Maternidade: a visão de uma filha

Recordo um escrito tão singelo que encontrei no livro A Linguagem das Flores, de Vanessa Diffenbaugh, obra esta que aborda a questão do significado de cada flor e que foi criada na Era Vitoriana, como uma forma de linguagem. No livro, antes do sumário, tive um encontro doce com as palavras de Henrietta Dumont acerca do amor de mãe:

O musgo é o símbolo do amor materno, porque, como esse amor, ele alegra nosso coração quando o inverno da adversidade nos atinge e nossos amigos de verão nos abandonam.

Um escrito tão simples, mas que comunica tanta verdade, aconchego e segurança, bem como a figura materna. É comum lermos sobre maternidade do ponto de vista das mães e de profissionais da área, o que nos traz instrução, fortalecimento, e no caso de quem ainda não é mãe, como eu, grande aprendizado.

Trago por meio dessas palavras, no entanto, algo diferente, pois apresento neste artigo minha visão como filha – já deixo claro quais são as minhas intenções. Desejo testificar o quanto nós, filhos, somos impactados por nossas mães. Claro que, por ambos, pai e mãe, mas venho por meio deste refletir sobre a figura materna na vida do filho.

Antes, uma breve análise sobre a mulher na cultura ocidental.

A temos com sua liberdade, com suas escolhas, e seu valor – ainda que enfrente dificuldades históricas nesse caminho, ela está – nós estamos – caminhando e trabalhando. De uma perspectiva teológica, temos a inspiração de Deus ao autor de Provérbios, o que o fez escrever sobre a importância da mulher, apresentando-a como “mais valiosa que rubis” (Provérbios 31:7). Em outro caso, vemos a vontade do Senhor em designar Ester para ajudar a todo um povo, e ainda dar à mulher a capacidade de gerar vida. Nestes ligeiros exemplos, já é notório que, na visão bíblica, a mulher é dotada de importância e de um papel único, diferente do papel masculino. Ressaltando que “diferente” não sugere “menos importante”. Ambos (homem e mulher) se complementam e se fortalecem para formarem uma família, conforme estabelecido pelo Criador.

A figura materna é frequentemente representada nas artes como símbolo de proteção, segurança, carinho, bem como vemos na citação acima de Dumont. O poeta Carlos Drummond de Andrade, na poesia Para Sempre, a apresenta como aquela que não deveria morrer nunca. Para o diretor de cinema Terrence Malick (no filme A Árvore da Vida), uma figura graciosa a condiz. Já em Provérbios 31:28, ela é bendita pelos filhos.

Como filha, pude observar e aprender com uma mulher que evidenciou a todos o amar ser mulher, mãe e esposa, e isso não através apenas de discursos, mas por meio de ações, o que me faz recordar de parte da música Boa Nova (Palavrantiga / Marcos Almeida):

“De tudo quanto eu tenho pra dizer / eu digo muito pouco com as palavras / eu presto atenção em ti”.

Como mulher, sempre me interessei em observar outras mulheres: elas e suas escolhas, acompanhadas de seus corações e seus tesouros, suas palavras e atitudes. Um pensamento frequente que me foi facilmente observável é a tensão entre maternidade e carreira. Dúvidas sobre a possibilidade de ser mãe e de se ter uma carreira profissional também: só ser mãe ou só priorizar a profissão etc. São opções cabíveis e particulares que devem considerar a realidade, vocação e coração de cada mulher.

Através de um observar pessoal, e de conversas com outras mulheres, bem como de leituras, alegrei-me com desejos doces pela maternidade: moças se valendo da criatividade para honrar a dádiva de ensinar uma vida a viver aqui – o presente de dar boas-vindas a quem recém chegou nesse mundo inundado de dias, noites, feriados, piquenique, festa em família, provas escolares, formigas que picam, plantas que curam e tudo o que está enfeitando a superfície da Terra. Há muitas possibilidades e maneiras de se apresentar a vida ao filho e ensiná-lo o que vale a pena.

Na cosmovisão cristã que aguarda a volta de Cristo, vivemos com esperança todos os dias, esperando esse retorno, alimentando-se da Verdade e não entregues ao sono, como quem nada espera e vive sem expectativa. “Habita na terra e alimenta-te da verdade”, escreveu o salmista (Salmo 37:3). Encontrei mães despertas!

Mas, se por um lado há quem festeje o ofício da maternidade, por outro, reparei uma sensibilidade negativa no que tange a ela, principalmente por meio das redes sociais. As redes sociais podem funcionar como espelhos do interior humano, visto que têm sido usadas como forte meio de expressar aquilo que se pensa. Nelas, é frequente lermos ou vermos memes que ironizam ou que, em tom sarcástico, desfiguram a maternidade, maculam sua seriedade e beleza. Mensagens com ideias que podem conduzir a uma concepção de que ser mãe é um peso, ao invés de uma escolha e bênção. Que pensamento destruidor!

