A dicotomia entre sagrado e secular tem influenciado o mundo evangélico nos nossos dias. Bandas gospel são formadas como imitações santas de bandas seculares. A igreja e o monte de oração são lugares mais poderosos do que uma casa e um quarto.
Essa dicotomia se esparrama por toda a realidade, atingindo também a esfera das vocações. Alguns entendem que ser pastor é a única vocação na qual se pode servir a Deus. Por outro lado, como a corrupção é sinônimo de política, a magistratura é vista como algo profano e satânico.
Diante desse pensamento, pode-se questionar: será que o ministério pastoral é mais importante que a magistratura para Deus?
Na busca por uma resposta bíblica e teologicamente saudável, será analisado a origem das vocações nos mandados criacionais, a Queda e seus efeitos sobre elas, os ofícios de Cristo que são representados por elas e a relação entre o ministério pastoral e a magistratura.
- Ministério pastoral e magistratura foram estabelecidos por Deus
Diante desse interessante questionamento sobre a importância do ministério pastoral e da magistratura, precisamos analisar a origem de cada uma dessas vocações. Essa análise contribuirá para entendermos os propósitos do estabelecimento delas para o plano de Deus.
O ministério pastoral é estabelecido formalmente no período da institucionalização da igreja no Antigo Testamento, quando Deus separa a tribo de Levi para ser a tribo sacerdotal. Contudo, essa formalização institucional é uma manifestação de algo que foi estabelecido no Éden. Adão era o cabeça espiritual de Eva (1 Coríntios 11:3). Ou seja, ele era o líder espiritual dela, tendo que conduzi-la espiritualmente diante de Deus.
Adão, diante do mandado espiritual, devia cuidar pastoralmente dos seus. Essa responsabilidade pastoral é vista no Éden na tarefa de guardar o jardim. Deus coloca Adão no jardim do Éden para guardá-lo da usurpação de Satanás. O verbo hebraico traduzido como “guardar” é “Hr”. Ele é usado para os deveres sacerdotais correspondentes a cumprir fielmente as instruções divinas (Levítico 8:35) e cuidar do tabernáculo (Neemias 1:53). Logo, Adão pode ser considerado o primeiro sacerdote deste mundo.
A magistratura também foi estabelecida formalmente no período da monarquia israelita. Entretanto, essa formalização institucional é uma manifestação de algo que foi estabelecido na criação. Adão foi colocado no Éden para cultivar o jardim (Gênesis 2:15). Ou seja, o governo foi uma ordenança da criação, fazendo parte do mandado social.
Greg Johnson, contrariando Abraham Kuyper, defende que o governo civil está embasado na ordem para subjugar e dominar a terra. Ele diz:
Assim como Deus estabeleceu o casamento e o estruturou, revestindo o marido com autoridade para liderar, também constituiu o governo civil. […] Tenho para mim que o governo é, igualmente, uma parte do desígnio divino original, como autoridade civil embasada no mandado para subjugar a terra e dominá-la (Gênesis 1:28).
Johnson diz também que não era necessário a presença do pecado para se instituir a autoridade civil. Ele não nega que as autoridades são ministros de Deus que carregam a espada para punir e conter o mal. Todavia, defende também que elas eram necessárias antes do pecado para construir estradas e estabelecer padrões de pesos e medidas.
Sendo assim, Adão pode ser considerado a primeira autoridade civil deste mundo. Portanto, vê-se que tanto o ministério pastoral quanto a autoridade do magistrado civil foram estabelecidos nos mandados criacionais no Éden.
2. Ministério pastoral e magistratura têm funções específicas após a Queda
A história da humanidade não permanece no jardim do Éden. Adão e Eva foram expulsos dele por causa da Queda. Isso fez com que as funções do ministério pastoral e da magistratura fossem mais claramente evidenciadas e separadas.
Após a Queda, o ministério pastoral teve sua função vista nos sacerdotes do povo de Deus no Antigo Testamento. Vimos que Adão manifestava sua função sacerdotal ao se aplicar fielmente no cumprimento de Deus e no cuidado do jardim, sendo uma representação do templo de Deus. Com o progresso da revelação, evidencia-se a função de conduzir o povo a Deus através dos sacrifícios e da leitura da Lei. O sacerdote tinha a função de representar o povo diante de Deus, recebia seu sustento dos sacrifícios e ofertas que eram trazidas ao altar (Levítico 18:1) e era um dos três poderes do Estado de Israel, juntamente com a monarquia e o ofício profético.
