Quais princípios devo saber para entender o que a Bíblia diz sobre o fim dos tempos? [Introdução à Escatologia]

Quando e como se dará a Segunda Vinda de Cristo? O que a Segunda Vinda de Cristo representa para o povo de Deus e para a humanidade? Haverá um arrebatamento secreto? E o Anticristo? Como devemos entender a Grande Tribulação? Quais as características do Milênio? A nação de Israel será restaurada? Todas estas perguntas (e muitas outras) não serão respondidas neste artigo – porque todas estas perguntas, a maneira como as construímos, bem como suas respostas, dependem do modo como abordamos as profecias bíblicas, a literatura apocalíptica e a interpretação apostólica do que o Antigo Testamento anuncia que acontecerá nos últimos dias. Portanto, para fazermos as perguntas certas e recebermos as respostas bíblicas para elas, devemos seguir alguns princípios que a própria Escritura estabelece.

Aqueles que estudam as profecias bíblicas muitas vezes caem em um de dois extremos, refletindo uma de duas perspectivas: por um lado, há aqueles que veem os textos proféticos como algo que nos fornece informação suficiente através da qual podemos determinar detalhes específicos sobre o que o futuro reserva, como se a Bíblia fosse algo parecido com uma bola de cristal. Segundo esta visão, parece que realmente encontramos na Bíblia muitas explicações que revelam até o menor dos detalhes sobre o futuro. Por outro lado, há aqueles que leem a profecia como se ela fosse o trabalho de um pintor que apenas quer revestir uma parede com tinta nova, mas sem se ater aos detalhes – seu projeto é cobrir o maior espaço de parede possível com pinceladas largas – o trabalho desse “pintor” é apenas estabelecer os princípios gerais, pinceladas largas que revelam como este mundo será conduzido à sua consumação em Cristo, mas sem muitos detalhes. Embora exista uma certa legitimidade em ambas as abordagens, nenhuma das duas é inteiramente adequada.

Considerando que a tendência é exigirmos uma precisão fotográfica quase que objetiva de passagens que são em grande parte simbólicas, podemos facilmente avançar para um subjetivismo escorregadio que trata a Bíblia como uma obra de arte impressionista. Certamente não pretendemos fornecer um remédio abrangente para este problema, como se num pequeno artigo fosse possível articularmos todos os princípios que nos ajudam a interpretar a Palavra de Deus. O que pretendemos, no entanto, com este artigo, é estabelecer cinco pressupostos hermenêuticos básicos que nos ajudarão nesta tarefa de entender as profecias que dizem respeito ao futuro (e ao presente) do povo de Deus – o que nos levará a perguntar corretamente e a encontrar respostas inteiramente bíblicas para nossas perguntas.

1. O cumprimento das profecias feitas a Israel no Antigo Testamento acontece na pessoa e obra de Jesus Cristo, e na Igreja

A tese central, o primeiro princípio, que controla todo o restante, e que emerge inteiramente do texto bíblico, sendo justificada por ele, é que o cumprimento da esperança profética de Israel retratada nos documentos do Antigo Testamento é encontrado na pessoa e obra de Jesus Cristo, e na Igreja, seu “Corpo crente”, à qual Ele estabeleceu em Sua primeira vinda. O ponto aqui é que Jesus Cristo e sua Igreja são o ponto focal e terminante de todas as profecias. O foco do Antigo Testamento, então, não está em Israel, antes, está no Messias. Isto pode soar um tanto complicado de início – é uma primeira impressão bastante chocante. Mas, é a verdade transbordante nos textos neotestamentários.

É claro que a maioria dos cristãos concorda prontamente que Jesus é o centro ou ponto focal de toda a revelação bíblica, que o Antigo Testamento foi um prefácio de Sua pessoa e obra, e que é o propósito do Pai “tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:10). Todavia, devemos ter em mente algo muito mais específico quando falamos do cumprimento das profecias, algo muito mais abrangente em termos de como o Antigo Testamento encontra a sua consumação e cumprimento na pessoa de Cristo e em Seu corpo, a Igreja.

Síntese 1: no Novo Testamento, aprendemos que a maioria das profecias escatológicas que aparentemente dizem respeito tão somente ao Israel étnico (segundo a carne), se cumprem definitivamente em Cristo e em Sua Igreja.

