“Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus
começou a fazer e a ensinar.” (Atos 1:1) [1]
O livro de Atos é a segunda parte do tratado de Lucas para Teófilo. É o segundo volume que faz do Evangelho de Lucas e do livro dos Atos dos apóstolos uma única obra. O trabalho de Lucas é fruto de pesquisa, o que requereu do escritor empenho e dedicação para captar e organizar as informações disponíveis sobre Jesus. Os feitos e ensinos de Cristo foram averiguados com meticulosidade, testemunhas oculares foram ouvidas, informações examinadas e, depois das devidas certificações, o produtor dos dois livros ordenou os dados na compilação de sua obra (Lucas 1:1-3). Sua intenção é clara: deseja que seu leitor tenha “plena certeza das verdades em que fostes instruído” (Lucas 1:4), e tal certeza só poderá ser obtida conhecendo “todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar” (Atos 1:1).
Fantástico! Em Jesus, fé e prática se harmonizam, doutrina e conduta se encontram, teoria e prática estão amalgamadas. A operosidade não atropela a reflexão e o pensar não amortiza a funcionalidade. Em Jesus, pensamento e ação são vividos e praticados com profundidade e intensidade. Deste modo, não são autoexcludentes, não estão em tensão e não precisam ser cronológicos – primeiro um, depois o outro – antes, são sincrônicos: Jesus quando ensina faz e, quando faz, está sempre ensinando. Se há algo no ensino de Jesus que não está nítido, sua prática clarificará isso. Se a ação de Jesus parecer obscura, seu ensino explicará tal comportamento. Sim, a ortodoxia (a doutrina correta) e a ortopraxia (a conduta correta) estão entretecidas em Jesus de Nazaré. É nele que elas se complementam, estão de mãos dadas e, mais do que isso, dançam exibindo vida e poder.
O assombroso é que para o evangelista tudo o que Jesus fez e ensinou “até o dia em que foi elevado às alturas” (Atos 1:2), é apenas o começo de algo que continua e que está acontecendo. Smith (p. 30, 1984) afirma que Lucas quer dizer que o ministério terreno de Jesus nada mais é do que “o início de uma ação que não tem fim […] os eventos subsequentes, desencadeados pelo Espírito Santo são, na realidade, a continuação da obra de Jesus” [2]. David J. Williams (p. 32, 1996) afirma de maneira contundente que:
“A tese de Lucas é a seguinte: Jesus continua ativo. O que Ele mudou foi seu método de trabalho. Agora, Ele não está mais na carne; Ele prossegue a “fazer, mas também a ensinar” mediante seu “corpo”, a Igreja. Esta é a história de Atos.” [3]
Quando cristãos param para indagar sobre o que vem primeiro ou que é mais importante: “fazer ou ensinar?”, revelam que, individual ou coletivamente, tem abandonado o fluxo natural da sua vocação como corpo de Cristo. Jesus Cristo continua fazendo e ensinando por meio da Igreja cheia do Espírito Santo. É, portanto, anômala à luz da natureza do que seja ser Igreja de Jesus a ideia do intelectual que vive sem engajamento com uma comunidade local, ou mesmo do indivíduo que é uma patrola missionária, todavia acéfalo, incapaz de refletir com um pouco mais de consistência, inapto de discernimento.
Este desafio é enfrentado por todas as tradições cristãs, sem exceção. Dos orientais aos ocidentais, dos históricos aos pentecostais, todos vivem o drama de ajustar crenças e tradições com uma vida piedosa: vida na verdade e verdade na vida; luz na mente e fogo no coração. A história do cristianismo atesta este recorrente movimento em que o próprio Deus age em Sua Igreja para livrá-la do ativismo irracional, bem como de uma racionalidade árida e morta.
