Usar o púlpito para “bater” na teologia [e nos teólogos] é correto?

O evangelicalismo dos tempos atuais, com sua ênfase gritante em experiências, sentimentos e emoções, bem como em curas e milagres, adulterou o Evangelho. O foco na experiência pode ser altamente eficaz em levar as pessoas a aceitar o Evangelho – falo em questão de números. Todavia, tal ênfase (infinitamente maior nos últimos 150 anos) redefiniu a religião em termos de emoção, ao mesmo tempo em que contribuiu para que a teologia fosse negligenciada, bem como a doutrina e o elemento cognitivo da crença. Criou-se uma concepção de que o cristianismo é uma experiência não-cognitiva, o que acabou desenvolvendo nos crentes uma repulsa ao estudo diligente da Escritura e das doutrinas cristãs históricas. O cristianismo tornou-se uma religião de mistério.

Teologia é coisa de louco

Fora do púlpito, eu mesmo já ouvi que “teologia é coisa de louco” – um jovem cristão (não um pregador ou pastor) me disse isso via aplicativo de mensagens. É de se entender. No entanto, não é raro ouvirmos, hoje, nos púlpitos e arraiais evangélicos, pastores e pregadores “batendo” no estudo teológico e, consequentemente, nos estudantes, aspirantes a teólogos, e teólogos, demonizando a teologia, como se eles mesmos não produzissem teologia. Aqueles que deveriam amar a teologia, acabam por denegri-la.

Me pergunto se isso acontece porque estes homens desejam que o povo continue ignorante quanto à Escritura, uma vez que é mais fácil manipular um povo que não oferece nenhum tipo de resistência contra tal manipulação. A falta de instrução ao povo é peça importante no projeto de poder e fama de muitos homens do púlpito.

Há, é claro, aquelas vezes em que se faz isso em nome do incentivo à busca por um relacionamento equilibrado com Deus por parte do indivíduo que labora teologicamente: muitos daqueles que estão envolvidos de alguma forma com a teologia não equilibram as coisas – antes, permanecem vivendo de forma mentalmente reclusa, no alto de suas torres de marfim teológicas, uma vida negligente em relação aos meios de Graça, os quais Deus outorgou ao Seu povo e que estão disponíveis para serem usufruídos.

No entanto, se, por um lado, a fascinação pelo estudo em si pode fazer, sim, com que o estudante perca de vista o próprio objeto de estudo, que é infinitamente mais importante, por outro lado, muito mais frequente é o costume ou tradição de se “bater” na teologia e nos teólogos em nome de uma suposta espiritualidade superior, que faz do labor teológico algo inútil e, por isso, desnecessário. Perdemos as contas de quantas vezes por mês ouvimos, da boca de pastores e pregadores, que a teologia é coisa de crentes frios, de crentes que não possuem poder, de crentes que estão mortos pela letra ao invés de vivos no Espírito, de crentes que não têm intimidade com Deus e que não recebem a revelação do Espírito, etc.

Revelação ou iluminação?

Esta última questão, que a teologia é coisa de crentes que não recebem a revelação do Espírito, talvez seja a mais complicada de todas. Seus propagadores afirmam que o Espírito Santo lhes “ensina” a interpretação correta dos textos bíblicos. Assim, defendem que os crentes não apenas podem, mas devem desprezar o exercício de intepretação da Escritura, bem como o labor teológico em geral, e apenas orar para que o Espírito Santo lhes “revele” o real sentido daquilo que se está lendo. A pregação surge não da Escritura, mas do coração do pregador. O estudo bíblico deve ser, portanto, deixado de lado. A Bíblia deve ser apenas lida de forma devocional e rotineira, e o cristão deve interpretar os textos escriturísticos segundo este suposto guiar do Espírito.

Quem perde é a Igreja.

