O relacionamento com o Espírito Santo: conhecimento e experiência

Nos últimos 150 anos, com o surgimento e solidificação do Movimento Pentecostal, o volume de livros, artigos, pregações, palestras e cursos sobre os assuntos da Pessoa e da Obra do Espírito Santo aumentou exponencialmente – como nunca antes na história da fé cristã. O Espírito Santo não é mais a pessoa esquecida da Trindade, como declarou (equivocadamente, na minha opinião) em seu livro O Deus Esquecido, de 2009 [1], o pastor Francis Chan, conhecido mundialmente por seu notório ministério. O Espírito Santo, na verdade, é o “rosto” do cristianismo atual – se fala exaustivamente em Sua pessoa, em Sua obra e em como devemos nos relacionar com Ele. Talvez, se fale, nas igrejas de hoje, muito mais no Espírito Santo do que no Pai e no Filho. 

Não obstante, no seio do cristianismo, a questão relacionada à pessoa e à obra do Espírito Santo é por demais complexa. O problema que temos, nas diversas denominações da religião cristã, é precisamente o do “conhecimento versus experiência”. Uma turba de cristãos advoga em favor do conhecimento acerca dos assuntos do Espírito, mas nega (ou negligencia), na prática, a(s) experiência(s) com Ele. Enquanto isso, do lado oposto, outra turba grita à plenos pulmões em favor de experiências e mais experiências com o Espírito, sendo que muitas dessas experiências não são guiadas por um conhecimento sólido de Sua Pessoa e Obra. Um lado confunde conhecimento com experiência, e o outro confunde experiência com conhecimento.

Conhecimento e experiência

É claro que, de certa maneira, a experiência é ela mesma um tipo de conhecimento. Em Filosofia, por exemplo, a experiência é justamente “qualquer conhecimento obtido por meio dos sentidos”. [2] Logo, para a Filosofia, em se tratando de uma relação entre personalidades, a experiência pode e vai gerar um tipo de conhecimento, contudo, um conhecimento que não exige necessariamente que uma das personalidades envolvidas na relação conheça verdadeiramente a outra – é um conhecer meramente obtido a partir dos sentidos, não envolve solidez, precisão ou profundidade.

Por outro lado, em Psicologia, a experiência é uma forma de “conhecimento abrangente e não organizado”, ou “de sabedoria, adquirida de maneira espontânea durante a vida”. [3] Pergunta-se: há como se conhecer sem experimentar, isto é, conhecer apenas na teoria? De certa forma, sim. Todavia, esse conhecimento, em se tratando de relacionamento entre pessoas, não será abrangente, nem desfrutará do saber que um conhecer não organizado e imprevisível pode proporcionar – para isso se faz necessário obter experiência.

Em Ciência, no entanto, a experiência é uma forma de “conhecimento específico, ou de perícia, que, adquirida por meio de aprendizado sistemático, se aprimora com o correr do tempo”. [4] Ou seja, a própria experiência só é experiência, de fato, quando se apresenta na forma de aprendizado sistemático, dotado de perícia, e que informa conhecimentos específicos.

Experimentar sem conhecer; conhecer sem experimentar

Segundo o Dr. Augusto de Carvalho, é possível

“experimentar algo sem extrair de tal experiência algum conhecimento, bem como é possível conhecer sem possuir a experiência imediata sobre o objeto ou o ambiente de conhecimento.” [5]

Diante disso, convido o leitor à reflexão: o conhecimento que você tem acerca da Pessoa e Obra do Espírito Santo é, em si mesmo, experiência? Se não é, este conhecimento é suficiente sem ela? Por outro lado, a experiência que você tem com o Espírito Santo significa que você O conhece? Já aprendemos que a experiência por si só já proporciona (pois, ela mesma é) um tipo de conhecimento, contudo, um conhecimento superficial, e que não exige um relacionamento verdadeiro com o objeto conhecido. Diante dessa verdade, não se faz necessário adicionar à sua experiência com o Espírito Santo o verdadeiro conhecimento sobre Ele e que vem dEle, a fim de que você verdadeiramente se relacione com Ele (e O conheça) da forma correta?

Alguns dizem que a vida no Espírito, para nós, cristãos do Novo Testamento, consiste em tão somente apresentar os frutos do Espírito, e isso já é possível através do conhecimento da Palavra, da doutrina, da teologia correta. Nesse sentido, o Espírito tomar o Povo de Deus sobrenaturalmente, com poder, intervindo nas emoções e sentimentos do indivíduo, bem como em suas capacidades e personalidade, não é algo necessário.

