“O novo dia começou na cruz, com a maior demonstração de amor de todas as eras. A Igreja Primitiva vivenciou, durante o tempo de tribulação, a madrugada do novo dia, quando Jesus lhes parecia como a Estrela da Manhã. Somos convidados a vivenciar a alvorada desse Dia chamado Hoje, e aguardar pelo momento em que o Sol se posicionará no centro do Céu, dissipando as sombras, e trazendo avaliação e juízo a todas as obras. Quando isso se der, não apenas nossas obras serão julgadas, mas também as motivações que as produziram.”
– Hermes C. Fernandes
Há muito tempo, a escatologia me encantou, produzindo desafios e também consolo, e tudo isso unido à segurança no Senhor que, através desta doutrina, me trouxe muita luz e satisfação n’Ele. À serviço do Reino, pretendo mostrar aos leitores da Revista Fé Cristã a doutrina em sua complexidade, quer seja na área filosófica, quer seja na área especulativa, tanto nas questões ortodoxas, como também nas questões históricas. Sem esquecer a aplicação de tudo isso ao coração do leitor, buscarei trazer maturidade para os que já têm intimidade com a matéria e apontar para aqueles que não são íntimos dela um olhar novo para Cristo, como Aquele que é o Senhor de nossa história e também do Cosmos, onde tudo está submetido a Ele.
O academicismo sistemático, ao longo dos anos, deu uma boa orientação à doutrina, a fim de que ela se tornasse uma matéria de fácil entendimento. No entanto, a escatologia, comparada às outras doutrinas, se mostra ainda engessada, limitada e, para muitos, não merecedora de atenção. Isso, de certa forma, é consequência direta do fato de que as linhas escatológicas mais populares não respondem grande parte das perguntas daqueles que têm o primeiro contato com a doutrina, isto é, não fornecem as respostas que todo cristão necessita. Infelizmente, a “escatologia preguiçosa” se limita a ter voz apenas no que tange à Grande Tribulação e Milênio, o que é uma lástima perto de tudo o que a doutrina tem a nos dizer, como, por exemplo, sobre a revelação do caráter de Deus através de suas ações ao longo da história. O que se percebe é que a maioria dos estudiosos acaba caindo no populismo das escolas milenaristas, enquanto pesquisadores com uma abordagem investigativa, compreendem e aplicam melhor a doutrina, colocando-a nas esferas corretas de aplicação em nossa vida com Deus.
Escatologia
O nome da doutrina (escatologia) é derivado do grego eschatos, que quer dizer “último”. A partir do termo grego, temos a origem daquela que conhecemos como “a doutrina das últimas coisas”, que, não obstante o nome, não se envolve apenas na revelação final de tudo o que envolve o homem e a criação, antes, traz-nos tanto o conhecimento da “escatologia individual”, quanto da “escatologia cósmica”, isto é, a revelação das experiências que se colocam, umas, no futuro do indivíduo e, outras, no futuro da raça humana e de toda a Criação. A primeira, a escatologia individual, ocorrerá a cada indivíduo na hora da morte. A segunda, a escatologia cósmica, ocorrerá a todas as pessoas, simultaneamente, em associação com eventos cósmicos, quando da segunda vinda de Cristo.
A Bíblia, quando se trata de escatologia, não tem interesse em responder curiosidades, ao mesmo tempo em que não mede esforços para consolar e encorajar. A partir de uma visão mais panorâmica da natureza da doutrina, dizemos que ela é “a direção de Deus no exercício da Aliança da fidelidade ativa na ordem criada”. Ensinando desta forma, tornamos mais evidente para o leitor, na doutrina, o trabalho TRINITÁRIO na ênfase CRISTOCÊNTRICA da criação, que é sempre orientada para um futuro governado pelos bons propósitos de Deus para a história, construída para revelar o triunfo de Cristo, vitorioso pelos séculos dos séculos. Por causa dessa ênfase cristocêntrica, o dedo do Deus trino move a história adiante, conferindo direção e propósito ao curso de toda a Criação, se fazendo entender e manifestando Sua soberania tanto em seu decretar como em seu executar. Através da escatologia, Deus coloca diante de nossos olhos os verdadeiros motivos da existência humana, isto é, Ele nos ensina que existimos para que a eternidade seja povoada por pessoas semelhantes ao Seu Unigênito amado.
Deus, como Senhor do tempo e da história, assim como de todo o desenvolvimento dentro dela através de Seu firme, justo e confiável governo, se revelou aos hebreus quando estes vagavam pelo deserto com pouco conhecimento de quem era o Deus de seus pais, Abraão, Isaque e Jacó. Em Gênesis, portanto, Ele se auto-revelou a estes hebreus como sendo o único Deus e Senhor, poderoso em glória e majestade, verdadeiro Criador dos céus e da terra, Aquele que deu origem à existência e à toda criatura e que deu fôlego de vida ao homem. Desta forma, quando tratamos, na escatologia, dos livros bíblicos de Gênesis e Apocalipse, estamos nos referindo aos livros que mostram o início e a consumação de todas as coisas, que são chamados de “a Primeira e Ultima estrela”, isto é, o “Princípio e o Fim” (Alpha e Ômega). Gênesis revela o Deus que começa a história, já o livro de Apocalipse mostra como essa história será concluída.
Para base de nosso estudo escatológico, vejamos alguns dos paralelismos existentes entre os dois livros:
- Gênesis mostra a Antiga Criação, Apocalipse mostra a Nova Criação.
- Gênesis mostra a primeira obra de Satanás, Apocalipse mostrar sua a punição por esta obra.
- Gênesis mostra o casamento do primeiro Adão, Apocalipse mostra o casamento do segundo Adão.