2. Enquanto o Antigo Testamento via a consumação dos propósitos redentores de Deus como devendo acontecer em um derradeiro e único ato, os autores do Novo Testamento retratam esta consumação como acontecendo em duas fases

O princípio anterior não deve nos levar a negligenciar a verdade igualmente legítima de que, enquanto o Antigo Testamento olhava para a consumação dos propósitos redentores de Deus como devendo acontecer em um derradeiro e único ato, os autores do Novo Testamento retratam esta consumação como acontecendo em duas fases – e entre elas. Isto é frequentemente visto no Novo Testamento e é conhecido teologicamente como uma “sobreposição” das eras. Nesse sentido, a consumação do propósito redentor de Deus já começou em Cristo, mas ainda permanecemos numa era maligna. Alguns se referiram a isso como a “inauguração do fim”. Em Cristo, Deus agiu para “cumprir” Sua promessa profética, mas a “consumação” só virá quando Cristo vier pela segunda vez. Assim, enquanto os profetas e o povo de Deus do Antigo Testamento aguardavam por um cumprimento único das profecias, o Novo Testamento contempla um cumprimento progressivo das promessas de Deus, ou seja, a história humana reflete uma tensão entre o que se realizou no primeiro advento de Cristo e a consumação que se espera para o segundo advento, a chamada Segunda Vinda. Desta forma, vivemos na “presente era má”, mas já participamos, em parte, das glórias da “era vindoura“, isto é, há uma tensão entre o que “já” foi cumprido (ou, pelo menos, que já foi parcialmente inaugurado) e o que “ainda não” foi consumado. Exemplos disso abundam, mas aqui estão apenas alguns:

  • A salvação é agora, mas também está no futuro (Efésios 2:8; Romanos 5:10)
  • A justificação é agora, mas também no futuro (Romanos 5:1; Romanos 2:13)
  • Fomos adotados na família de Deus como Seus filhos, mas nossa adoção também está por vir (1 João 3:1; Romanos 8:23)
  • De certa forma, já fomos ressuscitados com Cristo, mas a ressurreição também é futura (Efésios 2; Romanos 6; Filipenses 3; 1 Coríntios 15)
  • Já fomos glorificados, mas ainda seremos glorificados (Romanos 8:30; Filipenses 3; 1 João 3)
  • Já fomos redimidos, mas a redenção ainda é futura (Efésios 1:4; Romanos 8:23; 13:11).
  • Os crentes regenerados já são e desfrutam de uma “nova criação” (2 Coríntios 5:17), enquanto, por outro lado, ainda aguardamos os novos céus e nova terra no retorno de Jesus.

Assim, quando lemos o Antigo Testamento, devemos levar em conta que os autores inspirados por Deus colocavam os eventos proféticos em estreita proximidade, como se eles fossem acontecer simultaneamente ou em uma rápida sucessão. O fato, no entanto, é que, como o Novo Testamento e a história provaram, os eventos que cumprem as profecias são frequentemente separados por intervalos significativos de tempo. Isto tem sido muitas vezes chamado de “prefácio profético”.

Segundo Donald Garlington, a ilustração clássica é a do advento do Messias. Os profetas do Antigo Testamento, olhando para o futuro, enxergaram apenas uma vinda, sem uma distinção entre duas fases dessa vinda. Por outro lado, o que é declarado, imaginado e esperado por eles como devendo acontecer de uma vez por todas nos “últimos dias”, é realizado ao longo de uma extensão de tempo que já perdura por praticamente dois milênios – isto é, entre a Primeira e a Segunda vindas do Messias. Portanto, à luz do Novo Testamento, podemos discernir que a vinda do Messias, bem como muitas das principais profecias registradas no Antigo Testamento, se espalham entre duas etapas de cumprimento, as quais correspondem à inauguração e à consumação dos propósitos escatológicos de Deus, respectivamente.

Síntese 2: a ideia de que as profecias bíblicas concernentes aos últimos tempos se cumprirão apenas em um momento final, no futuro, deve ser substituída pelo conceito bíblico de que os “últimos dias” iniciaram com a Primeira Vinda de Cristo, bem como o cumprimento das profecias bíblicas que dizem respeito a esta era do fim dos tempos.

