Unidade eclesiológica na diversidade teológica?

Quando olhamos para esse mundo, vemos que há unidade na diversidade. Na filosofia, o uno e o múltiplo se espalham pelas avenidas da ontologia, epistemologia e ética. Na biologia, múltiplos seres têm características comuns no âmbito fisiológico e anatômico. Na política, matemática, química e teologia vemos o conceito de unidade na diversidade.

Contudo, olhando especificamente para a Igreja, tendo o entendimento sobre as várias linhas teológicas existentes, surge-nos o questionamento sobre a unidade eclesiológica na diversidade teológica. Ou seja, é possível haver unidade nas denominações em meio às múltiplas teologias?

Buscando encontrar uma resposta, navegaremos pela história eclesiástica, tentando entender o que significa o atributo “Una”, do Credo Niceno-Constantinopolitano, elaborado em 381 d.C. Caminharemos através de um estudo exegético do caso dos judaizantes na Galácia. Por fim, indicaremos uma postura cristã para lidar com a diversidade de pensamentos teológicos.

  1. O que significa a Igreja ser “Una”?

Não há como negar, a igreja de Cristo tem unidade e diversidade. Em Efésios 4:4-6, vemos que há um só corpo, representando o Corpo de Cristo. Nesse corpo, há diversidade de povos, de pessoas, de classes e dons. Logo, a Igreja revela em si a multiforme graça de Deus, sendo uma organização que tem unidade na diversidade.

Mas, o atributo “Una”, do Credo, diz respeito a que aspecto da Igreja? Organizacional ou doutrinário? O atributo “Una” está representando uma unidade no aspecto doutrinário. Nós somos chamados a ter uma unidade de mente e do conhecimento do Senhor (1 Coríntios 1.10). Gordon Clark defende que a unidade doutrinária é a prioridade maior no pensamento paulino. Ele diz: “sem unidade doutrinária, a unidade organizacional não é unidade”.

A pergunta que surge é: quais doutrinas são essenciais para essa unidade? Acredito que sejam as doutrinas fundamentais da fé em seus aspectos mais claros. Por exemplo, é necessário crer que existe um único Deus que subsiste em três pessoas. Agora, entender a economia da Trindade é algo simples e claro. Crer que Cristo vai retornar para consumar sua obra é fundamental para a unidade doutrinária. Todavia, quais as características desse milênio governamental de Cristo, se ele é de sofrimento ou crescimento, por
exemplo, já não é algo simples e claro nas Escrituras.

Logo, pode haver uma unidade sim entre as denominações, desde que haja uma unidade no núcleo básico da fé, ou seja, uma unidade nas doutrinas essenciais da fé.

  1. Qual o problema de se ter “outro evangelho”?

O Evangelho é algo central no cristianismo. Ele traz em seu cerne a mensagem da salvação. Isso é visto desde Gênesis 3:16, quando Deus fez a maravilhosa promessa do Messias, que pisaria na cabeça da serpente. Depois,vemos essa promessa tomando forma, corpo e ficando cada vez mais colorida na medida em que a revelação vai progredindo. Até que chega o tempo em que Deus se torna homem para cumprir Sua promessa de salvação ao Seu povo.

Deste modo, interpretar e comunicar o Evangelho conforme as Escrituras nos orientam é essencial para a unidade eclesiológica. A mensagem petrina e paulina estavam fundamentadas na obra de Cristo, em Sua morte e ressurreição. Por isso, Paulo diz que sempre pregou a Cristo crucificado (1 Coríntios 1:23).

A interpretação e comunicação do Evangelho eram tão importantes para Paulo, que o levaram a se envolver em um embate na Galácia. Nessa carta, Paulo foge do seu padrão de dar graças e orar pelos destinatários, passando a criticar fortemente a postura dos gálatas em relação ao Evangelho. A primeira evidência dessa crítica é que os gálatas estavam pervertendo o Evangelho que tinha sido pregado por Paulo. Ele usa o verbo “metatiqesqe” para indicar a proximidade e a natureza da perversão deles diante do Evangelho. Esse verbo significa “transferir, mudar opinião, perverter a mentalidade”. Por isso, a nossa tradução traduziu como “estejais passando tão depressa”, ou seja, era como se Paulo dissesse: “vocês estão mudando rapidamente de opinião quanto ao
Evangelho que preguei”.

A segunda evidência é que o evangelho dos judaizantes da Galácia era de outra natureza em relação ao que fora pregado por Paulo. Ele usa dois adjetivos que têm a mesma tradução para mostrar a diferença de conteúdo. O primeiro adjetivo é “eteron”, que significa “outro, que tem uma natureza diferente”. É desse adjetivo que vem a palavra heterogêneo. Calvino, ao comentar esse versículo, diz que os gálatas estavam inventando um Cristo imaginário, ao invés de abraçar o Cristo verdadeiro.

