Uma das objeções mais frequentemente levantadas no seio da Igreja contra o estudo da teologia é a de que aqueles que a estudam o fazem não para a edificação de si mesmos e dos outros, isto é, do Corpo de Cristo, da Igreja, mas para “aparecerem” com base em seu volume de conhecimento. Numa época em que o estudo da teologia precisa ser incentivado, visto que, por todo os lados, heresias perniciosas dos mais diversos tipos matam, roubam e destroem, tal objeção acaba se tornando um obstáculo difícil de ser transposto, o qual atrasa mais e mais o desenvolvimento da Igreja do Senhor.
Seria esta acusação, de que os indivíduos desejam estudar teologia apenas para “aparecer”, uma verdade ou uma mentira? Nossos irmãos estudantes estariam sendo caluniados?
O orgulho
Segundo muitos intérpretes das Escrituras, o orgulho é o pai de todos os pecados. Ao se deixar dominar pelo orgulho, o homem atribui a si mesmo os feitos que, na verdade, não são seus, mas da Graça e da Misericórdia de Deus e, por isso, acaba por render toda a glória a Si mesmo por coisas que recebeu do Senhor.
De fato, o orgulho é um problema recorrente no meio cristão. Eis, no orgulho, um pecado de estimação de muitos crentes, o qual já derrubou e perturbou até mesmo muitos gigantes da fé. É comum vermos alguns cristãos se orgulhando por bênçãos e milagres recebidos, por dons recebidos, por conhecimento ao qual tiveram acesso… enfim, a lista é longa.
Não à toa, Jesus combateu com afinco a este mal em suas pregações. Logo nas bem-aventuranças, por exemplo, Ele declarou que são “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mateus 5:3). Mas, o que significa ser alguém pobre de espírito?
Os pobres de espírito são justamente o oposto dos orgulhosos, isto é, são pessoas que reconhecem e admitem sua falência espiritual e sua completa necessidade de salvação. São pessoas que sabem que, dos bens físicos aos bens espirituais, nada têm por sua própria capacidade e determinação – como disse Paulo aos coríntios: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houvesses recebido?” (1 Coríntios 4:7)
Mudança no modo de falar
A primeira característica que muda nos aspirantes a teólogos, segundo aqueles que se relacionam com eles, é o linguajar, o modo de falar. Muitos irmãos conhecidos por serem pessoas simples e humildes, que antes falavam com modéstia, a partir de um vocabulário limitado e que se utilizavam de expressões não muito rebuscadas, depois de iniciarem sua jornada teológica, aparentemente passaram a se auto-exaltar, elevando parece que com segundas intenções o nível dos diálogos e conversas.
Cria-se, então, nas comunidades de crentes, certos guetos linguísticos, formados por estudantes de teologia que, através dessa linguagem de difícil acesso, compartilham entre si os assuntos teológicos que mais lhes despertam o interesse. Isso sem falar nas pregações que, antes simples e de fácil entendimento para o cristão “leigo”, agora chegam aos ouvidos do povo recheadas de conceitos teológicos e expressões difíceis de serem compreendidas.
A esta altura, um questionamento importante a ser feito é: há, de fato, um problema aqui? Se a resposta for “sim”, a teologia e o estudar teologia são realmente a causa deste problema?
Admitindo que, em alguns casos, a acusação procede
É claro que temos que reconhecer, sim, que muitos estudantes de teologia têm cedido à tentação do orgulho. Temos de admitir, também, que a mudança no linguajar pode, sim, significar que o indivíduo sucumbiu ao pecado. Por outro lado, desejamos pontuar que a coisa toda não é tão simples assim. Acusar sem tomar conhecimento do que se passa em cada caso é uma falha tão grande quanto a que está sendo apontada, e é pecado. Segue-se que, uma vez que existem exceções, a acusação de que quem estuda teologia estuda para “falar difícil”, por si só, já é um erro. Em muitos casos, isso simplesmente é mentira. Calúnia.
