A necessidade de plantação e plantadores de igrejas – parte 1

O alvo da plantação de igrejas nunca deve ser apenas o começar uma igreja, especialmente se pensamos na Igreja como uma reunião religiosa daqueles que confessam a fé cristã. Já temos muito desse tipo de reunião religiosa! A Igreja, eu insisto, é uma congregação de pessoas regeneradas, reunidas em um pacto mútuo para ouvir a exposição regular da Palavra, exercer disciplina, observar as ordenanças do batismo e da Ceia do Senhor, manter um ministério focalizado intencionalmente no Evangelho (incluindo missões) e organizar a Igreja de acordo com a revelação das Escrituras (ou seja, o governo da Igreja não é deixado ao acaso, e sim determinado pelas Escrituras). Penso que tal coisa [mera reunião religiosa] pode restringir muito do que se realiza em nome do plantar igrejas!

Se ampliarmos nossa visão quanto à plantação de Igreja e incluirmos o mundo, ficaremos pasmados com o crescimento populacional e os grupos étnicos e linguísticos que não têm Igrejas locais. Milhões de novas igrejas são necessárias para satisfazer essa necessidade urgente do Evangelho em todo o mundo.

Esse é um assunto mais amplo do que podemos assimilar nesta e na próxima parte deste artigo, ou mesmo nas prioridades das igrejas locais. Portanto, focalizaremos em plantar igrejas em nossa própria comunidade.

Pensar em envolver-se na plantação de igrejas é uma idéia realista para a sua Igreja? Frequentemente, relegamos a tarefa de plantar igrejas à diretoria de missões da denominação; mas, isso significa entregar a responsabilidade da Igreja a uma instituição, e não ao organismo vivo da igreja local. Embora as agências missionárias denominacionais possam facilitar a plantação de igrejas, provendo estudos demográficos, treinamento de líderes e consultas, são as igrejas que plantam novas igrejas. Não podemos ficar satisfeitos por enviarmos algumas ofertas para a denominação, para que eles plantem igrejas. Não, isso é nossa responsabilidade. Talvez não sejamos capazes de estabelecer sozinhos uma Igreja, mas podemos nos unir com outras igrejas parceiras para estabelecermos novas igrejas, centradas no Evangelho.

Hoje, iniciaremos o exame dessa ideia de plantar igrejas tendo em vista o envolvimento de todas as nossas igrejas.

Por que plantar igrejas?

É óbvio que não podemos simplesmente começar uma campanha de plantar igrejas, porque não existem igrejas suficientes. Não somos uma franquia de alimentos ou uma loja de departamentos que tenta estender sua marca de produtos para outras regiões. Somos a Igreja do Senhor Jesus Cristo. Fomos comprados por preço, o sangue de Cristo. Fomos estabelecidos pelo Senhor da Igreja como missionários para proclamar o Evangelho. Fomos colocados de modo estratégico como sal e luz no mundo. Um dia nos reuniremos coletivamente diante do trono de Deus e do Cordeiro e exultaremos para sempre em sua graça.

Então, o que fazemos é bem diferente do mercado de marketing. Quando a Igreja sucumbe às filosofias de marketing, ela substitui a dependência do Evangelho por técnicas centralizadas no homem. Em vez disso, temos de convencer-nos de que plantar igrejas é bíblico; portanto, algo necessário e abençoado pelo Eterno Deus.

Preocupações bíblicas e teológicas

Minha firme convicção, resultante do estudo das Escrituras, é que não podemos ter uma teologia ou uma metodologia correta de evangelismo sem a Igreja. Não estou dizendo que as pessoas só podem ser salvas se fizerem parte de uma estrutura eclesiástica. Contudo, estou dizendo que nosso evangelismo tem de ser feito no relacionamento com a Igreja. Leon Morris escreveu: “A salvação é social. Envolve todo o povo de Deus”. Ele prossegue e explica a continuidade de crentes no Antigo e no Novo Testamento. Mais do que isso, temos continuidade com aqueles que vivem presentemente, de modo que somos salvos em relacionamento com a Igreja!

Plantar igrejas não é um fenômeno novo. Originou-se quando o Evangelho se moveu de Jerusalém para a Judéia, Samaria e as partes mais remotas da terra. O livro de Atos apoia o plantar igrejas! Embora alguns possam sugerir que é imprudente construir uma teologia baseada no livro de Atos, quando pensamos no assunto de plantar igrejas, é ali que encontramos a maioria das evidências dessa obra. Ainda que Atos não tenha sido escrito na forma de epístola, as suas narrativas nos mostram – sem os detalhes – Igrejas sendo plantadas uma após outra, à medida que os crentes evangelizavam o mundo. Eles não sabiam nada sobre expandir a evangelização sem a plantação de igrejas. A comissão que Cristo deu à sua Igreja, descrevendo o mandato missionário, não pode ser cumprida sem a plantação de igrejas (ou seja, se não existe alguma igreja entre os povos evangelizados). Mateus 28:19-20 demanda o fazer discípulos, o batizar e o ensinar continuamente os crentes, a fim de que aprendam fidelidade e obediência ao Senhor da Igreja.