3. O Novo Testamento é o padrão de interpretação das expectativas escatológicas do Antigo Testamento

Não raro, vemos notícias na mídia cristã [e não cristã] ventilando a declaração ou o comentário de algum rabino judeu sobre os eventos que nos aproximam do fim dos tempos – situação geralmente causada por algum evento militar no Oriente Médio ou por alguma catástrofe natural em algum lugar do planeta. É comum levarmos em conta tais declarações como tendo suma importância para a fé cristã, de maneira que anexamos tais falas como se fossem verdadeiramente algo relevante para nossa escatologia. No entanto, devemos ressaltar que, à luz do Novo Testamento, o judeu não cristão nada tem a nos dizer sobre a escatologia cristã ou pouco pode acrescentar às nossas esperanças escatológicas visto que este judeu vive uma vida à espera de um Messias que ainda não veio – isto é, para ele, Cristo não é e jamais foi o Messias prometido, o Filho de Deus enviado pelo próprio Deus em favor do Seu povo.

Apesar de que a escatologia e a esperança cristã herdaram muito dos escritos judaicos inspirados, edificando a partir deles, como num continuum, os cristãos, aprendendo do Novo Testamento e seus autores também inspirados, precisam e devem olhar e interpretar as profecias para os “últimos dias” à luz do fato de que Cristo já veio. Para os escritores neotestamentários, o fim dos tempos [e os eventos relacionados a ele] esperado pelos judeus como algo que deve acontecer em um único e derradeiro ato [o qual, para eles, ainda não aconteceu, pois não aceitam a Cristo como o Messias], já teve início e caminha para a sua consumação.

O Novo Testamento é, portanto, o padrão de interpretação, a regra a partir da qual devemos abordar a expectativa escatológica do Antigo Testamento – se olharmos para as Escrituras com os “óculos judeus” estaremos negando que o Messias já veio e que isso mudou tudo. Um conhecido me disse certa vez que não devemos seguir os passos dos apóstolos na interpretação da profecia do Antigo Testamento, pois os apóstolos eram/foram inspirados por Deus e nós não somos. Logo, não teríamos autoridade ou autonomia para seguirmos suas diretrizes de interpretação. Devemos, portanto, seguir nossos padrões e convenções de interpretação das Escrituras, ferramentas puramente humanas – aquilo que [julgamos] dá mais honra e glorifica a Deus. No entanto, creio que a perspectiva inversa seja a mais correta. Se os apóstolos foram inspirados por Deus para interpretar a profecia e registrar tais interpretações, eles são o padrão, eles são a autoridade, eles ditam as regras segundo aquilo que receberam de Deus. Nós apenas devemos segui-los, nos submetendo às suas diretrizes inspiradas.

Quando levarmos à sério este princípio, veremos que o Antigo Testamento antecipa realidades que são desembaladas e explicadas pelos escritos apostólicos do ponto de vista da realização histórica da salvação em Cristo. O Messias já veio, e com Ele e nELe, o cumprimento de muita coisa. Em suma, Jesus é Ele mesmo o intérprete inspirado do Antigo Testamento. Sua identidade, vida e missão fornecem a estrutura dentro da qual devemos ler e nos aproximar do Antigo Testamento (Lucas 24:25-27; 1 Pedro 1:10-12).

Vejamos isto mais de perto com a ajuda do autor G. K. Beale. Certos textos do Antigo Testamento, diz-nos ele, têm um conteúdo “grosso”, cujo significado pleno pode ter sido desconhecido para os autores originais e que é discernível apenas na sequência da vinda de Cristo e do nosso acesso às Escrituras na sua forma canônica final. Em outras palavras, os textos bíblicos podem “crescer em significado”. Beale está dizendo que, ao profetizarem, os profetas do Antigo Testamento poderiam não estar cientes de como se daria o cumprimento daquilo sobre o que estavam profetizando, coisa que apenas aqueles que viveram e viram o relacionamento de Deus com Seu povo ser afetado drasticamente pela vinda do Messias em carne poderiam discernir.

