De covarde a pregador valente

“Aí ele começou a se amaldiçoar e a jurar: “Não conheço esse homem!” Imediatamente, um galo cantou. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus tinha dito: “Antes que o galo cante, você me negará três vezes.” E, saindo dali, chorou amargamente.” (Mateus 26:74,75)

Recentemente, me perguntaram se seria normal um cristão sentir medo do coronavírus. Não poucas pessoas têm me procurado assustados, com medo de serem contaminados e de não resistirem. Há muitos cristãos, nesse momento, sofrendo, tendo crises de ansiedade e de depressão; o medo foi a chave para desencadear todos esses problemas.

Olhando para história da Igreja, percebemos que isso demostra sim, uma deficiência em nossa fé. Por exemplo, Henry Martyn, missionário na Índia e na Pérsia, escreveu em seu diário, em janeiro de 1812:

“Ao que parece, o presente ano será mais perigoso do que qualquer outro que eu tenha visto; mas, se eu viver para completar o Novo Testamento persa, minha vida depois disso será de menor importância. Mas, seja minha a vida ou a morte, que Cristo seja magnificado em mim! Se Ele tem um trabalho para eu fazer, não posso morrer.”

Olhando bem para disposição de Henry – que também foi num período de pestes semelhante ao nosso -, e olhando para nós, percebemos que nossa fé está muito aquém de como deveria estar.

Um outro testemunho que me impactou, foi o de Policarpo de Esmirna, Bispo da Igreja do século II. Quando teve sua fé ameaçada por causa do Evangelho, ele não recuou. Ao contrário disso, a história narra o seguinte:

“Mas Policarpo, com seu rosto muito sério, olhou para a multidão dos pagãos sem lei presentes na arena e fez-lhe um gesto com a mão. Depois, gemendo e olhando para o céu, disse:

— Fora com os ateus!

Mas, o procônsul insistiu, dizendo:

— Faça o juramento, e eu o libertarei. Amaldiçoe a Cristo.

Policarpo, por sua vez, disse:

— Durante oitenta e seis anos O tenho servido, e Ele nunca fez nada contra mim. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou?”

Sim, Policarpo não temeu a morte. Crendo em Cristo, ele preferiu sofrer o martírio. Essas histórias e outras nos deixam humilhados.

Enquanto os nossos irmãos do passado estavam prontos a dar a vida, nós estamos assustados com o risco de sermos contaminados com o coronavírus. Mas, calma, pois, se há relatos que nos humilham, também há relatos através dos quais podemos nos encontrar e obtermos a esperança de que podemos mudar nossa realidade. E é aí que entra em cena o famoso Pedro.

O apóstolo de Cristo teve seu momento de covardia, assim como nós. Ele andou com Cristo, viu os milagres de Jesus, bem como ouviu os alertas sobre os perigos iminentes por causa do Evangelho, e também sobre a vida eterna. Cristo o assegurou que voltaria para buscá-lo – o próprio Deus confiou-lhe a revelação de que as portas do Inferno não prevaleceriam contra a sua Igreja. Sim, Pedro aprendeu sobre os atributos de Deus – escatologia, cristologia, pneumatologia e muitas outras doutrinas cristãs apreendidas diretamente das pregações do Mestre.

É óbvio que, ouvindo e vendo tudo isso, Pedro estava convicto de que jamais negaria a Jesus. Muitos de nós, odiando com razão os achincalhamentos à Noiva do Senhor, em atos extremos, pedimos perseguições para que a Igreja seja purificada através delas. Todavia, olhando para a situação em que se encontra a nossa fé constatamos que não estamos prontos para tal coisa. Jesus alertou a Pedro que a fé dele ainda era frágil, e que se fosse tentado, haveria de negar a fé. Quando, finalmente, Pedro achou a oportunidade de demostrar a firmeza de sua fé, uma pergunta o destronou: “Tu também estavas com Jesus, o Galileu?” Aquele que declarou “de boca cheia” que jamais abandonaria a Cristo, o negou por três vezes. Depois disso, Pedro se retirou humilhado, em prantos. Chorou amargamente!

Eu acredito que é esse o quadro de muitos cristãos. Estão humilhados por notarem o quanto está fraca a sua fé. Na internet, fingem que está tudo bem, mas a realidade é que o pavor anda tomando conta da mente. Como a corça anseia por águas, correm atrás de notícias boas, do tipo “encontramos a vacina”. Sim, muitos de nós estamos destruídos por dentro. Nossa falta de fé está estampada em nossos rostos! Todavia, graças a Deus, que a história de Pedro não termina assim – o desfecho não mostra um covarde em prantos.

Em Atos dos Apóstolos, no capítulo 2, um homem cheio do Espírito chama para si as atenções de indivíduos de diversas nações. Ele se põe de pé e começa a pregar o Evangelho. Denuncia os pecados de todos que ali estavam, inclusive, daquelas autoridades que ordenaram a morte de seu Mestre. Seu sermão resultou em quase três mil almas para Cristo. Sim, este homem valente, cheio do Espírito de Deus, que não temia às autoridades locais e nem o risco iminente de ser morto era Pedro – o mesmo Pedro que havia negado a Cristo! Deus transformou o covarde em valente. A fé de Pedro era fraca, mas o seu Salvador é forte!

Eu tenho esperança de que o que aconteceu com Pedro pode acontecer com aqueles que se viram assustados com a iminência da morte na propagação deste vírus. Sua fé pode ser e, na maioria do tempo, é fraca. Mas, o Salvador Jesus Cristo é forte!


Henrique Vidal, 26 anos, é membro na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, em Salvador – BA, onde é professor e coordenador da Escola Bíblica Dominical.

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