Antes de prosseguirmos, é bom elucidar sobre esta questão da escolha, pois boa parte deste texto reside nesta questão. O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, no livro A Presença Ignorada de Deus, trata acerca das decisões, evidenciando que o ser humano é aquele que sempre decide quem ele é. Aqui, chamo a atenção para o desapego da doença do vitimismo, que nada constrói, apenas retroalimenta um vício. Frankl traz o ser como ativo e com liberdade para agir frente as mais diversas e adversas circunstâncias externas, ao invés de o colocar como “vítima” ou “mero joguete do destino”, o que nos deixa cientes de que somos seres que escolhem e respondem por aquilo que escolhem, sendo responsáveis por nós mesmos.

A mudança na concepção de “um peso” para “uma escolha”, põe a pessoa como ativa e protagonista de sua vida e da maternidade, por meio da conscientização de que há uma escolha a ser tomada e respondida, acompanhada de peculiaridades e, também, de consequências. Escolher, abraçar e encarar fará parte da circunstância. Mulheres que, com o coração em Deus, escolhem e trabalham em sua escolha todo dia e, ainda que não conseguindo vislumbrar todos os passos seguintes, esperam de Deus a força, e oram por seus filhos, cientes de que em primeiro lugar eles são Dele.

“Agrada-te do SENHOR, e ele satisfará os desejos do teu coração.” (Salmo 37:4)

Enfatizo o valor, certeza e apropriação da escolha pela maternidade por dois motivos. O primeiro é o fato de ser preciso olhar para frente para realizá-la, com esperança, e o segundo é o impacto direto na vida do filho. Sobre o ponto um, recordemos o filme O Hobbit: Uma jornada inesperada (2012), no qual o personagem Bilbo, ao partir na companhia de Thorin, constantemente lembra-se do aconchego de seu lar quentinho e deseja voltar, mas, à medida com que avança, se fortalece e, conforme um relato no livro Devocional – O Hobbit:

“… mesmo abatido inicialmente sobre a inconveniência das tempestades, Bilbo ficou mais forte com essas experiências. Em pouco tempo, precisava de perigos maiores e privações mais graves para fazê-lo se lamentar.” (Strauss, 2021. p.33)

Bilbo havia mudado muito: de um hobbit implorador de conforto para um hobbit enfrentador de dificuldades e privações em prol de um alvo. O mesmo vemos em tantas histórias bíblicas, que mostram Deus preparando o Seu povo para o que Ele quer de modo a ser visível que, no caminho com Ele, somos transformados em pessoas Dele.

Bem como na canção A Partida e o Norte, Estevão Queiroga canta sobre o fogo que lhe queima, mas lhe aquece, e a caminhada (pra frente) que muda seu eu.

“O fogo me queimou, mas me aqueceu / A luz que me cegou, me fez ver Deus (…) O homem que eu parti de casa se perdeu / E a caminhada fabricou um novo eu”

Quantas vezes precisamos prosseguir sem saber exatamente o que virá, quantas vezes Deus chama seu povo a assim proceder, porém dando a eles a certeza da fidelidade de seu Deus, como foi com Moisés e Abraão. Deus nos chama para confiar, para crermos na misericórdia do Senhor que nunca nos abandonou, e para olharmos para o futuro.

Em Hebreus 11:15, está escrito que, se o povo estivesse pensando naquela terra de onde saíram, teriam a oportunidade de voltar, o que nos faz recordar outra vez o Bilbo, que se soubesse tudo o que viria pelo caminho, talvez não tivesse saído do Bolsão. Mas, uma vez que fez uma escolha e não desistiu, estava comprometido com sua missão. Lúcia Pevensie, personagem do conto As Crônicas de Nárnia e o Príncipe Caspian, de C.S.Lewis, na adaptação cinematográfica da história, uma menina com um coração inseguro, pergunta a Aslam sobre ter tomado uma decisão diferente da que tomou, e o Leão responde:

Jamais saberemos o que teria acontecido.

Hoje, com tantas possibilidades, não pouco somos paralisados pela dúvida de talvez ter feito a escolha errada, e isso ocorre na tensão mãe-carreira. Aslam chama a atenção de Lúcia para o tempo presente, com suas consequências presentes. Fixar o coração no passado, o julgando melhor do que o tempo atual (Eclesiastes 7:10), não é sábio.