É bem verdade que o Espírito Santo ilumina o texto bíblico em nossa leitura. Quando meditamos na Palavra, o Espírito Santo usa aquele texto bíblico no qual estamos meditando para nos falar ao coração e à mente, nos ensinando e orientando. No entanto, nesta “altura do campeonato”, devemos ter muito cuidado, pois isso é bem diferente da prática usual que muitos cultivam, qual seja, a de se ler um texto e impor sobre ele o significado que se deseja que o texto tenha, ao invés de se permitir que o significado brote do próprio texto. Ora, não temos, da parte de Deus, a autonomia e autoridade necessárias para se fazer isso, antes, a crença e prática cristã histórica é que um texto não pode significar algo que nunca significou. Na Nova Aliança, não existe isso de que alguns iluminados e superespirituais recebem acesso exclusivo às ditas verdades secretas [revelações] que estão “escondidas” no texto bíblico.

Aqui e acolá vemos estes homens, que ocupam muitos púlpitos, afirmando “de boca cheia” que “não precisam de teologia”, que “nunca participaram de nenhum curso teológico” (como se isso fosse algo bom), que sua mensagem foi recebida “quentinha, do céu” no exato momento ou instantes antes da pregação, e que o estudo teológico é coisa de crente fraco. “Não preciso da opinião de homens”, disse um. “Não quero saber do que homens escreveram, quero saber o que a Bíblia diz”, disse outro. E aí, em sua presunção, o indivíduo conclui que tem condições de ser original em sua interpretação da Escritura, o que é mais um problema.

A Bíblia, por sua vez, em momento algum ensina que o Espírito Santo concede a interpretação oficial do texto a alguém. Tampouco ensina que o Espírito Santo concede novas revelações e mistérios acerca de um texto bíblico específico, à parte do estudo diligente da Escritura. Quem arroga para si tal pretensão normalmente afirma bobagens que contrariam a própria Escritura Sagrada.

Destaque-se um trecho da Confissão de Fé de Westminster:

“VI. Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas. (2 Timóteo 3:15-17; Gálatas 1:8; 2 Tessalonicenses 2:2; João 6:45; 1 Coríntios 2:9, 10, l2; 1 Coríntios 11:13-14)

[…]

IX. A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente. (Atos 15: 15; João 5:46; 2 Pedro 1:20-21)”[1]

Exceto raríssimas exceções, quando ouvimos um “pregador” dizendo que não precisou preparar o sermão porque “recebeu” a revelação da mesma na hora do culto, ou que “preparou” a pregação com base em um texto bíblico mas que, na hora de pregar, o Espírito lhe direcionou para outro texto bíblico, sem a menor ligação com o que iria ser pregado anteriormente, certamente a pregação virá recheada de heresias, jargões e trejeitos caricatos, exaltação do ego humano e uma ênfase anticristã nas vitórias e conquistas materiais.

Cristianismo histórico

A expectativa rotineira dos cristãos durante séculos era a de que o ministro proporcionasse à congregação um sistema intelectual [teológico] abrangente, que fornecesse tanto conhecimento bíblico quanto orientação prática. O sermão tradicional era em sua essência uma argumentação. O pregador avançava ponto por ponto, em uma progressão lógica, a fim de mostrar que certa doutrina em particular estava fundamentada na Bíblia. Depois, concluía com uma aplicação para a vida dos crentes à sua frente.

Mas, a partir das reuniões de reavivamento, nos séculos 18 e 19, as congregações passaram a não esperar mais ensinamentos sobre teologia; sua expectativa concentrou-se em um ministro que as comovesse emocionalmente e lhes apontasse os caminhos para a felicidade na vida cotidiana. Ninguém mais esperava que o pastor enunciasse uma estrutura intelectual geral pela qual a vida em todas as suas facetas poderia ser compreendida. O povo voltava da rua, de uma reunião ao ar livre, na esperança de encontrar na igreja o que havia recebido fora dela – acabava frustrado, pois o pastor estava muito mais preocupado em que eles fossem levados à santidade e à progressão no caminho com Cristo do que meramente tocar suas emoções. Não demorou para que novas denominações começassem a surgir e onde isso não aconteceu, o próprio povo acabou por destituir seus “líderes tradicionais” de seus ofícios.