O segundo adjetivo é “allos” que significa “outro, da mesma natureza”. Esse adjetivo é usado por Jesus quando Ele diz que enviaria outro consolador da mesma natureza que a dele, que seria o Espírito Santo (João 14:16).

Assim, no texto, temos:

“[…] estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro (de natureza diferente, falso) evangelho, o qual não é outro (da mesma natureza, verdadeiro), senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo”.(Gálatas 1:6-7)

Paulo mostra através desses adjetivos que os gálatas estavam abraçando um evangelho de natureza diferente daquele que ele tinha pregado. Um evangelho falso em contraste com o verdadeiro que tinha sido anunciado por ele. Sendo assim, os judaizantes da Galácia estavam interpretando de forma errada e mudando a natureza do Evangelho de Cristo.

A terceira evidência é a condenação enfática de Paulo acerca dos que interpretam e pregam um evangelho diferente. Ele usa um caso hipotético e hiperbólico ao mesmo tempo para mostrar a importância de uma interpretação e comunicação corretas do Evangelho. Pois, ele menciona que mesmo se um anjo pregar outro evangelho, ele deverá ser considerado anátema. A palavra “avnaqema” significa “alguém amaldiçoado”, excluído pelo conselho da sinagoga e que não receberia mais as bênçãos de Deus e o cuidado do povo. Deste modo, Paulo entendia que quem mudasse ou alterasse a interpretação do Evangelho era digno de receber essa dura punição.

Dessa forma, pode haver unidade entre os diversos pensamentos teológicos, desde que haja um esforço sincero e contínuo para interpretarmos e comunicarmos o Evangelho conforme as Escrituras.

  1. Ouvidos e coração abertos para a Palavra.

Tiago já nos disse para sermos bons ouvintes e termos um coração aberto para praticar as Escrituras (Tiago 1:19-23). Ouvir as Escrituras é um aspecto da inclinação do coração que mostra o nosso desejo de aprender e praticar suas verdades.

Seguindo Tiago, Paulo vai nos dizer que a postura de nobreza cristã diante dos múltiplos pensamentos teológicos é ter os ouvidos e o coração escancarados para ouvir a Palavra de Deus. Esse ensino é relatado por Lucas no livro de Atos, quando Paulo chega a Beréia (Atos 17:10-11).

Nesse relato, Paulo diz que os bereanos eram mais nobres que os tessalonicenses, não porque tinham mais riqueza, conhecimento ou eram pessoas renomadas, mas porque desejavam ouvir das Escrituras e, a partir delas, examinavam cuidadosamente todos os ensinos dele.

Qual tem sido nossa postura diante das diferenças teológicas? Somos arrogantes ao ponto de achar que nossa tradição é inerrante? Somos pretenciosos em nem ouvir o que linhas diferentes têm a dizer, porque “sabemos” que não terão nada a acrescentar-nos?

A melhor postura de um teólogo é estar com a consciência cativa às Escrituras. A posição mais nobre de um cristão, independente da sua tradição, é ansiar, desejar, ter prazer e buscar abrir o coração para ouvir as Escrituras e, juntamente com isso, ser um pesquisador, examinador e um paleontólogo da Palavra de Deus. Logo, a unidade entre os diferentes pensamentos teológicos pode existir se tivermos uma postura de ouvintes e examinadores das Escrituras, buscando conhecê-las e submetendo nossa tradição a elas.

Portanto, mesmo diante das diferentes posições teológicas, podemos nos aproximar de uma unidade quando passarmos a ouvir com atenção os diferentes pensamentos, examinando-os diante das Escrituras e submetendo os nossos pensamentos a ela também.

Conclusão

Diante do que foi visto, o presente artigo conclui que a unidade eclesiológica em meio às diferenças teológicas pode existir se:

• Houver um núcleo básico comum de doutrinas fundamentais e essenciais que nos direcionaram nos diálogos.

• O Evangelho for interpretado e anunciado sem a influência de nossos interesses, costumes ou idiossincrasias, mas com o esforço desejoso de entendê-lo conforme as Escrituras.

• Tivermos uma postura humilde e nobre de ouvirmos as posições diferentes, avaliando-as segundo as Escrituras e examinando nossas próprias posições também.


Rev. William Steigenberger de Souza é teólogo, pastor e Matemático. Bacharel em Matemática, pela UEL, em Londrina/PR. Bacharel em Teologia, pelo Seminário Presbiteriano JMC, em São Paulo/SP. Licenciando, pela Faculdade São Luís de Jaboticabal. Pastor da 2ª Igreja Presbiteriana de Jaboticabal/SP. Casado com Ariani
Cristiani Graciani Steigenberger.

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