A teoria da evolução resiste à complexidade da vida real?

Em agosto de 2021, escrevi um artigo me posicionando contra o evoteísmo. O evoteísmo, apenas para recapitular, nada mais é do que uma tentativa de fusão entre a teoria da evolução (evolucionismo) e o teísmo. Um dos principais argumentos daquele artigo é o seguinte:

[apesar de que] na academia, [possa haver] uma quantidade bastante significativa de pessoas defendendo que a teoria da evolução explica as nossas origens, definitivamente, não há um consenso acerca desse assunto. […] o evoteísta erra como todo evolucionista tradicional, sendo dogmático em suas afirmações, sem admitir que, em Ciência, existe a necessidade de um constante aperfeiçoamento por parte do cientista e, em consequência disso, de muita cautela em suas afirmações, pois dados novos são encontrados a todo momento, de maneira que conclusões antigas precisam ser revistas e corrigidas, a fim de que a verdade prevaleça – é preciso se render aos dados.” [1]

O que tentei dizer é que as descobertas científicas mais recentes, quase em sua totalidade, demonstram que as conclusões dos evolucionistas, e consequentemente dos evoteístas, são conclusões que, hoje, baseiam-se muito mais na teimosia, ou na preguiça, ou no medo, do que nos dados científicos propriamente ditos. Estou afirmando aqui que o consenso existente é, na verdade, uma falsa concordância, e demonstraremos isso futuramente. Por enquanto, afirmamos que é um consenso fraudulento no qual um grupo significativo, formado por aqueles cientistas que discordam do pensamento dominante, esconde suas convicções a fim de continuar a gozar dos benefícios que tal posição lhe traz. Concordar calado é melhor do que expôr suas reais convicções, que são discordantes, e ser rechaçado.

Hoje, em áreas como química, física, bioquímica e matemática, são encontradas cada vez mais evidências que apontam para a complexidade extrema e sofisticadíssima da vida e do Universo, o que coloca em cheque a teoria da evolução e as convicções de seus fiéis adeptos. Com o avanço da tecnologia e o constante desenvolvimento dos próprios métodos científicos, os cientistas vêm tendo acesso a uma avalanche cada vez maior de dados que discordam inteiramente da teoria dominante até então. O que resta, portanto, é (a) a teimosia em continuar insistindo em determinado entendimento, apesar das provas em contrário, ou (b) a preguiça de se submeter a uma reciclagem, apesar de que, em muitos casos, a necessidade disso já foi sentida pelo preguiçoso, ou ainda (c) o medo de se admitir publicamente aquilo que já é convicção na mente.

Sabe-se, atualmente, que a vida e o Universo são dotados de um alto nível de informação funcional, arbitrária e aperiódica. Informação funcional nada mais é do que informação que tem propósito e função específicos. Não é lixo, nem algo meramente opcional. É informação planejada, premeditada, antevista e colocada em seu lugar necessariamente exato. A mesma informação fora do lugar exato em que ela é especificamente encontrada, resultaria em desastre, em não promoção da vida. Esta enorme quantidade de informação (na verdade, uma avalanche de informações que são encontradas em cada milímetro já explorado do Universo) é, em muitíssimos casos, arbitrária, ou seja, não segue um padrão, uma lei identificável, uma sequência clara: simplesmente está ali.

Se, por um lado, claramente se vê, por meio da identificação de sua funcionalidade, que não foi o acaso que a trouxe até onde ela agora pode ser encontrada, por outro lado, seu lugar no todo não pode ser explicado através de leis naturais rígidas e repetitivas. Não há rastros, há somente arbitrariedade e vida resultante disso. Ou seja, esta informação foi colocada onde está, não seguindo lei alguma, o que elimina processos guiados por “leis de auto-organização”, ao mesmo tempo em que não pode ser explicada pelo simples acaso, pois não poderia estar em nenhuma outra posição diferente daquela na qual foi encontrada.

A teoria da evolução tem convencido muitos de que esta intuição que temos de que tudo tem um propósito, esta convicção interna de que a existência não é apenas isto que conhecemos, enfim, o design da vida, sim, isso tudo é nada mais do que aparência, pois a vida é resultado, na verdade, de processos naturais não guiados e que podiam simplesmente não acontecer.