Para Paulo, no entanto,

“a vida no Espírito deveria incluir tanto o fruto quanto os dons, simultânea e poderosamente — algo que tenho chamado de vida vivida no centro. Para Paulo e suas igrejas, o Espírito como realidade experiencial e capacitadora era o agente fundamental para toda a vida cristã, do começo ao fim. Ele incluía tudo: poder para a vida, crescimento, fruto, dons, oração, testemunho e as demais coisas.” [6]

A experiência comum ao Povo de Deus

Sinclair Ferguson ensina que, no que se refere ao Espírito Santo, a ideia dominante no Antigo Testamento é a de poder.

“A ênfase é posta, antes, em Sua esmagadora energia; aliás, alguém quase poderia falar da violência de Deus. […] Quando o ruach Yahweh vem sobre os indivíduos, estes recebem o impulso de uma energia “estranha” e agem com poderes inusitados: o desalento se converte em ação; habilidades humanas excepcionais são exibidas; é possível que se experimente êxtase.” [7]

O autor chega a citar Miqueias 3:8, que diz:

“Eu, porém, estou cheio do Espírito do Senhor”.

Alguém pode argumentar que, uma vez que a passagem está localizada no Antigo Testamento, deve se compreender que este enchimento não era alcançado através do buscar, por parte do indivíduo, da experiência com o divino, antes, este era um enchimento soberano, da parte de Deus, que escolhia Seus ministros e os capacitava, independentemente deles, enchendo-os com o Seu Espírito – os reis, sacerdotes e profetas. E que agora, no Novo Testamento, as coisas são diferentes – não funcionam mais assim.

Isto é verdade. Contudo, não é um bom argumento contra as experiências espirituais e em favor de mero conhecimento intelectual. A questão é que, no Novo Testamento, todo o povo de Deus é transformado em “reis, sacerdotes e profetas” diante do Senhor:

“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” (1 Pedro 2:9)

“E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele seja glória e poder para todo o sempre. Amém.” (Apocalipse 1:6)

É por isso que Paulo nos orienta: “enchei-vos do Espírito…” (Efésios 5:18b). O enchimento do Espírito, o poder do Espírito, as experiências e o relacionamento vivo com o Espírito Santo, são nossos, estão disponíveis a nós!

Cito novamente Ferguson, que ecoa o que entendem os grandes teólogos:

“Sem dúvida, a partir da perspectiva do Novo Testamento, o relacionamento entre a obra do Espírito, no Antigo e no Novo Testamentos, é o de continuidade.” [8]

Ou seja, apesar de que existem aspectos da obra do Espírito Santo que mudaram do Antigo Testamento para o Novo Testamento, esta obra e sua atividade característica, em geral, é essencialmente a mesma.

“O Espírito esteve ativo no seio do povo de Deus; sua atividade, porém, era enigmática, esporádica, teocrática, seletiva e, em alguns aspectos, externa. Os profetas suspiravam por dias melhores. Moisés desejava, porém não viu, uma vinda mais plena, universalmente ampla, do Espírito sobre o povo de Deus (Nm 11.29). À maneira de contraste, antecipado no novo pacto, o Espírito seria derramado de uma maneira universal, habitando neles pessoal e permanentemente (cf. Jl 2.28-32.; Ez 36.24-32).” [9]

O que mudou, portanto, não é a natureza ou o conteúdo da obra, não é a atividade, nem os efeitos causados por essa atividade no indivíduo que a experimenta. O que mudou foi a amplitude e o alcance da obra. A atividade do Espírito que antes era “enigmática, esporádica, teocrática, seletiva”, agora é “universal, habitando […] pessoal e permanentemente”.

Se tais verdades a respeito do Espírito e Sua obra não mudaram, logo, os efeitos do enchimento pelo Espírito Santo no Antigo Testamento, que incluem “poderes inusitados, energia “estranha” e êxtase”, continuam os mesmos no Novo Testamento. Da mesma forma, aprendemos que, apesar de o enchimento pelo Espírito Santo ser, na maioria das vezes no Antigo Testamento, uma operação soberana de Deus sobre Seus ministros, este enchimento (e seus efeitos) está hoje disponível para quem o buscar – é isso que prega o Novo Testamento. A experiência com o Espírito, portanto, é comum ao povo de Deus tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento.

