A Necessidade de Plantação e Plantadores de Igrejas – Parte 2

Preocupações Geográficas

Às vezes, condições geográficas demandam novas igrejas. As comunidades mudam; pessoas deixam certo lugar, enquanto outras vão para lá. Algumas igrejas são capazes de adaptar-se a mudanças; outras não. Quando elas não se adaptam, não devemos evitar a plantação de igrejas novas onde existem antigas. Onde as igrejas abandonaram o Evangelho cristão, não devemos nos envergonhar de estabelecer novas igrejas, centradas no Evangelho.

É óbvio que o foco, primordialmente, é plantar novas igrejas onde geograficamente, não há nenhuma presença de igreja que possa ser o refúgio para os novos convertidos.

No entanto, nem todas as igrejas proclamam fielmente o Evangelho de Cristo, ou expõem com regularidade as Escrituras, ou disciplinam seus membros, ou fazem uso correto das ordenanças, ou praticam o governo bíblico da Igreja, ou mantêm um ministério focalizado no Evangelho. Desta forma, a plantação de igreja deve ser relacionada com o impacto evangélico que as Igrejas existentes estão causando. Se não estão penetrando as trevas, ou novas igrejas precisam ser plantadas, ou as igrejas existentes precisam de reforma. Ambas as obras exigem oração. Ambas demandam liderança com virtudes específicas: uma liderança que tenha paciência e habilidade de nutrir, para plantar uma nova igreja; outra liderança que tenha paciência e habilidade de diplomacia, para lançar os alicerces da reforma bíblica.

Numa região onde há muitos prédios de igrejas que têm congregações doentes, manquejando com impulsos de adoração cristã, sem um verdadeiro ministério do Evangelho, sem paixão pelos perdidos, sem espírito missionário, sem pessoas dispostas a envolver a cultura com o Evangelho, este é o momento de plantar uma igreja. No entanto, o alvo primordial não é menosprezar as igrejas existentes. Talvez, pela misericórdia de Deus, as igrejas letárgicas existentes sejam revigoradas por uma nova igreja estabelecida nos arredores. A nova igreja se focalizará em alcançar os incrédulos que as igrejas existentes não estão alcançando. E se tornará um refúgio para os crentes famintos do Evangelho que lutam em meio à sua membresia em igrejas evangélicas fracas.

Considerações doxológicas

Acompanhando as razões bíblicas, teológicas e geográficas para a implantação de novas igrejas, há o desejo de ver a Cristo magnificado e honrado por meio de igrejas que são corajosamente norteadas pelo Evangelho. As novas igrejas focalizadas no Evangelho não se dedicam às últimas tendências ou a artifícios que atraem pessoas desinteressadas; antes, essas igrejas procuram manifestar em seus relacionamentos, adoração, pregação e ministério a centralidade da glória de Cristo na Igreja. Infelizmente, muitas das igrejas já existentes estão destituídas da glória de Cristo. Elas têm organização, programas, muitos atrativos e dinheiro, mas não têm o aroma de Cristo e de seu Evangelho. Podem apresentar números e reivindicar convertidos, mas falta-lhes as marcas distintivas de uma igreja bíblica. Uma situação assim é uma ocasião para plantar uma nova igreja, isto é, por causa da glória de Cristo.

O Novo Testamento apresenta muitas imagens para descrever a Igreja: o templo de Deus (1 Coríntios 3:16), o corpo de Cristo (1 Coríntios 12:27), a família de Deus (Efésios 2:19), a habitação de Deus em Espírito (Efésios 2:22), a coluna e baluarte da verdade (1 Timóteo 3:15) e a esposa de Cristo (Efésios 5:25-32; Apocalipse 19:7-9). Esta última figura da Igreja – a esposa de Cristo – nos lembra o alvo permanente que deve motivar a organização e o ministério de nossa igreja. Em vez de ser moldada pelas técnicas de marketing do mundo, a Igreja tem que se preparar para o casamento eterno com Cristo. Ele se deu a Si mesmo por Sua Igreja, para santificá-la e purificá-la, “por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Efésios 5:25-27). Entretanto, muitas igrejas não evidenciam a obra santificadora de Cristo. Será que elas não são apenas organizações eclesiásticas que possuem nomes cristãos? Novas igrejas precisam ser plantadas – igrejas que vivam com a paixão de fazer para a glória de Cristo tudo o que fazem.

Quando não plantar igrejas?