Para o evolucionista, em primeiro lugar, há o processo natural, que começa na chamada “lei de auto-organização” – de alguma forma, o Universo iria se organizar. No entanto, por não haver um Guia, um Organizador, esta organização poderia simplesmente ter se auto-organizado de forma a não dar origem à vida como a conhecemos – esta vida que os evolucionistas chamam de “uma simples versão atualizada dentre as milhares de possíveis alternativas que não têm acontecido”. [2]

Há, de algum modo que o evoluciosta não sabe explicar, uma lei que faz a organização necessária. Todavia, esta lei comporta também o acaso – ou seja, a lei de auto-organização acaba por não nos contar o como, apenas o porque: ela define que as coisas devem se organizar, mas não dita as regras sobre como essa organização deve acontecer, de maneira que as coisas acabaram se organizando, e outras leis menores foram resultando dessa organização, mas, no final das contas, tudo poderia ser completamente diferente, pois não há nenhum Guia colocando a coisa toda em seu devido lugar. Santa loteria em que nós ganhamos! Uma lei suprema dá origem à não-lei, o acaso, que se organiza aleatoriamente, e dessa não-lei (o acaso) surgem algumas leis, alguns padrões, que podem ser identificados hoje, pelos cientistas. Que bagunça.

No entanto, as descobertas científicas mais recentes mostram que, diferente do que defendem os evolucionistas, apesar de toda a informação que possibilita a vida ser funcional, arbitrária e aperiódica, esta informação é de um ajuste extremamente fino, de modo que aquilo que é arbitrário trabalha, ao mesmo tempo, de formas interdependentes e constantes, unindo forças para viabilizar a nossa existência e a do Cosmo.

Toda informação funciona em favor da vida de uma forma cooperativa, sincronizada e automatizada.

Mais do que isso, toda a informação existente não apenas está no lugar exato em que deveria estar, caso contrário a vida não existiria, mas esta informação consiste também de estratégias que anteviram entraves e resolveram problemas futuros de antemão. Isso é antevidência genial. E o problema óbvio aqui é que o acaso não prevê nada. O acaso lida com o presente, apenas isso, mas não lida com o futuro que ainda não existe, com problemas e anomalias que ainda surgirão. O acaso não vai me proteger enquanto eu estiver distraído, porque o próprio acaso está distraído, é um acidente, um acontecimento imprevisto.

Uma lei de auto-organização que obriga que tudo se auto-organize, mas que, ao mesmo tempo, não interfere no “livre-arbítrio” de tudo aquilo que está sob sua autoridade, deixando tudo “ao acaso”, não pode antever o futuro e se preparar para ele. A verdade é que um Designer anteviu as falhas que poderiam acontecer no sistema da vida, e providenciou soluções para elas antes mesmo de elas acontecerem.

A vida é, portanto, e no mínimo, um somatório de complexidade sofisticada e irredutível, mais informação aperiódica, arbitrária e funcional, mais antevidência genial. Tudo isso é que forma a vida, e tudo isso não pode repousar sobre a teoria da evolução, porque ela não pode comportar tais verdades. Diante disso, aquela história de coisas iniciais rudimentares, sopas escaldantes e amebas primitivas parece não mais corresponder à realidade dos dados científicos mais recentes. A teoria da evolução caiu em obsolescência.

O que sobra, para os evolucionistas, é fé – porém, no deus errado:

“Como consequência se diz que é um dos milagres universais da Natureza que tal enorme conjunto de partículas, sujeitas somente as leis cegas da Natureza, sejam, não obstante, capazes de organizar-se em padrões de atividade cooperativa. […] No momento atual aparece como [uma] hipótese válida que reconcilia matéria e vida [e] estamos autorizados a esperar que em algum momento no futuro possa ser provado sem ambiguidade que as propriedades de auto-organização de sistemas com a presença de reações químicas e fluxos venham a constituir o elo perdido na evolução da molécula até o homem.” [2] 


NOTAS

[1] O evoteísmo e a necessária jornada investigativa pessoal sobre as origens, que pode ser acessado em https://revistafecrista.art.blog/2021/08/06/o-evoteismo-e-a-necessaria-jornada-investigativa-pessoal-sobre-as-origens/.

[2] VASCONCELLOS, Áurea R. RODRIGUES, Clóvis G. LUZZI, Roberto. Complexidade, auto-organização e informação em sistemas dinâmicos, disponível em https://www.scielo.br/j/rbef/a/FSFb9pfBDMxJQfFfwMKfRWq/?lang=pt. Acesso em 18 de novembro de 2021, 0:30h.


Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é estudante autodidata de teologia, e autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como músico, cantor e compositor. Casado com Talita Motta.

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