No dia 6 de setembro, chamei o irmão Zágari, via aplicativo WhatsApp, para entrevistá-lo para a Revista Fé Cristã (havia salvado o contato dele “clandestinamente”, de tempos atrás, quando ele aplicou um estudo teológico num grupo de estudos do qual ainda sou um dos administradores). A simpatia em pessoa, Zágari prontamente respondeu: “Oi, Marcos, bom dia! Mano, é só dizer. Vc quer fazr por audio, video, texto…?” Como diz o ditado: “me pegou com as calças na mão” – não esperando que ele concordaria de pronto, eu não havia sequer pensado no tema. No entanto, em poucos minutos, graças ao vasto trabalho deste homem na literatura cristã, já estava com o esboço da entrevista rascunhado na mente – falaríamos sobre o seu novo e, na minha opinião, polêmico livro O Evangelho da Paz e O Discurso de Ódio, uma parceria da GodBooks (editora liderada pelo Zágari) com a Thomas Nelson Brasil, e que foi lançado agora, em agosto de 2021. Além de ser um dos maiores autores cristãos de todos os tempos em língua portuguesa, Maurício Zágari é bacharel em Teologia, pela FTSA – Faculdade Teológica Sul Americana. Estudou na PUC-RJ e é pós-graduado em Comunicação Empresarial, pela Faculdade UNIBF. Frequentou o Colégio de São Bento.
A seguir, a entrevista, na íntegra:
MOTTA – Como foi que surgiu a ideia de O Evangelho da paz e o discurso de ódio? Como editor, você teve parte na organização (com a Marisa Lopes)? Como explicar o título? Este assunto me parece que é muito caro para você… Conte-nos esta história.
ZÁGARI – A ideia do livro surgiu de conversas entre minha amiga Marisa Lopes e eu, dois teólogos cristãos inconformados com o péssimo exemplo que muitos cristãos têm dado em seu posicionamento público. Intrigava-nos como, nesta época de polarização e divisões, pessoas que se dizem seguidoras do Príncipe da Paz e que professam o mesmo Evangelho que levou os apóstolos e os cristãos da Igreja primitiva ao martírio conseguem acreditar que podem usar de ódio, agressividade, ofensas, deboches e violência verbal para defender nossos princípios e crenças. Víamos uma incoerência muito grande entre a mensagem da cruz e a prática de muitos cristãos — entre eles, líderes e formadores de opinião — em “defesa do evangelho” e queríamos entender melhor esse fenômeno. Daí veio o convite a treze mentes pensantes da Igreja, oriundos de três continentes, para contribuir com reflexões sobre o tema. O maravilhoso resultado desse exercício de pensamento, diálogo e aprofundamento bíblico é O evangelho da paz e o discurso de ódio. O título foca nesse paradoxo de como conciliar a mensagem de não-agressão, não-revide, não-beligerância, amor, paz e compaixão do Evangelho de Cristo com o discurso de ódio que pode facilmente ser identificado nas palavras de multidões de cristãos no âmbito público em nossos dias.
MOTTA – A polarização político-ideológico-partidária pode ser vista como uma estratégia utilizada pelo diabo para dividir a Igreja?
ZÁGARI – Creio que Satanás apenas está se aproveitando da inclinação pecaminosa das pessoas para o ódio, a vingança, a agressão e a maldade e se esbaldando ao sugerir que abracem essas armas diabólicas “em nome de Jesus”. Ele está sendo bem-sucedido nesse processo de divisão do Corpo, que é justamente o que tentamos combater no livro, chamando nossos irmãos e irmãs à reflexão sobre como têm caído na arapuca do diabo. Lembrando que o diabo não obriga ninguém a nada, salvo em casos de possessão. Ele sugere, mas quem comete os erros somos nós.
MOTTA – Esta divisão adentrou pelas portas da Igreja ou a Igreja está mais concentrada em um dos lados da briga, lutando contra o mundo que se encontra do lado contrário? Quando você olha para o quadro, o que enxerga?
ZÁGARI – A oposição entre a Igreja e o mundo é prevista e faz parte do Evangelho (João 15.15-20). Mas, esse não tem sido o problema. O problema mais grave, no momento, são cristãos de certas linhas odiando cristãos de outras linhas (o que é pecado contra o desejo de unidade que Cristo expressou em João 17.20-23) e o péssimo testemunho que esse posicionamento odioso e pecaminoso da parte de cristãos gera junto à sociedade não cristã. Fomos chamados a ser sal e luz e o discurso de ódio tem nos feito parecer trevas, infelizmente.
MOTTA – Como a passagem de 1 Coríntios 1.10 pode ser aplicada a esta questão da polarização?
ZÁGARI – Pode ser totalmente aplicada. Quem lê essas palavras de Paulo vê como os setores da Igreja que têm abraçado esse posicionamento estão imensamente distantes do padrão bíblico.
MOTTA – Na introdução do livro, você afirma: “Sem perceber, [muitos cristãos] começaram a usar as armas do diabo para defender o evangelho de Cristo.” Que armas seriam essas? O que é um “discurso de ódio”?
