A temática da espera nos dias atuais não soa atrativa. Abrimos o Youtube e a fala dos primeiros 3 segundos de propaganda é: “não pare de assistir esse vídeo!”, “aprenda rápido com nosso curso!”, “você aí, venha agora ter bons lucros!” etc. Tudo isso é evidência notável da pressa, da agitação, da insistência por atenção, intimação ao ser, característica de nosso tempo, e estes são apenas alguns exemplos, dentre diversos outros que poderíamos citar, de cunho impaciente e “urgente”.
Pergunto: em nosso cotidiano, há lugar para a espera?
Num gigante globo de muitos pores do sol, de velozes tecnologias, de crescente procura por comida rápida e prática (o fast-food), e numa louca sociedade que se inclina a amar a velocidade, as roupas da espera acabam não sendo atraentes. Recordo o prefácio de Guilherme de Carvalho, no livro de Vanessa Belmonte sobre espera [1], no qual ele aborda o encurtamento do sentido de tempo e espaço devido “às experiências do consumo globalizado e da aceleração dos processos de comunicação e informação” (p. 6,7), fazendo das pessoas menos afeitas à espera.
Em Efésios 5:15,16, Paulo nos conduz a sermos cuidadosos em nosso modo de vida:
Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo, porquanto os dias são maus.
Precisamos cuidar do nosso estar no mundo, nosso viver diário, práticas costumeiras, hábitos automáticos, nosso modo de vida, e nos preocuparmos com essa insistência em sermos ensinados (imperceptivelmente, muitas vezes) na aversão à espera, pois isto pode impossibilitar nossa vivência salvadora nos braços da esperança, bem como tirá-la do lugar diário que ela deve ter em nossas manhãs, que são renovadas pelas misericórdias de Deus, nos tornando dependentes de estímulos e sensações insaciáveis.
Então, a partir de Efésios 5:15, a reflexão e auto-análise, a investigação acerca de nossa própria vivência, de cada esfera da nossa vida, nos deve ocupar os pensamentos e nos colocar em um tempo de silêncio e sinceridade com nós mesmos. Precisamos parar e analisar como estamos lendo o mundo e o digerindo, o que fazemos todos os dias e como fazemos, no que isto está nos tornando. Temos nos portado como ansiosos de um lado para o outro? Como ingratos pelo tempo de hoje? Cansados e sonolentos com as responsabilidades? Invejosos pela prosperidade alheia? Como toda essa nossa relação com o mundo está nos afetando?
Para esta análise precisamos saber ler ao mundo e a nós mesmos à luz da Palavra de Deus, que também é luz para nossos pés. Precisamos indagar e sermos criteriosos com o que está nos cercando, com a intenção da propaganda, a ideia do filme, a letra da música, as gírias. Devemos estar atentos e vigilantes, cientes de que não é o que entra no homem que o contamina, mas o que sai dele. Como digerimos o que entra em nós e como externamos e aplicamos isso em nossa prática diária?
O ser humano tende a buscar satisfação, prazer e entretenimento, e nós como cristãos temos estes mesmos desejos, de maneira que devemos discipliná-los à luz da Palavra, para que não nos envolvam na armadilha do fim em si mesmo (grave perigo). Este perigo do ensimesmamento, dessa “náusea de nós mesmos”, como descrito por Antoine de Saint-Exupéry, [2] torna o ser dependente de duas coisas – coisas essas abismais na relação com a espera: sensações e estímulos constantes.
Em um mundo que anseia satisfação, prazer e entretenimento com finalidade em si, a disciplina da simplicidade, o desenvolvimento do contentamento, a prática devocional, o silêncio, e a virtude da paciência acabam por serem aniquilados, tornando o ser em um ser dependente dessas sensações e estímulos constantes, em outras palavras, insaciáveis.
Se atentarmos para o cinema hollywoodiano, por exemplo, notaremos características hedonistas. Rodolfo Amorim, em uma palestra sobre “Prazer Redimido”, [3] traz a arte do cinema para a exposição, endossando que “somos criados em uma cultura que a todo momento oferece situações de prazer”, onde a finalidade principal é gerar entretenimento, sem intenção de proporcionar uma experiência estética e artística rica, e sim de “chamar o telespectador para ter prazer”, isto aplicado ao cinema. Para isso, ele conta que há regras técnicas básicas nessa indústria cinematográfica, como por exemplo: “cada tomada de câmera não pode ultrapassar seis segundos, para manter o telespectador com os olhos fitos na tela”, o que implica em uma experiência cinematográfica hedonista, por ser um cinema feito para entreter, com estímulos a todo momento.
