A Bíblia deve ser toda lida literalmente? [A Bíblia e os gêneros literários]

Existem muitas pessoas que desejam crescer no conhecimento de Deus e, com isso, avançar na caminhada cristã, mas não sabem como ler e entender a Bíblia, ao mesmo tempo em que admitem e creem em sua autoridade como Palavra de Deus.

Uma pergunta importantíssima, nessa altura é: a Bíblia deve ser toda lida literalmente?

A leitura bíblica predominante no meio cristão se utiliza de uma abordagem inteiramente literalista dos textos bíblicos, o que faz com que seus adeptos – que são leitores da Bíblia – arroguem para si a suprema ortodoxia na interpretação, presumindo que, por praticarem uma leitura literal do texto, estão, ao mesmo tempo, honrando mais ao Senhor do que aqueles que leem o texto utilizando-se de outros métodos. Todavia, ler literalmente o texto bíblico sem avaliar se tal tipo de leitura faz jus ao gênero inspirado, faz com que estes irmãos sejam nada mais que literalistas.

O problema é que o uso deste método leva a uma interpretação equivocada de muitas passagens bíblicas, as quais possuem claros e evidentes simbolismos e um sentido não-literal, como acontece, por exemplo, com Apocalipse 20.

Gêneros literários

A questão é que cada parte da Bíblia possui um gênero literário predominante. Isso quer dizer que, embora o gênero predominante na Bíblia toda seja a narrativa, que é um gênero que deve ser lido literalmente, este não é o único gênero que pode ser encontrado nela. Em suas partes, ela contém hinos, códigos legais, parábolas, profecias, literatura de sabedoria, literatura apocalíptica, entre outros. O que aprendemos com isso é que o gênero de cada bloco de texto determina o método de interpretação.

Essa ideia de que se deve relacionar cada gênero a um método peculiar de interpretação não é estranha ao pensamento bíblico. Pelo contrário, os próprios autores bíblicos revelam ter consciência da diversidade de gêneros contidos na Escritura, assinalando que essa diversidade é resultado de modos variados de inspiração: “No passado, por meio dos profetas, Deus falou aos pais muitas vezes e de muitas maneiras” (Hebreus 1.1). Esse autor, por exemplo, tem consciência da existência, na Escritura, de modos diferentes de inspiração.

Em Números 12, há o fato de que Deus falava a Moisés “claramente, e não por enigmas”. Em contraste com os sonhos e visões dos profetas, que precisavam de interpretação, a mensagem de Moisés era comunicada a ele de forma clara e direta, como é o caso da Lei. Em que essa passagem nos instrui quanto à leitura e interpretação bíblica? Os diferentes tipos de inspiração levavam a diferentes modos de interpretação daquilo que Deus falou. De maneira implícita, essa passagem instrui os leitores a adotarem métodos e abordagens diferentes na hora de interpretar aquilo que Deus falou.

A Bíblia não deve ser interpretada toda da mesma maneira

A revelação dirigida a Moisés era clara e direta. Os materiais proféticos, por sua vez, exigem reflexão mais cuidadosa, pois estão em forma de enigmas e alegorias, tendo uma natureza simbólica, semelhante ao que acontece com os sonhos. Essa natureza simbólica torna-se ainda mais vigorosa na literatura apocalíptica, como é o caso de Daniel e Apocalipse.

Em suma, nossa teologia baseia-se no alicerce seguro da Bíblia — revelação divina inspirada pelo Espírito e expressa em linguagem humana. Chega-se ao entendimento dessa revelação mediante o discernimento espiritual e o uso apropriado de estratégias de leitura para cada um de seus gêneros. Se os autores da Bíblia tiveram diferentes modos de inspiração, dessa maneira, também devemos adotar diferentes estratégias de interpretação, conforme o gênero inspirado por Deus.

O método de interpretação não deve ser necessariamente literalista, isto é, não devemos ler o texto sempre literalmente, mas somente quando a literalidade faz parte do gênero daquela passagem que estamos lendo.


Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é estudante autodidata de teologia, e autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como músico, cantor e compositor. Casado com Talita Motta.

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