Há uma questão, relacionada com a queima ou derrubada de estátuas que quase não tem sido pensada: qual o significado disso tudo? Normalmente, há um apontamento da incoerência entre se derrubar uma estátua de um indivíduo que, por exemplo, tenha libertado escravos e a manutenção de outros, que foram verdadeiros carrascos – evidenciando hipocrisia por parte dos que destroem os símbolos do passado. Mas, a questão do significado ainda está escapando diante da hipocrisia ou incoerência.
Outra forma de apontar a falha tem sido mostrando que isso tudo é uma tentativa de apagar o passado histórico; de fato, este argumento parece um bom candidato para a explicação do significado, mas que, admitamos, dificilmente consegue explicar tudo, haja vista termos fortes apelos a certas concepções de ‘justo’ e ‘injusto’ – ao modo deles. A derrubada de uma estátua vem seguida de uma informação: “Este indivíduo era racista”, ou, de outro modo, “Este indivíduo era nacionalista (como sinônimo de ‘nazista’)”. É evidente que o ponto dos revolucionários não é, necessariamente, uma desconexão com o passado, e sim algo mais, já que permitem e mantém outros símbolos. O que nos cabe, por fim, é entendermos o que é “certo” (justo) e “errado” (injusto) de forma geral, para os fins do entendimento do presente texto.
Quando uma determinada pessoa acusa outra de, digamos, “racismo”, ela está dizendo que existe uma lei (quer explícita ou não, quer conhecida ou não) que proíbe um indivíduo de menosprezar outro pela cor – do contrário, não faria sentido a acusação. A própria Bíblia aponta essa ligação quando João diz que o “pecado é a transgressão da Lei” (1 João 3.4). É evidente que toda noção de pecado/crime decorre de uma concepção de um ideal legal, que condena a sua própria transgressão.
Diante disso, é necessário entendermos um movimento revolucionário, que busca o fim de certos símbolos do passado, como uma busca para o estabelecimento de uma ordem legal nova. E como sabemos isso? Porque todo movimento que surge contra algo, surge por ver, naquilo contra o que luta, grande injustiça, erro e pecado. Daí se compreende o motivo histórico de um movimento: só se surge algum movimento contrário ao estabelecimento, caso os indivíduos vejam, naquilo que está estabelecido, injustiça. Não há motivo para se levantar armas ou usar a força contra algum outro poder, se nele não for visto algum aspecto de pecado/crime.
Esse princípio já serve para nos esclarecer um ponto que deve ser óbvio neste momento: movimentos revolucionários nunca deixam de existir, porque sempre haverá quem discorde, por algum conceito de justiça, certo ou errado, em relação ao que prevalece no momento. Por isso, não pode ser surpresa que um movimento se levante e lute contra outro, mesmo que tenha saído do seu próprio meio.
Assim, todo movimento clama por um tipo de justiça que precisa ser satisfeita, o que nos leva à verdade de que pedir por justiça implica um conjunto de injustiças correntes. Essas injustiças são os “pecados sociais”, ou crimes, conforme são entendidos na mentalidade das massas. Por isso, a destruição de qualquer monumento do passado, precisa ser compreendida como a imposição de uma lei ou, de outro modo, como o julgamento de um grupo por um tipo de padrão legal que discorda do padrão daquele símbolo do passado.
Remissão do pecado ou punição pela injustiça
Num mundo “sem Deus”, só existe uma forma de remir o pecado ou punir ele: por meio das mãos dos revolucionários (já que Deus não intervém ou não existe). Visto que há um conceito de justiça, há também um conceito de punição para quem quebra a lei justa. Uma coisa procede naturalmente da outra. Com frequência, porém, a remissão do pecado secular é o ato punitivo contra os que não se “arrependeram”. Exige-se uma verdadeira conversão, ou mudança de mente naqueles que antes não apoiavam o movimento.
E como a remissão ocorre? Há uma necessidade de um insulto àquilo que é considerado injusto. Então, o indivíduo que se “converte”, precisa atacar aquilo que é opressor. Naturalmente, seu ataque é, ao mesmo tempo, sua remissão pelos pecados, e punição aos pecados dos outros.
Como apago, portanto, os pecados dos meus pais? Como apago os pecados dos meus ancestrais? Ora, destruindo aquilo que os homenageia, que os engrandece, que os enobrece. Enobrecê-los é compactuar com seu pecado, com sua injustiça. Daí, a “justiça social” cobrar do passado e do presente a punição pela sua transgressão.