Note como se tornam claras a impaciência humana e a incapacidade de lidar com o tédio, com algo lento, que ultrapasse os seis segundos – somos necessitados de estímulos constantes, por sempre precisarmos ser entretidos, como crianças. Quantas implicações isso gera em nosso modo de vida?! Este dados revelam o coração agitado e a falta de profundidade. Este exemplo, do cinema hollywoodiano, pode nos servir como um exercício para lermos o mundo e o que o mundo está escrevendo em nós, como abordado anteriormente.
Exemplos, dentro da cultura pop, de expressões artísticas que refletem esses problemas de carência por sensações, estímulos, insatisfação, ensimesmamento, não nos faltam, e são produções que conhecemos, gostamos, ouvimos, vemos, e muitas vezes sem nos apercebermos da raiz do sentimento originário que há por baixo da superfície. Podemos observar alguns bem conhecidos.
Recordo de bandas famosas, com letras musicais que expressam as inquietações do interior do ser humano, dessa busca por satisfação. Leiamos parte da canção I Still Haven’t Found
What I’m Looking For, da banda irlandesa U2.
Eu escalei as mais altas montanhas
Eu corri através dos campos…
Eu falei na língua dos anjos
Eu segurei na mão do demônio…
Mas eu ainda não encontrei o que estou procurando…
Você quebrou as algemas
Livrou-se das correntes
Carregou a cruz e
Toda a minha vergonha…
Mas eu ainda não encontrei o que estou procurando
Esse infinito desejo por satisfação, é evidente na obra, assim como são as abordagens de Rubem Alves no prefácio de “Sobre deuses e caquis” [4], sobre sentirmos o infinito do desejo que coisa alguma pode satisfazer. “Daí que estamos condenados a ser eternos pranteadores” (p. 14). Uma expressão de vazio parece permear a música de tão harmoniosa e tocante composição na voz de Bono Vox, vocalista da U2. Diversas vezes, enquanto ouvia esta canção, me recordei de Salomão que, em Eclesiastes, diante de uma perspectiva naturalista “debaixo do sol”, (importante esclarecimento), conclui não haver esperança no terreno – este é incompleto, cheio de vaidade e injustiça.
Como o homem vem, assim ele vai, e o que obtém de todo o seu esforço em busca do vento? (Eclesiastes 5:16)
De uma visão terrena, naturalista, cuja realidade última é esta, de fato, nada satisfaz e tem sentido, de maneira que sempre será necessário mais um estímulo, mais uma atividade, mais uma dose de prazer etc. Se a esperança acaba aqui, qual é o sentido? Em nossa igreja, estamos estudando sobre este livro nos cultos de domingo. Trago aqui uma frase do nosso pastor, Rodrigo Majewski, sobre o capítulo 1 do livro: “A falta de sentido é um dos juízos de Deus pelo pecado.” [5]
Linkando Eclesiastes 5:16 com 1 Timóteo 6:6-8, tem-se o contentamento como causando contraste nas perspectivas. Esse “encontrar o que se está procurando”, de uma perspectiva cristã, se relaciona com o contentamento em Deus. Fora isto, resta a angústia de estar no mundo como um ser lançado nele, submetido às injunções e necessidade dos fatos, néscio de esperança e talvez nem a almejando, como o que foi escrito por Antoine de Saint-Exupéry que disse que os homens perdem o essencial e não se dão conta disso (p. 73).
Leiamos 1 Timóteo 6:7,8:
De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos.
Salomão e Paulo falam uma “mesma língua” a respeito de o homem nascer, morrer e nada levar daqui. Entretanto, o primeiro traz a angústia de nossa caminhada que é comparada a uma corrida atrás do vento, sem esperança, enquanto o segundo nos encoraja com o contentamento, e a buscarmos “justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão” 1 Timóteo 6:11 . Acaba que “desenvolver o contentamento é a chave para viver até Jesus voltar” [6].
Outra obra artística de conhecimento popular é da banda Rolling Stones, a música I can’t get no:
“Não consigo nenhuma satisfação
eu tento, e eu tento, e eu tento, e eu tento…
Quando estou dirigindo o meu carro
E aquele homem surge no rádio
Me contando mais e mais
Sobre alguma informação inútil
Que deveria conduzir minha imaginação
Não consigo nenhuma
Não consigo nenhuma satisfação
É evidente a ânsia, a insatisfação latente, as tentativas e mais tentativas de encontrar satisfação. O ser humano busca preencher um vazio, lidar com a sensação de ausência, deseja por algo além de sua vida, e luta para encontrar esse algo. É notório que, através da arte, que é uma forma de expressão, o invisível interior humano ganha forma e se mostra ao mundo. Seja por meio da música, do cinema, da fotografia, da poesia, das pinturas etc. As obras refletem o modo de vida, podendo revelar o que está – e não está- no centro orientador de cada ser humano. Poderíamos divagar através das mais diversas expressões populares que evidenciam essa busca de sentido.