No Novo Testamento, o ministério pastoral tem configurações diferentes no novo Israel de Deus. Os pastores do Novo Testamento não oferecem mais sacrifícios pelo povo diante de Deus e nem têm poder estatal. Eles continuam conduzindo o povo a Deus, dedicando-se e afadigando-se no estudo da Palavra (Atos 6:2). Continuam tendo o direito de receber seu sustento da Igreja (1 Timóteo 5:17), pois se dedicam às coisas do Evangelho (1 Coríntios 9:14).
Logo, a função do ministério pastoral é da esfera eclesiástica, separada da esfera do Estado. O pastor deve pregar o Evangelho, cuidar da santidade do povo de Deus através da disciplina e ensino da Palavra de Deus, e administrar as coisas da Igreja. Ele é um ministro de Deus na esfera da Igreja.
Na magistratura, vemos algumas funções sendo acrescentadas após a Queda. O magistrado continua tendo a função de organizar a sociedade, proporcionando tranquilidade e oportunidades a todos (1 Timóteo 2:2). Mike Warren, falando sobre isso, disse:
Entre as funções primordiais do governo, têm-se: […] que a paz pública não seja perturbada; que as propriedades de cada pessoa sejam preservadas em segurança; que os homens possam exercer tranquilamente o comércio uns com os outros; que seja incentivada a honestidade e a modéstia.
A outra função do magistrado civil é portar a espada, julgando os maus e beneficiando os que praticam o bem (Romanos 13:4). Ou seja, o propósito dele é manter a ordem e proteger o bem do caos, da violência e do mal. Consequentemente, o magistrado civil tem como objetivo lidar com a coisa pública, preocupando-se com as coisas do povo da sua nação, independentemente de sua religião.
Por isso, os magistrados têm o direito de receber seu sustento dos tributos do seu povo (Romanos 13:6). A consciência demonstrada no pagamento dos tributos é que os magistrados são ministros de Deus para manifestar a justiça, a ira e a manutenção divina no cosmos afetado pela Queda através das leis dos homens; além de mostrar honra a eles.
Logo, a função do magistrado civil é na esfera pública, separada da esfera da igreja. Ele deve cuidar da organização da sociedade, estabelecendo leis justas que regulamentem as relações sociais, trazendo punição para os maus, protegendo os que praticam o bem e preservando a ordem pública. Ele é um ministro de Deus na esfera do Estado.
Portanto, no plano eterno de Deus, vê-se uma separação nas funções do ministério pastoral e do magistrado civil. Aquele foi designado por Deus para cuidar das coisas da Igreja, proclamando o Evangelho, disciplinando o povo de Deus baseado na Palavra d’Ele e zelando para o crescimento deste povo em fé e santidade. Já o magistrado civil é alguém que foi designado por Deus para cuidar das coisas do Estado, organizando a sociedade, promovendo a paz, julgando os maus segundo as leis dos homens e zelando por oportunidades iguais e justas para cada indivíduo da sociedade.
3. O ministério pastoral e a magistratura são representações dos ofícios de Cristo
O ministério pastoral e a magistratura têm algo em comum, trazendo uma importância especial para cada vocação no plano eterno de Deus. Essa importância se encontra no fato que elas são representações dos ofícios de Cristo.
O ministério pastoral é uma representação do caráter pastoral de Deus. Davi diz que o SENHOR é o pastor que o sustenta em todos os momentos (Salmos 23:1). Ezequiel diz que o SENHOR apascenta Suas ovelhas, trazendo descanso, cura e fortalecimento para elas (Ezequiel 34:11-16). O nome divino usado nesses textos é “YHWH”, que lembra a aliança pactual feita com Moisés para libertar Seu povo no Egito. Deus diz a ele para anunciar a Faraó que o “EU SOU” tinha o enviado para libertar o povo de suas mãos. Essa expressão, “EU SOU”, vem do nome divino “YHWH”, mostrando esse aspecto pactual entre Deus e o Seu povo.
Por isso, no Novo Testamento, Jesus usou a expressão “EU SOU” sete vezes, no Evangelho de João, demonstrando, deste modo, que era o Deus encarnado que veio cumprir a Sua promessa de pastorear o seu rebanho. Para demonstrar isso, Jesus disse que é o bom pastor que dá sua própria vida pelas suas ovelhas (João 10:11). Ele é o Supremo Pastor que os demais pastores devem imitar, seguir e evidenciar em seus ministérios (1 Pedro 5:4). Ele é o Pastor das nossas almas, manifestando o seu cuidado sacerdotal para nos levar a Deus (1 Pedro 2:25). Logo, Cristo é o Pastor e o sacerdote perfeito que os pastores devem manifestar.