Algo que me preocupa é quais têm sido as razões fundamentais para plantarmos igrejas. Às vezes, a razão para fazermos isso não é bastante sensata para nos arriscarmos ao processo. Desejo oferecer algumas razões que nos mostram quando não devemos plantar Igrejas:

Primeiramente, não estabeleça uma igreja somente para escapar dos problemas do pastorado. Isso mesmo. Não resolveremos nossos problemas simplesmente saindo da igreja (em que estamos) e plantando uma nova igreja. Temos apenas de carregar os nossos próprios fardos! Outros lidam com o problema da membresia da igreja, com a redução do seu rol de membros ou com o exercício da disciplina sobre os membros que erram. Essas são questões monumentais! Quem pode culpar os outros de fugirem delas, a menos que ele, de fato, seja chamado por Deus para pastorear o rebanho?

Escapar das dificuldades através da implantação de uma nova igreja apenas nos garantirá que teremos outros tipos de dificuldade. Achar que deixamos para trás muitos dos problemas típicos enfrentados no ministério: liderança despreparada, organização medíocre, estruturas de autoridade, brigas por espaço nos ministérios da igreja, assembleias vergonhosas, citando apenas alguns dos problemas. Deixar para trás essas coisas, mas herdar outras dificuldades que são comuns ao início de novas igrejas, problemas tais como estruturas de autoridade (parece familiar), conflitos de relacionamento, problemas relacionados ao prédio, ao local, questões de liderança, nenhuma organização, solidão, etc.

Você não pode escapar. Os problemas surgem com a expansão. As pessoas trazem os problemas. Mas, essa é a razão porque Deus nos chamou à obra – levarmos a Igreja a Cristo e à Sua glória em todas as coisas; sermos exemplo de piedade em tempos difíceis; alimentarmos o rebanho com a Palavra de Deus, fortalecendo-o e admoestando-o a seguir a Cristo, e aplicarmos o Evangelho a cada área da vida e do ministério.

Em segundo lugar, não plante uma igreja motivado por impulso. Não há qualquer estratégia envolvida, nem mesmo uma preocupação crescente produzida pelo Espírito, mas somente uma desordem que clama por solução imediata. Começar uma nova igreja parece o único caminho a seguir. Divisões em igrejas produzem muitas igrejas novas! Os problemas fermentam, os conflitos explodem, os membros escolhem a sua posição, e pronto! Uma nova igreja é formada!

Apresso-me em ressaltar que muitas igrejas boas começaram como resultado de divisões! Essas igrejas têm razões legítimas para o seu começo somente se, com base na Verdade, esgotam-se todos os meios de promover a reconciliação. Se a divisão ocorre por causa de discordância sobre a cor do tapete, ou o horário de começar a Escola Dominical, ou dar um aumento aos empregados da igreja, a humildade e o arrependimento têm de prevalecer sobre o impulso de sair abruptamente para começar uma nova igreja. No entanto, se ocorre uma divisão por causa do que é o Evangelho, ou das doutrinas essenciais da fé, ou da liderança eclesiástica bíblica, ou de manter uma membresia de pessoas regeneradas, ou de exercer a disciplina eclesiástica bíblica, então, uma nova igreja talvez seja necessária. Eu disse talvez, porque as questões doutrinárias podem ser resolvidas com ensino paciente e humilde. Nunca se precipite a plantar uma igreja num momento de impulsividade. Procure demonstrar o espírito de Cristo em todas as coisas. Quando problemas sérios relacionados à doutrina e ao Evangelho não podem ser resolvidos, deve haver divisão, por causa da glória de Cristo na comunidade. E nessas condições, a nova igreja nunca deve comportar-se com o orgulho de ser a verdadeira igreja. Problemas também podem surgir à nova igreja; portanto, tenha cuidado em começar com humildade uma nova Igreja.

Terceiro: não estabeleça uma igreja como um remédio para solucionar problemas. Esse idealismo exalta o homem, e não o Senhor da Igreja. Os pecadores sempre fazem trapalhadas, incluindo os que plantam igrejas! Novas igrejas têm os seus próprios problemas. Muitas igrejas apresentam crenças estranhas e não ortodoxas, conflitos de personalidade, problemas de liderança, dificuldades financeiras e muitas outras questões. Começar uma nova igreja não elimina os problemas, a menos que eliminemos as pessoas; e esse não é o objetivo de uma nova igreja!

