pode levar a uma interpretação equivocada de seu ensinamento. A seguir, apresentarei uma breve discussão de alguns pontos e textos.
Terra plana como uma pizza?
Isaías 40:22, em algumas versões bíblicas, afirma que Deus está assentado sobre o “círculo da terra”. A palavra hebraica em questão é “khûg”. Ela estaria apontando para uma estrutura plana e circular, semelhante a uma pizza? Primeiramente, apenas uma esfera sempre se parece com um círculo quando vista de cima. Em segundo lugar, diversas palavras indo-europeias parecem estar relacionadas com palavras semíticas, por uma origem comum ou por empréstimo no passado distante. Há palavras que são similares a “khûg” e se referem a um objeto esférico, como “kugel” (Alto-Alemão Médio), “kula” (Polonês), “kugla” (Servo-Croata) e “gugā” (sua raiz proto-indo-europeia). Em árabe (outra língua semítica), a palavra “kura” significa “bola” e é a palavra usada para traduzir “khûg” na Bíblia Árabe Van Dyck-Boustani.[1]
Eruditos medievais entenderam o uso de “khûg” como se referindo à esfericidade da Terra. No século XVI, Santes Pagnino a traduziu como “sphaera” e Benedictus Arias Montanus e François Vatable, como “globus”. No século XVII, Giovanni Diodati usou “globus”. No século XVIII, o hebraísta holandês Campeius Vitringa usou “orbis”.[2]
Em outra proposta de interpretação, James P. Holding mantém que a palavra “khûg” “é mais bem compreendida como relacionada ao conceito de um circuito”. Assim, “Isaías se refere à terra como um todo, indicando o circuito da costa de um ponto a outro”, sem se comprometer com uma forma ou estrutura específica.[3]
Um ponto importante é que a esfericidade da Terra era um consenso na Igreja medieval (já no segundo século, o Pai da Igreja Atenágoras de Atenas referiu-se ao planeta como uma “esfera”). O conceito de que os cristãos da suposta “Idade das Trevas” criam em uma Terra plana é um mito moderno iluminista do século XIX, conforme apontado por historiadores como Jeffrey Burton Russell e Christine Garwood.[3]
Terra quadrada?
O Apocalipse menciona os “quatro cantos da terra” (7:1), mas o texto aponta para os quatro pontos cardeais (Norte, Sul, Leste e Oeste), como também ocorre em Isaías 11:12. Que Deus ajuntará o povo judeu “desde os quatro cantos da terra” equivale a dizer que Ele “reunirá os refugiados de Judá e de Israel, que estão espalhados por toda a terra” (CEV Bible). A descoberta de uma tabuinha mesopotâmica também demonstrou que a expressão “quatro cantos” se refere às quatro direções cardeais.[4]
Outros textos que mencionam “cantos” ou “confins” da terra não se referem ao planeta Terra, mas a um território geográfico específico, como a Palestina (por exemplo, Salmo 72:8 e Ezequiel 7:2).
Domo sólido sobre a Terra?
Alguns pensam que a Bíblia ensina (e os hebreus assim criam) que uma espécie de cúpula metálica transparente (algo como uma “tigela virada”), na qual o Sol, a Lua e as estrelas estavam fixadas, estava ancorada sobre uma Terra plana, uma visão cosmológica compartilhada com outros povos do antigo Oriente. Esse domo também serviria como o suporte de uma espécie de “oceano celestial”, chamado de as “águas acima do firmamento” na Bíblia.
Voltaire, no século XVIII, foi um dos primeiros autores a sugerir que os povos antigos, incluindo os israelitas, acreditavam em uma cúpula ou céu abobadado que repousava sobre uma Terra plana. O mito foi popularizado por teólogos de linha liberal, por volta da metade do século XIX (por exemplo, John Pye-Smith, em 1839). Mas, como apontado por Randall W. Younker e Richardson M. Davidson, em sua análise de fontes primárias e secundárias[3], não há evidência de que tenha havido uma visão desse tipo entre os mesopotâmios, judeus e gregos antigos.
