Black Lives Matter

O que é Black Lives Matter?

Segundo o site oficial do Black Lives Matter, a missão deste movimento é erradicar a supremacia branca combatendo atos de violência, criando espaço para imaginação e inovação negra [1]. Desse modo, o BLM – Black Lives Matter – busca explicitamente combater vantagens que os brancos têm devido à sua cor, permitindo, por meio da educação, o avanço da comunidade negra.

A missão do movimento diz o que ele é: uma iniciativa para derrubar qualquer possível exploração ou privilégio que alguém tenha por ser branco.

Pressuposições do BLM e seus contrastes com a Escritura

Quais são, então, as pressuposições do movimento?

Em primeiro lugar, o movimento pressupõe uma luta de classes a partir do ponto de vista da cor. Não há um combate contra uma supremacia geral simplesmente, mas contra a supremacia branca. O pecado definido por esta mentalidade nos leva a crer que a maldade contra os negros parte essencialmente da branquitude que, presumivelmente, tomou as possibilidades deles de poderem utilizar sua imaginação e criar inovações. A culpa pelos negros não terem criado inovações ou terem exercido papéis importantes no campo das ideias é, claramente, dos brancos. Por esta razão, quem não é considerado negro deve pagar pelos pecados/crimes dos seus contra a comunidade negra.

Em segundo lugar, pressupõe uma nova revelação. Na Escritura, não existe nenhum tratamento sobre cor de pele como conflito essencial na humanidade. O problema mais próximo evidente é o antagonismo entre cristãos judeus e cristãos gentios. Problemas raciais são desconhecidos da Bíblia em qualquer nível. Se o antagonismo entre judeus e gentios não pode ser interpretado como equivalente ao conflito racial moderno, o que o BLM trata como problema só pode ser uma nova revelação sobre a natureza humana dada por alguma divindade ou, pelo menos, pela capacidade humana de perscrutar coisas nunca antes acessadas com a nossa mente – um tipo de gnosticismo.

Em defesa do BLM, alguém pode argumentar que não havia a noção de “raça” como temos hoje para que os apóstolos pudessem recorrer. Contudo, não parece ser o caso. Tanto Platão [2] quanto Tácito [3] já tratavam de raça antes e durante o período dos apóstolos. A diferença única entre o conceito moderno e o greco-romano é que a mentalidade atual está impregnada de um cientificismo ainda não presente naquele momento. O darwinismo elevou o conceito de raça a um status biológico jamais visto, embora, progressivamente, tal noção tenha sido abandonada. Isso evidencia que as questões raciais sempre foram problema para a mentalidade pagã, mas nunca para a mentalidade cristã.

Tudo isso nos leva de volta ao conflito judaico-gentio. Se é verdade que tal conflito explica em parte a existência de racismo (como alguns argumentam na igreja), então deve-se ver quais são as soluções dadas pelos apóstolos a tal problema; portanto, deve-se presumir que as soluções contra esse tipo de divisão se aplicam, analogamente, ao “racismo” moderno.

O judeu sempre estivera à frente do gentio. Primeiro, porque aos judeus foram confiadas as palavras de Deus (Romanos 3.1,2); segundo, porque mesmo Cristo foi enviado previamente às “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 15.24) e só posteriormente aos gentios. Evidentemente, um judeu tinha muitos motivos para se sentir superior a um gentio. O pecado do Orgulho sempre esteve à disposição deles. Segundo a visão racial atual, Paulo dizer que o judeu era privilegiado deveria vir seguido de uma afirmação clara de perda de poder por parte deste. Não é o caso. O Evangelho esteve ainda antes entre os judeus e depois chegou aos gentios.

Diante desse contexto, nota-se a resistência até mesmo dos apóstolos para lidarem com a conversão dos não judeus, algo que se pode perceber pela dificuldade de Pedro  nos  capítulos  10 e 11 de Atos dos Apóstolos em lidar com a conversão de um gentio. Qual foi a resposta dos apóstolos ao perceberem o problema? “Almas gentias importam”? Não foi.

A resposta dos crentes do primeiro século se aproximava muito mais de um “todas as vidas importam”. Em Romanos 1, Paulo mesmo argumenta que o “evangelho é salvação para todo o que nele crê; primeiro do judeu e, também, do grego” (Romanos 1.16, 17). Mesmo com toda a crise entre crentes judeus e gentios, Paulo não colocou o grego (gentio) antes do judeu. Mesmo que o incêndio estivesse “na casa dos gentios”, os apóstolos não reduziram e nem enfatizaram o Evangelho para estes, pelo contrário, colocaram o Evangelho como uma mensagem universal, pois o pecado é universal (Mateus 28.19; Isaías 49.6; Romanos 3.1, 2, 9-29).