Para Beale, os autores certamente estavam cientes de que o significado original de suas profecias tinha o potencial de ser recontextualizado por intérpretes subsequentes que aplicariam e interpretariam suas palavras a partir da progressão da revelação de Deus ao Seu povo. Beale argumenta que isso pode ser o que aconteceu quando os autores do Novo Testamento citaram ou aludiram a passagens proféticas do Antigo Testamento. O que se entende é que a intenção original de um determinado autor do Antigo Testamento pode não ser tão abrangente como as intenções divinas simultâneas, que fazem com que a primeira se torne progressivamente desfeita à medida que a história da revelação progride até atingir o seu clímax em Cristo. A partir de seu contexto original, os autores do Antigo Testamento talvez não compreendessem plenamente como as suas palavras [que foram inspiradas por Deus] encontrariam cumprimento numa história radicalmente transformada pela vinda de Cristo – é basicamente o que acontece com o judeu de hoje, que lê a Escritura a partir da ideia de que o Messias ainda não veio. Assim, “o quadro literal da profecia do Antigo Testamento é ampliado pela lente da revelação progressiva do Novo Testamento, que amplia os detalhes do cumprimento no início do novo mundo, que será completado no último advento de Cristo”.

Síntese 3: os escritores bíblicos interpretam os escritos canônicos anteriores de maneira que estes textos anteriores são amplificados. Tendo em vista a progressão da revelação, entendemos que, na medida em que a história da redenção se desenvolve, Deus revela e faz acontecer Seu plano todo abrangente, de maneira que, o escritor bíblico posterior sempre interpreta os escritos anteriores de acordo com fatos e informações novos. Estas interpretações posteriores podem formular significados dos quais os autores anteriores provavelmente não estavam exaustivamente conscientes (da forma como Deus estava). À luz dessa realidade bíblica, o Novo Testamento, deve ser, para nós, o padrão de interpretação das profecias do Antigo Testamento.

4. Sempre que os autores bíblicos procuravam descrever o futuro, que não tinham experimentado, empregavam linguagem e imagens do presente, que tinham experimentado

Chegamos agora a um princípio de interpretação, sem o qual a leitura correta de textos proféticos pode ser impossível. Brent Sandy salienta, com razão, na minha opinião, que “as nossas ideias sobre coisas que nunca experimentamos são largamente controladas por coisas que experimentamos”. Em outras palavras, sempre que os autores bíblicos procuravam descrever o futuro, que não tinham experimentado, muitas vezes empregavam linguagem e imagens do presente, que tinham experimentado. Ou, como Richard Bauckham disse, “a profecia só pode representar o futuro em termos que fazem sentido para o seu presente. Ela reveste o propósito de Deus nas esperanças e nos medos dos seus contemporâneos”. É o velho problema de como descrever conceitos escatológicos e celestiais na linguagem humana.

O argumento de Sandy é que “sob o empoderamento divino, os profetas criaram metáforas e similares de seu mundo para nos deixar experimentar como é o mundo de Deus e do céu – o melhor que puderam”. Este princípio é especialmente útil para nos habilitar a compreendermos a distinção muitas vezes feita entre o que é literal e o que é figurado. Tome, por exemplo, a passagem da qual derivou o título do livro de Sandy: “E estes converterão as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerrear” (Isaías 2:4; Miquéias 4:3; Joel 3:10). Quão literal deve ser o cumprimento deste pronunciamento profético? Será que os profetas, ao profetizarem, pretendiam sugerir que as pessoas, no fim dos tempos, transformarão literalmente ou fisicamente suas espadas de verdade em enxadões ou suas lanças reais em foices? Ou tais profecias significam que aqueles que possuem quaisquer instrumentos de guerra os transformarão, por todos os meios possíveis, em instrumentos de agricultura? Ou, pode ser que o ponto da imagem é simplesmente que Deus vai restaurar a ordem na terra no sentido de que a paz política entre todas as nações e a completa ausência de conflito militar virá a acontecer em dado momento. Como Sandy salienta, “somente quando chegamos ao ponto de negar que algo acontecerá como resultado dessas palavras é que nos afastamos completamente do significado literal”. O seu ponto, e isto é de importância crítica, é que se pode interpretar os profetas como falando “literalmente” se, com isso, queremos dizer que o que eles pretendiam era comunicar que algo realmente e historicamente iria acontecer – agora, se há ou não uma equivalência “física” entre as palavras de predição e o evento de cumprimento é de importância secundária.

Síntese 4: o cumprimento de uma profecia não necessita ser fisicamente equivalente à profecia, antes, esta tão somente precisa se cumprir de alguma maneira. A questão é que sempre que os autores bíblicos procuravam descrever o futuro, que não tinham experimentado, empregavam linguagem e imagens do presente, que tinham experimentado, mas quando o futuro chega e a profecia se cumpre, este cumprimento não necessariamente traz os exatos elementos físicos citados na profecia.