Grande parte do apoio à essa ideia vem da palavra “firmamento” (algo “firme”, sólido; Gênesis 1:6) como uma referência ao céu, a partir da palavra latina “firmamentum”, utilizada na tradução da Bíblia Vulgata latina de Jerônimo (século IV). Mas, a melhor tradução da palavra hebraica (“raqia”) é “expansão”. O comentarista Metodista Adam Clarke afirmou que a tradução “firmamento” “privou esta passagem de todo o sentido e significado”.[5]
Kenneth A. Mathews afirma que
“Deus formou uma ‘expansão’ para criar um limite, dando estrutura para as águas superiores e inferiores (1:6-7). A ‘expansão’ é a atmosfera que distingue as águas superficiais da terra (ou seja, ‘as águas debaixo’) das águas atmosféricas ou nuvens (ou seja, ‘as águas de cima’)”.[6]
O astrônomo Hugh Ross afirma que “a ‘expansão’ em Gênesis 1:6-8 se refere à troposfera e as ‘águas de cima’ são vapor d’água”.[7] Conforme Gênesis 1:20, a “expansão” é também o local onde as aves voam. De acordo com James Orr, a “abóbada dos céus em que as nuvens pairavam e através da qual o sol viajava tinha provavelmente para os hebreus associações não muito diferentes das que tem para a mente média de hoje”. [8] O teólogo John H. Walton, embora pense que os hebreus mantivessem uma crença em um firmamento sólido, não mais defende que isso pode ser inferido do uso da palavra “raqia” em Gênesis.[9]
Janelas no céu?
Alguns argumentam que a Bíblia ensina a presença de “janelas” ou “portas” literais no “firmamento”, das quais viria a chuva. Contudo, em nenhum lugar da Bíblia “janelas” ou “portas” aparecem relacionadas com a palavra “raqia”. No Salmo 78:23, “portas dos céus” forma um paralelismo sinônimo (característica da poesia hebraica, onde a segunda linha repete de outra forma o significado da primeira) com “nuvens”. Ou seja, “portas” e “janelas” são uma metáfora bíblica para “nuvens”. De acordo com os comentaristas C. F. Keil e F. Delitzsch, na “representação do Antigo Testamento, sempre que chove forte, as portas ou janelas do céu estão abertas”.[10]
James Orr também observa que a Bíblia deixa claro que a chuva vem das nuvens no ar, o que é simplesmente uma questão de observação comum (Juízes 5:4, 1 Reis 18:45).[11] Eliú apresenta uma descrição bastante precisa do ciclo hidrológico (Jó 36:27-28).
Geocentrismo?
A Bíblia não diz que a Terra é o centro físico do universo (ou do Sistema Solar), embora sejamos o centro espiritual da atenção e dos cuidados amorosos de Deus (Salmo 8:3-9, João 3:16). Quando a Bíblia afirma que “o sol se deteve no meio do céu” (Josué 10:13), ela não fala nada mais do que nós falamos quando dizemos que “o sol nasceu” ou “o sol se pôs”, sem com isso querer fazer uma declaração científica/astronômica. É a chamada “linguagem fenomenológica”, quando falamos das coisas assim como elas parecem aos nossos sentidos.[12] O ponto-chave da declaração de Josué é que há um Deus que é superior aos deuses cananeus Baal e Astarote e que responde nossas orações de forma surpreendente (10:14). Nas palavras do Dr. R. Laird Harris, “o sistema solar pode ser geocêntrico, heliocêntrico ou qualquer outra coisa e não contradizer a Bíblia”.[13]
Colunas?
A afirmação de que “as colunas do céu tremem” (26:11), no poético livro de Jó, possivelmente aponta para montanhas elevadas. Em muitos textos bíblicos, a figura de montes e montanhas tremendo e se desfazendo é uma metáfora para o poder e a majestade de Deus.