- Gênesis relata sobre dor e lágrimas, Apocalipse diz que Deus enxugará de nossos olhos toda lágrima.
- Em Gênesis, o paraíso é perdido; em Apocalipse, ele é restaurado.
- Em Gênesis, é vedado o caminho da árvore da vida; em Apocalipse o acesso a ela se torna livre.
- Em Gênesis, a morte entra no mundo; em Apocalipse, ela é plenamente derrotada.
- Em Gênesis, o homem escondeu seu rosto de Deus; em Apocalipse, o homem voltará a ver a face de Deus.
Assim como qualquer outra doutrina ortodoxa, se não compreendermos sua verdadeira mensagem, aplicando-a ao coração, nosso desenvolvimento na caminhada cristã será prejudicado, pois, se o espírito da profecia teve a certeza de inspirar homens a escreverem acerca do governo de Cristo ativo na Criação através da história, é porque Ele, como o agente da regeneração, sabia que observar o cumprimento das promessas de Deus no passado produziria em nós fé suficiente para crermos nas promessas que estão além de nosso tempo presente, no futuro.
Atualmente, quando observarmos o que andam fazendo com a doutrina, nosso coração chora devido à forma despreocupada e isenta de temor e dedicação com que muitos se relacionam com ela. Existem muitos extremistas que, de alguma forma, retém as coisas que lhe são convenientes, interpretando textos de forma imatura e despreocupada, ensinado aos leigos e novos na fé uma escatologia onde as trevas e Satanás prevalecem, o que é totalmente contrário ao que a ortodoxia ensina. Isso explica tanto os pequenos equívocos, quanto as heresias absurdas que vemos mundo afora, que dão base à fábulas como os Illuminati, os Reptilianos, as inúmeras e “frustradas” datas de retorno do Messias, às nomeações de Estados Unidos, Espanha, Arábia e África como sendo “os quatro cavaleiros do Apocalipse”, etc. Do mesmo modo, já existe um novo termo que se aplica àqueles que fazem teologia com a Bíblia em uma mão e um jornal do dia na outra: estes já são conhecidos como “escatomaníacos”.
A curiosidade unida com uma leitura despreocupada da doutrina, gerou também os “escato-radicais”, que reduzem toda a fé cristã à escatologia, criando a partir dela, toda o seu manual doutrinário e dogmático. Para estes, o assunto principal não é o fim de todas as coisas, mas o início de uma nova era. Por fim, ao meu ver, o mais nocivo entre todos, a deficiência que mais assola a igreja de Cristo na área escatológica, é a “escatofobia”, que define as pessoas que têm medo, aversão ou grande sentimento de recusa pela doutrina escatológica. A escatofobia é a nomenclatura popular utilizada para se falar das pessoas que, apesar de não terem escutado mais do que dez minutos de um sermão que promove alguma das escolas escatológicas mais populares, colocam um adesivo com o nome da respectiva escola dentro da Bíblia e passam a se auto definir como concordantes dela, de maneira que nunca mais estudarão ou questionarão nada que coopere para a solidificação de conhecimento e da fé, e, pior do que isso, em todas as vezes que ouvirem o nome da doutrina em alguma roda de amigos, apenas dirão: “Eu sou ‘Z-milenista”, correndo de todas as perguntas, sem conseguir explicar seu credo escatológico, e isso, não para evitar vãs discussões, mas por que ignoram de fato o estudo da doutrina. Escatofobia, acima de tudo, é o reflexo da dificuldade que muitos têm de entender textos do Antigo Testamento, e a falta de humildade em reconhecer que o seu tempo dedicado ao estudo das Escrituras não tem sido suficiente para conhecer doutrinas como a escatologia. Enfim, a escatologia sofre também pela escassez de materiais prontos, diferente de outras doutrinas como a Soteriologia, sobre a qual há enorme quantidade de materiais escritos pela tradição cristã ao longo dos séculos.
Quando amamos uma coisa, é de praxe querer conhecê-la mais. Se amamos a Deus, isso necessariamente deve acontecer em nossa relação com a Escritura. O fato é que a doutrina faz parte da Palavra do mesmo Deus, da mesma Escritura. Veja que a vontade de revelar o Seu poder e o Seu insondável conhecimento através do registro de seus decretos cumpridos na história, partiu do coração de Deus, não do homem especulador e fantasioso. Os maiores mestres, eruditos e pensadores que escreveram sobre escatologia afirmavam que a Bíblia em diversos textos referentes a doutrina, não faz questão de nos dar uma explicação mais detalhada, porém, o cristão não pode se comportar como um desorientado ao refletir sobre a doutrina. Oremos, portanto, para que Deus traga luz a nossos corações também sobre isso e, que possamos lembrar que, quer olhemos para o início de tudo, quer olhemos para o seu fim, somos escatologicamente dependentes de Deus.
Antes de tudo existir, Deus é. Quando tudo teve um começo, Deus é. E quando tudo acabar e começar de novo, Ele continuará sendo. Na escatologia, não olhamos apenas para o final de tudo, mas, Aquele que ordena o caos e direciona todos os meios para seus devidos fins, nos diz: “antes que chegue o fim, EU SOU!”.

Leandro Carvalho da Silva, 35 anos, é casado com Sabrina Carvalho. Pai de Samuel, Bernardo e Mathias, serve a Deus como auxiliar na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, distrito Mário Quintana, em Porto Alegre/RS. Iniciou o bacharelado em Teologia, pelo Instituto Reformado Santo Evangelho. Trabalha na área comercial como consultor óptico e pesquisa escatologia há seis anos como autodidata.