O Senhor prepara os Seus para suas vocações. Uma mulher que exerce a maternidade grata e forte com tal escolha por sua confiança em Deus, propagará tais virtudes, e deixará marcas eternas em seus filhos. Recordo de minha mãe contando que sempre desejou ter filhos, e ela se empenhou com inteireza tal que era possível enxergar seu coração todo ali, com nossa família. Ela nunca me pareceu ter algo mais importante a fazer do que se dedicar ao nosso lar. Em todas as dificuldades, eu percebia Deus a fortalecendo e nos ensinando com isso, inclusive nas aflições que a levaram para junto do céu. Trago estas observações para incentivar a dedicação das jovens mães ou aspirantes à maternidade. Vamos nos encorajar nessa nobre vocação e trazer ao mundo a graça do crescimento e da criatividade no viver dos nossos dias.

O ponto central é que filhos observam e absorvem dos pais, ouvem suas palavras e aprendem com seus atos. Desejo hoje ser mãe por causa da mãe que a minha mãe foi. Reside aqui a enorme oportunidade de inspirar um coração a ser mais parecido com Cristo, a desenvolver virtudes, a ser livre do medo rumo à terra que descerá dos céus. São tantas maravilhas concedidas aos pais que eu espero que nós, cristãos, não nos deixemos manchar com ângulos distorcidos a respeito da benção e da responsabilidade de ensinar, da beleza de uma mãe virtuosa e criativa.

São dignas de um lamento tão grande aquelas abordagens cinematográficas que trazem a figura materna como alguém atrapalhada, totalmente focada no trabalho, sem criatividade no bom procedimento da casa, desanimadas ou bem abaixo da “inteligência dos filhos”. Vê-se muito desse perfil no cinema, o que pode retroalimentar esse comportamento. Porém, um exemplo contrário a todos estes, é o de Evelyn Abbott, personagem do filme Um Lugar Silencioso (2018). Evelyn é uma mulher, esposa e mãe forte, corajosa, sábia e instruidora, que juntamente de seu esposo, visa proteger seus filhos dos perigos iminentes. Em uma conversa com seu filho, um tanto relutante com alguns deveres, ela o conduz a visar de tal forma o futuro a ponto de valorizar os ensinamentos do presente, a fim de que aprendesse a ser forte e pudesse cuidar dela. Considerando toda a narrativa tensa do filme, essa fala tem um grande valor, e por isso indico que o assistam e que voltemos a ter esses ensinamentos. O que vemos, nesta cena, é uma mãe já incutindo no filho o dever do caráter protetor, criando um menino para ser um homem; um homem que cuidará de sua futura família. Saliento que observem a família neste filme, a responsabilidade que cada um desempenha, com convicção e união em prol da segurança familiar. Uma mãe comprometida em ser mãe, e um pai em ser pai.

Como filha e desejosa pela maternidade, oro para que não caiamos em ideias corrompidas sobre essa vocação, e que possamos trazer à memória bons exemplos de mulheres virtuosas. Me foi de valor inestimável ter sido criada por uma mulher convicta de sua fé e vocação. Oro também por aquelas que já são mães e estão enevoadas por dificuldades. Que o Senhor traga luz e resgate a visão para a simplicidade salvadora de uma rotina, que para o filho será marcada pela presença e inteireza do coração da mãe. Nada mais que isso.

Que pais criem belos filhos para que nasçam mais e mais boas mães e bons pais. Finalizo com a mensagem da canção Daughter, de John Mayer:

“Então pais, sejam bons com suas filhas / Elas irão amar como vocês amam / Meninas se tornam amantes e depois mães / Então, mães, sejam boas com suas filhas, também”

Deixo aqui uma playlist que criei no Spotify, contendo todas as músicas que menciono nesse texto e, aos poucos, adicionarei as que futuramente trarei para nossas leituras. Espero que seja mais um momento edificante através da música!


Notas

Diffenbaught, Vanessa. A linguagem das flores. São Paulo; Arqueiro, 2015.

Frankl, Viktor. A presença ignorada de Deus. São Leopoldo; Sinodal; Petrópolis; Vozes, 2007.

Strauss, Ed. Devocional: o Hobbit. Londrina, PR; Livrarias Família Cristã, 2021.


Francine Cabanas Tobin é Fotógrafa, artesã e musicista da Igreja Assembleia de Deus Jardim Botânico/POA. Graduada em Fotografia, pela ULBRA, em Canoas – RS. Através da fotografia artística, vem buscando retratar a teologia, usando a fotografia como narrativa, criando séries fotográficas com uma poética visual inspirada na cosmovisão cristã.

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