Assim, temos um conceito de justiça, pois há um conceito de pecado e, junto a isso, temos um conceito de remissão/punição, justamente pela quebra da justiça.
Pode não parecer em primeiro momento, mas há um grande apelo a um tipo de santidade. A “santidade secular” é [nada mais nada menos do que] a não aceitação de qualquer traço de racismo, homofobia, xenofobia, machismo entre outros “pecados” sociais. Quem é puro? Aquele que nem em seu coração considera o negro inferior, que não odeia o homossexual, que ama o estrangeiro e luta pela igualdade das mulheres.
A pureza é exigida no seu máximo. Nenhum homem, por maior que tenha sido no passado, pode ter tido escravos, pois isso mancha a sua santidade e torna as suas obras em trapo. O deus social não se satisfaz na obra do homem se ela se encontra com o mínimo resquício dos “pecados” acima nominados. Não existe neutralidade, apenas parcialidade. Ou somos “santos” conforme o deus social o é, ou não temos direito à sua justiça para nos proteger. Sua lei deve ser vista como prazerosa para todos os que a entendem, e deve se pensar nessas coisas de dia e de noite. Falta pouco para se tornar uma Torah secular – mas, ainda deve chegar lá.
Assim, a justiça exige a punição dos transgressores, pois se isso não ocorrer, ela será injusta ou fraca e, portanto, ineficaz.
A História
No momento atual, em que borbulham várias ideias sobre política, religião e justiça, não seria surpresa encontrarmos movimentos que querem sair vitoriosos contra aquilo que consideram opressão. Vimos tentarem incendiar a estátua de Borba Gato e temos visto mundo afora a destruição de vários símbolos nacionais. São símbolos que trazem em si conceitos sobre justiça e santidade, remissão e punição.
Mas, não seria a destruição dessas coisas algo normal? A verdade é que sim, seria; porém, deve-se ressaltar que o fato de ser “normal” não a torna justa – ainda chegaremos lá.
Desde quando Israel estava indo para a Canaã terrena, Deus lhe ordenou a destruição de tudo o que estava lá (Êxodo 23.22-25 – note que o contraste é entre “servir” aos outros deuses [obedecendo às suas leis] e “servir a Deus” [obedecendo a Sua Lei, que é o contexto de Êxodo 23]). Deus mesmo reconhece que há necessidade de que “algo seja destruído” do passado de um povo, como prova de obediência à sua lei. A chegada de Israel na Canaã implicava a chegada da Lei de Deus àquelas terras e, por isso, a destruição daquilo que contradiz Sua Lei-Palavra era natural e esperada.
Porém, não estamos no mesmo contexto físico de Israel, não temos uma terra prometida no sentido geográfico do termo. Nossa relação com estátuas e obras arquitetônicas é, digamos, um pouco diferente – mas, também chegaremos lá. É preciso entender que o conflito do Antigo Testamento era, em geral, sobre qual lei prevaleceria. A Lei dos homens ou a de Deus (Deuteronômio 4.1- 8). Contudo, isso não acaba no Antigo Testamento.
Em alguns momentos, do cristianismo primitivo para a entrada da Idade Média, tais “revoluções” internas já ocorreram. Ora com os defensores do arianismo atacando os cristãos de fato, destruindo seus templos e símbolos, ora com nestorianos e cristãos derrubando estátuas de arianos ou outros partidos religiosos (que a essa altura eram fortemente políticos).
Não só neste momento, mas eventualmente monumentos eram derrubados, com outros sendo levantados em seu lugar. A própria Reforma Protestante desencadeou (mesmo que sem querer) alguns pequenos movimentos que tentaram derrubar alguns símbolos do passado. Guilherme Farel mesmo, liderou um destes momentos, na “Catedral de São Pedro”, em 1535, quando, após um sermão, uma horda de pessoas invadiu o templo e destruiu tudo o que não se enquadrava no modelo correto de culto (às vezes, a justiça era certa, mas aplicada de forma errada). O objetivo era que o culto reformado prevalecesse sobre a idolatria (como deve estar claro, a idolatria é a transgressão de uma lei – em especial do primeiro e segundo mandamentos).
Não se pode negar que punir a injustiça está dentro do interesse humano, e de que não há estranheza na tentativa de derrubada de símbolos do passado. Isso é natural, vindo de uma ordem legal nova ou mesmo de uma ordem justa. Porém, não se preocupe: sempre fica algo de fora do alcance; pela incompreensão e inconsistência ou pela falta de tempo, alguns símbolos são ignorados.