É impossível que o breve relato, apresentado cuidadosamente por Lucas, sobre a plantação de igrejas nas Quatro Regiões não tivesse mais do que um mero interesse histórico e arqueológico. Assim como o restante das Escrituras, o referido trecho foi “escrito para o nosso ensino”. Certamente, o seu propósito era ser algo mais do que uma história emocionante de um homem extraordinário, fazendo coisas extraordinárias, em circunstâncias extraordinárias – uma história da qual, posteriormente, as pessoas não obteriam mais instrução do que a receberiam da história de El Cid ou das façanhas do rei Arthur. Foi escrito realmente com o propósito de prover luz ao caminho daqueles que viriam depois.

Com isso em mente, façamos uma análise rápida do livro de Atos e vejamos as implicações e as evidências de plantação de Igrejas que ali encontramos. Atos 1.8 reitera a Grande Comissão já mencionada. Cristo não designou a Igreja para obter decisões, e sim para fazer discípulos sob o poder do Espírito Santo. Essa obra não pode acontecer sem que congregações assumam o papel de fazer discípulos, instruir constantemente, exigir responsabilidade e praticar a disciplina corretiva dos crentes. Atos 2.37-47 mostra o começo da Igreja em Jerusalém, manifestando todos os elementos que Jesus recomendou na Grande Comissão. Eles fizeram discípulos por meio da pregação clara do Evangelho, ministrada por Pedro e os apóstolos. Batizaram os novos crentes (v. 41) e persistiram no ensino sistemático (v. 42) e na expansão evangelística regular (v. 47). A perseguição surgiu depois da morte de Estêvão, pela qual a Igreja de Jerusalém for dispersa “pelas regiões da Judéia e Samaria” (At 8.1). “Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra”, incluindo Filipe, que pregou o Evangelho em Samaria e estabeleceu a primeira Igreja entre os samaritanos (At 8.4-24).

Embora sempre desejemos mais comentários, os escritores bíblicos nos dão apenas o que necessitamos. Depois da conversação de Saulo, Lucas comentou: “A Igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando o temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número.” (Atos 9:31). Por meio dessa afirmação notável, Lucas condensou em um versículo o primeiro movimento de plantação de igrejas na Igreja Primitiva. A Igreja, vista como o Corpo de Cristo, continuava a crescer corporativamente, enquanto congregações locais eram estabelecidas em Jerusalém, na Judéia, Galiléia e Samaria.

Ao narrar a conversão de Cornélio, Atos 10 nos mostra o começo da Igreja em Cesaréia, uma igreja estabelecida com os novos crentes gentios. Pedro ordenou o batismo daquelas pessoas, que evidenciavam ter nascido de novo (v. 48). Atos 11:19-26 nos conta a história de como o Evangelho chegou a Antioquia. A Igreja de Jerusalém foi informada das notícias sobre esse movimento do Evangelho e lhes enviou Barnabé para liderá-los. Ele, por sua vez, procurou Saulo de Tarso, a fim de auxiliá-lo. Juntos, “por todo um ano, se reuniram naquela Igreja e ensinaram numerosa multidão”, (Atos 11:26). Admirável é o fato de que Lucas não precisou parar o relato e explicar a grande expansão das novas Igrejas. Ele apenas afirmou o óbvio.

Dentre as igrejas gentílicas do século I, a de Antioquia foi a que estabeleceu novas igrejas mais do que qualquer outra. Como Igreja enviadora, eles comissionaram Paulo e Barnabé a levarem o Evangelho à região da Galácia. Vemos que eles plantaram Igrejas em Antioquia da Pisídia (Atos 13:44-49), Derbe, Listra e Icônio (Atos 14:20-21). Não deixaram as Igrejas sem liderança e estrutura. “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido”, (Atos 14:23). Esses primeiros missionários consideraram a estrutura de liderança uma marca essencial das igrejas cristãs.