Pr. Silas Daniel define esta diferença da seguinte maneira:

“A única diferença da ação do Espírito no Novo Testamento em relação à sua ação no Antigo Testamento é que, com o advento da Nova Aliança, a atividade do Espírito ganhou uma abrangência e uma intensidade muito maiores. Aliás, essa é a razão pela qual o texto bíblico usa o termo “derramamento” para contrastar a ação do Espírito Santo na Nova Aliança em relação ao que se via na Antiga Aliança. O que acontecia, por assim dizer, em “conta gotas” no passado passa a ocorrer em “cascata” na Nova Aliança, alcançando muito mais gente, e de todas as nações, e com uma intensidade muito maior.” [10]

Conhecendo o Espírito Santo

Em 2 Pedro 3:18, aprendemos que devemos crescer “na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador”. É interessante que, crescer na graça e no conhecimento de Cristo é, aqui, sinônimo de crescer em experiência e em conhecimento, em ação e em doutrina, em prática e em teoria, simultaneamente.

Crescemos no conhecimento de Cristo quando lemos e meditamos na Palavra de Deus. Ele é a Palavra encarnada, e Ele é o Autor da Palavra. E Ele nos envia o Seu Espírito que ilumina a Escritura para nós e a aplica em nós, de maneira que Cristo nos fala e nos guia através dela. Conhecer a Cristo é conhecer Suas Palavras, Seus mandamentos, Seu Evangelho, o que Ele fez por nós e o que Ele requer de nós.

Crescer na Graça, por sua vez, é buscar experimentar mais e mais da santa influência de Deus sobre a nossa alma, que faz com que ela se volte para Cristo, guardando-a, fortalecendo-a, fazendo com que cresçamos na fé cristã, na afeição, no fervor e no poder que nos desperta a alma ao exercício das virtudes cristãs. Crescer na Graça é submeter-se constantemente ao governo e poder de Deus. E isso se dá através do Espírito. Crescemos na Graça do nosso Senhor e Salvador na medida em que conhecemos e nos relacionamos com o Seu Espírito, experienciando o relacionamento com Ele e seus efeitos.

É por isso que precisamos de teologia experiente e de experiências fundamentadas na teologia. Teologia que tenha experimentado do poder de Deus, e experiências que sejam reguladas e regadas pelo conhecimento da Palavra.

Para Gordon Fee,

“Nossa teologia e experiência do Espírito precisam estar mais entrelaçadas para que a vida do Espírito por nós experimentada seja mais eficiente.” [11]

Ao invés de protestarmos uns contra os outros, de maneira sectária, devemos entender que conhecimento e experiência são dois lados da mesma moeda. O crente em Cristo necessita de ambos. Precisamos ter não apenas o nosso cérebro alimentado, mas também o coração e a alma. Precisamos, no poder do Espírito, tocar na orla do Mestre, e dEle receber poder, a fim de que anunciemos as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz.

“Uma coisa é ter o Espírito e outra é, além de tê-lo, se permitir ser revestido e tomado por Ele.” [12]

“No final das contas, a única teologia que importa é a que se traduz em vida; e o entendimento de Paulo acerca do Espírito é fundamentalmente uma questão de fé vivenciada.” [13]


Notas

[1] CHAN, Francis. O Deus Esquecido (Mundo Cristão, 2010), 144 páginas.

[2] Consulta do termo “experiência” no Dicionário Oxford Languages, disponível em Google.com. Acesso em 26 de Novembro de 2021.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem.

[5] LEITE, Augusto Bruno de Carvalho Dias. Experiência e Conhecimento. Em Estado da Arte, revista de cultura, artes e ideias do Estadão. Disponível em https://estadodaarte.estadao.com.br/experiencia-conhecimento-augusto-carvalho/. Acesso em 26 de novembro de 2021.

[6] FEE, Gordon. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus (São Paulo, Vida Nova, 2015). Posição 217. Edição do Kindle.

[7] FERGUSON, Sinclair B. O Espírito Santo (Os Puritanos, 2014). Posições 130 e 137. Edição do Kindle.

[8] Ibidem. Posição 366.

[9] Ibidem. Posição 376.

[10] DANIEL, Silas. O Batismo no Espírito e as Línguas como Sua Evidência: A Imersão Plena no Profetismo da Nova Aliança (Rio de Janeiro, CPAD, 2020). Página 11.

[11] op. cit. (ver nota 6). Posição 246.

[12] op. cit. (ver nota 10) Página 12.

[13] op. cit. (ver nota 6). Posição 197.


Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é graduando em Processos Gerenciais, pela Universidade Estácio de Sá, e estudante autodidata de teologia. Autor dos livros Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017) e Evangelismo Placebo: oferecendo um evangelho de mentira a pecadores de verdade (2021). Na igreja local, coopera como pregador, e também como músico, cantor e compositor. Casado com Talita Motta.

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