Nesta época, até a conversão passou a ser vista como um passo simples que em absoluto não exige conhecimento ou consentimento doutrinário. O sermão é quase inteiramente uma ampla ilustração textual de Jesus convidando os famintos a participar de um banquete. “Não espere por explicações”, se dizia. “Experimente você mesmo agora.” O sermão estava quase livre de conteúdo teológico, focalizando tão somente no apelo pragmático de apenas “experimentar”.

Cada vez mais o pregador populista era reduzido a um mero personagem que costurava histórias e experiências – a maioria de sua própria vida, e que se apegava a versículos bíblicos apartados de seus contextos, com os quais este pregador podia fazer o que quisesse. Este método prendia as emoções das pessoas, ao mesmo tempo em que aumentava a própria imagem do pregador, uma vez que realçava pouco a pouco, e cada vez mais, seu próprio ministério e suas supostas experiências espirituais.

Surgimento do estrelismo na igreja

O resultado de tudo isso foi o surgimento de cultos à personalidade, o sistema de celebridade [estrelismo] que se tornou tão forte no evangelicalismo e, posteriormente, no movimento gospel. Os líderes deste novíssimo movimento evangélico populista acabaram com as estruturas denominacionais e construíram movimentos fundamentados inteiramente na personalidade — na habilidade de comover as pessoas e ganhar sua confiança.

Começando com Whitefield, como se pode verificar nos livros de História da Igreja, os pregadores se transformaram em celebridades cristãs. A autoridade do pregador, a partir de então, não mais vinha pela satisfação de padrões aceitos de vida piedosa, educação ou treinamento, mas do magnetismo pessoal e capacidade de reunir grandes multidões e seguidores.

Como consta em certo relato, os reavivalistas dos séculos 18 e 19 saíram “armados apenas com o sentimento do chamado divino e o puro talento de mexer com as multidões”, confiando em quase nada, além da “presença e carisma”. Não admira que se tenha dito que “o sistema de ‘estrela’ prevaleceu na religião antes de chegar ao teatro”.

Heresias

Isso fez com que ressurgissem no seio da Igreja as mais diversas e mais destrutivas heresias. Um sem-número de ensinos diabólicos é parte da realidade da igreja hoje, mais do que em qualquer outra época, por causa disso. Usa-se a Bíblia para fins escusos, para motivos fúteis e banais, ao mesmo tempo em que pouco se vê, da parte da maioria dos adeptos do movimento, a devida relação para com ela, qual seja, uma relação a partir do fato de que ela é a Palavra de Deus.

O movimento gospel, por exemplo, ao tentar simplificar a pregação, optoupelo uso da linguagem simples do povo, bem como de músicas com estilo e letra populares, o que se apresentou como algo muito eficaz para alcançar as pessoas comuns. Entretanto, os seus representantes foram muito longe, quase promovendo de forma aberta a ignorância do povo, como se o fato de se ser teologicamente instruído fosse sinônimo a estar espiritualmente morto. Um dos temas favoritos dos adeptos do gospel é ridicularizar aqueles crentes que tiveram acesso à instrução.

Segue-se que temos um agravante: as heresias que renasceram no seio da igreja em nosso tempo e que eram enfrentadas lentamente por diferentes igrejas e em diferentes tempos, precisam, hoje, como consequências desses equívocos, ser enfrentadas todas ao mesmo tempo. Assim, não lutamos contra uma grande heresia, como nossos irmãos do passado tiveram de fazer, sendo que a próxima grande heresia seria combatida (quando ela surgisse) pela geração seguinte de crentes – antes, temos de lutar, simultaneamente, contra todas aquelas que são historicamente as maiores e mais perigosas heresias, e isso porque estas foram ressuscitadas todas de uma só vez – pelo evangelicalismo atual.

“Que maneja bem a Palavra da Verdade”

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” (2 Timóteo 2:15).