5. Tipologia bíblica: a correspondência divinamente orquestrada entre muitas pessoas, eventos, séries de circunstâncias ou instituições no Velho Testamento, em um ou vários aspectos, e uma pessoa, evento, série de circunstâncias ou instituição no Novo Testamento

O nosso princípio final consiste naquilo que se conhece como tipologia bíblica. Na tipologia, o estudante da Sagrada Escritura encontra uma correspondência divinamente orquestrada, em um ou vários aspectos, entre uma pessoa, evento, série de circunstâncias ou instituição no Velho Testamento (o que chamamos de tipo) e uma pessoa, evento, série de circunstâncias ou instituição no Novo Testamento (o que chamamos de antítipo). Na maioria dos casos, o tipo encontrado no Antigo Testamento encontra uma realização mais profunda ou expressão perfeita em algum aspecto da vida de Jesus, de Sua obra redentora, dos seus juízos, ou em seu futuro regresso e reino. Ou seja, Jesus é o antítipo de muitos tipos encontrados no Antigo Testamento. A correspondência é baseada na premissa de que Deus controla a história. Há, por isso, um modelo providencial no tipo que se repete no antítipo.

Contemplamos a tipologia quando as características de um indivíduo, de uma experiência ou da relação entre Deus e a humanidade no Antigo Testamento, reaparecem, depois, no Novo Testamento com a finalidade de cumprimento, porém, em um sentido inicial não muito evidente. A questão é que Deus é aquele que molda e forma os detalhes específicos da história para que ocorram originalmente como tipos e para que sejam reconhecidos depois pelos autores do Novo Testamento como tal.

Através da tipologia, aprendemos que há uma unidade orgânica entre os dois testamentos no sentido de que o Antigo é um presságio preparatório do qual o Novo é a sua continuação e consumação.

A maior parte dos eruditos reconhecem várias características importantes na tipologia. Por exemplo, olhemos para João 3:14-15 e o incidente da serpente de bronze. Os pontos de correspondência são “levantou” e “vida”. Tanto a serpente como Cristo “levantaram-se”, mas o último em um caminho muito mais significante e espiritual do que o antigo. Se, de um lado, aqueles que “olharam” para a serpente receberam “a vida” no sentido físico, isto é, não morreram por causa da picada de uma serpente, de outro lado, aqueles que “olham” para Cristo (isto é, creem nEle) recebem “a vida” no sentido espiritual, a vida eterna.

A tipologia revela como Jesus corresponde ao Antigo Testamento. Em resposta a acusações de ser revolucionário e da colocação de si mesmo contra o Antigo Testamento, Jesus reivindicou uma continuidade entre o trabalho de Deus no Antigo Testamento e o seu próprio ministério. Se, no Antigo Testamento, Deus trabalhou por meio de profetas, sacerdotes e reis, então Jesus pode apontar para todos os três como tipos de si mesmo, por exemplo. Mas, a tipologia revela não apenas como Jesus corresponde ao Antigo Testamento, mas como Um é superior ao outro. Três vezes Jesus afirma esta superioridade do antítipo em relação ao tipo: “Eu vos digo que está aqui quem é maior que o templo” (Mateus 12:6); “E eis que está aqui quem é maior do que Jonas” (Mateus 12:41); “E eis que está aqui quem é maior do que Salomão” (Mateus 12:42). E desde que Jesus é superior aos tipos do Antigo Testamento, a recusa judaica em aceitá-lo como o mensageiro de Deus deve automaticamente significar uma maior condenação. A sua punição manifestada na destruição de Jerusalém no ano 70, a rejeição final da nação israelita e a destituição de sua posição privilegiada como o povo de Deus estão em uma escala muito mais alta até do que os desastres mais terríveis conhecidos no Antigo Testamento.

