Devo interpretar a Bíblia ou apenas lê-la?

Você não precisa interpretar a Bíblia. Apenas leia e faça o que ela diz.”

É muito comum encontrarmos pessoas que defendem essa ideia com bastante convicção. Em geral, essa ideia reflete o protesto do leigo contra o teólogo, contra o estudioso, contra o pastor, o catedrático ou o professor de escola bíblica dominical que, a partir do recurso da “interpretação”, parecem privar a pessoa comum de entender a Bíblia.

Uma sensação de que eles só querem dificultar as coisas paira no ar.

Esse protesto também é uma forma de defender a ideia de que a Bíblia não é um livro de difícil compreensão. “Afinal de contas”, argumentam os leigos, “qualquer pessoa com metade de sua capacidade intelectual pode lê-la e entendê-la”. Segundo esses irmãos, o problema com um grande número de pregadores e teólogos é que eles cavam tanto a “terra da interpretação” que acabam por “sujar as águas do entendimento”.

“O que tínhamos lido e era claro para nós, agora já não está mais tão claro”.

Concordamos que os cristãos devem, principalmente, aprender a ler a Bíblia, crer nela e obedecê-la. Em especial, concordamos com o argumento de que a Bíblia não precisa ser um livro de difícil compreensão – mas defendemos que isso só acontece quando ela é corretamente lida e estudada.

Na realidade, estamos convictos de que o problema específico mais sério que as pessoas têm com a Bíblia não é uma busca desenfreada pelo melhor entendimento dela, mas sim a falta de entendimento do que ela diz e ensina. Há, obviamente, alguns exagerados, desenfreados por descobrir o que está oculto, mas eles são minoria, ou seja, o problema ainda não é a abundância de conhecimento bíblico, mas a escassez deste.

Por quais razões devemos interpretar o texto ao invés de apenas lê-lo?

Por que interpretar, então? Por que não ler, simplesmente? O significado claro não provém de uma simples leitura? Em certo sentido, sim. Contudo, em um sentido mais preciso, semelhante argumento é tanto ingênuo quanto irreal por causa de dois fatores: a natureza do leitor e a natureza da Escritura.

A primeira razão por que precisamos aprender como interpretar a Bíblia é que todo leitor — quer queira, quer não — é ao mesmo tempo um intérprete; ou seja, a maioria de nós assume que, quando lemos, também entendemos o que lemos. Nós sempre interpretamos o que lemos. A tese principal deste artigo não é tanto “interpretar ou não interpretar?”, como leva a crer o título, mas, sim, “interpretar corretamente ou equivocadamente?”. Devemos interpretar o texto para descobrir o que ele realmente significa ou devemos continuar interpretando o texto de maneira a fazê-lo falar aquilo que desejamos que ele fale?

No caso da Bíblia, temos também a tendência de pensar que nosso entendimento é a mesma coisa que a intenção do Espírito Santo ou do autor humano. Apesar disso, do mesmo modo, levamos para o texto tudo quanto somos, com todas as nossas experiências, cultura e entendimento prévio de palavras e ideias. E é aqui que mora o problema, pois, às vezes, aquilo que levamos para o texto nos desencaminha ou nos leva a atribuir ao texto ideias que lhe são estranhas, mesmo quando isso não é a nossa intenção.

Uma razão mais significativa para a necessidade de interpretação acha-se na natureza da própria Escritura. Historicamente, a igreja tem compreendido a natureza da Escritura de maneira muito semelhante à sua compreensão da pessoa de Cristo — a Bíblia é, ao mesmo tempo, humana e divina. “A Bíblia”, como tem sido dito de forma correta, “é a Palavra de Deus apresentada em palavras humanas na história”. E essa dupla natureza da Bíblia que exige da nossa parte a tarefa da interpretação. Humanamente falando, ela é um livro histórico, que registra fatos históricos, e que foi escrito para pessoas específicas, em contextos específicos. Divinamente falando, no entanto, a Bíblia é revelação de Deus, divinamente inspirada, a Verdade absoluta, com aplicações universais.

O significado claro do texto

É claro que há obstáculos na tarefa da interpretação bíblica. Para alguns irmãos, a questão, sim, já não é compreender, mas obedecer, colocar em prática – eles compreendem, mas não praticam. Também concordamos que há uma inclinação demasiada de muitos destes em primeiro escavar, e só depois olhar para o texto, o que acaba por encobrir o significado claro, que frequentemente está na superfície.