O magistrado civil é uma representação do governo de Deus no mundo. O salmista declara que o SENHOR é o altíssimo para todo o sempre (Salmos 92:8). A expressão “altíssimo” significa que Deus está acima de tudo e todos. Não há nada e nem ninguém que tenha o domínio e poder para governar como o Senhor. Ou seja, Deus é altíssimo porque Ele governa soberana e incomparavelmente sobre todas as coisas que existem.
Esse governo divino é visto com mais clareza na pessoa de Cristo, porque Ele foi constituído o Rei que governaria com seu cetro de ferro a todas as nações (Salmos 2:6-9). Ele recebeu todo o domínio, pois está assentado à destra de Deus (Atos 2:32-35). Sentar-se à destra de Deus não é o local para o qual Cristo foi. Mas, representa autoridade, poder e governo eterno sobre tudo. Por isso, Ele é considerado o Rei dos reis e Senhor dos senhores (Apocalipse 19:16). Assim, Cristo é o dominador poderoso, justo e perfeito que os magistrados devem imitar.
Portanto, o ministério pastoral e a magistratura são demonstrações dos ofícios de Cristo. Essas vocações foram instituídas por Deus para lembrar-nos de que Cristo pastoreia o Seu povo e governa essa realidade criada de forma perfeita, de modo que tanto o pastor quanto o magistrado civil devem levar à sério suas vocações, porque são representantes de Deus nesse mundo.
4. Qual é a relação entre o ministério pastoral e a magistratura?
Apesar de atuar em esferas separadas, o ministério pastoral e a magistratura têm uma relação no plano eterno de Deus. Esse entendimento é visto na teoria de Abraham Kuyper chamada “Esferas de soberania”. Kuyper defende que essas esferas não são intangíveis entre si e sem relação umas com as outras. Pelo contrário, elas se relacionam e se comunicam entre si, tendo Deus como soberano sobre elas.
A relação entre o ministério pastoral e o magistrado civil se dá em duas vias. A primeira via, o ministério pastoral serve como consciência para o magistrado civil. A segunda via, o magistrado civil é servo do bem, do que é justo e verdadeiro, protegendo valores fundamentais baseados na consciência cristã.
Na primeira via, o ministério pastoral se relaciona diretamente com o magistrado civil. A Igreja tem como função orientar e ensinar as perspectivas divinas sobre a magistratura aos vocacionados para tal ofício. Assim, a Igreja tem um importante papel no ensino sobre a magistratura civil e no despertamento da sua vocação. Quando a Igreja falha nesse aspecto, o governo civil é assumido por pessoas que não têm interesse em zelar pelo bem, pelo justo e proteger os valores fundamentais de uma sociedade.
Na segunda via, o magistrado civil se relaciona de forma indireta com a Igreja. Ele não deve ser um servo da Igreja. Ele é um servo de Deus que respeita a liberdade religiosa, a liberdade de expressão e que proporciona um ambiente pacífico para uma vida em sociedade. Quando o magistrado civil falha em sua função, a sociedade como um todo se deteriora, consequentemente a Igreja sofre também. Mas, não é um relacionamento direto, porque a Igreja pode resistir aos assédios maléficos do Estado.
Portanto, na relação das esferas, o ministério pastoral pode influenciar diretamente na mentalidade do magistrado civil. Ensinar e despertar a vocação de magistrados é uma reponsabilidade importante na função da Igreja. Enquanto que o magistrado civil não influencia e nem tem ingerência sobre a Igreja diretamente, porque ela tem liberdade de atuação em sua esfera.
Conclusão
Diante do que foi visto, o presente artigo conclui que as vocações de ministério pastoral e magistratura são importantes no plano de Deus, porque:
• Elas foram estabelecidas no Éden, quando os mandados criacionais foram dados ao homem.
• Elas receberam funções específicas após a Queda, sendo de proclamação, disciplina e zelo na esfera da Igreja e de organizar, promover e julgar os homens na esfera do Estado.
• Elas são representações dos ofícios de Cristo e representantes de Deus na terra.
Mesmo assim, existe um aspecto que diferencia as duas vocações. Essa diferença é vista no poder de influência do ministério pastoral em relação ao magistrado civil. Enquanto que a magistratura é limitada em suas ações diante da Igreja.

Rev. William Steigenberger de Souza é teólogo, pastor e Matemático. Bacharel em Matemática, pela UEL, em Londrina/PR. Bacharel em Teologia, pelo Seminário Presbiteriano JMC, em São Paulo/SP. Licenciando, pela Faculdade São Luís de Jaboticabal. Pastor da 2ª Igreja Presbiteriana de Jaboticabal/SP. Casado com Ariani Cristiani Graciani Steigenberger.