Enfim, em Jesus, a era do cumprimento veio. Os tipos encontrados no Antigo Testamento não apenas se repetem em um nível mais alto, mas encontram agora a sua incorporação final e perfeita. Todo o trabalho de Deus no Antigo Testamento recebe agora a sua culminação. A nova era, a messiânica, amanheceu. E, assim, também o Israel desta era escatológica já não é a nação da Antiga Aliança, mas a comunidade cristã, o Israel verdadeiro, empossada por uma Nova Aliança, e por um Mediador maior do que o sacerdócio israelita, uma vez que Jesus não apenas repete o trabalho de profeta, sacerdote e rei, mas aperfeiçoa estes ofícios em Si mesmo. Nesta nova comunidade, as esperanças do Antigo Testamento para Israel finalmente se cumprem.

Perceba que o próprio Jesus viu a sua missão como o cumprimento das Escrituras do Antigo Testamento. São elas que de mim testificam. Por isso, àqueles homens no caminho de Emaús, Jesus, “começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24:27).

Síntese 5: sabendo que sempre que os autores bíblicos procuravam descrever o futuro, que não tinham experimentado, empregavam linguagem e imagens do presente, que tinham experimentado, bem como da existência dessa realidade que conhecemos como tipologia bíblica, não devemos esperar que o cumprimento das profecias seja fisicamente idêntico ao conteúdo da profecia em si. Antes, da mesma forma com que as profecias devem ser interpretadas levando em conta o tipo de linguagem utilizado pelo autor/profeta, e o cumprimento atribuído a elas pelos escritores do Novo Testamento, os tipos do Antigo Testamento devem ser interpretados de acordo com seus correspondentes neotestamentários (antítipos), os quais serão determinados pelos escritores inspirados do Novo Testamento, à luz da Primeira Vinda de Cristo.

Conclusão

O que esses princípios nos levam a concluir, quando aplicados aos muitos textos que examinaremos em breve, é que Jesus Cristo não é simplesmente análogo à nação de Israel do Antigo Testamento, nem simplesmente paralelo à ela em termos de sua experiência, e muito menos é Ele apenas mais um israelita numa longa linhagem de descendentes individuais de Abraão, Isaque e Jacó. Jesus é Israel no sentido de que os propósitos, promessas e predições de Deus para a nação se cumprem em sua vida, morte, ressurreição, exaltação, ascenção e Segunda Vinda. Estes princípios apontam para o fato de que o cumprimento e consumação do destino da nação israelita na pessoa de Cristo estendem-se necessariamente ao seu Corpo espiritual, a Igreja. Visto que a Igreja é o Corpo de Cristo, do qual Ele mesmo é o Cabeça, o que Deus pretendia para Ele, Deus também pretendia para Ela. O que é verdade sobre Ele, é verdade sobre Ela. Tanto Jesus como o Seu corpo, a Igreja, constituem o verdadeiro Israel no qual e para quem todas as promessas do Antigo Testamento encontram o seu cumprimento. “Todo o Antigo Testamento está reunido nEle”, observa France. “Ele mesmo encarna em sua própria pessoa o status e o destino de Israel, e na comunidade daqueles que lhe pertencem esse status e o destino devem ser cumpridos, não mais na nação como tal”.


NOTAS

Todo este artigo foi escrito a partir da tradução (livre e não autorizada) e paráfrase de partes do Capítulo 1, “The Hermeneutics of Eschatology: Five Foundational Principles for the Interpretation of Prophecy”, do livro Kingdom Come: The Amillenial Alternative (Scotland, U.K.: Christian Focus Publications, 2013), do autor Sam Storms.

Algumas obras citadas por Sam Storms também foram utilizadas neste artigo (tradução livre):

G.K. Beale, The Temple and the Church’s Mission: A Biblical Theology of the Dwelling Place of God (Downers Grove: InterVarsity Press, 2004), 377, publicada no Brasil sob o título O Templo e a Missão da Igreja: Uma teologia bíblica sobre o lugar da habitação de Deus (São Paulo: Vida Nova, 2021), tradução de Lucília Marques.

D. Brent Sandy, Plowshares & Pruning Hooks: Rethinking the Language of Biblical Prophecy and Apocalyptic (Downers Grove: IVP, 2002), 98.

Donald Garlington, “Reigning with Christ: Revelation 20:1-6 and the Question of the Millennium,” em Reformation and Revival Journal, vol. 6, no. 2, 1997, 60-61.

R.T. France, Jesus and the Old Testament: His Application of Old Testament Passages to Himself and His Mission (London: The Tyndale Press, 1971), 41.


Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é estudante autodidata de teologia, e autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como músico, cantor e compositor. Casado com Talita Motta.

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