A resposta bíblica ao BLM

E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua [dela] semente. (Gênesis 3.15).

As bases do BLM estão firmadas na noção pagã de “Luta de Classes”; o conflito na mentalidade não cristã está sempre ligado a questões externas (dinheiro, poder, cor, nacionalidade); por outro lado, o Cristianismo expressa que a Luta está essencialmente ligada à natureza caída do homem, e essa luta não está necessariamente ligada ao poder, dinheiro ou coisas externas, mas sim à inimizade entre o ímpio e Deus, que o torna antagônico à qualquer membro da aliança que Deus fez com o seu povo.

A Luta de Classes por cor é vista acontecendo de modo sistêmico e histórico. A exigência do movimento é que os brancos paguem tudo o que roubaram dos negros. É evidente que o BLM clama por justiça social.

Porém, as Escrituras argumentam que ninguém pode ser responsabilizado por pecados de seus pais ou qualquer antepassado (Deuteronômio 24.16; Jeremias 31.29, 30; Ezequiel 18.20). Essa responsabilidade não é só “espiritual”, mas material, de modo que legalmente e juridicamente, qualquer atribuição de culpa a um indivíduo que não praticou um ato é em si mesmo injustiça, mesmo que chamem isso de justiça social (termo que por si só poderia ser tratado extensivamente e se notaria seu total fracasso). O justo não pode pagar pelo pecado do injusto, não em termos legais (Ezequiel 18.20). Exigir o pagamento por pecados do passado é como exigir dos alemães um pagamento para os judeus de hoje por causa dos pecados dos nazistas.

O BLM fracassa em sua proposta de justiça porque ao estabelecer uma justiça que não condiz com a equidade geral das Escrituras, torna ela parcial, pois nenhum julgamento pode ser feito considerando status social do indivíduo (Deuteronômio 1.17; Levítico 19.15), de modo que nem o negro e nem o branco podem ser tratados de modo diferente diante da lei. A parcialização da lei leva ao aumento da criminalidade porque, em prol da garantia de penas maiores para um grupo, sempre se deixará o outro contrário com maior liberdade para suas injustiças.

Ainda que os problemas presentes possam ser resultado de anos de explorações do passado, a resposta bíblica para esses problemas não é a proposta apresentada pelo BLM e pelos justiceiros sociais em geral. A verdade de Deus estabelece que, diante do contexto de escravidão, tendo-se alcançado a liberdade, se torna imperativo que a obediência seja maior ainda (Deuteronômio 24.18). O argumento é simples: se foram escravos, devem mostrar obediência a Deus, pois entendem melhor do que qualquer um o que é servir (Deuteronômio 15.15).

Quando o BLM parcializa a justiça, parcializa a verdade, distorce a realidade e cria desordem e desobediência – pois esse é o resultado da parcialização.

Soluções sociais

O discurso de Paulo no Areópago é interessante: “de um só homem, Deus fez todos os povos” (Atos 17.26). Diante disso, embora se possa falar em “vários povos” não se pode falar em “várias raças” dentro da humanidade. A noção de raças sempre será pagã, jamais cristã.

As questões sociais não são estabelecidas a partir da relação do crente com a igreja, mas sim da relação estabelecida por Deus ao formar suas criaturas. Por que entender isso é tão importante? Porque os problemas sociais nascem do coração mau humano e da incompreensão das relações estabelecidas por Deus.

Essas coisas podem ser ilustradas de outro modo. Embora  em  relação  a  Cristo  não  exista  “homem ou mulher” (Gálatas 3.28), é argumentado que na igreja a mulher não deve exercer papel de homem (1 Timóteo 2.12). Ora, o mesmo apóstolo escreveu as duas coisas – ou ele errou (o que presume que temos uma nova revelação) ou as duas coisas são verdade em sentidos diferentes. O contexto de ambas as passagens esclarece: em relação ao modo como fomos criados, permanecemos diferentes (por isso, existe homem e mulher, mas não duas raças, porque Deus fez uma só), mas diante de Cristo essas distinções não fazem diferença, isto é, no plano salvífico. No caso de um branco e um negro, tal questão vai além, pois se nem na criação Deus criou raças, muito menos na igreja, em relação a Cristo.