Qualquer destes extremos é desastroso e não pode ser encarado com naturalidade ou brandura. Dissociar fé e prática (fazer e ensinar) sempre será disfuncional e o saldo sempre será negativo. Talvez uma das razões desta distorção seja o caminho percorrido pela doutrina/teologia, como diz Pelikan (p. 28-29, 2014), da Igreja para o monastério, do monastério para a universidade [4]. Estou convencido de que este caminho que a doutrina percorreu é apenas um efeito colateral do nosso estado de queda. O pecado nos impõe a triste realidade da fragmentação do ser, da dicotomia entre mente e coração. Doutrina sem prática é hipocrisia, prática sem doutrina é ativismo fanatizado. A redenção em Cristo é o único caminho de mudança deste estado miserável. O glorioso salvador é aquele que, em perfeição, faz e ensina, redimindo pecadores, transformando-os em seu povo para também fazerem e ensinarem.
A missão de Cristo no mundo é levada a efeito na Igreja e por meio da Igreja. A pregação e o ensino cristão não podem cair no alçapão da abstração desconectada da realidade. Qualquer ensino que encante, aguce a curiosidade, suscite polêmica, contudo, não faça cair prostrado diante do Rei Jesus conduzindo a adorá-lo por sua santidade e glória, deve ser considerado secundário e não precisa investimento de atenção, energia e divulgação. Para Martinho Lutero, os Dez Mandamentos, o Credo Apostólico e o Pai-Nosso são o conteúdo mais consistente e resumido necessário para qualquer cristão e podem servir como norteadores atualmente:
“Na verdade, nessas três partes está contido, básica e sobejamente, tudo o que consta na Escritura e o que pode ser pregado, bem como tudo o que o cristão necessita saber. E o que ele precisa para a salvação está redigido com tal brevidade e facilidade que ninguém pode se queixar nem se desculpar de que é demais ou muito difícil para guardar.” [5]
A ação da Igreja, por sua vez, não deve acontecer motivada por emoções e circunstancialidades, as quais refletem mais a sua cultura do que o reflexo da verdade revelada. Os métodos evangelísticos e litúrgicos e a ação social, que tem a intenção de limpar a barra dos cristãos e gerar simpatias com o mundo atual, porém não se preocupa em buscar razões bíblicas para a sua práxis, precisam ser refeitos. John Stott propõe o caminho mais sensato quando diz que:
“Alguns cristãos, ansiosos, sobretudo por serem fiéis à revelação de Deus sem concessões, ignoram os desafios do mundo moderno e vivem no passado. Outros, ansiosos por reagir ao mundo ao seu redor, podam e torcem a revelação de Deus em sua busca por relevância. Tenho lutado para evitar ambas as armadilhas. Pois o cristão tem uma condição livre, que lhe permite não se render à antiguidade nem à modernidade. Antes, tenho procurado com integridade submeter tudo à revelação de ontem, dentro da realidade de hoje. Não é fácil aliar lealdade ao passado com sensibilidade ao presente. Porém, este é o nosso chamado cristão: viver, sob a palavra, no mundo.” [6]
Uma igreja que se apresenta em nome de Cristo sob o desajuste do fazer e ensinar é um simulacro e uma caricatura. O primeiro, porque está fingindo ser o que não é; o segundo, por realçar traços da Igreja com um único intuito de produzir amenidades para as quais não é destinada: “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (João 15:20). A Igreja não pode enganar-se, está em missão no mundo, está de passagem por aqui.
A espiritualidade e a consciência cristãs carregam essa dinâmica redentiva que harmoniza fazer e ensinar conforme Jesus e é assim que, na Igreja e por meio dela, Cristo continua sua obra no mundo. Portanto, não há escala de valores entre fazer e ensinar no Reino de Deus, tais valores se complementam, justapondo-se dinâmica e harmoniosamente. Sendo assim, que a prática cristã seja fruto da verdade revelada; que a doutrina gere prática, conduta vida e engajamento; que o mundo encontre Deus no agir e proclamar da Igreja cristã; que os “Teófilos de Deus” encontrem a certeza nas verdades em que foram instruídos e que a graça de Cristo os constitua igreja que faz e ensina para a glória de Deus somente.
Em Cristo,

David Sander Soares Pinheiro é evangelista na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, em Porto Alegre/RS. Licenciado em História, é especialista em Metodologia do Ensino da História e Geografia, pós-graduado em Teologia. Casado com Daniela Espinosa Soares, pai de Daniele Espinosa Soares.