Segundo o irmão Alisson Bruno, em seu artigo Aprovação de Deus e manejo da Palavra, publicado em Revista Fé Cristã Nº 1,

“Além de ser aprovado por Deus, o ministro deve saber manejar a palavra com perspicácia, firmeza e preparo. A tradução grega para “manejar bem” ou “corretamente” (2.15) é o termo “orthotomounta”. Esta palavra é composta pelo adjetivo “orthos”, que significa “perfeitamente correto ou em linha reta”, e o verbo “tomo”, que significa “cortar”. Assim, “orthotomounta a palavra da verdade” significa “cortar perfeitamente ou em linha reta a palavra da verdade”. Deus requer diligência em “cortar” perfeitamente a Sua Palavra, e isso significa que não podemos ter “três ou até mesmo dois cortes da palavra da verdade e eles serem perfeitamente corretos, simultaneamente”. Apenas uma interpretação da Palavra de Deus é “perfeitamente correta”.

Talvez, Paulo estivesse pensando em seu trabalho como fabricante de tendas, o qual exigia grande habilidade para que cada golpe de faca na lona contribuísse para a força da tenda depois de pronta. Aquele que manejava bem o corte, fazia tendas mais resistentes. Para Paulo, é impossível ser um ministro de Deus, e ser desleixado em relação à sua Palavra.

Ao falar sobre a Palavra da Verdade, Paulo não só qualifica a palavra que se deve pregar, como nos alerta quanto ao fato de que, se existe uma palavra da verdade, existem outras que não são verdadeiras. A Verdade, por definição, é única. A mentira pode ser variada e ilimitada, mas, verdade só existe uma e, em toda a Escritura, ela é o que Deus diz e ponto final.”[2]  

Para se submeter a esta verdade, a Verdade, e rejeitar sua vontade de explicar o texto segundo suas próprias ideias, o pastor ou pregador precisa, com esmero, debruçar-se sobre a Escritura em estudo teológico.

Originalidade

Por fim, o cristianismo, no que tange à pregação e ao ensino que vem do púlpito em direção à igreja, é imitação, e não deve ser originalidade. Os falsos profetas de todas as eras sempre ansiaram por serem originais, enquanto todos os homens de Deus que o Senhor já levantou nesse mundo sempre e humildemente se submeteram à imitação.

Somos chamados a imitar imitadores que imitaram, e assim por diante, até chegarmos aos apóstolos, que, por sua vez, eram imitadores de Cristo. É por isso que os cristãos históricos estudavam teologia e eram regados com boa teologia vinda do púlpito: porque queriam seguir imitando, sem se desviar das características do cristianismo dos apóstolos.

Você precisa saber, portanto, que tudo o que você prega, hoje, já foi pregado e defendido por alguém, em tempos antigos, de modo que, se você não se serve daquilo que um teólogo, cristão genuíno e fiel, elaborou em algum período da história, com certeza, e mesmo que involuntariamente, você se serve daquilo que um herege, falso profeta e infiel, elaborou em algum período da história. Não existe pregar apenas Bíblia, sem teologia. Não existe. Porque o ato de interpretar a Bíblia é labor teológico.

Os pregadores precisam “largar de mão” de pensar que são ou podem ser originais. O que alguém fala quando prega, com certeza já foi dito e defendido por outra pessoa, no passado: convém saber, apenas, se este alguém foi um cristão fiel, adepto da boa e verdadeira teologia, ou um herege, torcedor das Escrituras. Usar o púlpito para “bater” na teologia [e nos teólogos] não apenas é um equívoco, mas é anticristão, diante do que vemos na Escritura e na História.


Notas

[1] Confissão de Fé de Westminster, Capítulo 1, parágrafos VI e IX.

[2] BRUNO, Alisson. Aprovação de Deus e manejo da Palavra. Publicado em Revista Fé Cristã, Nº 1, abril de 2020, 35-37. Disponível para leitura em https://revistafecrista.art.blog/2020/10/25/aprovacao-de-deus-e-manejo-da-palavra/.


Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é estudante autodidata de teologia, e autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como músico, cantor e compositor. Casado com Talita Motta.

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