A carta que os apóstolos e presbíteros de Jerusalém mandaram às novas igrejas, a fim de corrigir o problema semeado pelos judaizantes, foi dirigida “aos irmãos de entre os gentios em Antioquia, Síria e Cilícia”, (Atos 15:23). Isso evidenciou que havia igrejas plantadas nas regiões da Síria e da Cilícia, sendo Antioquia a capital. Paulo e Silas levaram a carta às igrejas estabelecidas na região da Galácia, “para que… observassem as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros de Jerusalém”, (Atos 16:4). O movimento do Evangelho para além da Galácia (a moderna Turquia), chegando à Europa, aconteceu com a visão da chamada de Paulo à Macedônia, para que os ajudasse (16:9). Consequentemente, a primeira igreja da Europa foi estabelecida em Filipos (16:11-40). De Filipos, as igrejas chegaram a Tessalônica e Beréia (17:1-15), Corinto e Éfeso (18:1-11; 19:1-10). Indicações de Igrejas em Trôade (20:7-12), Tiro (21:3-5), Ptolemaida (21:7) e Cesaréia (21:8-14) demonstram que, onde o Evangelho penetrava com poder, igrejas eram implantadas. Quando Paulo chegou em Roma (Atos 28:15-16), encontrou-se com “os irmãos”, uma maneira simples de se referir à igreja já estabelecida na capital.

As epístolas nos dão evidência de igrejas na Galácia, Éfeso, Filipos, Colossos, Laodicéia (Colossenses 4:16), Tessalônica e Creta (Tito 1:5), bem como das congregações dispersas às quais Tiago e Pedro escreveram, inclusive aquelas localizadas no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1 Pedro 1:1). Em Apocalipse 1:11, João identificou sete igrejas específicas na Ásia Menor, incluindo Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Filadélfia. Nosso Senhor se dirigiu às sete igrejas para abordar questões específicas de doutrina, disciplina, perseguição, pureza e assuntos pertinentes a cada uma delas, que haviam sido estabelecidas por Paulo ou qualquer outro dos evangelistas da igreja primitiva (Apocalipse 2-3). Aonde quer que os discípulos fossem dispersos com o Evangelho, eles procuravam estabelecer novas Igrejas.

Essa análise da plantação de igrejas no livro de Atos, com evidências adicionais das epístolas, indica o padrão da expansão do Evangelho para cada época. Felizmente, visto que muitas igrejas têm sido plantadas ao redor do mundo, unindo novos crentes em igrejas estabelecidas. A propagação do Evangelho acontece a partir de igrejas evangélicas já existentes. Onde não há congregações, podemos insistir que ali não há evangelismo bíblico apropriado, até que Igrejas sejam plantadas tendo em vista o crescimento permanente, a nutrição e o ministério dos novos crentes. Abolir a plantação de igrejas, enquanto nos envolvemos em obras evangelísticas em áreas que carecem de igrejas centradas no Evangelho, significa não compreender o ensino concernente à evangelização bíblica. Os novos crentes precisam ser integrados em rebanhos locais, e, onde não houver um rebanho, o plantador-evangelista sábio estabelecerá novas igrejas. Sua obra não é completa até que uma igreja ali exista, para nutrir e envolver os novos crentes no ministério do Evangelho.

Muitos têm vagueado pelo mundo, pregando a Palavra, não lançando nenhum alicerce firme, não estabelecendo nada permanente, não deixando após si uma igreja instruída; e têm reivindicado para seus absurdos a autoridade de Paulo… pessoas têm adotado os fragmentos dos métodos de Paulo e tentado incorporá-los aos seus sistemas esquisitos; e o fracasso resultante têm sido usado como argumento contra os métodos do apóstolo.

Por exemplo, pessoas têm batizado convertidos não devidamente instruídos, e esses convertidos, analfabetos de Bíblia, têm abandonado o Evangelho; mas, Paulo não batizava convertidos não instruídos sem usar como base um sistema de responsabilidade mútua que garantisse inicialmente a instrução deles. O resultado disso é que crentes despreparados geram congregações fracas. Paulo plantava igrejas e não as deixava, até que estivessem plenamente equipadas para seguirem sua caminhada sozinhas e assim, plantarem novas igrejas.

Quando observamos a metodologia de Paulo na Evangelização, descobrimos que ela se focalizava na plantação de Igrejas. Plantar igrejas não era um subproduto da evangelização de Paulo; antes, era o seu ponto central.

Se em determinada área não existem igrejas centradas no Evangelho, a plantação de uma igreja tem de ser empreendida, e a obra de reforma precisa ser levada avante, para trazer vida a igrejas letárgicas e teologicamente anêmicas. Em outras palavras, nosso alvo não deve ser apenas ganhar convertidos, e sim fazer discípulos – e isso não pode ocorrer sem a existência de igrejas.

Espero que este artigo tenha abençoado e edificado você. Nos vemos nos próximos dias, quando será publicada a segunda parte.


Rev. Magno Vinícius Paterline é pastor na Primeira Igreja Presbiteriana de Barretos/SP. Professor de Sociologia e Atualidades no Colégio Liceu, em Barretos, casado com Fabiana Feliciano e pai de Manassés e Rebeca.

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