A pregação do Evangelho para judeu e grego resolveu as tensões iniciais entre estes ramos; e é a pregação do Evangelho que pode vencer os conflitos que podem eventualmente surgir na igreja por questões supostamente raciais. O Evangelho aponta para um Cristo que é o mesmo tanto entre gregos quanto entre judeus, que salva tanto a circuncisos quanto incircuncisos; é de se esperar, portanto, que este mesmo Cristo unifique, sob seu bastão de ferro (Salmos 2) pessoas de mais variadas cores e nacionalidades.

A solução social pode não parecer realmente solução, de tão simples que é: qualquer tentativa de distinguir entre as duas cores em prol de uma, não resolve; portanto, o tratamento de ambos deve ser igual perante a lei, e não simplesmente “igual em toda e qualquer circunstância”.

O fim do BLM

O BLM se vale de uma tendência do coração pecaminoso anterior à qualquer ideologia política moderna, e também antes de toda formulação filosófica pós-iluminista. Toda movimentação política se vale de uma distorção linguística, mas jamais tal distorção começou na política. Toda maldade provém do coração (Mateus 15.19), e é do coração do indivíduo que, encontrando eco na comunidade humana, flui toda a corrupção.

Este aspecto é verdadeiramente pré-teórico, e está atrelado à natureza humana antes mesmo que ele tenha consciência da maldade em si mesmo. E como toda maldade precisa de uma defesa, pois só assim se perpetua e garante seu funcionamento, é necessário renomear todas as coisas, inversamente ao que Deus fez na criação do mundo. A maldade do coração humano o leva a chamar ao “bem mal e ao mal bem, às trevas luz e à luz trevas” (Isaías 5.20).

Não é sem motivo que o BLM parece fazer sucesso entre todas as pessoas que não entendem bem o que foi dito anteriormente. Renomear as coisas faz elas parecerem justas, pois edita a realidade, e faz ela parecer algo que não é.

Por amor às trevas o homem estabelece revoluções e chama elas de iluminação ou iluminismo. Ele, por odiar a Deus, busca suplantar sua ajuda, misericórdia e poder com o que estiver diante de si – se o dinheiro ou o Estado, não é o que importa, pois com frequência ambos são utilizados conjuntamente com o mesmo fim. O BLM tem atrás de si organizações com grande poder econômico e, como toda mentalidade humana, está atrás do poder estatal para garantir sua força.

Cristo, porém, espera que mais essa junção de povos contra ele pereça. O resultado final do ódio à Verdade de Deus é duplo nesse caso. Primeiro, porque o ódio à sabedoria leva à morte (Provérbios 8.36), e não sem motivo, o BLM busca o fim de estruturas que têm garantido a vida mesmo dos que o movimento diz proteger; o resultado natural desse ódio pela verdade de que não se deve lutar por nenhuma raça, é justamente o aumento de sofrimento para àqueles mesmos que estão na mira dos que buscam, supostamente, ajudar.

Segundo, como diz claramente o Salmo 2, os povos se unem contra o Senhor, mas perecem porque o Senhor se levanta contra eles. A maldade, fincada no indivíduo, aceita e sistematizada pela sociedade, que alcança os poderes maiores do Estado, é vencida por Cristo e seu Governo. Os poderes políticos deste mundo se dobram diante da vara de ferro (Salmos 2.9) que o Filho de Deus tem para, reinando, governar sobre todos os povos.

É verdade que o BLM pode existir por anos e, eventualmente, parecer se tornar um poder político invencível. Mas, também é verdade que dado o seu ódio natural à verdade da raça humana única e a Deus, ruirá sobre seus próprios fundamentos, que em si não têm sustentação revelacional.

O fim do movimento é ceder ao governo de Cristo.


NOTAS

[1] BLACK LIVES MATTER. ABOUT. Disponível em: https://blacklivesmatter.com/about/tradução livre. Acesso em: 08 out. 2020.

[2] PLATÃO. As Leis: Incluíndo Epinomis: Volume 1. 2. ed. São Paulo: Edipro, 2010.

[3] TÁCITO, Públio Cornélio. Germânia. São Paulo: EbookLibris, 2006. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/germania.html. Acesso em: 08 out. 2020.

Wallas Pinheiro, cursando Licenciatura em Filosofia, é Designer e Tradutor da Editora Caridade Puritana, membro da 2ª Igreja Presbiteriana de Linhares, casado com Samira Pinheiro

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