ZÁGARI – Não existe uma definição única do que seja discurso de ódio. No entanto, o que todas as definições têm em comum é o entendimento de que se refere a um tipo de violência verbal cuja base é a não aceitação das diferenças, ou seja, a intolerância. No contexto, trata-se de uma forma de se posicionar, com agressividade, ira, ofensas, deboche, desqualificação, arrogância e outras atitudes anticristãs ao “dialogar” com quem pensa diferente de si. Ponho “dialogar” entre aspas porque o discurso de ódio não promove a saudável dialética do diálogo com quem pensa diferente, apenas tem como foco atacar, desmerecer, diminuir, agredir. As armas do diabo são justamente, aquilo que vai contra as nove virtudes do fruto do Espírito que Paulo listou em Gálatas 5.22-23. Entre essas armas, podemos elencar hostilidade, discórdias, acessos de raiva, ambições egoístas, dissensões, divisões, e outros pecados semelhantes (Gálatas 5.19-21).
MOTTA – O cristão brasileiro sabe debater política (na internet, em família, entre irmãos e amigos)? O que precisa ser mudado?
ZÁGARI – Muitos felizmente sim, muitos infelizmente não. O que precisa ser mudado entre os que abraçam o discurso de ódio: o uso de argumentos biblicamente embasados e não conceitos pré-concebidos, a capacidade de ouvir com interesse quem pensa diferente, o abandono de rótulos desqualificadores, o desejo de pacificar e não de pôr lenha na fogueira, o abandono da arrogância, a priorização do Evangelho acima de ideologias humanas, entre outras posturas. Soube recentemente de um irmão que havia sido convidado para participar de um diálogo on-line e que, por pressão de certos grupos, foi “desconvidado” pelos organizadores. Isso é o cúmulo! Mostra que só queremos impor e não dialogar. Estamos dispostos a dialogar, mas só com quem concorda conosco? Isso não é diálogo! E sem diálogo não há esperança. Esse tipo de atitude é vergonhoso para quem se diz cristão.
MOTTA – Como a Igreja pode encontrar unidade e paz em meio às muitas divergências internas que existem tanto na esfera teológico-denominacional quanto na esfera político-ideológica?
ZÁGARI – Compreendendo que unidade não é uniformidade nem igualdade. Jesus nos chamou para vivermos em “unidade perfeita” (João 17.23) tendo total entendimento de que seríamos diferentes. Na prática, isso é se aproximar pelo que temos de igual e tolerar as diferenças, em amor. Infelizmente, nossa arrogância não nos tem permitido viver isso. Só seremos um como Cristo e o Pai são um — como Jesus quer! — no dia em que passarmos a valorizar mais a Bíblia e sua proposta de vida do que nossas arrogâncias ideológicas, doutrinárias, denominacionais e teológicas.
MOTTA – O que Lutero quis dizer com a célebre frase: “A paz se possível, a verdade a qualquer preço”? Existem casos, hoje, nos quais podemos apelar para esta fala do reformador?
ZÁGARI – Eu considero que Lutero estava terrivelmente errado ao dizer isso. A verdade a qualquer preço, sim, mas a paz também. Por quê? Porque a promoção da paz não é opcional, ela é um dos pilares do Evangelho de Jesus Cristo, e por isso não pode ser relativizada. Entre essa proposta do grande reformador e a proposta de Cristo — que chamou os promotores da paz de bem-aventurados, que saudava com a paz onde chegava, que manifestou a paz como uma das virtudes do fruto do Espírito, que é o Príncipe da Paz e pregou o Evangelho da paz —, eu fico com a de Cristo. Lutero errou feio ao propor isso.
MOTTA – Aparentemente, um dos lados do espectro político parece ser mais favorável à existência e continuidade das igrejas cristãs no país, isto é, sem maiores restrições. Levando em conta essa percepção, como um cristão deve se comportar diante de um irmão na fé que apoia o lado contrário?
ZÁGARI – O compromisso do cristão tem de ser com a verdade e não com partidos e ideologias políticas. Todos os lados do espectro político possuem erros e acertos, logo, devemos apoiar o que há de bom, justo e verdadeiro de qualquer lado. Nosso erro está em divinizar ideologias socio-político-econômicas como se fossem representantes ou mesmo equivalentes ao Evangelho de Cristo. Não são. É absolutamente impossível que ideologias formuladas por seres humanos pecadores, falíveis e sujeitos à depravação total representem o Evangelho suprapartidário de Jesus Cristo ou se apresentem como sistemas inerrantes. Seria loucura supor isso. Portanto, o cristão deve se comportar diante de um irmão na fé que apoia o lado contrário como a Bíblia nos orienta: amando. Com compaixão, graça, perdão, paciência, mansidão e domínio próprio, falando só aquilo que traz edificação. E, como diz Paulo em 2 Timóteo 2.24-26, se achamos que quem se opõe está errado, não devemos viver brigando, mas sermos amáveis com todos, ensinando com paciência, instruindo com mansidão aqueles que se opõem, na esperança de que Deus os leve ao arrependimento e, assim, conheçam a verdade.
MOTTA – Uma última palavra, Zágari?
ZÁGARI – A todos que abraçaram o discurso de ódio “em nome de Jesus”, convido a que se arrependam de seu pecado, o confessem a Deus e deixem essa prática, para que possam viver de fato a proposta do Evangelho da paz.

Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é estudante autodidata de teologia, e autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como músico, cantor e compositor. Casado com Talita Motta.
Muito boa a conversa. Obrigado!
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