Durante essa pandemia global, muitas foram as esquisitices que surgiram no meio cristão. Dentre as várias bizarrices que surgiram, as mais chocantes, sem dúvida, foram as celebrações de Ceia e de Batismo via internet – ou a tentativa de realizar estas. As redes sociais foram transformadas em mediadores necessários para a realização dos sacramentos. Muitos líderes deixaram claro que não conhecem os benefícios e as bênçãos de celebrar a Ceia do Senhor; isto é, a comunhão e ajuntamento dos santos. A certa altura, alguns podem até perguntar o por que de não podermos celebrar a Ceia do Senhor pela internet. E a razão para isto é simples: a própria Palavra de Deus “se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14).
Posso ilustrar melhor: o mesmo corpo que foi partido na crucificação pelo perdão de nossos pecados, antes fora colocado em uma manjedoura, quando do seu nascimento. Essa analogia representa perfeitamente o ajuntamento dos santos. Assim como estiveram os anjos, Maria, José, pastores humildes e viajantes sábios, todos reunidos em torno desse Deus colocado em uma manjedoura, devemos nos juntar para celebrar a Ceia do Senhor: “Ele se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14). O Deus Santo, soberano sobre tudo o que existe, deitado em uma caixa de madeira como uma refeição para ovelhas. Um banquete para os pecadores. Um banquete para mendigos. A imagem é impressionante e reconhecidamente escandalosa.
Quero destacar algo: uma manjedoura é uma cocheira de alimentação de animais. Seu nome vem do termo latino “manducare” que significa “comer”. Sabemos que a cidade onde essa manjedoura estava localizada era Belém, que quer dizer “Casa do Pão”. Também sabemos que Jesus se refere a si mesmo dizendo: “Eu sou o pão da vida”, (João 6:35) e “Eu sou o pão que desceu do céu” (João 6:41). O Pão da Vida desceu do céu à Casa do Pão para ser colocado em uma manjedoura, como uma refeição para ovelhas. O Criador de todas as coisas se humilhou a ponto de ser colocado em uma cocheira onde animais sujos vão comer. Esses animais não vão para preparar uma refeição, a sua própria, mas para receberem o que foi preparado para eles. Eles vão à manjedoura para serem alimentados. Olhe para Belém, para a “Casa do Pão”. Os pobres pastores estão lá. E hostes de anjos estão lá. Todos reunidos em volta da mesa mais humilde onde o Pão da Vida, que desceu do céu, foi colocado.
Algumas pessoas ficaram totalmente escandalizadas quando Jesus disse: “Quem come minha carne e bebe meu sangue viverá para sempre” (João 6:52-58). A questão aqui é que nós, como Igreja, chegamos ao altar do Senhor para recebermos o que foi preparado para nós. Somos ovelhas que vêm comer do que nosso Bom Pastor nos deu. E Ele nos deu a Si mesmo! Somos pecadores esperando a festa da salvação. Somos mendigos famintos esperando o banquete diante de nós. É um mistério que o Verbo se tornou carne. É um mistério que a carne e o sangue de Cristo estão ocultos, com e sob o pão e o vinho da Ceia do Senhor! Que mistério! Que honra! Há tanta discussão sobre como isso acontece, mas tanta ignorância quanto ao fato de que isso de fato acontece! Transubstanciação, consubstanciação? Quem sabe? O fato é que em todas as vezes que você recebe o Sacramento, você tem um encontro físico e pessoal com o Filho de Deus. Você tem perdão nos seus lábios. Salvação na sua língua. Por isso, provamos e vemos “que o Senhor é bom” (Salmo 34: 8).
Se nos ajoelhamos no trilho da comunhão ou recebemos a comunhão através da distribuição coletiva, devemos comer e beber este Sacramento juntos. Quando comungamos com nossos irmãos e irmãs em Cristo, não estamos tolerando seus pecados mais do que eles estão perdoando os nossos, de modo que Jesus nos dá Seu corpo e sangue para remissão dos pecados, não para defendê-los. O perdão que recebemos por meio do corpo e do sangue de Jesus é o mesmo perdão que nossos irmãos e irmãs em Cristo recebem. No altar, Deus se une a nós como um só – compartilhamos o mesmo corpo e sangue, o mesmo perdão dos pecados, a mesma paz com Deus que excede todo entendimento.
A verdade é que tudo sobre a Ceia do Senhor aponta silenciosamente para a maneira extraordinária e humilde com que Ele pretende continuar vindo até nós. De uma maneira muito real, e toda vez que recebemos a Ceia do Senhor, estamos experimentando-O novamente, e aguardando-O até que Ele venha. A Palavra se tornou carne para nós, este pão do céu se doando para nós pecadores repetidamente. Ele é a razão pela qual devemos manter a celebração da Ceia do Senhor como algo coletivo, oferecido a toda a comunidade local de crentes. É impossível, portanto, celebrarmos este Sacramento virtualmente.
Quando recordamos a harmonia da Palavra se tornando carne e sendo colocada em uma manjedoura e o Filho de Deus de carne e sangue sendo colocado sobre o altar, por que pensamos que podemos receber o Sacramento sem nos reunirmos como um só Corpo? Esta é uma refeição preparada para nós. É uma refeição que compartilhamos com nossos irmãos e irmãs na fé. É uma refeição de perdão através d’Aquele que foi colocado em uma manjedoura, para que Ele pudesse ser o Cristo colocado na cruz, para que Ele pudesse ser o Cristo ressuscitado da sepultura, para que Ele pudesse ser o Cristo colocado no altar da comunhão, para que pecadores reunidos pudessem alimentar-se do Pão da Vida.

Frankle Brunno é bacharelando em teologia pela Faterge – Faculdade de Teologia Reformada de Genebra.