Finalmente, não plante uma igreja necessariamente, porque isso parece ser a única opção para exercer o pastorado. Tenho me deparado com homens que não foram capazes de conquistar sequer o pastorado auxiliar em igrejas já organizadas ou em pequenas congregações já existentes. Por isso, resolveram plantar uma nova igreja como sendo este o único meio de ter o seu próprio púlpito. Ora, isso suscita um problema importante: o fato de que há mais candidatos ao pastorado do que igrejas abertas é uma indicação clara de que alguns dos que esperam por um pastorado precisam plantar igrejas. Mas, não todos eles. Alguns precisam ser amadurecidos antes de se lançarem à plantação de uma nova igreja. Não precisamos começar igrejas para acomodar homens, e sim para glorificar e exaltar a Cristo. Alguns homens não têm os dons e a vocação para pastorear; apesar disso, eles acham que devem ter uma igreja. Outros são ásperos e inflamadores, tendo causado divisões por meio de sua personalidade fraca. Por isso, tentam plantar uma igreja em que todos cooperarão com eles e ignorarão sua personalidade não santificada. Começar uma igreja para acomodar esse tipo de pessoa é totalmente inapropriado.

O plantador da igreja

Quando alguém me pergunta sobre o perfil de um plantador de igrejas, comumente investigo os seus motivos. Por que deseja plantar uma nova igreja? Por que começar do nada, sem história ou tradição, sem estrutura de liderança ou organização educacional, sem apoio ou recursos financeiros, sem ministério de crianças ou de jovens, sem prédio ou lugar conveniente? Por quê? Eu condensaria os motivos corretos em dois.

Primeiro: você percebe a necessidade de uma nova igreja, não para escapar de problemas, e sim, para estabelecer um ministério bíblico que alcance pessoas, por causa do Reino de Deus. A necessidade não é a sua carência de um ministério, e sim o amor à glória de Cristo entre as pessoas, para que o nome Dele seja honrado.

Segundo: você sente uma chamada de Deus em sua vida, para realizar esta obra. Examina os seus motivos e considera as exigências envolvidas, se nada do que foi avaliado o impede de plantar uma nova igreja. Você avalia o seu senso de chamada com a sua esposa e os seus mentores espirituais. Eles reconhecem a preparação de Deus em sua vida e as habilidades especiais que lhe foram outorgadas para essa obra. Você está disposto a arriscar tudo por causa do estabelecimento de uma nova igreja, para a glória de Cristo? Somente depois de fazer essa avaliação, você estará pronto a mover-se a plantação da Igreja.

Talvez você ache que estou procurando desanimar o plantador em seu papel de plantar igrejas. Não, de maneira alguma. Estou interessado em que esse plantador entenda as exigências de Cristo, enquanto pensa sobre a plantação da igreja. Antes de tudo, jamais pode ser neófito na fé ou despreparado. O plantador exercerá funções diferentes: pregador, pastor, organizador, educador, conselheiro, motivador, planejador, líder de grupos, tutor, nutridor, treinador, zelador, etc. Deve estar disposto a trabalhar com dedicação, por longas horas, e, às vezes, assumir outro trabalho para atender às necessidades da família. Deve estar disposto a confiar nos outros que se achegarão a ele, ompartilhando o fardo, distribuindo sabiamente as responsabilidades, treinando líderes, investindo em pessoas e cultivando ensinadores.

Tem de ser responsável aos outros nos aspectos: espiritual, financeiro, moral, ético e eclesiástico. Precisa ser comprometido com as pessoas entre as quais procura estabelecer a nova igreja, fazendo parte da vida delas, compartilhando suas alegrias e tristezas, conhecendo suas inquietações e aflições. Deve ser ensinável, um incansável estudioso das Escrituras, compreendendo que, como plantador de igreja, deverá estar sempre disposto a “arregaçar as mangas”, pois, muitas vezes, o plantador será sempre o “primeiro” que terá de iniciar esse tipo de trabalho. O plantador deve ser alguém consciente que cometerá erros e terá de admiti-los com humildade. De vez em quando, precisará corrigir o rumo, quando os seus “melhores planos” não derem certo. Na providência de Deus, isso redireciona a caminhada da nova igreja. Deverá ser flexível nos planos e na organização, mas inflexível na doutrina, na seriedade e no compromisso com o genuíno Evangelho. Deverá ser um servo do Eterno Deus, disponível em suas Santas mãos, de joelhos calejados em constante e fervente oração, pronto para ouvir – inclusive as críticas.

Conclusão

Devemos todos nos envolver na plantação de novas igrejas. E sempre trazer no coração a motivação pelo Evangelho de Cristo, buscando tão somente com a honra d’Ele, nunca buscando nossos próprios interesses, avançando corajosa e humildemente, desejando ver a glória de Jesus Cristo resplandecendo por meio do trabalho abnegado e fiel, na plantação de novas igrejas. “Os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão.”(Salmos 126:5).


Rev. Magno Vinícius Paterline é pastor na Primeira Igreja Presbiteriana de Barretos/SP. Professor de Sociologia e Atualidades no Colégio Liceu, em Barretos, casado com Fabiana Feliciano e pai de Manassés e Rebeca

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