Por fim, a realidade é que aquele que “aponta o dedo” encontra-se em uma posição tão delicada, isto é, está tão propenso a errar quanto o próprio estudante para o qual dirige suas críticas. Pois, quem não busca diferenciar entre algo bom e algo ruim está errando. Quem generaliza está errando. E quem faz força para enxergar apenas os problemas no crescimento do outro também está errando.
Falemos sobre estes três tipos de erro na medida em que eles se relacionam com o estudo da teologia.
1º erro: problematizar a teologia ao invés de o seu mau uso
O maio erro da pessoa que acusa este tipo de problema que estamos tratando neste artigo é não saber diferenciar ou não buscar diferenciar o que é bom do que é ruim. A Bíblia nos ensina que existem pouquíssimas coisas neste mundo que são erradas ou ruins em si mesmas, ou que são pecado em si mesmas. O pecado, predominantemente, é constituído de práticas que, em primeira instância, são boas, mas que tiveram seu uso corrompido pelas inclinações pecaminosas daqueles que as praticam. Em outras palavras, o pecado, em geral, é algo bom que foi transformado em algo ruim.
Quando Jesus diz que “não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é o que torna o homem impuro” (Mateus 15:11), ele está nos ensinando, basicamente, que não são as coisas externas (e, na maioria das vezes, sem vida) que nos fazem pecar, mas aquilo que já se encontra dentro de nós, isto é, a nossa natureza pecaminosa, é que faz com que utilizemos mal o que é externo de modo que aquilo se torna em pecado.
Tiago explica:
“Cada um é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ser consumado, gera a morte.” (Tiago 1:15-15)
Se um estudante cristão, que participa da comunhão da Igreja e até mesmo dos trabalhos de púlpito, manifesta soberba e orgulho a partir de suas novas experiências intelectuais, a causa disso não é a teologia, que é o seu objeto de estudo, mas o pecado que já existe dentro de si. O estudar teologia, nestes casos, é apenas a oportunidade perfeita para que o seu “mau desejo” seja exposto, transformando em pecado algo que é, primariamente, algo bom: o estudo teológico. É como o político corrupto. Não é a política que o corrompe, antes o meio político acaba sendo a oportunidade perfeita para a manifestação da corrupção que já está no coração daquele indivíduo.
Nesse sentido, o labor teológico não apenas não é algo errado ou pecaminoso, como, muito pelo contrário, é algo sublime que Deus, em Sua providência, disponibilizou para o auxílio de Seu povo. Paulo, inspirado por Deus nos diz que Deus “designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres” (Efésios 4:11). O próprio Deus designou que alguns do Seu povo fossem pastores e mestres, com o fim de que a Sua Igreja fosse edificada. Teólogos são, portanto, necessários na Igreja, porque Deus os fez necessários.
Assim, mais uma vez, concluímos que o estudo da teologia é equivocadamente problematizado, ao invés de o ser o seu mau uso, que é o verdadeiro problema. A teologia não dá origem ao orgulho, nem leva à soberba, antes o estudar a teologia e o crescer em conhecimento representam uma oportunidade perfeita para que o orgulho que já existe no homem se manifeste.
2º erro: tratar todos os teólogos como iguais, como se todos estudassem com o mesmo objetivo e a partir da mesma motivação
Outro erro cometido quando meramente se afirma que quem estuda teologia estuda para “falar difícil” é o de se fazer generalizações. Dizer que todos os que estudam teologia o fazem com o mesmo objetivo e a partir da mesma motivação é um erro crasso. Pessoas agem com base nas mais diferentes necessidades e motivações. Não podemos nos esquecer, ainda, que essas diferentes necessidades e motivações variam ao longo de nossa vida.