Mas fica aqui a reflexão particular para cada um.
Uma transparente busca de sentido permeia o imaginário da humanidade. Essa necessidade de enxergar a si mesmo no mundo com alguém que tem um destino, com significado, futuro e esperança, provavelmente é o que está exposto em Romanos 8:23. Todos nós gememos em nosso íntimo, esperando com ansiosa expectativa, pela adoção como filhos, pela redenção de nossos corpos. Vimos que, já em Salomão, se externava essa angústia de uma vida sem esperança e vaidosa, esse vapor que se vai. O homem que descobre, faz, acontece, “escala montanhas”, mas no final tudo continua igual: jovens continuam desprezando os mais velhos, os seres cometendo impiedades, injustiças, enfim, “nada de novo debaixo do sol” (Eclesiastes 1:9).
Com os olhos apenas debaixo do sol, não há proveito. Sem uma perspectiva divina, que ensina sobre espera, paciência, e contentamento, mudando totalmente o modo de vida, não há sentido na caminhada, que se torna opaca e agitada. Mas, a partir dos olhos da fé, lemos o mundo e olhamos para ele com outra percepção, de modo a vermos que a transitoriedade (o vapor, vaidade, vento) daqui, aponta para outra realidade, a eterna. Por meio da verdade das Escrituras, somos enviados ao mundo para encará-lo não de forma melancólica, mas com fé e sentido. Através dos olhos da fé e do amor, somos ensinados a esperar, a sermos pacientes, e isso nos livra do perigo do entretenimento hedonista, da carência por estímulos constantes, e nos conduz a esperança.
Por isso, lemos o mundo com luz e vivemos os prazeres deste mesmo modo. O Senhor redimiu nossos prazeres, renovou nossa natureza que antes andava segundo a carne para o abismo. É de nossa responsabilidade fugir do pecado, não misturar vinho novo em odre velho (Mateus 9:17), exercer nosso posicionamento segundo a transformação da nossa mente que, à luz das Escrituras, pode ser criteriosa acerca da cultura circundante, das artes e dos discursos que consumimos. Convém clarearmos, por meio de conversas, discussões e análises, a prática do nosso modo de vida em formação em um mundo como o nosso, todo contrastante.
Amorim fala sobre cultivar uma vida interior de boa teologia, bons filmes e boas conversas, pois tudo isso colabora para gerar proteção contra a sensualidade do mundo. O cultivo da esperança gera paciência, nos livrando do vício da carência por estímulos. Que a simplicidade da suficiência do que recebemos de Deus hoje, se torne nosso modo de vida, com a confiança de um Deus pessoal que entrou no nosso tempo para nos esperançar, dar sentido e contentamento. Deus nos puxa pra fora, nos arranca de nós mesmos e nos ensina a fitarmos os olhos Nele. Qualquer ensinamento que leve o ser a buscar forças dentro de si, como se ele mesmo pudesse salvar-se, elimina a esperança, elima Deus e é incapaz de lidar com as incompletudes do coração, resultando nas ansiedades hedonistas e na busca por entretenimento e diversão como realidade última e única fonte de prazer, conforme muito bem exposto por Sabino:
“Uma sociedade que abandona Deus, não é capaz de lidar com os vazios do coração, buscando entretenimento e diversão”. [7]
Como de costume, as músicas mencionadas no texto estarão na minha playlist no Spotify [8], contendo todas as músicas que menciono nos textos para a revista. Que te seja um bom encontro!
Notas
[1] BELMONTE, Vanessa, O lugar da espera na vida cristã. Brasília: Editora 371, 2019
[2] SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Cidadela. 2ª edição. Lisboa: Editorial Aster, 1965.
[3] Prazer Redimido: A vida Cristã Além de Platão e Epicuro | Rodolfo Amorim. https://www.youtube.com/watch?v=wlQ7Cd4ppmc&t=11s
[4] ALVES, Rubem. Da esperança. Traduzido do inglês por João-Francisco Duarte Jr. — Campinas, SP: Papirus.
[5] O Verdadeiro Sentido da Vida | Rodrigo Majewski. https://www.youtube.com/watch?v=OmsdgbH3nuY
[6] Ibid.
[7] Morrer de Tanto Viver: A Vida Foi Feita Para Ser Gasta | Felipe Sabino. https://www.youtube.com/watch?v=5fSw7p_g7RY

Francine Cabanas Tobin é fotógrafa, artesã e musicista da Igreja Assembleia de Deus Jardim Botânico, em Porto Alegre – RS. Graduada em Fotografia, pela ULBRA, em Canoas – RS e mestranda em Teologia pela EST – RS. Através da fotografia autoral, vem criando séries fotográficas com uma poética visual inspirada na cosmovisão cristã, buscando dialogar com as duas linguagens: fotografia e teologia.