Pela graça de Deus, o brasileiro médio tem despertado para o debate e para a participação política, após anos de predominante letargia. Esta realidade inclui, claro, os cristãos. Contudo, ainda são notórios o incipiente conhecimento e a pouca maturidade para um envolvimento saudável com esse universo. No caso dos cristãos, tudo se torna particularmente mais delicado, uma vez que o alto padrão moral que nos exige Cristo é frequentemente negligenciado em favor das idolatrias políticas ou mesmo da egolatria. O fato é que poucos de nós têm verdadeiramente buscado honrar a Deus com nossa participação na política ou no debate sobre ela.
Este não é um texto de um “isentão”. Pelo contrário, este que vos fala se considera decididamente posicionado no tocante ao espectro político e acredita que a neutralidade genuína é impossível. No entanto, não me proponho, no momento, a argumentar em favor desta ou daquela visão ideológica. Não enquanto algo que deveria ser basilar a nós, seguidores de Cristo, não for devidamente refletido e assimilado. Dito isto, vamos ao objeto de nossa introspecção.
O comportamento de muitos irmãos, sejam eles de qual denominação ou tradição teológica forem, é, no geral, preocupante. A pouca consciência acerca dos postulados ideológicos e das intenções por trás das inúmeras correntes de poder inseridas no meio político são uma pedra de tropeço para a maioria de nós. O desconhecimento prevalente nos leva a pensar mal, votar mal, manifestar mal – seja favorável ou contrariamente a algo –, e a debater mal sobre o tema. E o pior de tudo: de modo não cristão. Nem todo mundo é envolvido na vida pública a ponto de saber como agir politicamente em todas as frentes possíveis, mas todo mundo parece gostar de opinar, debater, se expressar. A ilusão de que precisamos sempre dizer o que pensamos sobre tudo – e que alguém tem de necessariamente nos ouvir e concordar –, parece inerente aos millenials, geração da qual faço parte. A beleza residente na humildade de admitirmos que não entendemos sobre tudo parece não mais existir. Atenhamo-nos, por ora, à maneira como discutimos política.
Tornou-se normal usarmos as mídias sociais para expressar nossos posicionamentos políticos, embora eles geralmente não passem de impressões e palpites. O poder de convencimento em debates políticos na internet é praticamente nulo; paradoxalmente, discussões sobre o assunto são até mais recorrentes no ambiente virtual do que presencialmente, uma vez que ali nos parece ser mais fácil ganhar atenção e um ambiente mais confortável do que deblaterar face a face com um militante contrário. Neste ponto, o cristão já corre o risco de estar deixando de lado vários preceitos bíblicos que o deveriam nortear.
A Confissão de Fé de Westminster, documento adotado pelas igrejas presbiterianas e amplamente aceito pelas igrejas reformadas como legítima exposição das doutrinas bíblicas, ao tratar do magistrado civil, versa:
“É dever do povo orar pelos magistrados, honrar a pessoa deles, pagar-lhes tributos e outros impostos, obedecer às suas ordens legais e sujeitar-se à sua autoridade, e tudo isso por dever de consciência. Incredulidade ou indiferença de religião não invalida a justa e legal autoridade do magistrado, nem isenta o povo da obediência que lhe deve obediência essa qual não estão isentos os eclesiásticos.” (Confissão de Fé de Westminster, capítulo XXIII, seção IV).
Tomando como base uma das referências bíblicas que sustentam o referido trecho, podemos pontuar que somos ensinados que “Antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; Pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade; Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador,” (1 Timóteo 2:1-3).
Adiantamo-nos, nos comportando como cínicos e escarnecedores, ao criticar, muitas vezes injustamente, por não reunir as informações necessárias para uma avaliação correta, as autoridades civis (o que, por si, já seria desonrá-las); mas, será que estamos, antes de tudo, orando e intercedendo pelos magistrados instituídos por Deus (Daniel 2:21; 4:17; Romanos 13:1)? Neste ponto, é provável que nos questionemos se não seria justificável ignorar tais orientações quando os governantes não se mostram tementes a Deus, ou, dizendo o serem, demonstram o contrário com suas ações (cf. Mateus 15:8; Isaías 29:13). Pois bem, quando Paulo escreveu a primeira epístola a Timóteo, os governantes em seu contexto histórico-geográfico eram majoritariamente inimigos da Igreja. Isto deveria reforçar a necessidade de orarmos pelas autoridades civis, mesmo quando discordamos de sua fé, preceitos ideológicos ou medidas práticas, algo que encontra respaldo adicional em passagens como 1 Pedro 2:13-20.
O Catecismo Maior de Westminster, da pergunta 123 à 133, trata do quinto mandamento (Êxodo 20:12), e, ali, conceitua “pai e mãe”, à luz das Escrituras, como todo tipo de autoridade, “quer na família, quer na igreja, quer no Estado” (resposta à pergunta 124). A resposta à pergunta 128, que trata dos pecados dos inferiores contra seus superiores, inclui também “a maldição, a zombaria, e todo comportamento rebelde e escandaloso, que vem a ser uma vergonha e desonra para eles e seu governo.”
