O povo de Deus não fica entediado diante da Escritura

Uma das situações mais inusitadas que vivemos no culto público é que alguns crentes sentem-se entediados nele e por causa dele. Sobre a razão por que isso acontece, há muito a ser dito. Alguns colocam a culpa na liturgia como um todo. Outros no tipo de música que é cantado. Mas, é praticamente um consenso que a pregação expositiva da Palavra parece promover o tédio em uma grande parcela de crentes. Eu diria que a falta de habilidade de alguns pastores e pregadores em expor a Escritura versículo por versículo faz com que isso seja uma realidade sórdida no meio cristão. Diferente do que muitos pensam, no entanto, este é um problema que transcende as quatro paredes dos prédios das igrejas, antes, é um problema que nasce diretamente naqueles corações desprovidos de respeito e reverência para com a Palavra de Deus. É um problema que começa naquele lar em que os indivíduos não se relacionam com Deus por meio de Sua Palavra.

Em Neemias, capítulo 8, lemos:

E leu no livro diante da praça, que está diante da porta das águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres, e os que podiam entender; e os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao livro da lei. (Neemias 8:3)

No versículo 1, o povo de Deus pediu a Esdras que trouxesse a Escritura e que a lesse diante de todos que ali estavam – tratamos sobre isso no penúltimo texto publicado neste blog. Agora, no versículo 3, nós vemos que essa sessão de leitura não durou menos do que uma manhã inteira. Esdras permaneceu lendo “desde a alva até ao meio dia”, e durante todo esse tempo, “os ouvidos do povo estavam atentos ao livro da lei”. O povo de Deus não reclamou, não rangeu os dentes, não ficou entediado. Não. Adicione a isso o fato de que o povo de Deus da época não possuía a Escritura como a temos hoje, Antigo e Novo Testamento, com todos os livros inspirados por Deus devidamente compilados em livros graficamente impecáveis. Eles tinham “apenas a lei de Moisés”, que hoje é, certamente, a parte mais ignorada da Bíblia por ser considerada a mais chata. Isso é tudo o que eles tinham e, ainda assim, eles aguentaram a leitura por, no mínimo, seis horas ininterruptas!

Temos muitos relatos de que, em países onde a fé cristã é proibida ou naqueles em que é vedada a distribuição de Bíblias, o que acontece geralmente no oriente ou em países africanos, os cultos tendem a ser bem mais demorados do que os cultos no ocidente. A razão disso é clara: a Palavra de Deus e o dom da fé que dela emana pelo poder do Espírito, é tudo o que os crentes destes lugares realmente possuem, segundo eles mesmos. Esses crentes encontraram tudo em Cristo! Diferentemente de muitos de nós, eles amam a Palavra e ao Deus da Palavra e sabem que, quando um homem se compromete a expor a Escritura, como Esdras o fez, não é um mero livro que está sendo lido, explicado e aplicado, mas é o próprio Deus que está se revelando ao Seu Povo, por meio de Sua revelação, a Escritura.

O genuíno povo de Deus ama a Escritura, e por isso, não fica entediado diante da exposição da Escritura, assim como uma esposa não fica entediada ao ver seu amado marido desnudar seu coração e seus pensamentos à ela. Falta-nos respeito e reverência pela Palavra de Deus. Falta-nos amor pelo Deus da Palavra. Queremos que o Senhor trate de nossos problemas, mas queremos que Ele o faça à nossa maneira. Queremos que o Médico supremo cure nossas enfermidades, mas não o permitimos diagnosticá-las, muito menos receitar o remédio. E isso porque, na prática, o Senhor [e Sua Palavra] não é tudo o que temos nesta vida. Temos coisas que nos interessam mais, e que nos trazem mais alegria, e mais descanso, e mais prazer.

Como diz o Pr. John Piper, em um de seus diversos vídeos espalhados pela internet, nós olhamos para a Escritura como um quadro velho e empoeirado na parede. Todavia, ela não é um quadro, mas uma janela. Uma janela que se abre para a verdadeira vida! Não é um quadro que meramente retrata situações do passado, mas uma abertura na parede que nos permite vislumbrar o que acontece fora de nossos termos, no mundo verdadeiramente real! Deus deseja que o Seu povo encontre a verdadeira vida, e Ele providenciou que isso sempre irá acontecer quando Ele mesmo for encontrado nas linhas e páginas de Sua Palavra. Quando ignoramos a Escritura, quando nos deixamos entediar pela exposição dela, estamos recusando o verdadeiro milagre, aquele diante do qual, todos os demais milagres são como nada.


Marcos Motta, 28 anos, é editor-chefe de Revista Fé Cristã. Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Lajeado – RS, é estudante autodidata de teologia, e autor do livro Não Estamos Derrotados: A Verdadeira Vitória (2017). Na igreja local, coopera como pregador, e também como músico, cantor e compositor. Casado com Talita Motta.

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