Deve-se entender que, para uma compreensão clara da história, é preciso “aceitar” que todas essas coisas acontecem sempre, quer achemos irracional ou não, justo ou não.
Reconhecendo o mal em nós – derrubando com justiça
O que, portanto, isso nos ensina? Temos da Escritura o frequente apontamento de que as imagens de ídolos têm seu fim por causa da Lei de Deus. Isso é natural. O ponto é que existem imagens que não são de deuses, mas de indivíduos importantes do passado. Daí é necessário entender a relação da história com o pecado de seus atores.
Todo homem peca, pecou ou pecará mesmo naquilo que é o seu interesse principal de atuação. Podemos mesmo pensar no caso do rei Davi e uma estátua sua. Ora, Davi mesmo não foi um adúltero e assassino? Não escondeu o pecado dele por um período até que Natã o repreendesse? Mas, caso vejamos uma estátua dele, num museu ou exposição, teríamos motivo para destruí-la devido aos seus pecados que contrariam frontalmente tanto o Antigo como o Novo Testamento? Davi não resistiria aos cristãos em nenhum lugar, se os cristãos apelassem para a santidade individual do mesmo modo que os movimentos revolucionários clamam pela “santidade” dos que atuaram no passado.
Porém, isso não quer dizer que não é possível derrubar coisas do passado. Como tem sido argumentado, toda ordem legal implica certa destruição do passado, e isso não é diferente para a ordem legal que o Cristianismo estabelece. Mas, visto que o cristianismo não é uma religião revolucionária como o secularismo o é, ele tem, por parte daqueles que se convertem, um abandono natural das figuras que não são coerentes com os próprios axiomas do Cristianismo. Não podemos prever o que se “perderia” do passado, mas sabemos que um cristão não pode, simplesmente, destruir estátuas por onde passa – em especial se não for propriedade dele. As Escrituras traçam uma forte linha divisória entre aquilo que possuo e aquilo que não possuo (por exemplo, no mandamento que proíbe furtar – Êxodo 20.15). Se o furto é proibido, é patente que a destruição do bem alheio também o é – mesmo que ele não represente os ideais cristãos ou não se alinhe, ao menos na base, a eles. Só aqueles que possuem é que têm o direito de abandonar, por assim dizer, os próprios bens. Se uma estátua ou obra não se enquadra na justiça, não é com injustiça que a destruiremos.
Como a sociedade é orgânica, isto é, não é possível prever atos de indivíduos, é natural que parte desses bens do passado ímpio, mesmo sob olhares cristãos, sejam preservados; e tal preservação se dará por vários motivos: pelo interesse estético, pelo estudo, pela curiosidade, pelo lucro que tal obra pode dar como retorno ou, até mesmo, por tudo isso junto. O passado pode servir de vitrine, mas também pode servir de tentação. Somente os indivíduos conseguem avaliar se aquilo que possuem é tão ruim a ponto de merecer ser destruído.
Mas, o que fazer com obras públicas, de cunho estatal e que representam algum tipo de opressão? Ora, o estado mesmo deveria se encarregar disso a partir de sua ordem legal. Se sua ordem legal nova exige a derrubada, mesmo que a protestos de indivíduos, isso não pode ser impedido. Sempre haverá quem queira o fim do símbolo e quem queira que ele permaneça. Só uma ordem legal sadia consegue, neste âmbito, lidar com as contradições de interesses das massas. Os bens “públicos” dependem dos julgamentos privados dos seus mantenedores.
A verdade é que sempre há perda do passado, mas é possível certo equilíbrio entre o mantimento e o seu esquecimento. Nem tudo do passado vale a pena preservar, porém nem tudo que foi destruído precisava sê-lo. O passado pode ser um bom professor, bem como pode ser um apontamento de nossas falhas mais persistentes. O Cristianismo não pode ignorá-lo e também não pode abraçá-lo sempre. Em um dado momento da história, o próprio Deus eliminará todo o passado com todas as obras humanas, porque sua verdade será, definitivamente, estabelecida. A Lei de Deus prevalece no final, porque Cristo prevalece no final.

Wallas Pinheiro cursa licenciatura em Filosofia. É designer e dá aulas de História. Diácono na 2ª Igreja Presbiteriana de Linhares – ES, é casado com Samira Pinheiro.