Em outras passagens, referência às “colunas da terra” (como em 1 Samuel 2:8) pode dizer respeito aos nobres e autoridades políticas do povo, da mesma forma que Paulo declara que Tiago, Pedro e João eram “colunas” respeitadas na Igreja (Gálatas 2:9) e o livro de Apocalipse declara que os cristãos fiéis serão “colunas” no santuário de Deus (Apocalipse 3:12). O comentarista Batista John Gill já havia apontado isso no século XVIII.[14]
Além disso, embora povos antigos cressem que algo físico sustentasse a Terra (sejam pilares, tartarugas ou elefantes gigantes), a própria Bíblia afirma que “Deus faz pairar a Terra sobre o nada” (Jó 26:7).
Conclusão
Citando R. Laird Harris mais uma vez, “noções tolas de um universo de três andares, uma Terra quadrada e plana ou um universo geocêntrico não são bíblicas. E precisamos dizer isso o mais alto possível”.[15] A Bíblia na verdade faz afirmações cosmológicas que estão em sintonia com os nossos conhecimentos modernos: o tempo, a matéria e o espaço tiveram um começo (Gênesis 1:1, Hebreus 11:3); nem matéria nem energia estão sendo continuamente criadas (Gênesis 2:2); o universo está se expandindo (Salmo 104:2, Isaías 42:5, 45:12, Zacarias 12:1) e também está se desgastando ou deteriorando, em conformidade com a segunda lei da Termodinâmica (Salmo 102:25-27, Isaías 51:6, Romanos 8:21).
Devemos estudar esse livro com bastante zelo, para não afirmarmos que ele ensina algo que, na verdade, não ensina! “Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso” (Provérbios 30:6).
REFERÊNCIAS
[1] STATHAM, Dominic. Isaiah 40:22 and the shape of the Earth. Disponível em: <https://creation.com/isaiah-40-22-circle-sphere>. Acesso em: 23 jan. 2022.
[2] HOLDING, James P. Holding. The Legendary Flat-Earth Bible. Christian Research Journal, v. 36, n. 3, p. 1-5 [4], 2015.
[3] YOUNKER, Randall W. & DAVIDSON, Richard M. The Myth of The Solid Heavenly Dome: Another Look at the Hebrew Raqia. Andrews University Seminary Studies (AUSS), v. 49, n. 1, p. 125-147 [134], 2011.
[4] WAAL, Kayle B. de. Does the Bible Teach that the Earth is Flat? Biblical Research Institute, Newsletter “Reflections”, p. 1-7 [3], out. 2019.
[5] Citado em YOUNKER & DAVIDSON, 2011, p. 134.
[6] Citado em YOUNKER & DAVIDSON, 2011, p. 142.
[7] Citado em WAAL, 2019, p. 2.
[8] HARRIS, R. Laird. The Bible and Cosmology. Bulletin of the Evangelical Theological Society, v. 5, n. 1, p. 11–17 [15], 1962.
[9] No livro “Four Views on the Historical Adam” (Zondervan Academic, 2013), Walton afirma: “no passado, eu também cheguei à conclusão de que ‘raqia’ se referia a uma cúpula sólida, mas mais recentemente passei a acreditar de forma diferente”.
[10] Citado em WAAL, 2019, p. 3.
[11] Citado em HARRIS, 1962, p. 15.
[12] GEISLER, Norman & HOWE, Thomas. Manual de Dificuldades Bíblicas. São Paulo: Mundo Cristão, 2015, p. 22, 123.
[13] HARRIS, 1962, p. 13.
[14] Citado em BATTEN, Don. ‘Pillars of the Earth’ — Does the Bible teach a mythological cosmology? Disponível em: <https://creation.com/pillars-of-the-earth-does-the-bible-teach-a-mythological-cosmology>. Acesso em: 23 jan. 2022.
[15] HARRIS, 1962, p. 12.

Fabricio Luís Lovato é Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas, Bacharel em Teologia, Pós-Graduado em Teologia do Novo Testamento Aplicada, Mestre em Bioquímica e Doutor em Educação em Ciências. Atualmente é professor no Instituto Federal Sul-rio-grandense, em Pelotas – RS.