Outros aspectos reprováveis das corriqueiras manifestações de opiniões políticas – especialmente preocupantes quando se trata de cristãos –, são certeiramente apontados pelo ensino de Provérbios 6:16-19: “Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.”
Os “olhos altivos” podem muito bem ser expressos na arrogância de nos considerarmos aptos a formar opiniões, mesmo quando não reunimos as ferramentas teóricas ou as informações suficientes para tal. Frequentemente, este pensamento inflado acerca de nós mesmos vem acompanhado de declarado ou dissimulado desprezo para com pensamentos contrários. O formador de opinião política de redes sociais, por mais que negue ou disfarce, não tem como meta principal ajudar outrem (ou glorificar a Deus, no caso dos cristãos); antes, seu objetivo supremo é simplesmente ter razão. Trata-se de uma egolatria facilmente ignorada e certamente disfarçada. Não entrarei no mérito das “mãos que derramam sangue inocente”, do “coração que maquina pensamentos perversos”, “pés que se apressam a correr para o mal” e “o que semeia contendas entre irmãos”. Embora o Senhor Jesus tenha dito que gestar no coração o desejo de fazer o mal é algo digno de juízo (Mateus 5:20,21), não tenho como afirmar que é isto que ocorre no íntimo dos irmãos ao debaterem política sem que me arrisque a fazer um julgamento temerário e injusto.
A sabedoria proverbial bíblica nos alerta ainda que o Senhor abomina a língua mentirosa (v. 17) e a testemunha falsa que profere mentiras (v. 19). Aliás, advertências contra a mentira estão por toda a Escritura, e sabemos muito bem quem é o pai dela (João 8:44). Partindo do pressuposto otimista de que cristãos genuínos não inventam mentiras perniciosas, que dizer quando nos prestamos a propagá-las de modo irresponsável? Temos alguma desculpa? Estamos isentos da culpa de espalhar informações manipuladas, narrativas enviesadas, assassinatos de reputação, as famosas fake news? As perguntas 143 a 145 do referido Catecismo Maior de Westminster tratam mais especificamente do nono mandamento (Êxodo 20:16) e, certamente, têm muito a nos ensinar, à luz da Bíblia, sobre o quão lamentavelmente falhamos no que concerne ao zelo pela verdade.
Não estou dizendo com estas linhas que devemos simplesmente silenciar e aceitar qualquer tipo de desmando governamental. Tampouco que não devamos pensar ou debater a política. De fato, são abundantes as absurdas pautas políticas e ideológicas que afrontam diretamente ensinos bíblicos. É nosso dever nos opor tenazmente a tudo aquilo que milite contra as verdades morais do Evangelho. João Calvino já dizia, em suas Institutas da Religião Cristã, no capítulo em que trata do governo civil, que “o Senhor […] deve ser o único a ser ouvido, antes de todos e acima de todos os homens; depois dele, estamos sujeitos àqueles […] com autoridade acima de nós, mas exclusivamente nele. Se ordenam algo contra o que ele mandou, não façamos nenhum caso, seja quem for que mande.” Na verdade, o reformador francês está simplesmente fazendo coro a Pedro e aos demais apóstolos quando estes disseram: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).
Se meditarmos bem naquilo que vimos até agora, veremos que zelar pela verdade ao disseminar notícias e opiniões, honrar as autoridades constituídas e resisti-las quando preciso não implica em contradição alguma. Querer o bem ao próximo é um princípio que pode e deve ser praticado através da atuação e manifestação política, mesmo que isto envolva algum tipo de confronto com aqueles imbuídos de poder (Daniel 4:27; Neemias 5:15). Espera-se, inclusive, que as autoridades civis cumpram seu papel como ministros de Deus para punir o mal e promover o bem (Romanos 13), afinal elas foram colocadas onde estão e lá são mantidas pelo próprio Senhor (Romanos 13:1; Provérbios 8:15,16). Deste modo, é natural e legítimo que cobremos que assim atuem. Todavia, é imperativo que não usemos da mentira ou sejamos dominados pela imprudência (1 Pedro 3:9,10; Provérbio 19:11). Que sejamos prontos em ouvir, mas tardios em falar e nos irar (Tiago 1:19). E que, antes de tudo, oremos. Nenhuma obra nossa é digna – incluindo nossa atuação política – se não for confiada ao Senhor (Provérbios 16:3).

Frederico Bragança é professor de Língua Inglesa no Watford Natal e de Teoria e Prática do Estudo Bíblico no Instituto de Educação e Cultura. Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Potiguar e pós-graduando em Docência do Ensino Superior e Teologia na Universidade Cândido Mendes. Serve na Igreja como professor da Escola Bíblica da Congregação Presbiteriana do Alto da Candelária, em Natal (RN). Casado.