No entanto, diferente desses casos, a realidade é que a grande maioria dos cristãos ainda precisa aprender a interpretar corretamente a Palavra de Deus. É claro o ensinamento bíblico de que o verdadeiro crente vive em busca de entender mais e mais à Bíblia, porque é através dela que o Senhor lhe fala e lhe conduz. A necessidade de interpretar, de se chegar ao significado claro do texto, traduz, portanto, um só desejo: glorificar a Deus. Ou seja, o ingrediente mais importante para cumprir essa tarefa, e que nunca podemos deixar de lado, é a interpretação. Se nos negamos a empreender uma jornada interpretativa da Bíblia, corremos o sério risco de nos afastarmos drasticamente do que Deus falou de fato. E é por isso que o teste final de uma boa interpretação está em saber se esta expõe o correto sentido do texto. A interpretação correta tanto produzirá edificação e convicção na mente, quanto gerará emoções sólidas e sentimentos saudáveis no coração.

Um texto não pode significar o que nunca significou. Ou, pensando em tal fato de um lado positivo, o significado verdadeiro do texto bíblico para nós é o que Deus originalmente pretendeu que significasse quando o texto foi falado/escrito pela primeira vez. Infelizmente, nem sempre esse entendimento é tão comum assim. Queremos saber o que a Bíblia significa para nós — e isso é certo. No entanto, não podemos fazê-la significar o que nos agrada, e depois dar os “créditos” ao Espírito Santo. Ou o significado é o que Ele quis dizer, ou estamos nos iludindo, enganando a nós mesmos e, talvez, a outros cristãos.

O Espírito Santo não pode contradizer a si mesmo; afinal, foi ele que inspirou a intenção original. Assim, a ajuda do Espírito é nos conduzir à descoberta da intenção original, e nos orientar nos momentos em que procuramos fielmente aplicar o significado à nossa própria realidade. Ele não dá novas revelações sobre o texto, antes, ilumina o texto para que possamos compreender o seu significado correto e suas aplicações diversas. De outra forma, os textos bíblicos podem ser forçados a significar tudo quanto significam para qualquer leitor determinado. Tal interpretação, no entanto, torna-se pura subjetividade, e quem, pois, vai dizer que a interpretação de uma pessoa é certa, e a de outra pessoa, errada? Nesse ponto, qualquer coisa serve.

Que método usar para interpretar?

De fato, o mesmo Espírito que inspirou a escrita da Bíblia pode igualmente inspirar nossa leitura dela. Em certo sentido, isso é verdade, e não pretendemos com este artigo tirar de pessoa alguma a alegria da leitura devocional da Bíblia e o senso de comunicação direta envolvido em tal leitura. Mas a leitura devocional não é o único tipo de leitura que se deve praticar. Devemos também ler para aprender e compreender. Em suma, você deve também aprender a estudar a Bíblia, estudo este que, por sua vez, deve ser sua base na leitura devocional.

Sendo assim, o método que deve ser utilizado para se interpretar a Bíblia, a fim de que se entenda o que está sendo lido, precisa procurar entender o que os autores originais — seja Moisés ou o apóstolo Paulo — queriam dizer. Isso se alcança ao estudarmos o contexto gramatical e histórico da passagem. E “contexto, contexto, contexto” é a regra de ouro para a interpretação do texto.

Em primeiro lugar, devemos evitar a leitura do texto a partir de nossas próprias experiências e ideias, mas antes devemos procurar determinar o significado pretendido pelos autores — o que deve ser o objetivo de todos os intérpretes da Escritura. A partir disso, numa leitura devocional, por exemplo, a experiência com Deus deve vir da Bíblia para nós, nunca deve ir de nós para a Bíblia. Do contrário, se imprimirmos na Bíblia o significado que queremos, estaremos tendo nada mais que uma expriência com nós mesmos.

Em segundo lugar, porque as palavras só têm significado se forem compreendidas em sintonia com o seu contexto, precisamos conhecer os contextos imediato e remoto do que está sendo lido. Imagine que você está lendo uma passagem bíblica. Você deseja compreender o que ela está ensinando? Para isso precisa interpretá-la. Algumas perguntas que devem ser respondidas são:

a) o que o restante do capítulo e do livro ensinam (contexto imediato)?

b) O que os demais textos da Bíblia, que tratam do mesmo tema, ensinam (contexto remoto)?

c) Algum escritor bíblico já forneceu a interpretação e aplicação corretas para este texto (situação que vemos acontecer frequentemente no Novo Testamento em relação à passagens do Antigo Testamento)?

Em terceiro lugar, porque a Bíblia é um documento histórico, a cultura e os costumes bíblicos, bem como o momento histórico que estava sendo vivido quando aquele livro foi escrito e lido pela primeira vez, se tornam parte vital de nosso entendimento do significado da Escritura. Para se inteirar destas coisas, obviamente você vai precisar pesquisar.


NOTA:

Este artigo foi baseado inteiramente nas lições ensinadas nos primeiros dois capítulos do livro Entendes o que lês? (São Paulo: Vida Nova, 2011), de Gordon Fee e Douglas Stuart. Pequenos trechos do livro fora inseridos em sua forma original e/ou adaptados para convergirem com a proposta do artigo.


Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é estudante autodidata de teologia, e autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como músico, cantor e compositor. Casado com Talita Motta.

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