Pandemia: a manifestação da feminilidade bíblica

Quando falamos sobre feminilidade de acordo com as Escrituras, é natural e quase automático pensarmos em Provérbios 31. Mas, o papel e a relevância da mulher são mencionados vastamente na Bíblia, desde a criação do mundo, em Gênesis, até a consumação de tudo, em Apocalipse. Devemos concordar que Provérbios 31 nos traz informações mais diretas sobre a mulher segundo o coração de Deus, entretanto, essa mulher também é encontrada em Débora, em Ester, em Rute, e em muitas outras. Existem muitas personagens preciosas nas Escrituras e, talvez, seja mais proveitoso extrairmos um pouco das características de cada uma delas a fim de chegarmos a um modelo ideal para sobrevivermos a essa pandemia, visto que a grande maioria das mulheres está passando 24 horas por dia na companhia de esposo e filhos, em reclusão dentro de casa.

Antes de mais nada, precisamos enfatizar que só existe um que é perfeito, a saber, Deus. Buscar a perfeição não somente é irrealista como também é uma loucura. Não podemos tentar alcançar padrões inexistentes. Contudo, devemos buscar, todos os dias, nos aproximarmos dos padrões bíblicos propostos para todos os crentes em Cristo Jesus. No entanto, isso ainda não é a perfeição. Passaremos por momentos turbulentos ao longo de nossa caminhada. Erraremos. Acertaremos. Perderemos o controle e ganharemos as rédeas da situação em muitas vezes, também. O importante é não tirar os olhos do alvo, é não subestimar a importância da santificação na caminhada cristã, seja você homem ou mulher.

A fé nos justifica, mas por si só não nos santifica. Concordo com J. C. Ryle, quando diz que somos justificados apenas pelo crer e isso é um presente totalmente imerecido, conquistado por Jesus no Calvário. Todavia, a santificação requer esforço e um desejo ardente e infindável de sermos pessoas melhores. Paulo nos deixa bastante claro que a vida cristã é uma batalha: carne contra espírito, o tempo todo. Nosso corpo foi vendido como escravo ao pecado, ao passo que nosso espírito clama pela presença do Criador. Na justificação, a palavra de ordem é: creia e será justificado. Na santificação, a palavra de ordem deve ser: vigie, ore, lute. O autor de Hebreus nos garante que sem santificação ninguém verá o Senhor. Devemos, portanto, buscá-la em todo o tempo, sabendo que a vida cristã aqui na terra não será proveitosa a menos que compreendamos o verdadeiro conceito de santidade.

A verdadeira santidade, diferente da justificação, não consiste apenas em crer, mas em atos que resultam em uma demonstração prática da graça ativa e passiva. Podemos dizer que a forma como falamos, como nos portamos, a nossa conduta como cônjuges, pais, patrões, empregados, governantes e governados, nossa postura na abundância e na escassez, na saúde e na doença, enfim, tudo isso está intimamente ligado à santidade ou à total ausência dela. A santidade denota características de Cristo que podem ser observadas e testadas em nossa vida. E qual seria o momento mais propício para observarmos isso senão durante uma crise global?

Quanto maior a graça recebida, maior a humildade. E quanto maior a comunhão com o Espírito, maior a mansidão e a longanimidade. A verdadeira feminilidade bíblica nos traz um panorama de diversos conceitos, dentro dos quais podemos citar:

  • a mulher sábia que edifica a casa (Provérbios 14:1) e que seguramente não busca sabedoria em si própria, na confiança de que é Deus quem a dá (Tiago 1:5);
  • a mulher que abre a boca com sabedoria (Provérbios 31: 26), compreendendo a importância de ser tardia em irar-se (Tiago 1:19) e de ouvir com atenção antes de responder (Provérbios 18:13);
  • a mulher que compreende o honroso papel da submissão no casamento (Efésios 5:22), porque entende, de todo o coração, que todos somos chamados a sujeitar-nos uns aos outros por temor a Cristo (Efésios 5:21) e que submissão não significa subserviência;
  • a mulher que compreende seu papel em sua casa, de ser o coração do lar e a auxiliadora idônea de seu esposo, não se tornando, portanto, uma criadora de confusão e nem mesmo alguém que busca competir com seu esposo, pois compreende seu papel e o papel do seu esposo e isso lhe traz alegria;
  • a mulher que não deixa “se pôr o sol sobre sua ira” (Efésios 4:26), buscando soluções coerentes e mansas para os problemas conjugais, com amor e por amor a Cristo;
  • a mulher que vive de forma cristocêntrica e tem Jesus como principal convidado em seu casamento, sabendo que Ele opera milagres onde estiver presente (João 2:1-11);
  • a mulher que é fiel ao seu esposo e sente prazer em considerar os outros superiores a ela mesma porque tem a humildade do evangelho e não busca alimentar seu próprio ego ou ambição (Filipenses 2:3);
  • e, por fim, a mulher que se alegra em instruir outras mulheres com amor e de acordo com a Palavra de Deus (Tito 2:3-8).

Perceba que, para chegarmos a esses breves exemplos, não nos utilizamos apenas daquelas passagens bíblicas que são direcionadas especificamente às mulheres. É importante sabermos que a concepção do que é uma mulher biblicamente ideal não pode ser apreendida apenas dos versículos cuja mensagem cita de forma direta as mulheres, mas em toda a Escritura Sagrada.

Não podemos negar que a verdadeira feminilidade bíblica como vimos, provém de uma perfeita comunhão com Deus (Provérbios 31:30). Não é possível para uma mulher manifestar a verdadeira feminilidade bíblica sem antes ter sido justificada por Cristo, regenerada pelo Espírito, ter crido em Deus e buscado santidade. Ou seja, sem que haja justificação, regeneração e santificação, não haverá mulher proverbiana e nem mesmo um homem segundo o coração de Deus.

Vivemos em uma sociedade onde as mulheres são levadas a acreditar que precisam entrar em conflito com os homens em busca de uma igualdade de papéis, mas não é isso o que o verdadeiro cristianismo ensina. O cristianismo nos ensina que, perante Deus, não existe diferença entre homem e mulher – ambos são igualmente importantes e amados pelo Pai, todavia, recebendo papéis distintos no lar, na Igreja e na sociedade. Isso não quer dizer que a mulher tenha sido criada para ser apenas a rainha do lar, mas para desenvolver um papel importante na história, de acordo com os parâmetros de Deus. Basta lermos o Gênesis para entender o que isso quer dizer: “não é bom que o homem fique só”. E, a partir daí, sabemos que a mulher entra em cena com um papel extremamente relevante e fundamental na história. No entanto, enquanto as mulheres buscarem equiparar papéis com os homens de forma competitiva, não haverá possibilidade alguma de vivermos aquilo que Deus nos chamou para viver. Não haverá harmonia no lar. Não haverá harmonia na Igreja. Não haverá harmonia na sociedade. E, infelizmente, é isso que temos vivido.

Portanto, em tempos de pandemia e crise mundial, que possamos refletir acerca desses fatos e que passemos a mergulhar na verdade de Deus, que é a Sua Palavra, para que a vontade de Deus para nós esteja encravada em nosso coração. Sua vontade é a nossa santificação (1 Tessalonicenses 4:3). Jesus não morreu de forma expiatória apenas para nos livrar da culpa do pecado, mas, para nos livrar também do domínio do pecado. Ele fez tudo quanto era necessário para Seu povo e isso inclui nossa santificação, por meio da obra do Espírito Santo. Que possamos, então, nos lembrar todos os dias que todo e qualquer sentimento que nos afasta do querer de Deus para cada uma de nós é fruto do pecado, contra o qual devemos lutar todos os dias – vigiando, orando, nos alimentando do alimento espiritual e buscando o enchimento do Espírito Santo de Deus. Sem que esses importantes passos sejam observados, me atrevo a dizer que se torna impossível alcançar a feminilidade bíblica, para a qual somos chamadas, e que os tempos de crise não somente irão agravar aquilo de ruim que há dentro de nós, mas também hão de dissolver os nossos relacionamentos, como consequência desse agravamento.

Bella Falconi congrega na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, São Paulo – SP. É palestrante, Bacharel e Mestre em Nutrição e Pós-graduanda em Teologia Sistemática.  

Deixe um comentário