Dentro dos debates apologéticos a respeito da existência divina, alguns ateus questionam: “Quem criou o Criador?”. Devemos encarar tal pergunta com certo grau de credibilidade, isto é, apesar de ela não possuir uma base lógica coerente, é um pensamento bem natural e deve ser respondido. O assunto é importante porque é um dos temas centrais do pueril livro do biólogo Richard Dawkins – “Deus, um delírio”. Na linha cristã de combate, muitos crentes propõem algumas respostas à indagação nem sempre satisfatórias, principalmente porque a maioria é impactada pela pergunta. É impossível responder uma pergunta que também estamos nos perguntando, não é mesmo? E nesta tarefa precisaremos passar por alguns tópicos importantes.
Antes de tudo, pode parecer uma resposta conformista, do gênero “é assim porque Deus quis assim”, mas realmente não faz sentido perguntar a origem de um ser que não possui origem. Já que um ser não possui origem, propor uma origem para ele é uma contradição.
O silogismo inserido dentro da pergunta é o seguinte:
1 – A Causa Primeira existe.
2 – Tudo o que existe precisa de uma causa.
3 – Logo, a Causa Primeira precisa de uma causa.
A primeira premissa é deduzível logicamente, mas a segunda está incorreta, portanto, a conclusão é falsa. Mas, por quê? Pense, se tudo o que existe precisa necessariamente de uma causa, há uma regressão infinita no passado. Basicamente, Deus criaria outro Deus, infinitamente na eternidade, e isso não é possível. O motivo é que infinitos reais não existem e o presente existe.
a. Infinitos reais são impossíveis.
Imagine um hotel que possui quartos infinitos. Este hotel jamais estará lotado, pois isso é impossível. Tente pensar agora no maior número natural concebível. Provavelmente, percebeu que você pode somar mais uma unidade em seu valor infinitamente. Isso significa que os números são infinitos. Porém, não há nada no Universo que possua uma quantidade infinita de unidades, logo, infinitos reais (quantitativos) são impossíveis.
Se os números são infinitos, isso significa que existe a mesma quantidade de números pares e números naturais, visto que não existem conjuntos infinitos maiores que outros. Para provar este axioma matemático podemos ligar os valores dos conjuntos um a um, como no exemplo a seguir: números naturais (1, 2, 3, 4, 5, …), números pares (2, 4, 6, 8, 10, …). Se continuarmos, logo em seguida temos o número 6, ligado ao 12, e quando surgir o 7, ele estará ligado ao 14, e assim ocorrerá infinitamente, provando que ambos os conjuntos são infinitamente iguais. O mesmo ocorre com o “hotel infinito”, exemplo que veio do matemático do século XX, David Hilbert.
Supondo que houvesse um hotel infinito “lotado”, e um hóspede chegasse para realizar o check-in, o dono do hotel poderia solicitar que todos os hóspedes mudassem para o quarto seguinte. Ou seja, o hóspede A que estava no quarto 1, mudaria para o quarto 2, e o hóspede B que estava no quarto 2, mudaria para o quarto 3, e assim sucessivamente. Veja que sempre terá um quarto vago para um novo hóspede, mesmo que cheguem trilhões e trilhões de hóspedes por milésimo de segundo por toda a eternidade – pois os quartos são infinitos.
Pense agora que 1 em cada 100 quartos do “hotel infinito” está sem energia elétrica. Isso significa que 1 em cada 100 hóspedes irão para o quarto com problemas elétricos? Sim, mas ao mesmo tempo, não. Se você passar pelo corredor com todas as infinitas portas abertas, realmente encontrará um quarto com problemas dentre cem. Porém se você começar a criar pares de quartos com eletricidade e sem eletricidade, para cada quarto perfeito encontrará outro com defeito, veja: quartos perfeitos (1, 2, 3, 5, 6, …); quartos defeituosos (4, 104, 204, 304, 404, …). Como os quartos são infinitos, existem quartos defeituosos infinitos e quartos perfeitos infinitos, de maneira que ninguém precisaria ficar em um quarto defeituoso.
Com isso, provamos que infinitos reais não podem existir na realidade.
b. Logo, uma regressão infinita também é impossível.
Se, como provamos, infinitos não podem existir, logicamente, uma regressão infinita de eventos também não. E a maior prova disso é que o presente é real.
Pense: se, no passado, deuses criaram outros deuses em série infinitamente, eles deveriam estar criando outros deuses neste exato momento. Se há uma regressão infinita para o passado, ela precisa necessariamente estar ocorrendo agora, porque é infinita. Uma sucessão infinita não pode acabar, porque por definição, ela não possui fim. Neste sistema ilógico não existe o Deus A, que criou o Deus B, porque na verdade o Deus A também precisa de uma outra causa, que podemos chamar de Deus A1, criado pelo Deus A2, e assim infinitamente para o passado, impedindo então que o presente pudesse existir. A realidade do presente refuta completamente a ideia ateísta.
A própria ciência (divinizada por muitos ateus) os refuta, visto que confrme a 2ª Lei da Termodinâmica, as evidências da expansão do Universo e a radiação do Big Bang, fica provado que houve o Dia 1, onde o tempo e o espaço começaram a existir. Diante disso, cremos que é impossível que o causador do tempo tenha um começo ou o causador do espaço ocupe um lugar, visto que, se Ele causou o tempo e o espaço, Ele não faz parte deles.
c. Conclusão
O argumento cosmológico Kalam funciona assim:
- Tudo o que veio a existir tem uma origem.
- O Universo veio a existir.
- Logo, o Universo tem uma origem.
Esta origem, por definição, precisa ser tudo o que o Universo não é, porque também é impossível que o Universo crie a si mesmo. Imagine, como a matéria daria origem à matéria, sendo que ela não poderia existir antes de sua origem? Deveríamos crer então que a matéria é auto-existente? Mas o que é auto-existente não pode decair, como prova a 2ª Lei da Termodinâmica. Por isso, é lógico que a Causa Primeira precisa estar além das características e elementos do Universo. Precisa ser atemporal (para iniciar o tempo), imaterial (para dar origem à matéria), poderosa (para criar do nada, algo), transcendental (para estar além desta realidade), pessoal e independente (para decidir pela Criação ao invés do nada), entre outras coisas. Ateus geralmente enxergam mal o argumento porque deturpam a segunda premissa. Não estamos dizendo que tudo tem uma origem, mas sim que tudo o que veio a existir precisa de uma origem. Se Deus nunca veio a existir (porque sempre existiu), logo, Deus não tem origem. Por isso, dizemos que Deus é, como ele próprio se chama de “EU SOU”. “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Apocalipse 22:13).“Antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá” (Isaías 43:10b).“Louvado seja o Senhor, o Deus de Israel, de eternidade a eternidade!” (Salmos 41:13a) “Antes de nascerem os montes e de criares a terra e o mundo, de eternidade a eternidade tu és Deus.” (Salmos 90:2) “Disse Deus a Moisés: “Eu Sou o que Sou.” (Êxodo 3:14a)
Por Cristo e por Seu Reino, amém.

Gabriel Lopes é bacharel em Ciência da Computação, pela Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro/RJ. Criador do portal Dragão na Garagem, é um dos diretores teológicos do Instituto Verbum, e estudioso de teologia desde 2010.