É claro que certas pessoas possuem uma necessidade maior de estar em evidência do que outras. A necessidade de se estar em evidência está ligada à ambição e à sede de poder, que estão, por sua vez, ligados ao desejo de controlar ou influenciar outras pessoas e têm relação com status e prestígio. Estas características se desenvolvem no indivíduo desde a infância e têm diversas causas. Alguns livros sobre técnicas de motivação de equipes chegam a tratar o poder e o estar em evidência como um tipo de recompensa intangível que pode ser oferecido aos membros de uma equipe a fim de incentivá-los a alcançar e bater suas metas. Em outras palavras, certas pessoas não se sentirão satisfeitas apenas com um bom salário ou com prêmios financeiros. Elas precisam de mais.
O fato é que as pessoas não são iguais e não fazem o que fazem pelos mesmos motivos. Assim, apesar de que muitas buscam a coisa certa pela motivação errada, outras tantas a buscam pela motivação certa e, no caso dos crentes em relação à teologia, guiadas pelo Espírito Santo.
Somos incentivados pelas Escrituras a buscarmos a sabedoria. Sabedoria, obviamente, não é o mesmo que conhecimento, mas a estrada para alcançar a sabedoria é cercada pela busca pelo conhecimento em ambos os lados. Não à toa, o Senhor afirma, em Oseias 4:6, que o Seu povo se perde não apenas por falta de sabedoria, mas por falta de conhecimento. Conhecimento e sabedoria, desta forma, estão interligados e andam “de mãos dadas”.
Provérbios é o livro da Bíblia que mais nos incentiva na busca pelo conhecimento:
4:5-7: “Procure obter sabedoria e entendimento; não se esqueça das minhas palavras nem delas se afaste. Não abandone a sabedoria, e ela o protegerá; ame-a, e ela cuidará de você. O conselho da sabedoria é: Procure obter sabedoria; use tudo o que você possui para adquirir entendimento.”
Aqui, buscar sabedoria e entendimento é o mesmo que buscar conhecer a Palavra de Deus, de modo a não esquecê-la e nem afastar-se dela. Ou seja, é labor teológico. Ler. Entender. Guardar. Memorizar. Amar a ela. Somos incentivados a usarmos tudo o que possuímos em busca de entender e conhecer as palavras de Deus.
3:13-14: “Como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento, pois a sabedoria é mais proveitosa do que a prata e rende mais do que o ouro.”
Aqui, ser sábio é literalmente obter entendimento. Estudar teologia, portanto, com a motivação de edificar a Igreja (conforme orienta o Novo Testamento), tornar-se sábio e conhecer ao Senhor (conforme orienta o Antigo Testamento) é não apenas correto, mas algo incentivado pela própria Escritura.
2:4-5: “se procurar a sabedoria como se procura a prata… então você entenderá o que é temer o SENHOR e achará o conhecimento de Deus.”
3º erro: confundir o falar e articular corretamente com “falar difícil”
O terceiro e último erro que trataremos diz respeito a confundir com orgulho a evolução natural do linguajar e dos temas de interesse daquele que estuda. Falar corretamente não significa que o falante deseja “falar difícil” A intenção do estudo, por si só, é a evolução pessoal em diversos aspectos. Quando somos chamados por Deus para o ministério de pastor e mestre, ampliamos este objetivo: estudamos não mais apenas para nossa própria evolução, mas para a evolução do Corpo de Cristo. Iniciamos uma busca por resgatar o povo de Deus das profundezas da ignorância e da falta de bússola espiritual. É claro que este ministério deve ser desempenhado em amor, com equilíbrio, destreza e maturidade, todavia, é óbvio que ele trará comichão aos ouvidos dos crentes rasos e superficiais, que optaram por permanecer na mesmice.
Os teólogos da igreja foram chamados
“com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o Corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo.O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro.” (Efésios 4:12-14)

Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é graduando em Processos Gerenciais, pela Universidade Estácio de Sá, e estudante autodidata de teologia. Autor dos livros Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017) e Evangelismo Placebo: oferecendo um evangelho de mentira a pecadores de verdade (2021). Na igreja local, coopera como pregador, e também como ministro de louvor. Casado com Talita Motta.
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